Os puros do Ocidente

Começo a ficar um bocado farta dos candidatos a heróis que, volta meia volta, com aparente desapego à vida, exacerbado sentido moral e valentia, decidem mostrar ao mundo as terríveis malfeitorias e os tenebrosos atentados à vida privada cometidos pela administração americana em nome da segurança e da luta contra o terrorismo. O terrorismo, note-se, essa fantasia, esse delírio em nome do qual somos obrigados praticamente a despir-nos em todos os aeroportos do planeta.

Depois de Bradley Manning e Assange, foi agora a vez de Edward Snowden, um informático subcontratado pela Agência Nacional de Segurança norte-americana, divulgar uns documentos secretos e dar de seguida o salto para Hong Kong, na China, e daí sabe-se lá para onde, para “revelar” que os serviços secretos controlam as comunicações de todo e cada americano (e “beyond”) na Internet e redes telefónicas. Como se o Google ou o Facebook ou simplesmente as empresas de telecomunicações não o pudessem fazer ou não o façam e sem qualquer controlo político!

O texto a seguir transcrito, que me parece bastante equilibrado, é um bom contrapeso para a histeria reinante nos media, a qual, pelos vistos, nem sequer tem correspondência com o que pensam os supostamente “devassados” cidadãos americanos. Com efeito, num inquérito realizado há uns dias na América, 62% dos inquiridos consideraram que o combate ao terrorismo tem prioridade sobre a proteção da vida privada. (Washington Post (sem link): “A large majority of Americans say the federal government should focus on investigating possible terrorist threats even if personal privacy is compromised, and most support the blanket tracking of telephone records in an effort to uncover terrorist activity, according to a new Washington Post-Pew Research Center poll.”)

Transcrevo excertos do texto de David Simon, que, apesar de considerar inevitável (e legal) o acesso às comunicações, tem a lucidez suficiente para ver que nem tudo está bem (e por isso merece ser lido na íntegra):

“When the government grabs every single fucking telephone call made from the United States over a period of months and years, it is not a prelude to monitoring anything in particular. Why not? Because that is tens of billions of phone calls and for the love of god, how many agents do you think the FBI has? How many computer-runs do you think the NSA can do — and then specifically analyze and assess each result? When the government asks for something, it is notable to wonder what they are seeking and for what purpose. When they ask for everything, it is not for specific snooping or violations of civil rights, but rather a data base that is being maintained as an investigative tool.

There are reasons to object to governmental overreach in the name of law enforcement and anti-terrorism. And it is certainly problematic that our national security apparatus demands a judicial review of our law enforcement activity behind closed doors […]

[…] But those planes really did hit those buildings. And that bomb did indeed blow up at the finish line of the Boston marathon. And we really are in a continuing, low-intensity, high-risk conflict with a diffuse, committed and ideologically-motivated enemy. And for a moment, just imagine how much bloviating would be wafting across our political spectrum if, in the wake of an incident of domestic terrorism, an American president and his administration had failed to take full advantage of the existing telephonic data to do what is possible to find those needles in the haystacks. After all, we as a people, through our elected representatives, drafted and passed FISA and the Patriot Act and what has been done here, with Verizon and assuredly with other carriers, is possible under that legislation.

20 thoughts on “Os puros do Ocidente”

  1. Como se estas medidas totalitárias (que é disso que se trata) pudessem evitar os actos de terrorismo…És mesmo naíve, Penélope!

  2. Penélope,

    Tenho mais respeito pelos Assanges deste Mundo (que perderam qualquer privacidade e vivem enclausurados numa embaixada) do que por uma blogueira sentada no seu sofá, a cagar postas de pescada sobre a liberdade no Ocidente, como se devessemos estar todos satisfeitos por nos apalparem nos aeroportos e vasculharem as nossas vidas em nome da luta contra o terrorismo. Não és só naíve, és tonta, pois não entendes nada do que se está a passar…

  3. Penelope estás a partir de um pressuposto que a informação recolhida será sempre para combater o terrorismo, quem garante isso? o FBI não precisa ter homens para processar essa informação, já existe programas que fazem isso, basta introduzir palavras chave de procura, e como sabes as palavras chaves são aquelas que quem detém o poder, quiser.

  4. rui mota: Explica aí por que razão nos apalpam nos aeroportos e, se não for muita maçada, o que achas que se está a passar.

    jpferra: A informação recolhida é seguramente para nos tramar!

  5. Penélope,

    Lamento, mas, desta vez discordo, do seu texto. Sob a capa do combate ao terrorismo, há muitas outras coisas escondidas.

    O que J. Edgar Hoover não daria para ter estes meios à sua disposição.

  6. Quando nos enfiarem um chip para melhor controlar “os terroristas” que cada vez mais somos todos nós que não alinhamos nesta maneira de viver capitalista e consumista que nos querem impor, no controlo total dos movimentos e gostos das populações e tudo de mal que se possa fazer a Penélope vai acordar e vai ser tarde demais.

  7. Sempre houve terrorismo e não vai parar por causa do vasculharem as nossas vidas. Não foi o recente atentado de Boston feito com panelas de pressão, por dois caucasianos, naturalizados americanos? Do que é que vale controlar os telefonemas ou os mails dos cidadãos, se os terroristas estão entre nós?
    Todas as semanas são assassinadas crianças (e adultos) nas escolas dos EUA e não é por isso que são proíbidas as armas naquele país. Para mim, desvios de aviões ou mortes de cidadãos indefesos em escolas, são todos actos terroristas. Ou, para ti, o terrorismo só vem do Médio-Oriente?
    Todos os países estão sujeitos a loucos (fundamentalistas ou não) e temos de viver com isso, tomando, é evidente, as maiores cautelas, mas sempre dentro das normas do estado de direito, que, suponho, defendes.
    Os apalpões nos aeroportos podem dar-te muito gozo (talvez esteja aí uma explicação da tua tão acérrtima defesa dos apalpadores), mas não são defesa para nada. Basta ver a lista dos atentados praticados em todo o Mundo, apesar das medidas de controlo existentes, para concluir que essa é a justificação, mas não a verdadeira razão por detrás do controlo da vida dos cidadãos.
    Ainda recentemente uma amiga minha espanhola, com um defeito genético no pé que a obriga a usar um sapato com tacão especial, foi obrigada a descalçar-se num aeroporto americano, tendo sido sujeita a uma humilhação aberrante em qualquer parte do Mundo civilizado.
    Vou-te contar uma história, pois já percebi que tens pouco Mundo.
    Quando cheguei à Holanda (onde vivi entre 1966 e 1996) fiquei muito espantado por não existirem Bilhetes de Identidade naquele país. Perguntei a razão (eu que tinha um BI passado pelo estado fascsta com impressão digital, estado civil e tudo) e disseram-me que a razão tinha a ver com a última guerra mundial. Quando a Holanda foi ocupada pelas tropas alemãs, a forma dos nazis descobrirem a origem judaica dos habitantes holandeses, foi irem aos Registros Civis, consultar as bases de dados existentes. Nessa época, não havia NET, mas existiam fichas (escritas à mão) com os dados de todos os cidadãos e aqueles que tinham origem judaica recebiam uma letra extra (J) que significava “jood” (judeu). Estás a ver o resultado: dos mais de 120.000 judeus existentes na Holanda, só ficaram 40.000, pois os restantes foram todos mortos nos campos de concentração nazis.
    Desde então, os holandeses deixaram de ter BI obrigatório, bastando para a sua identificação um passaporte ou carta de condução normal.
    Também eles controlam os aeroportos (tenho menos sorte do que tu, pois sou sempre apalpado por homens), mas do que serve isso se as fronteiras com a Bélgica e a Alemanha estão abertas ao tráfego terrestre? Qualquer cidadão pode passar a pé aquelas fronteiras…
    Vês como és naíve e estás rendida à primeira história que os americanos te contam?

  8. Penélope, acho diferente a revista nos aeroportos, feita com o consentimento do passageiro, da escuta ou monitorização sem critério das chamadas telefónicas. O direito à privacidade, de certa maneira, acabou nos EUA. Além disso, não se pode validar este procedimento porque 62% dos americanos acham bem…

  9. este naíve é do melhor. imagina fronteiras voadoras a explodirem entre a bélgica e a alemanha, relata a humilhação da amiga coxa a quem descalçaram um sapato e acha que os holandeses passaram a anónimos por não terem conta no banco insular. balha-me a santa deolinda.

  10. Ignatz,

    Já estava a estranhar ainda não teres aparecido, pareces o pitt-bull de serviço…
    Essa de me dares um exemplo do PCP – que representava um estado totalitário que controla(va) os seus cidadãos – diz mais sobre ti, do que sobre mim.
    Falta-te cidadania e não tens opinião sobre nada. Vai dar banho ao cão!

  11. Caros comentadores discordantes: Transcrevi e remeti para um texto não dogmático que, na minha opinião, fala por si, é claro e dá uma perspetiva serena do que está em causa. Se se derem ao trabalho de ler os comentários, também podem encontrar-se mais acompanhados, porque há mais quem discorde, ou mais esclarecidos. Tenho muito pouco a acrescentar. E, já agora, é evidente que não estou a escrever da sede da CIA, da NSA, do Pentágono ou do FBI, mas tenho a certeza que também nenhum de vocês está. O que não nos impede de ter uma opinião.

    Não acha piada aos controlos aeroportuários, mas, como milhões de pessoas diariamente, aceito-os por boas razões.

    Quanto à prevenção de atos terroristas que possa implicar violações da privacidade, não fazer nada não é solução. Mas o texto fala por si. É ler.

  12. “Não acha piada aos controlos aeroportuários, mas, como milhões de pessoas diariamente, aceito-os por boas razões.” Acho que esta comparação não faz muito sentido. Uma coisa é ser controlado por uma razão objectiva, neste caso, não embarcar com objectos que possam por em causa a segurança dos passageiros. Além disso, quem não quiser ser revistado dá meia volta e não embarca. Já as conversas telefónicas foram feitas à socapa, e com a justificação de que poderiam vir a ser úteis.

  13. “Além disso, quem não quiser ser revistado dá meia volta e não embarca.”

    tamém ninguém obrigado a falar ao telefone, ter ip, cartão de crédito, brisa e quem quiser pode voltar ao início do século passado e requisitar um pide para lhe fazer sombra. tudo uma cambada de merdosos com complexos de perseguição e de importância que ninguém lhes dá.

  14. Por essas e por outras é que o Bin Laden só comunica por pombo-correio. às vezes o pombo é um homem, que é mandado para os anjinhos depois de vomitar a mensagem…
    Tempos modernos…

  15. Penélope, que eu saiba vários países europeus tiveram de lidar com ataques terroristas durante largos anos e não precisaram de vigiar as comunicações no mundo inteiro. Aliás, se se fizer uma análise de risco de terrorismo (tipo WTC, Boston, etc) a médio e longo prazo (custo, eficiência, efeitos negativos), este controle das comunicações a nível mundial não faz sentido. É como querer matar mosquitos com um canhão.

  16. oh miguel! como é que fazes? botas um ou vários agentes secretos atrás de cada suspeito e crias emprego para estimular a economia. ahhh… mas depois é preciso ouvir as conversas e lá temos que pôr os microfones do cunha rodrigues nos tampos das secretárias, mais trabalho, mais desenvolvimento tecnológico. agora que a coisa se estava a compor no meio deste emaranhado de fios, gravadores e gajos pendurados nos postes telefónicos, inventaram a merda dos telelélés e tiveram de voltar todos para a agricultura. coisas do pugresso, mas tu não trocas o teclado pela enxada.

  17. façam como na urss,onde havia em departamentos estrategicos! retretes com saneamento apropriado,para poderem recuperar documentaçao ou objectos para quem deles se quizesse livrar.isto era mais democratico.seguro quando foi à sede do pcp,deve ter tido vontade de ir à casa de banho,porque jeronimo já sabe o que ele vai fazer no futuro!

  18. Não deixa de ser uma base de dados onde informação tradicionalmente resguardada pelo direito à privacidade é registada, para poder ser consultada, tudo isso sem o controle de um magistrado. Se não é (ainda) o arquivo da PIDE, no entanto poderá, no futuro, vir a ser usado com fins bem diversos daqueles para que foi criado. É natural e compreensível, a inquietação dos americanos.

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