A política do “entretanto” ou do “entreter”

A França e a Alemanha preparam-se para apresentar aos outros países da União Europeia (UE) uma iniciativa em favor do emprego jovem inspirada no New Deal concebido pelo presidente americano Franklin Roosevelt para reconstruir a economia do país depois da grande crise dos anos 1930. […]

O jornal (Rheinische Post) precisa que o plano é apoiado por “grandes empresas” e inclui o envolvimento do Banco Europeu de Investimentos (BEI) — a instituição financeira da UE — através da concessão de crédito às empresas que se comprometam a contratar jovens. […]

No início de 2012, a Comissão Europeia já tinha lançado a criação de “grupos de acção” nos oito países com taxas mais elevadas de desemprego jovem — Portugal, Espanha, Grécia, Irlanda, Itália, Eslováquia, Letónia e Lituânia — para os incitar a reafectar ao combate ao desemprego jovem os fundos estruturais comunitários de apoio ao desenvolvimento das regiões mais desfavorecidas que lhes estão atribuídos entre 2007 e 2013 mas que não estavam a ser utilizados. Apesar da iniciativa, reconheceu ontem László Andor, comissário europeu responsável pela política social, no fim do ano o desemprego jovem continuou a subir em Portugal e na Itália para cerca de 38% dos jovens, em Espanha para quase 56% e na Grécia para mais de 58%.

(Fonte: Público de hoje)

Esta ideia de que a principal medida a tomar para reduzir o desemprego jovem é conceder estímulos às empresas para a contratação de gente nova é absolutamente extraordinária no contexto atual. Não se contratam jovens nem se contrata ninguém porque não há procura. E não há procura porque há, no melhor, contenção salarial e, no pior, cortes salariais acentuados e aumento dramático do desemprego. Generalizados na Europa. Logo, redução do poder de compra. Além do medo do futuro, que não induz consumo. Continuar a insistir numa solução que situa a crise do emprego na falta de crédito às empresas ou na falta de dinheiro para contratações, ainda por cima perante provas de que as medidas de estímulo não funcionam se nada de mais profundo for feito, é prosseguir na via do discurso enganador tão a gosto dos alemães e continuar a não querer atacar a raiz dos problemas. Hollande está a revelar-se, para já, um Sarkozy não assumido no que toca à Alemanha (eleitorado “oblige”), obrigado em nome do prestígio imperial da França (?) e do seu papel de segundo motor da aeronave europeia a não cortar os laços com a maior potência económica da Europa, sob pena de ficar a liderar um clube de «indigentes», neste momento verdadeiramente depauperados, famélicos e pés descalços. Quem quereria?

O grande problema desta crise europeia é que, depois do estoiro da bolha financeira internacional que teve como principais responsáveis os bancos, todos por cá compreendemos o problema de todos. A solidariedade quebrou-se, ninguém tem a coragem de romper e há quem não tenha sequer interesse em romper, porque o drama dos outros lhe é favorável. Mas as populações europeias estão a acumular tensões.

Um dia, não sabemos em que circunstâncias e com que protagonistas, abandonar o discurso estigmatizante, parar com a austeridade, atribuir um novo papel ao BCE e concertar a política económica poderiam ainda salvar o Euro. Mas esse dia não consta de nenhum calendário conhecido. Assim, é cada vez mais tarde. E cada vez mais impossível.

3 thoughts on “A política do “entretanto” ou do “entreter””

  1. Muito bem, Penélope.

    Estas “descobertas da pólvora” por parte dos “ferreiros” que percebem tanto do que comandam como eu de lagares de azeite, são patéticas, risíveis e até insultuosas.

    Esta gentalha sem préstimo, nem escrúpulos, não tem credibilidade para propor nadinha de nada, depois de terem sido os obreiros da devastação!

    É como pedir aos pilotos dos bombardeiros que agora apresentem os planos para a reconstrução da cidade. Até quando continuarão a não ser desmascarados?

    Ou melhor, até quando aqueles que, como nós, já os topam à légua continaurão a ser submergidos – em número, que não em lucidez! – pela maralha indiferente, ou políticamente analfabeta, embrutecida e manipulada pela comunicação social “livre” dos Países “democráticos”?

    Para quando o grande chuto no cu neste Mundo apodrecido? Para quando o inadiável “Maio de 68” do Séc. XXI?

  2. Não foi no New Deal que se “identificava” que era melhor ter um fulano a abrir buracos e outro a seguir tapá-los”, para que o consumo aumentasse ?
    A europa continua a não aprender e em Portugal não só não compreendemos como somos burros…. ou grandes Fanáticos Dos Popós!

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