Sim, impasse. Mas não há um que sempre dure, portugueses

Está visto que, com Passos e Gaspar, a cada curva da espiral recessiva, aguarda-nos mais um buraco, cuja cobertura nos leva a nova descida, depois a nova curva e assim sucessivamente até já nada restar do país, muito menos população jovem que assegure o seu futuro. O discurso oficial, proferido por cima de derrapagens colossais, é de que não há alternativa a esta austeridade, tendo mesmo Passos avançado ontem claramente que ou era isto ou saíamos do euro. O que, dito assim, é uma ameaça: sair do euro seria ainda pior.

Por estas e outras razões, e porque este desgraçado governo vai manter-se até ao fim da legislatura com a bênção de Cavaco e as cantorias de Portas debruçado na janela, vale muito a pena ler a entrevista que João Ferreira do Amaral dá hoje ao jornal i.

E para percebermos como o primeiro passo para a saída «a bem» do euro não é fácil e esbarra com contradições, aqui ficam uns excertos.

Fala no seu livro de uma saída controlada do euro: negociada, anunciada previamente sem segredo, com um conjunto de medidas que vão ao ponto de parte das aplicações financeiras se manterem em euros. É possível uma saída controlada?
É, mas para isso é imprescindível que haja um acordo com as autoridades comunitárias, quer o Banco Central Europeu, quer a Comissão Europeia. Isso é possível porque a nossa saída beneficiará também os países que estão no euro, já que fará desaparecer um factor de instabilidade que é ter uma economia que não aguenta estar na moeda única.

Há economistas que consideram impossível uma saída calma da zona euro, e exemplificam com o crédito à habitação: se os empréstimos ficarem em euros, as famílias vão à falência, se os empréstimos passarem a escudos, os bancos que pediram dinheiro ao estrangeiro em euros vão à falência…
A minha sugestão é que as dívidas, nomeadamente as do crédito a habitação, mantenham o seu contravalor em euros, mas que a diferença resultante da desvalorização seja assumida pelo Estado, que ele substitua o devedor nessa parte, financiando-se o Estado através de empréstimos do Banco de Portugal
.

[…]Mas não acha que é difícil sair do euro quando o único partido político que manifesta dúvidas em relação ao euro é o PCP?

Sim, mas mesmo que os outros tenham dúvidas não o podem dizer. Nenhum político pode dizer que é a favor da saída do euro. No dia em que o disser já não pode ir para o governo, porque, se for para o governo, dir-se-á que vamos sair do euro, e aí o pânico e a especulação vão gerar-_-se. Mesmo que haja políticos convencidos de que devemos sair do euro, nunca o poderão dizer, para não causar pânico nos mercados.

Então se ninguém pode dizer, como é possível conseguir o consenso político e social para sair?

Aquilo que devia ser feito, não quero dizer que possa ser feito, não tenho grandes ilusões em relação às elites portuguesas, era decidir a saída a um nível muito restrito para manter o segredo e depois, no dia em que fosse anunciado o período transitório, em que seriam tomadas medidas de excepção, tomadas essas medidas a decisão devia ser ratificada pelo parlamento. Para mim não está em causa que tenhamos de sair do euro, de uma forma ou outra vamos ter de sair, a não ser que aconteça um milagre de iluminação na zona euro. O que está em causa é a forma de sair. Ou preparamos a saída ou seremos forçados a fazê-lo com custos muito maiores para a população.

Ou ainda:

[…]

Vista desta forma, esta política é uma soma de incompetências. Não é possível olhar para ela como um programa claro de destruir o modelo social europeu para reforçar os lucros de alguns sectores no processo de globalização?
Se fosse assim deveria ser dito, porque isso só se pode fazer com uma grande mobilização social. Se eles quisessem dizer: estamos a fazer isto porque a Europa não aguenta a concorrência crescente dos países emergentes na economia global, então o melhor seria criar uma base de apoio para fazer este programa
.

Sairemos do euro «a mal».

4 thoughts on “Sim, impasse. Mas não há um que sempre dure, portugueses”

  1. A última pergunta/resposta da entrevista citada explica qual é a estratégia em curso. Que os políticos do arco da governação não o digam explicitamente, não nos devia admirar, não é Penélope?

  2. A saida do euro deve estar na agenda da esquerda .
    Um programa politico de esquerda a médio longo prazo que inclua esta saida deve ser estudado e discutido publicamente.

  3. O problema da saída do euro será sempre conjuntural, o tempo correrá sempre a favor dessa solução visto que a política monetária autónoma passará a incentivar a reindustrizlização e o crescimento do sector transaccionável. Essa é a grande vantagem. Por outro lado, a permanência do euro numa altura em que nós necessitamos de uma moeda mais fraca para nos reindustrializar (embora isso possa-nos proteger do choque imediato da saída do euro) será sempre um remar contra a maré. A solução de permanecer no euro tem sempre o tempo a correr contra si.

    Por outro lado, será irresponsável minimizar, aos olhos dos portugueses, as consequências imediatas de uma saída do euro, designadamente porque esse divórcio tem uma grande probabilidade de ser litigioso. Não concordo com João Ferreira do Amaral quando defende a manutenção do contravalor dos créditos bancários em euros por via do financiamente estatal da diferença. Isso seria o caminho mais rápido para uma hiperinflação; pois os nossos parceiros não aceitariam apoiar uma saída do euro que levasse a uma monetarização da dívida pública portuguesa dessa magnitude, porque depois teriam que ser eles a arcar com os custos de não deixar a nossa moeda desvalorizar catastroficamente. A negociação para a saída do euro terá sempre que envolver uma reestruturação da dívida externa portuguesa, que se tentará que seja negociada mas, em caso de falhanço da via negocial, há sempre a possibilidade de ser unilateral (e pode-se usar essa possibilidade nas negociações).

    Para efectuar a saída do euro, e para a mesma ter o efeito macroeconómico adequado, tanto os créditos externos como os depósitos teriam que ser convertidos na nova moeda. Não há outra hipótese. Os nossos credores teriam que suportar parte do custo da saída do euro, e o melhor mecanismo (aquele que poderia evitar a catástrofe financeira interna) seria converter créditos internos e externos à nova moeda, que depois seria apoiada por instâncias europeias para não desvalorizar em demasia.

  4. Se Portugal não conseguiu aguentar a pedalada do Euro, também nunca vai conseguir saír do Euro pelo seu próprio pé! Desenganem-se os afoitos.

    Por outro lado, se conseguisse um dia saír ordenadamente do Euro, isso seria uma prova de que teria conseguido canalizar esse mesmo esforço para permanecer no Euro!

    O que significa que o nosso verdadeiro problema NÃO está em permanecer ou saír do Euro, mas em ter um Estado moderno, justo e eficaz, que os outros Países do Euro já têm, ou estão em vias de ter (excepto a Grécia…).

    Por isso, em vez de perdermos tempo a discutir o Euro (como em tempos perdemos a discutir o Sócrates…), devíamos era perder tempo a discutir como modernizar o nosso Estado: e deveríamos começar pelo sistema de Justiça, continuar fundo pela fiscalidade e a cobrança EFECTIVA dos Impostos – talvez o principal desígnio nacional do presente! – e acabar em beleza com o melhoramento drástico do sistema político.

    Tudo isto sem destruír o que de bom já construímos: a Saúde, a Educação e a Segurança Social! ISTO É QUE É UM PROGRAMA DE ESQUERDA, ó bentos!

    Infelizmente, em vez disso, estamos a fazer tudo ao contrário e agora o escape passou a ser discutir… o cabrão do Euro!

    Vamos longe, por este caminho…

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