Sois tão rasca, senhores

Há uma parte do país que se conforma com a maldição e com a penitência que lhe inflige a dupla Gaspar/Passos, interrompida amiúde, e de forma aparentemente programada, pelas tropelias do bobo Relvas e pelos nós de gravata falantes do Dr. Portas e que, mesmo passando pior, entende que tudo isto é muito bem feito, em todos os sentidos que quisermos atribuir à expressão. Pobres coitados, não têm conhecimentos para mais. Possivelmente rezam e pensam no paraíso. Também há os chicos-espertos e os patos bravos que não cabem em si de contentes por lhes estarem a oferecer um mercado de escravos em pleno século XXI.

Há porém outra parte do país que, mais cultivada, fortemente prejudicada e atenta ao desempenho da clique governativa, sente verdadeira vergonha pela mediocridade, indigência e incompetência destes governantes. Envergonhados. Envergonhados de serem portugueses como eles. Talvez o silêncio das manifestações tenha a ver com a vergonha, um sentimento um tanto inesperado e algo incompatível com manifestações. Quantas pessoas não há em Portugal com o décuplo da cultura, da inteligência e da competência dos políticos atualmente a governar o país? O que pensam quando ouvem Passos, o penteado, a falar das suas políticas na Assembleia? Riem? Choram? Ganham úlceras? Não ouvem sequer? Pode ser divertido rebolarmo-nos de riso quando ouvimos um primeiro-ministro a invocar a redução do salário mínimo na Irlanda como um exemplo que Portugal deveria seguir, para no minuto seguinte tornar essa comparação disparatada e inútil antecipando-se, ele próprio, ao que alguém pudesse objetar, ressalvando que, porém, na Irlanda o salário mínimo era então muitíssimo mais elevado e que em Portugal o dito não tem descida possível, de tão mínimo que é. E que por isso tal medida nem ficou no Memorando. O problema é que este exemplo de tolice abunda e tudo isto é demasiado grave para ser considerado uma diversão. Portugal bateu no fundo. O governo é mentiroso, inculto, insensível, incompetente, fútil e com um descaramento jamais visto. Os seus comentadores televisivos repetem as mentiras até à náusea. O primeiro-ministro nem falar sabe! Relvas é só esgares. Gaspar lê modelos enquanto fala. É, aliás, a mediocridade que faz rastejar este governo perante os ditames de outros, começando Passos por rastejar perante o pausado Gaspar, e percebe-se porquê.
O respeito pela democracia e pelas instituições torna as pessoas decentes quase impotentes. Mandam-se farpas, como aqui se faz, mas não deixa de ser frustrante. Tenho vergonha de um ministro que se ajoelha frente ao alemão Schäuble, a quem pede constantemente desculpas por pequenas ousadias e sai da sala com vénias. Tenho vergonha só de pensar que um primeiro-ministro português possa ser olhado como um total imbecil num Conselho Europeu.

Se ao Governo juntarmos o ocupante de Belém, que em igual se não em maior medida descredibiliza o cargo que ocupa, tenho vergonha do meu país. Ao que chegámos.

4 thoughts on “Sois tão rasca, senhores”

  1. Platão escreveu que o castigo de quem não se interessa por política é ser governado pelos seus inferiores. Mas muitos dos que em Portugal se interessam por política sofrem o mesmo castigo.

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