João César das Neves. Eu bem sei que os jornais procuram dar espaço a opiniões plurais para não afastarem leitores. Mas só se o DN pretende dar voz ao mofo e à estupidez que não só toma por real na sociedade portuguesa como também pretende tornar séria é que se compreende que seja dado espaço semanal a pessoas que não satisfazem os mínimos – nem de racionalidade, nem de objetividade, nem de inteligência. JCN é um fanático religioso. Da primeira à última linha, nada se aproveita.
Hoje proclama do alto do seu púlpito que a verdadeira crise, a que destrói Portugal, não tem a ver com falta de dinheiro (e cita Mateus, que critica a ênfase dada ao dinheiro). Não, que ideia tão tola. O dinheiro é um pormenor e passageiro. Por outro lado, diz-nos o iluminado, não é fatal que haja recessão, nem dificuldades económicas. Vejam como o cronista considera isso facílimo de resolver: matrimónios indissolúveis com mulheres férteis, de preferência muito férteis e submissas, fim do divórcio e pronto, aí iríamos nós rumo a um futuro glorioso!
“Pior é que o diagnóstico da situação, os males considerados e as curas recomendadas são tão laterais, incipientes e tolas que, em si mesmas, manifestam o vício que destrói Portugal. A razão por que tantos bramam que se arruína o País tem a ver com… dinheiros. É espantoso, mas muitos estão mesmo convencidos de que a recessão será irremediável e as dificuldades económicas fatais. O nosso problema é, afinal, falência de lojas e restaurantes, desemprego alto, dívida pública.”[…]
“De facto, a destruição de Portugal não tem nada a ver com isso. Esta crise estará esquecida dentro de anos, como tantas para trás, a maioria bastante pior. Aquilo que o tempo não pode apagar, aquilo que chega para aniquilar o País é a destruição da família e a extinção da natalidade. Com a taxa de fertilidade mais baixa da Europa Ocidental e das mais baixas do mundo, o casamento em vias de extinção, o divórcio em níveis nunca vistos e a educação na quinta década sucessiva de crise, não admira que as próximas gerações acusem este tempo dos seus males.”
Temos pois que o problema de Portugal neste momento não é o desemprego, nem as falências, nem a fuga dos jovens mais qualificados, nem a precariedade, nem o empobrecimento, nem a estrutura do euro, nem a concorrência chinesa, nem sequer o excesso de austeridade. Nada disso. Quem assim pensa tem vistas curtas. O problema é a destruição do casamento, a facilidade dos divórcios, o egoismo que não leva à reprodução. Resolvidos estes males, certamente à força (provavelmente através da imposição de uma “Sharia”), as gerações futuras sentir-se-iam orgulhosas da nossa, porque esta crise económica afinal nem é nada de especialmente grave.
E prossegue, agora para o seu tema predileto:
“Nos cinco anos desde 2007 já houve mais de 80 mil abortos, cerca de dez vezes os soldados portugueses mortos nos 14 anos de Guerra Colonial. Muitos se queixaram das cicatrizes que esse conflito deixou na geração que a suportou. Mas ninguém ouve sequer a voz da geração que hoje é sacrificada a “razões socioeconómicas” e à “opção da mulher”. E o genocídio não demora apenas 14 anos. Sem fim à vista, continua galopante.
Entretanto, muita gente acha Portugal perdido pela concorrência chinesa, reforma do Estado ou participação no euro. O disparate chega para revelar a infantilidade. Quando souberem que pensamos assim, os futuros habitantes desta terra perceberão a mesquinhez da nossa atitude. Os nossos poucos descendentes e todos aqueles que vierem de longe tapar o buraco populacional que deixámos vão entender como foi possível que fizéssemos esta desgraça.”
Deduz-se que, para JCN, a importância da morte de 8000 soldados em África prende-se exclusivamente com o rombo que tal provocou na população em termos numéricos e só por isso se compara ao rombo que significa a falta de nascimento de uns recentes 80 000 porque as mulheres assim decidiram (para ele, nada menos que “genocídio”). Para cristão, estamos conversados. O sofrimento dos referidos militares e das famílias é irrelevante. JCN quer números, quer contar portugueses. A geração que hoje é sacrificada é, para ele, vítima de umas alegadas razões socioeconómicas e da opção das mulheres – duas idiotices, aos seus olhos. Mulheres com opções? Uma vergastadas e elas aprendem a obedecer. Que as pessoas não tenham filhos justamente por não terem as tais condições socioeconómicas é uma questão irrelevante para este senhor. Obrigar as mulheres a ter os filhos, nem que depois os vão entregar a algum asilo, os abandonem ou, ficando com eles, os tratem mal, num círculo de infelicidade e desamor mútuos, isso é que é correto – é preciso é que haja portugueses a nascer. Sobretudo para mais tarde haver serviçais.
Estas pessoas como JCN benzem-se e não têm vergonha nenhuma do que dizem.
