Perante os números desastrosos da execução orçamental e da economia divulgados pelo INE, o Governo preocupa-se exclusivamente com os erros de previsão, que irá procurar emendar, diz. Nunca se viu um bando de governantes tão completamente indiferente à situação económica, laboral e social do país que os elegeu. Uma situação que consideram natural e, logo, inconveniente corrigir. Pior, consideram errado corrigir. Aliás: não há nada a corrigir (a não ser as previsões), porque esta é, para eles, «a» correção.
Perante isto, haveria que haver alguém à altura de lhes fazer engolir em direto o rol de falsidades que diariamente lançam para o espaço público para justificar tão desvairadas execuções orçamentais – assentes no confisco de metade dos rendimentos das pessoas, deixando tudo à míngua, na transferência para o Estado dos fundos de pensões da banca ou na venda de empresas públicas históricas e bem geridas. Nada disto devia suscitar orgulho, mas os patetas orgulham-se. O argumento de fundo a que mais recorrem quando confrontados é o da situação catastrófica que lhes foi alegadamente deixada em herança (pressupõe-se que depois de em tudo colaboraram para prevenir essa “catástrofe”, não foi?) e que, pobres coitados, se esforçam por remediar. Esta é a versão. Deturpada. Mentirosa. Mentem, por um lado, porque sempre confessaram querer operar uma revolução na economia mal chegassem ao poder (que passava por destruí-la para dar lugar à Fénix), reconhecendo que a Troika lhes dava uma boa oportunidade. Para isso, era basicamente necessário retirar o Estado de onde não era chamado (a economia) e cortar umas gorduras. Acontece que, até agora, ainda não foram capazes de dizer aonde e a quê é que o Estado é chamado, apesar de já terem dado algumas pistas e muito pouco abonatórias, e que as gorduras afinal chamam-se pessoas, postos de trabalho e rendimentos. Mentem, por outro, porque já sabiam da situação em que colocaram o país ao chumbarem sucessivas medidas de contenção orçamental a partir do final de 2009 (e foram várias), altura em que já não havia maioria absoluta e a especulação financeira fazia estragos nos juros da dívida pública, e ao desprezarem irresponsavelmente o acordo patriótico estabelecido por Sócrates com as instituições europeias em Março de 2011 para evitar que caíssemos na situação da Grécia. Foram responsáveis. Fizeram cair o Governo. Deitaram para o lixo um acordo fundamental (que agora se preparam para reeditar, sobre milhares de emigrados, desempregados e destroços de empresas). Partilham das ideias neoliberais da Troika. Estão a executar as políticas que defendem, com ousadias jamais imaginadas. Porque culpam então o antigo Governo pela destruição atual do país?
Mais: alguém lhes pergunte se os números conhecidos afinal são bons ou são maus? É que nem isso dizem com clareza. Se respondem que este “ajustamento” é doloroso mas inevitável, então só podem achar que os números são bons e, nesse caso, não se compreende a descida à linha de fundo da “culpa é do Sócrates”. Se, pelo contrário, entendem que a situação está efetivamente difícil de controlar e o país a um passo do abismo, o que tem o Governo anterior a ver com isso, já que este é o seu (deles) programa? Não haverá ninguém naquela Assembleia que os confronte com estas contradições?
A narrativa leva ultimamente uns adornos: apesar do esforço para corrigirem os erros da “banditagem” que, além de construir obras faraónicas, “asfixiava a democracia”, como diziam, a tarefa está a revelar-se difícil (suspiram Luís Montenegro, Matos Correia, Ribeiro e Castro, etc.); a recessão na Europa, sabem como é. Porém, nesse esforço, o Governo inspira tal confiança aos mercados que até já vai dispensar a Troika, é apenas uma questão de escolha do melhor momento. Em suma, no fundo, são uns artistas. Tudo está a correr bem. Em que é que a saída da Troika vai melhorar a situação dos desempregados, dos pobres e da economia, não dizem, mas gostávamos bastante de saber.
Chegamos a 2013 e constata-se, portanto, que a estupidez dos eleitores e a sua responsabilidade neste programa os impede de protestar perante uma situação objetivamente trágica. Muitos dos que se vão embora também votaram nesta gente. No meio do desastre, a tranquilidade da maioria é absoluta, Portas incluído: até já o Relvas, não sei se repararam, esse perito em esquemas de duvidosíssima seriedade que nunca deveria ocupar um cargo governativo, nem na Abecásia, aparece com a maior das naturalidades a falar na conferência de imprensa que se segue ao Conselho de Ministros em representação do Governo!
Estou, por isso, convencida de que, por este andar, se amanhã o desemprego chegar aos 20%, a única coisa que acontece é vermos o Dias Loureiro a falar também em nome do Governo.
