Ninguém está livre da influência das bruxas (Shakespeare)

Viriato Soromenho Marques, cujas crónicas costumo ler algumas vezes com agrado, revelou no sábado um inusitado atordoamento. Terá, ao acordar, pegado nos óculos errados. A distorção da realidade é mais do que notória. Nesse dia, VSM, sabe-se lá se sob o feitiço de algum direitola ao estilo de VGM, viu o pedido de ajuda à Troika como o resultado da irresponsabilidade do Governo anterior, pela qual os seus membros deveriam pedir desculpa ao país (!!).

Segue, sem demoras, o contra-fogo:

1. VSM conta a história da vinda da Troika na versão para crianças contada pelo PSD/CDS – haveria um governo incompetente que se pôs a gastar ao desbarato, levou o país à falência e pronto, não houve outro remédio que não a submissão a um trio de credores. Para VSM não houve qualquer crise financeira internacional, nem o Governo de Sócrates tinha em curso um programa de controlo das contas públicas até 2009 (aliás bem sucedido) o qual teve de ser provisoriamente interrompido para acudir às falências e ao aumento do desemprego, nem cumpriu as diretrizes económicas contra-cíclicas acordadas nos Conselhos Europeus da UE, nem se verificou o fenómeno de aumento da dívida em todos os países europeus, nem Sócrates, quando o caminho decidido passou a ser outro, negociou programas de austeridade com a Europa que evitariam um resgate semelhante ao grego, nem os imbecis que se içaram ao “pote” estavam desesperados pela vinda do FMI, tendo para isso dado passos decisivos com a ajuda do presidente Cavaco e com o chumbo do PEC4. Nada! Totalmente enfeitiçado.
2. Pedro Silva Pereira tem qualidades próprias, já há muito constatadas. VSM parece ter acordado agora.
3. A “tragédia” não foi iniciada por Silva Pereira. A tragédia está à vista de cada vez que Seguro abre a boca e os deputados têm de fingir que não o conhecem. Tragédia é aceitar isso como normal.
4. VSM coloca-se, com verbos como “apunhalar”, ao lado dos que gritaram “traição” e “deslealdade” contra os que discordam do rumo da liderança. Para VSM, portanto, nenhuma contestação é legítima.
5. António Costa não foi arrastado por nenhum jogo “urdido” por barões. Ele próprio, a quem inteligência não falta, tem-se manifestado incomodado (também é do PS) com o mal-estar entre as hostes e crítico do atual líder, sentimento que, arrisco dizer, é generalizado entre quem acompanha a política portuguesa. Com os ânimos demasiado exaltados, como pareceram estar na noite da reunião, possivelmente a melhor solução foi parar para pensar e levar a pensar.
6. Os lugares. Se para alguém fazer alguma coisa tem que ocupar um lugar que dantes não ocupava, onde está o problema de o querer disputar?

Embora custe a crer, VSM assina esta crónica:

“Era Churchill quem dizia que os inimigos se encontram dentro do mesmo partido. O conflito entre visões do mundo, por muito duro que seja, define apenas adversários. A hostilidade é mais íntima. É entre indivíduos que disputam o mesmo espaço vital. Que partilham uma ambição, onde dois é já uma multidão. Pedro da Silva Pereira – que durante muitos anos parecia ser uma espécie de alter ego de Sócrates incapaz de sobreviver na ausência deste – aceitou iniciar uma pequena tragédia no Largo do Rato. Fez o papel das três bruxas sinistras que profetizam o regicídio, no Macbeth, de Shakespeare. Mas nem António José Seguro é o dócil rei que se deixa apunhalar nem António Costa parece disposto a entrar no jogo urdido pelos barões socialistas que, sem nunca terem pedido desculpa por terem lançado o País nas mãos da troika e dos seus representantes permanentes em Lisboa, já se apressam a correr para uma oportunidade de mais lugares de mando. Lugares que não merecem pela manifesta incompetência e falta de mérito. A política portuguesa tem uma lei fatal, a da alternância. Mas quem estiver à frente do PS, na altura em que este partido voltar ao Governo, não terá possibilidade de errar. Nessa altura, a verdadeira tragédia será a de um país empobrecido e dilacerado. Quem quiser brincar a Macbeth, em vez de se assumir como o rosto de uma esperança sólida e mobilizadora do melhor da sociedade portuguesa, acabará por ser devorado pela sua própria ambição.”

11 thoughts on “Ninguém está livre da influência das bruxas (Shakespeare)”

  1. Penélope,
    não tendo sido artigo encomendado, parece que afinal o Soromenho tem no Seguro uma referência intelectual!
    Francamente é pouco, muito pouco para quem faz alarde de lecionar História das Ideias na Europa Contemporânea e Filosofis Social e Política, diria mesmo que é impr
    oprio tal texto de quem tem obrigação de conhecer melhor do que o vulgar leitor as vicissitudes e idiossincrasias da política europeia.

  2. É. Penélope cujos textos se liam com agrado, parece ter sido possuída pela alma do Val(upi).
    Vigiam toda e qualquer dissonância publicada como qualquer ranger do Texas vigia os movimentos dos mexicanos.

    Val, devolve-nos a menina da discoteca, para viúvinhas do Sócrates já bastam tu mais a outra. Chega de vigilância controleira da linha justa. Queremos de regresso a Penélope, fera meiguinha.

  3. Uma mentira muitas vezes repetida acaba por ser tomada por uma verdade pelos simples e simplórios. Viriato Soromenho Marques resvalou para este patamar. Já vi pior.

  4. Penelope

    Acho que VSM anda a ler os meus comentários aqui no Blog. heheheheheh
    Agora usar o nome de Churchill para esta historia de comadres no PS, é como usar o nome de Deus em vão. Isto é um pecado mortal.
    Ainda mais grave, entusismado por ter descoberto Shackespeare, nesta fase avançada da sua vida, foi dar o estatuto de Rei a Seguro. Só posso concluir que ele confundiu as personagens. O Seguro era o bobo da corte que deve ter-se sentado no trono do Rei, aproveitando a ausencia deste em terras distantes.

  5. Penelope

    Além do VSM, anda mais gente a ler o que eu escrevo aqui no blog.

    O alemão Commerzbank e o francês Natixis juntaram-se a outros bancos internacionais, como o Crédit Agricole, que tem vindo a recomendar a aposta na dívida portuguesa.

    O alemão Commerzbank e o francês Natixis juntaram-se a outros bancos internacionais, como o Crédit Agricole, que tem vindo a recomendar a aposta na dívida portuguesa. Os analistas acreditam que Portugal será uma “história

    O resto fica para ler no jornal de negocios.

  6. Ignatz

    Dizes bem “aparentemente “. Pois já ninguem confia nas contas dos gregos. Mas mesmo que cresça e esperemos que sim, continua a haver uma diferença abissal entre nós e os gregos. Ninguem aconselha a investir na dívida grega. Além do mais, a Grécia irá continuar fora dos mercados da dívida e intervencionado pela Troika, por muitos e muitos anos. Por isso afirmo e reafirmo que estamos no bom caminho.

  7. já tinha percebido que os gregos tinham juros mais baixos que os nossos porque não podem pagar o mesmo que nós, os bem encaminhados. os mercados comunistas são assim, paga quem pode e haja paciência para aturar parvos.

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