Dar um bom guião a um ator de segunda…

… estraga o guião e desvirtua os seus autores.

Volto ao tema do momento.
Num partido, queiram os assessores ou não, o líder dá o tom e dá a imagem. Com Seguro, o problema não é só não ter um programa ou uma estratégia credível; o problema é a sua pessoa enquanto líder, que não é mais credível do que Passos Coelho. Os dislates que diz, sobretudo quando fala espontaneamente, a insipidez das declarações públicas, as reações que não tem, o trabalho de preparação que não faz, a errada visão da crise que suspeitamos ser a sua, a falta de talento são os seus problemas de base. A inexistência de uma estratégia credível não pode ser desligada destas debilidades como líder. A haver uma estratégia, a única que demonstrou, sem pressões aborrecidas, foi a de dar tempo ao Governo para se desgastar e ir elevando a voz de vez em quando, simulando oposição. O poder haveria de lhe cair no colo, assim o partido estivesse “controlado”. Foi a isto que assistimos durante quase dois anos. Foi também a isto que assistiram os que, na bancada, já foram (e alguns são-no como deputados) políticos ativos e com duras experiências de combate, que justamente consideram inaceitável tamanha pacholice, ainda por cima ofensiva para os próprios.

Qualquer alteração neste cómodo programa de líder da oposição, na sequência do recente sobressalto, arrisca-se, pois, a desorientar o protagonista e a fazer dele uma emenda ainda pior do que o soneto. Como é que António Costa decide agora colaborar com o Seguro na elaboração de uma estratégia comum ignorando tudo isso? Mistério. Um mau líder jamais executará uma boa estratégia, há de estar escrito nalgum texto milenar. Por muito que Costa se esforce por evitar fraturas e tenha até proposto a criação de uma direção conjunta, ou assim parece, porque tem uma câmara a defender, e muito bem, e o partido tem umas autárquicas pela frente, que convém ganhar, Seguro não vai passar a dizer e a fazer o contrário do que tem dito e feito. A súbita proposta de colaboração com uma liderança assim por parte de quem a contestava, e com inteira razão, tendo em vista a sua manutenção (desta feita enriquecida com umas “apps”), além de incompreensível e muito provavelmente infrutífera, pressupõe uma relação de tutela a que o visado, se não for totalmente tonto, não se submeterá docilmente. Mas, apesar de ridículo, imaginemos que sim. Ainda assim o executante não deixaria de ser o mesmíssimo Seguro. Daí até ao descrédito da dita estratégia e, por arrasto, dos seus mentores seria um saltinho. Para o desastre coletivo.

13 thoughts on “Dar um bom guião a um ator de segunda…”

  1. Penso que a sua análise está certa, Penélope. O homem é uma nulidade, tal como o Passos Coelho. A direita colocou lá o Passos, depois da rejeição partidária da Ferreira Leite, fazendo dele um PM empalhado, na certeza de que os ministros fariam o trabalho por ele. Ou melhor, os verdadeiros chefes da direita governariam por cima da irrelevância de Passos Coelho e de todo o seu governo. Cavaco, António Borges; Salgado e outros banqueiros tocariam o barco na direcçâo que lhes desse jeito. Assim vamos governados, com alguns ratos, como Relvas, a aproveitar, por dentro, enquanto é tempo. E agora repare, Penélope. Recentemente, o José Seguro afirmou que nos iria surpreender com os nomes que escolheria para um seu governo. Como não ver aqui a involuntária confissão da sua inépcia, esperando que os tais “surpreendentes nomes” façam o que ele se julga incapaz de fazer? Como não perceber que ele pretende replicar a irrelvância do PM Passos Coelho?
    Mesmo assim, a gente inteligente do PS cala-se?

  2. Admito que o que vou dizer possa ser considerado wishful thinking, Penélope, mas parece-me que o fel histericamente derramado pelo apparatchikinho empertigadinho e engomadinho e sua lealíssima corte, ao sentir o merdoso penacho ameaçado, tornou de tal modo escorregadios os caminhos para o defenestrar que avançar neste momento tornou-se uma armadilha mortal, arriscando, como agravante, inviabilizar eventuais avanços no futuro próximo que possam ainda travar algum descalabro.

    A estratégia do engomadinho parece ser apenas a de facilitar a consumação de tal descalabro, para depois aparecer como salvador. Igualzinho ao Passos e sua quadrilha, a escola é a mesma, foram formatados na mesma matriz.

    Manipular o medo e desorientação em que os militantes do seu partido se encontram será porventura a única coisa em que o engomadinho é bom. Irónico e paradoxal, para não dizer perverso, é o facto de muito desse medo resultar directamente da consciência da fraqueza em que o partido se encontra e de essa fraqueza ser consequência da inabilidade e incompetência de quem tal medo manipula: o engomadinho e sua matilha de chihuahuas amestrados, latindo esganiçadamente a sua ruidosa “lealdade”.

    O frenesim histérico pretendeu apenas aproveitar e inflacionar a insegurança dos militantes e levá-los a pensar que qualquer discussão interna fragilizaria a oposição à quadrilha do pote, mais valendo, assim, agarrarem-se ao que lá está, por fraco que fosse. Sabes tu, sei eu e sabe a maior parte dos que aqui vêm que não há nada mais falso, mas esta foi talvez a única vez desde que chegou a secretário-geral em que o apparatchikinho vaidoso revelou alguma competência. Não foi impunemente que ele andou a vida inteira a cultivar almocinhos, abracinhos e beijinhos no aparelho do partido. É pena que tal competência se revele apenas para tentar anular a competência e eficácia que ainda existem no seu partido, mas as coisas são o que são e o Princípio de Peter revelou mais uma vez a lucidez do seu enunciado.

    O Costa deve ter percebido que o caminho, neste momento, estava de tal modo minado e escorregadio pelo fel derramado e pelo medo cultivado que se avançasse agora arriscava estatelar-se ao comprido, já que só os militantes o podem levar aonde quer ir e o engomadinho, através do aparelho, cultiva e usa a seu favor a desorientação e medo em que se encontram. Espero apenas que tenha capacidade e inteligência para ganhar apoios suficientes e criar condições que permitam a defenestração do empertigadinho vaidoso e furioso num prazo tão curto quanto possível, ainda a tempo de evitar o afundanço total para que nos encaminha a quadrilha do pote.

  3. Pedro: Tem toda a razão.

    Joaquim Camacho: O problema é que na Assembleia as coisas não vão funcionar, como aliás se tem visto e se viu ainda de modo mais flagrante ontem.

  4. Penelope

    Finalmente tenho que te dar razão! Ontem aquilo na Assembleia nao correu nada bem ao Seguro. O rapaz pensava que tinha um coelho na cartola com aquela historia da EDP. Mais, a oposiçao toda foi um desastre! Aquela Catarina Martins não existe. Volta Louçã estás perdoado!!!
    A Penelope sabe a minha orientação política, por isso estou à vontade para falar. Esta oposição ou falta dela, é má para a nossa democracia. O meu amigo Passos Coelho nem necessita de se esforçar muito, para sair da Assembleia com sentimento de vitória. Agora se pensa que o Antonio Prost é alternativa, esta semana, ficou demonstrado ao olhos dos portugueses que não é. Se fosse a vocês, nao perdia mais tempo com este Costa.
    Quanto ao Seguro, este atingiu o principio de Peter quando se tornou SG da JS. O rapazinho nunca deveria ter saido dali. O Seguro parece um meliante da Jota, armado em adulto, a interpelar o Governo. Nos debates politicos que dependem muito, das capacidades dos intervenientes, ficou demonstrado a incapacidade e impreparação do Seguro para ser SG do PS e já nao falo de chefe de Governo, Deus nos acude de tal possibilidade!!!
    Talvez, em Coimbra, no Portugal dos pequeninos, haja lá um parlamento par o rapazinho brincar aos politicos. Mandem-no para lá!!!

  5. Aparentemente a minha “orientação politica” deve ser bem diferente da do Francisco Rodrigues…no entanto, vejo-me obrigado a concordar com tudo o que escreveu.

    E, de tudo, o mais importante é “Se fosse a vocês, nao perdia mais tempo com este Costa”.

    Seguro é uma catastrofe que acabará por cair.
    Costa, é um saco de vento, melhor falante.
    Costa, pode ganhar eleições, mas nunca fará nada.
    Costa, é um Socrático sem tomates.

    Nos últimos anos tem aparecido bastante, no governo, na camara, na televisão, nos jornais…
    Só quem não acompanhou, com atenção, o que disse e fez pode imaginar que dali pode sair um 1º Ministro que possa orgulhar os social-democratas do PS.

    è certo que se tivesse de escolher entre Costa e Seguro…venha o Costa !
    Mas não se arranja ningum melhor?

    No que me diz respeito, encontro mais substancia em 5 mins a ouvir Augusto Santos Silva do que em 5 anos a ouvir o Costa.
    Mas talvez esteja enganado.

    migul

  6. Caro Miguel

    Por falares em Augusto Santos Silva e, já agora, no Silva Pereira, faltam politicos com a capacidade politica, destes dois, no Governo de Passos Coelho. Estes dois políticos que eu respeito, foram os grandes responsaveis pela sustentação das políticas dos Governo de Sócrates. A forma como transmitiam a mensagem era brilhante, embora nao concordasse.
    O Silva Pereira, ultimamente anda apostar nas corridas de cavalos. Tem estado em maré de azar. O último cavalo em que ele apostou, nem saiu do portão de partida!

  7. A todos os que hesitam em fazer o que o momento pede, lembro que Luís XVI — que era menos conservador que a austríaca Maria Antonieta — hesitou demasiado tempo antes de convocar os estados gerais.

    Nos anos que precideram a Grande Revolução, a França estava a braços com uma enorme crise orçamental, motivada pelo envolvimento em guerras — como sendo a guerra da independência dos EUA — das quais não obteve o esperado retorno económico. Quando Luís XVI decide, por fim, reunir os estados gerais, com o objectivo de obter algum consenso social sobre assuntos fiscais, a sociedade francesa já se havia radicalizado completamente. Nessa ocasião, Luís XVI foi completamente ultrapassado e perdeu rapidamente o controle da assembleia, tendo então passado a ideia de ser um líder fraco, indeciso e sem voz própria.

  8. Seguro é o próximo 1º Ministro de Portugal e ainda bem para a maioria dos portugueses.

    Os militantes do PS é que escolhem os seus líderes, felizmente. Não queremos cá “donos do partido”. A promessa cumprida por António José Seguro de dar voz aos militantes locais para escolha dos candidatos autárquicos é a prova disso mesmo.
    Eu acho que os militantes do PS não se enganaram ao escolher Mário Soares, Salgado Zenha, António Guterres, Jorge Sampaio, Ferro Rodrigues, José Sócrates e António José Seguro como Secretários Gerais do Partido Socialista.

  9. “A promessa cumprida por António José Seguro de dar voz aos militantes locais para escolha dos candidatos autárquicos é a prova disso mesmo.”

    topa-se à distância, o cordeiro em cascais e aquele xóriço da lota de matosinhos são a prova da tua míopia. vai rezando para a minagem não ajudar ao projecto socialeiro do anacleto.

  10. baladupovo:

    Será melhor ler com atenção o que eu escrevi. Se Seguro chegar ao poder com todo o ripanço que tem mostrado, isto é, seguindo um calendário que consiste em deixar a nação cair apodrecida, então será tarde demais para ele poder fazer o que quer que seja. Pode-lhe então acontecer o mesmo que a Luís XVI: por ter protelado uma decisão corajosa, acabou por perder o leme do poder político. As classes médias empobrecidas são extremamente vingativas, querem bodes expiatórios e, não raras vezes, sangue. Isto aconteceu sempre, por toda a parte, independentemente dos brandos costumes de uns e de outros; seria surpreendente que não acontecesse também em Portugal, onde as revoltas demoram mais tempo a marinar mas acabam por ocorrer. O PS tem uma janela temporal para evitar que um populismo extremista tome conta do país.

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