Acho grande piada a quem decide andar por aí a papaguear a falácia do Gaspar, segundo a qual os portugueses têm que optar entre uma coisa má – “o aumento dos impostos” – e outra coisa má, ou menos má – “uma maior redução da despesa” (leia-se o desmantelamento do Estado social, fim da educação pública, do SNS, etc.). Embarcaram nesta falácia muitos jornalistas (com Helena Garrido à cabeça) (não garanto, mas aposto que o José Gomes Ferreira não conteve o contentamento perante a formulação de tão brilhante confronto de alternativas), assim como comentadores e colunistas de imprensa, hoje com destaque para o viperino e desprezível Alberto Gonçalves («as exactas forças políticas que criticam os aumentos de impostos também não aceitam reduções na despesa»; «Os “cortes” violam a Constituição (como se estraçalhar as finanças públicas à custa de negociatas e em seguida deslizar para Paris não violasse o artigo que prevê a punição política, civil e criminal das “acções e omissões” que os governantes “pratiquem no exercício das suas funções”». O que está à espera AG para mover um processo-crime?).
A questão, meus senhores, é que não estamos em presença de opções, digamos, disjuntivas. Tal como a situação se apresenta, os impostos “brutais” a que os portugueses ficaram sujeitos, e que já atingiram o limite, são para manter e irão manter-se a par, e não em vez, dos cortes drásticos e repentinos na chamada despesa (este governo entende que todo o dinheiro gasto pelo Estado é despesa, o que é, convém lembrar, um ponto de vista; ponto de vista de quem não hesitará em considerar a Somália um exemplo de Estado pouco gastador). Assim, os comentadores encartados da nossa praça que, em triste figura, se deixam voluntariamente tomar por parvos ou se armam em espertalhões fariam melhor em pensar duas vezes antes de se disponibilizarem para o ridículo e tomarem os ouvintes e leitores igualmente por parvos. E será conveniente que, da próxima vez que o Governo vier falar na redução da despesa vs. aumento dos impostos, alguém lhes pergunte afinal, a aceitarem-se os cortes, quais os impostos que simultaneamente baixarão. Simultaneamente.
O que se passa com este corte de 4000 milhões é que ele parece não ser mais do que a compensação para a enorme derrapagem orçamental de 2012, que o Governo tenta à viva força esconder, e uma medida preventiva para a mais que previsível derrapagem de 2013. Mas, ao mesmo tempo, é-nos dito que não é imposição da Troika, que foi o Governo que propôs (João Proença e penso que o próprio Governo). O que nos leva a concluir que haverá uma tolerância dos credores face aos falhanços de um aluno subserviente e, para nossa desgraça, incompetente, mas que é este que decide aproveitar a presença de credores cuja ideologia partilha para lhes pedir que avalizem e ponham a chancela no programa inicial do então novo PSD, nunca proposto aos eleitores. Há, pois, uma falta de transparência total sobre o que se passa nas relações do Governo com a Troika. E isto não devia nem podia acontecer. Afinal, os governantes deviam estar a representar-nos. Certo é que, através de notícias expressamente secundarizadas, soubemos que a Troika emprestou mais 4000 milhões de euros a Portugal. Porquê, para quê, com quanto entrou o FMI, ninguém perguntou até agora.
Aquilo a que assistimos é a uma estranha promiscuidade e cumplicidade entre a dupla Gaspar/Passos (com Borges na sombra) e o FMI, pelo menos uma dada corrente do FMI, sem estar verdadeiramente claro se é toda a instituição que está nisto envolvida, pois as declarações públicas sobre a austeridade são contraditórias. Como é possível? Uma matéria tão séria como a condução da política e das finanças de um país está a ser tratada ao nível de arranjinhos e combinações à socapa entre amigalhaços, sendo eles os nossos credores? O Selassie sugeriu esta colaboração? Participou no esquema de branqueamento da derrapagem? Participou na farsa da “refundação do Estado” e da aplicação à má fila de um programa não sufragado? Concorda que se retirem neste momento mais 4000 milhões de euros da economia, mesmo depois do desastre a que está a conduzir o excesso de austeridade? É isto comum, encomendar “estudos” e receitas aos credores? Este governo é um escândalo.
