Apanhados pela arte

Francisco Louçã retirou-se para os bastidores, quem sabe se para preparar com tempo um plano de revolução. Continua a ser convidado para entrevistas e, claro, dá-as com todo o prazer. Acontece porém que, depois de ter sido talvez o criador da mais recente e única estratégia do partido, conhecida por “rasgar o Memorando”, tem cada vez menos coisas para dizer. Hoje, no Público, por exemplo, no meio de conversa bastante vã e circular, só é possível destacar três pontos e nem todos novidade. O primeiro, e principal, é a já anunciada Declaração de Independência de Portugal, não através de um grito nas margens de um rio vermelho, mas de um telefonema:

“A força de um governo de esquerda é ter um mandato popular para poder telefonar no dia da tomada de posse à senhora Merkel e dizer-lhe: o memorando acabou, agora falamos com a Europa noutros termos e a dívida será reestruturada. Estamos a falar de uma confrontação política de altíssimo nível com os credores, com a troika e com o directório europeu. O confronto com Passos Coelho é instrumental. Desse ponto de vista, Portugal tem de vencer a troika, tem de vencer Passos Coelho e a troika, para poder afirmar uma alternativa de esquerda.”

E o seu anexo, a nacionalização da banca:

“Só para dar um exemplo: uma reestruturação da dívida implica um controlo do crédito em Portugal; implica portanto um controlo das transferências internacionais de capital.”

O segundo ponto é o do ódio aos empresários ricos, a acusação implícita de corrupção a todos os políticos e o elogio da sua própria pureza e capacidade sobrenatural para fugir ao sistema financeiro:

“Vários partidos têm uma capacidade de actuação na sociedade que, como é de confronto com o sistema financeiro, não é vulnerável à captação pelo sistema financeiro. Tenho muito orgulho de lembrar que Belmiro de Azevedo em entrevistas que deu dizia que já tinha financiado todos os partidos, excepto o BE.”

Sabiam que Belmiro já financiou o PCP? Eu não, como me deixei assim enganar? Quanto ao resto, de facto, nunca vimos nenhum destes militantes anti-sistema financeiro no poder, o povo lá saberá porquê, mas temos pena. Poupar-nos-ia esta passagem da entrevista e de todas as outras, em que o tema do nosso futuro financiamento nunca é desenvolvido.

Finalmente, o terceiro ponto, que apenas merece destaque por contrastar com o que Rui Tavares, eleito eurodeputado pelo Bloco, mas entretanto divorciado, defende amiúde nos seus artigos no Público – uma Europa política. Louçã, pelos vistos, discorda, não sendo porém muito coerente na reta final:

“Qual ficção?”
“O Estado europeu. Há hoje um grupo importante de correntes que têm um intenso vínculo à democracia, mas que acham que a solução que lhes está a ser oferecida para um Estado europeu com províncias nacionais é uma solução democrática superior. E acho que ela é um dos maiores perigos que estamos a viver hoje, porque nem nos próximos 500 anos vamos ter uma nação europeia. Nós vamos ter línguas, culturas, Estados… porque é nesse quadro que podemos exigir a contrapartida da democracia que é a responsabilização dos eleitos.”

Porque é que órgãos europeus eleitos não seriam responsabilizados?! Mas, enfim, e aí estou de acordo, é mais do que razoável achar que, nas atuais circunstâncias de humilhação para muitos países, com a Alemanha totalmente no comando e olhando para os outros protagonistas, uma união política, mesmo que na forma de federação, é totalmente contra-natura.

De assinalar ainda um ponto extra, uma pergunta que constitui um grande momento de humor jornalístico:

O BE é o partido que tem mais ligação aos movimentos sociais. Mesmo assim há um fosso enorme entre a rua e a representatividade política. Porquê?

Que movimentos sociais, please, senhora jornalista? Acaso o BE mobiliza alguma massa de pessoas? Nunca mobilizou e, com a dupla liderança de hoje em dia, penso que está a caminho da morte. Só não podemos deixar de admirar a influência duradoura da arte. A revolução russa e outras do século passado produziram vistosos e empolgantes cartazes e murais. Ainda há quem esteja enfeitiçado.

8 thoughts on “Apanhados pela arte”

  1. quando Francisco Louçã defende que um estado europeu é “um dos maiores perigos que estamos a viver hoje” eu mandaria o Francisco Louçã revisitar o trotzkismo e os perigos de um socialismo que não fosse à escala mundial

    poderia por exemplo ir falar com o seu camarada trotzkista Nick Beams, secretário nacional do Partido da Igualdade Socialista (Socialist Equality Party—SEP) da Austrália que escreveu em 2007:

    “Para Trotsky, porém, o importante não era simplesmente observar as conquistas da economia soviética, mas prever novos problemas e perigos e apontar para os meios de os superar.
    A questão crucial, dizia Trotzky, não era a relação entre o Estado e a indústria privada dentro da União Soviética — por mais decisivo que isso fosse — mas a “bem mais importante” questão da relação entre a economia soviética e a economia mundial como um todo. À medida que a economia soviética entrava no mercado global, não aumentavam apenas as esperanças mas também os perigos.
    Isto porque a superioridade fundamental dos Estados capitalistas estava no baixo preço de suas mercadorias — a expressão de mercado do facto de que tinham uma maior produtividade do trabalho. E seria a produtividade do trabalho que determinaria, em última análise, se seria vitorioso o capitalismo ou o socialismo.
    “O equilíbrio dinâmico da economia soviética não deveria de forma alguma ser considerado como o equilíbrio de uma unidade fechada e auto-suficiente,” escreveu Trozky. “Pelo contrário, conforme passar o tempo, a nossa economia interna será mais e mais mantida pelas conquistas do balanço das nossas importações e exportações. Este ponto deve ser sublinhado pelas suas importantes consequências: quanto mais entrarmos no sistema da divisão internacional do trabalho, mais aberta e diretamente os elementos da economia soviética dependentes do preço e da qualidade de nossos produtos serão afectados pelo mercado mundial.” (1925, Leon Trotsky, Towards Capitalism or Towards Socialism? p. 327)e o seu camarada

  2. Atento,
    finalmente o espírito do Natal entra no aspirina. É que só vejo aqui gente a chamar nomes uns aos outros, esquizofrénicos, bêbedos, sei lá. Está toda a gente muito irritada, uns porque a princesa não tinha que ir para o hospital (ignorância sobre o diagnóstico não conta), outros porque parece que a questão do suicídio ainda não foi estudada há mais de um século pelo Durkheim e antes dele pela eternamente esquecida socióloga – primeira entre os primeiros – Harriet Martineau; alguns acham que direitos e vigilância sobre métodos de actuação policial (incluindo detençoes ilegais e vigilância igualmente ilegal sobre a comunicação social) é uma coisa que se justifica porque houve pedras lançadas (ó 1968, quão longe estás).
    Mas pronto, isto tudo para voltar ao espírito do natal: as pessoas não são vítimas do seu ódio, são vítimas da sua ignorância…É a nossa condição. Tirando alguns que aqui andam, que estão acima dessa condição, e como o outro, nunca se enganam, porque não bebem e são muito equilibradinhos. Por acaso há uma categoria clínica para tratar desses casos, mas voltando ao “espírito”.
    http://www.youtube.com/watch?v=l6MFN8yiVc0

  3. Será que lemos a mesma entrevista hoje no Publico??????

    Mas anoto a preocupação da Penelope com os empresários ricos, é sempre bom saber com quem se preocupam as Penelopes do Aspirina…..

  4. lemos todos o mesmo, mas há muitas TONALIDADES DE PRETO,
    ESTA É JÁ PARA A PASSAGEM DE ANO!

    go ahead, go ahead and smash it on the floor
    take whatever is left, and take it with you out the door
    see if I cry
    see if I shed a single sorry tear
    can’t say that it’s been that great
    no in fact it’s been a wasted worried year

    everybody sees
    and everyone agrees
    that you and I are wrong
    and i’ts been that way to long
    take it as it comes
    and be thankful when it’s done
    there’s so many ways to act
    and there’s many shades of black
    there’s so many shades of black

    let it out, let it all out
    say what’s on your mind
    you can kick and scream and shout and say things that are so unkind
    yeah-see if I care, see if I stand firm or if I fall
    cause in the back of my mind, and on the tip of my tongue
    is the answer to it all

    and everybody sees
    and everyone agrees
    that you and I are wrong
    and i’ts been that way too long
    take it as it comes
    and be thankful when it’s done
    there’s so many ways to act
    and there’s many shades of black
    there’s so many shades of black
    yeah there’s many shades of black

    everybody see and everyone agrees
    that you and I are wrong
    and it’s been that way too long
    so take it as it comes and be thankful when it’s done
    there’s so many ways to act
    and you cannot take it back
    no you cannot take it back
    cause there’s many shades of black
    there’s so many shades of black
    yeah there’s any shades of black
    there’s so many shades of black
    http://www.youtube.com/watch?v=sORsbI8n7Ys

  5. louça está convencido que merkel vai está no poder 200 anos,e nós os mesmos anos com o mesmo memorando,para lhe telefonar quando chegarem ao poder. ridiculo.eu não li ainda bem. quanto aos grandes empresarios ricos,são para defender pelos postos de trabalho que possam criar e pelas pequenas empresas que gravitam á sua volta. A auto europa tem donos ou não? saõ pobres? quantos postos de trabalho diretos e indiretos criam em portugal? os ricos que manobram nas areas financeiras,sem nada criar pelo contrario,esses si devem ter o nosso repudio.

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