Arquivo da Categoria: Penélope

PSD – Negócios com Passos Coelho, eu?!

Excertos de uma investigação de J. A. Cerejo publicada hoje no Público (sem link) sobre uma ONG criada por Passos e a sua Tecnoforma (sendo Relvas o canalizador dos fundos europeus, na sua qualidade de secretário de Estado) e cujas realizações concretas ninguém que tenha sido questionado sabe identificar ou localizar.

Ângelo Correia:

“Ai que engraçado! Então, sem querer, ou por querer, eu estou ligado à Tecnoforma. Olhe que engraçado. Não tem graça nenhuma, mas é a vida!” Foi nestes termos que o antigo dirigente do PSD Ângelo Correia comentou o facto de ter sido admitido em 1996, por proposta de Pedro Passos Coelho, como fundador do Centro Português para a Cooperação (CPPC), que tinha sede nas instalações da Tecnoforma. Pouco antes, tinha afirmado, depois de questionado sobre a sua participação numa organização não-governamental (ONG) com aquele nome e com ligações a uma empresa em que Passos Coelho trabalhou: “Dou-lhe a minha palavra de honra que não sei o que isso é.”

Marques Mendes:

“Tem a certeza de que eu fui membro disso?” Informado de que foi mesmo um dos outorgantes da escritura que a constituiu, adiantou: “Com franqueza, nem me lembrava disso e não faço ideia de quais eram os seus objectivos.” Sobre as relações entre o CPPC e a Tecnoforma também nada sabe. “Nunca conheci essa empresa, embora soubesse das relações profissionais do dr. Passos Coelho com ela.”

E o presidente do conselho fiscal, Luís Carvalho, “Em concreto, não se lembra de nenhum projecto concretizado nem sequer de que havia uma ligação entre a Tecnoforma e o CPPC. Tal como todos os outros fundadores ouvidos pelo PÚBLICO, afirma não se recordar dos projectos da organização que o Fundo Social Europeu financiou em Portugal, com cerca de 137 mil euros, até ao ano 2000, muito depois da data em que diz ter sido suspensa a actividade da ONG.”

No mesmo jornal, pode ainda ler-se a notícia da decisão do Supremo de vedar o acesso à avaliação da casa de Cavaco Silva no Algarve, adquirida por troca pela sua anterior casa, de muito menor valor e área.

Pesadelo

Não é que estes elementos do PSD não tenham o direito de definir um programa para o país totalmente neoliberal, que tenha por objetivo reduzir o Estado à coleta de impostos aos mais remediados, à promoção da caridade e à manutenção da ordem pública. Têm. Não têm é o direito de esconder esse programa na hora das eleições, iludir os portugueses com a eliminação das “gorduras do Estado” que tudo resolveriam, imputar responsabilidades por uma bancarrota inventada ao anterior primeiro-ministro (que nada tem a ver com os desígnios desta nova gente para Portugal) e invocar, com base nisso, um pesado fardo do qual estão a libertar os portugueses, a coberto de uma Troika de credores cujas ideias radicais e principal objetivo bem conhecem.

Honestidade seria o mínimo que os portugueses lhes deveriam exigir, já que o tal primeiro direito lhes assiste. Mas o comportamento, e bem assim a entrevista de ontem, foram tudo menos honestos. Além de medíocre, o que já seria de esperar, a prestação de Passos na televisão foi sobretudo reveladora da intenção permanente deste governo de ludibriar, e cada vez mais inabilmente, quem os ouve. Começou pela ligeireza com que se referiu à derrapagem monumental de Gaspar no orçamento deste ano, que pelos vistos pouco importou, pois o que conta é a intenção e a intenção é empobrecer o país (para reduzir o peso das importações na balança externa, pasme-se; mas isso levar-nos-ia longe). Depois desligou-a completamente da nova carga brutal de impostos para 2013. A questão dos 4000 milhões de euros de cortes na despesa foi metida numa embrulhada de discussão do Estado social até ao verão, enquanto declarava que até fevereiro as medidas estariam definidas. A própria necessidade dessas medidas também não foi explicada claramente, nem o papel da Troika nesse particular. É certo que os entrevistadores deixaram muitas perguntas por fazer, algumas flagrantes, como quando ficou claro que afinal as chamadas gorduras são salários e prestações sociais. As novas condições de que Portugal poderia beneficiar também não entusiasmaram esta espécie de primeiro-ministro, que possivelmente vê nelas uma séria perturbação do modelo Excel de Gaspar.

Devido às mentiras que andou a propalar durante um ano, antes de ser eleito, tornou-se evidente que as artimanhas para implementar o seu verdadeiro programa são mais que muitas e não têm limites. E percebe-se mesmo que são eles que apresentam um programa de medidas mais drástico à própria Troika, que rejubila, claro (“Vocês têm um Ministro das Finanças muito impressionante”, disse Selassie). Enquanto a população estiver controlada…

E, de facto, em matéria de manifestações, esta entrevista teve uma forte componente de provocação. Não havendo Presidente da República nem coragem no parceiro de coligação (o que saberá o Relvas de Cavaco e de Portas?) para pôr um travão nesta corrida para o abismo, o que foi dito é que as manifestações são uma espécie de romaria, falou-se mesmo em festa, lamentavelmente estragada por alguns, mas uma festa que o Governo até saúda, desde que não lhes compliquem a vida. Irão até onde puderem e enquanto puderem, é o que podemos concluir. Os cortes que sucederão a cortes que sucederão a cortes, que foi a única perspetiva aberta por esta entrevista, não terão opositores porque o povo é pacífico. Até dá vontade que não seja.

Estejam calados e, de preferência, quietos

Nalguma televisão perto de si é altamente provável que ouça comentadores (e jornalistas atordoados, como Helena Garrido) a desafiarem o PS a calar-se – a propósito das críticas feitas aos excessos do incompetente Gaspar – ou a apresentar alternativas 1) ao aumento brutal de impostos para 2013 (incluindo do IVA na restauração) e 2) à reforma do Estado social agendada para daqui a três meses e que tem de garantir um corte de pelo menos 4000 M€ na chamada “despesa” do Estado. Quando ouvir tal censura/desafio, lembre-se do seguinte: o PS, que conta com quadros altamente competentes e experientes, nunca se lembraria, nem com o Seguro na liderança, de enfiar pela garganta dos portugueses uma dose cavalar de um medicamento tão forte e repleto de efeitos secundários. Muito menos o faria com requintes de malvadez, ou seja, deliberadamente e com uma folha de cálculo na mão, como parece. Mas o PSD, sempre básico na burrice, não se lembrou de outra coisa!
Gaspar e os que, por vacuidade, nele apostaram as fichas todas fizeram asneira e da grossa ao quererem ir mais longe do que o programa da Troika – destruíram a economia muito para além do previsível em contexto de “assistência” externa (que haveria que evitar!), não obtiveram as receitas pretendidas, não reduziram a dívida, não reduziram o défice e aumentaram a despesa do Estado. Perante estes resultados, seria de esperar que avançassem de mansinho, disfarçassem mas negociassem alguma inversão ou mera suspensão de trajetória e não tivessem o desplante de criticar quem os critica por se terem estatelado desta maneira apesar dos avisos. Mas desplante é coisa que não lhes falta. Assim, vão ao depósito da São Caetano, onde o diligente Moreira da Silva os municia, e começam a disparar contra os outros, proclamando que quem ousa criticar deve apresentar alternativas. Ó alminhas! A alternativa, apesar de ser tarde, era saírem daí e não terem aberto o buraco que abriram, mas, dada a impossibilidade, pelo menos não mexam mais onde não sabem. Quietos fariam menos estragos. Se o encerramento de restaurantes devido à insustentabilidade da nova taxa de IVA vos traz menos receitas do que a manutenção da taxa nos 13%, o melhor será absterem-se de intervir nessa área. E, se a retirada de 4000 M€ a mais da economia em 2012 através dos cortes “além da Troika” produziu o descalabro que hoje se vive, sente ou observa, parem de retirar mais dinheiro da economia (mais 4000 em 2013 a somar ao que se subtrairá com os novos cortes previstos no OE) e poupem-nos ao discurso subsequente de que não podemos pagar o Estado social que temos. Nós sabemos porquê. E sobretudo mudem de ferramenta – vão buscar o cérebro. Não tarda muito não teremos sociedade que justifique sequer um Estado.

“O Citigroup prevê uma contracção de 4,6% do produto interno bruto português (PIB) em 2013 e de 2,4% em 2014 e a “fadiga causada pela austeridade está a crescer rapidamente”, salienta. A dívida pública deverá crescer para um valor equivalente a 140% do PIB até 2014, sem reestruturação, estima o banco.”

Não sejam hipócritas

Quanto mais cortes houver na despesa do Estado e nos rendimentos, mais a economia se afunda. E quanto mais a economia se afunda, mais o Governo dirá que não produzimos para pagar o Estado social. E quanto maiores forem as derrapagens orçamentais, mais o Governo insistirá em que o Estado gasta demais. Até quando? Querer chamar o PS a participar nesta farsa a que chamam “repensar as funções do Estado”, que não passa de um eufemismo para a urgência de tapar os sucessivos buracos abertos pelo fanatismo e a incompetência e a destruição da economia, é não ter vergonha nenhuma. Não é, senhor vice-presidente do PSD?

Este homem nunca tal viu

Pergunta o JN a Selassie:

“Qual é a opinião que tem de Vítor Gaspar? Tecnicamente? E pessoalmente?

(risos) Vocês têm um ministro das Finanças muito impressionante. E não posso dizer mais.”

De facto, não deve ser normal, devendo ser mesmo caso único no mundo, encontrar um governante de um país sob assistência tão entusiasmado em esmifrar o próprio povo. Mais ainda do que os credores.

Sexto exame regular ao ministro: não passa

Por interesse político e sociológico, convém não perder, de vez em quando, uma conferência de imprensa de Vítor Gaspar, enquanto duram, e preparar-se para resistir. Foi o que fiz.

Fiquei a saber, dada a minha distração, que o programa de ajustamento está a ser um sucesso. Tudo corre conforme previsto e 95% das medidas já foram ou estão a ser implementadas com êxito. Assim sendo, diz-nos Gaspar articuladamente, em finais de 2013 retomaremos o crescimento, que em 2014 será de 0,8% e em 2015 de 1,8%. O restante relato deste extraordinário caso de sucesso pode ser lido num jornal perto de si, ou eventualmente no site do Ministério das Finanças, transpondo a porta da realidade. Destaco apenas a parte em que se referiu ao corte de 4000 M€ na despesa nos próximos dois anos, a iniciar já no início de 2013, que deliberadamente não especificou, mas cuja abordagem revelou claramente o apreço que tem pela democracia e o consenso. Sua Competência não considera necessário discutir o assunto com a oposição nem com os partidos enquanto tal. Já que tem de ter em conta variáveis políticas/sociais desse género lembradas pelos jornalistas, mas que não lhe apareciam na folha, diz privilegiar antes a discussão alargada a toda a sociedade, incluindo os parceiros sociais, mas não aos partidos. Ou seja, a todos e a ninguém. Enquanto tal acontece, em televisões, nos jornais, nos cafés, nas ruas, no planeta, de preferência não no Parlamento, e os portugueses andam assim entretidos com o circo, o Banco Mundial e outras eminências convidadas já lhe traçam o modelo que ele mesmo preencherá com todo o gosto e apresentará em Fevereiro aos portugueses, findos os debates, que ele espera tenham decorrido bem e com espírito de cidadania, mas em que obviamente não participou.

O à-vontade e visível deleite com que recorre a eufemismos e tergiversações, sobretudo quando não lhe interessa ou não quer responder, é tal que me pergunto com que habilidades de estilo nos brindará na altura da cessação precoce das suas funções. Gostaria de não demorar muito a saber. O ministro tem todo o direito e mais algum de ir para uma conferência de imprensa munido das defesas que melhor domina. Pena que as perguntas nem sempre tenham sido mais incisivas e persistentes ao ponto de as quebrarem, embora eu tenha consciência de que o ministro manteria o sistema estudado de não aprofundar o que não lhe interessa, que é muito. Pelo que desse círculo não se sairia nunca. Mas teria valido a pena expor mais a opacidade. E o que não lhe interessa, percebeu-se, é justificar-se quando confrontado com erros de previsões, derrapagens orçamentais sempre ignoradas, destruição evitável de empresas e de postos de trabalho, crescimento da dívida pública, diminuição das exportações, exageros e fundamentalismos de consequências tragicamente à vista. Enfim, as ruínas. As que ele não pisa, nem conhece. E, tudo indica, não importam. São coisas que acontecem, danos colaterais, por vezes premimos um botão e a casa vem abaixo, mas estaremos sempre no caminho certo. É só voltar a premir o mesmo botão. Os estrangeiros da Troika, sobretudo os europeus, concordam.

O certo é que, se o homem já acreditava à partida num ajustamento “científico” da nossa economia, com base num modelo que ignora os ecossistemas e sobretudo as pessoas, os descalabros reais e as críticas apenas o levam a intensificar a crença nas virtudes da sua missão. Soou assim a pergunta vinda do outro mundo aquela que pretendia saber o que faria o ministro na reunião em que estará presente na quarta-feira, em Berlim, em defesa dos interesses do país. Interesses do país?

Há pouco a fazer, mas alguma coisa terá de ser feita. Por nós, cidadãos com voz, pelos partidos, ou até, em última análise, como diz quem sabe, pelos bancos, a quem não pode interessar a miséria sem fim dos potenciais clientes. Um ministro destes, que raia a loucura e é o modelo acabado da subserviência a interesses políticos alheios, não nos interessa mesmo nada.

Último episódio ou apenas o mais recente?

Com várias séries de suspense a correr ao mesmo tempo (ANA, TAP, estaleiros, IRS, IVA da restauração, refundação ora do Estado ora do Memorando, etc.), cada uma orientada em função do grau de desnorte ou explorada em função dos interesses político-mediáticos do momento, mas todas com um provável desfecho dramático, a da RTP acaba de evoluir para mais um episódio, não sabemos se o final. Parece que não vai haver revolução nenhuma e que os dois canais televisivos públicos se mantêm, assim como os três de rádio. Quem o diz é Alberto da Ponte, o novo administrador, nomeado por Relvas.

Construções muito mal-vindas nos tempos que correm

Lou Ruvo Center for Brain Health.

À primeira vista não se diria, mas é uma clínica de saúde mental e situa-se em Las Vegas, terra onde pensávamos já ter visto tudo em reproduções ou originalidades arquitetónicas. Ao fim de anos de tentativas, a coincidência de uma perda sofrida de familiares conseguiu convencer Frank Gehry a deixar lá a sua obra. Resta-me desejar que os doentes, uma vez no interior, encontrem algum equilíbrio e pontos de referência.

Aproveito para deixar o meu profundo lamento a quem ficou sem carro, casa ou outros haveres no Algarve.

Deixem lá, para a próxima não será melhor

Louçã, tivesse nascido no século I AD, poderia ter sido um Apolónio de Tiana, famoso e milagreiro como Cristo, vestido de túnica branca e pregando a frugalidade e a pureza, no império e mais longe. A voz está lá. Mas, nestes anos da graça, não lhe foi fácil conquistar adeptos sequer numa zona circunscrita desta ex-província romana. Na prática, há poucos crentes no reino dos amanhãs que cantam. Era um sátiro e admirado enquanto tal. O par que agora o substituiu, e que ontem foi entrevistado na RTP, não permite, dos seus rostos, a mesma leitura, pelo que a “mensagem” ainda menos passa. Sem a voz e as convicções algo alucinadas de Louçã, as propostas de rasgar o Memorando, nacionalizar os bancos, a crença de que a evolução da situação social em Portugal lhes dará um número avassalador de votos, a ideia de que Cavaco demite o Governo já para lhes fazer o serviço, a cortesia de Semedo a remeter cadenciadamente para as palavras da sua consorte, mas vindo em seu socorro quando a via “entalada”, a falta de explicação da nossa futura fonte de financiamento após a rutura com a Troika, a resposta patética de que um líder único também nada decide sem consultar outros, enfim, tudo aquilo foi penoso de ver. A ponto de não excluir a possibilidade de me ter escapado alguma afirmação verdadeiramente importante por ter, nalguns momentos, mudado de canal.

Hollandix, o gaulês, vai deixar que o céu lhe caia em cima da cabeça?

Interessante e esclarecedor ler o Der Spiegel online. Notícias várias, mas sobretudo uma dá-nos uma certa noção do rumo complicado que as coisas estão a tomar no que à Europa diz respeito. A crise do orçamento que se avizinha reflete e acelera a crise do “ajustamento” que já se vive mais ou menos por todo o lado. Imposições alemãs, mas com aliados. O Reino Unido, cada vez mais eurocético (não sei se também anti-alemão) propõe-se vetar o próximo orçamento europeu, caso este não seja substancialmente reduzido. A encorajá-lo, tem sondagens que lhe garantem que 49% dos britânicos estão com vontade de abandonar a União Europeia, contra apenas 28% que querem permanecer. Merkel defende cortes, como não podia deixar de ser, embora não tão significativos como David Cameron, e vai dando graxa aos britânicos dizendo-lhes que foram eles que livraram a Alemanha do nazismo, que a UE não faz sentido sem eles. Acontece que os seus agricultores também são grandes beneficiários dos fundos da PAC. A França, por sua vez, ameaça também com o veto, mas por motivos opostos, ou seja, não quer um corte drástico nas verbas para a agricultura. O Comissário alemão com a pasta da energia, Günther Oettinger, dá-se entretanto ao luxo de proferir frases lindas, paternalistas e extremamente pacificadoras, do género “Os meu filhos problemáticos são a França e o Reino Unido” e não se inibe de dar conselhos à França para que acelere as reformas (leia-se: mais austeridade, tão ao seu gosto). Soube-se mesmo que Schäuble, ministro das Finanças alemão, decidiu convocar peritos alemães para integrarem um grupo de trabalho específico que irá estudar as medidas adequadas a aplicar … pela França. Os panzers, quando avançam, avançam. Entretanto, ainda há direito de reunião e Hollande e Cameron reúnem cada vez mais com Monti, talvez também com Rajoy. Passos não. Entende que está tudo bem porque a chanceler o diz.

A Gália também não está, pois, em bons lençóis, mas daí até receber instruções da Alemanha é capaz de ir um grande salto, ou não? Os conflitos não acontecem de um dia para o outro. Vão-se desenhando. Quando forem muitos a entender que não ganham nada em pertencer ao clube, é a chantagem, ou o fim. A chanceler alemã anda perigosamente a jogar na Europa com os olhos postos na sua reeleição, na Alemanha, daqui a dez meses, a bem dizer anda nisto constantemente, dadas as sucessivas eleições nos diversos Länder. O mínimo que se pode esperar é que os outros não sejam parvos, mas que tenham o sentido da responsabilidade, um dilema dilacerante, perante o tsunami mundial que seria o fim do euro. Se a tudo isto juntarmos o FMI a proclamar ideias contra-corrente e a não se entender com o Eurogrupo sobre a dívida da Grécia, adivinha-se muito mau tempo no canal e a sua deslocação acelerada para o continente.

+ 2 BÓNUS NATALÍCIOS

1. Adolf Hitler (pouquíssimo a ver com o post acima). Um deputado russo propõe-se comprar a casa onde nasceu Hitler, em Braunau am Inn, na Áustria. As autoridades austríacas não sabem o que fazer dela, há evidentemente controvérsia quanto ao destino a dar-lhe, mas parece que pagam atualmente ao seu proprietário 5000 euros de renda mensal. A ideia do russo é angariar fundos suficientes, comprar a casa e depois demoli-la. Só pelo prazer. Único senão: o atual proprietário não quer vender. Compreende-se.

2. O novo aeroporto de Berlim, outra vez. Devido a novos problemas no sistema de segurança contra incêndios, a conclusão do novo aeroporto de Berlim foi mais uma vez adiada. Já aqui há uns tempos relatei as peripécias e incompetências várias de que a obra tem sido vítima, o que me levou a desmistificar a suposta competência e o suposto rigor dos alemães (evidentemente, não quero generalizar; mas não são nem mais nem menos geniais que os outros). Este adiamento atira a conclusão da obra para 2014, na melhor das hipóteses, pois há técnicos que defendem que, face à gravidade dos problemas entretanto detetados, o melhor será demolir pura e simplesmente uma parte do novo terminal e recomeçar tudo de novo. Entretanto, chovem os pedidos de indemnização, que aumentam de valor.

Merkel a basar e o Bloco a vazar

Os minutos que ainda vou gastar com o Bloco apenas se devem ao facto de o PS ter como líder o Seguro e de isso lhes dar alguma esperança de serem chamados a um futuro governo. Seguro tem por enquanto o bom senso de não querer eleições. E, quando as quiser, pode já não liderar o partido. A cada qual o seu drama.
Quanto à Convenção, vamos lá a ser objetivos. A proposta de rasgar o Memorando é de tal maneira disparatada e radical que só pode inserir-se num joguinho político muito mal concebido que visa entalar o PS (como sempre), nada tendo a ver com a defesa dos interesses dos portugueses. Está à vista: basta a direção do PS dizer, como se esperava, espera e esperará, que não rasga memorando nenhum (muito menos o declara; é a política, estúpidos) nem envereda por soluções extremas e irresponsáveis, para logo vir a resposta pronta da malta bloquista “Afinal estão pelo Memorando ou contra ele? Isto não pode ser, estar com um pé fora e outro dentro”. Pensam assim cumprir a fase “soundbyte” da estratégia e angariar alegres e contentes carradas de apoiantes graças à sua “genuinidade” e coerência e às “contradições” do seu adversário. Mas que idiotas, como se o mundo fosse assim tão bicolor e as pessoas não soubessem que o não é. Como se quem governa não tivesse de lidar com políticos eleitos de outros países, banqueiros, empresários, bolsistas, presidentes de eurogrupos e outros “capitalistas” deste mundo. E com acordos internacionais, já agora. Como se os farsantes que nos governam neste momento não tivessem uma agenda neoliberal própria e não tivessem aproveitado a Troika e o Memorando para a pôr em prática! Como se não houvesse maneiras de gerir politicamente o cumprimento do Memorando.
O engraçado é que a estratégia é tão furiosa e desvairada que estas almas nem temem ser apelidadas do que são e nunca deixaram de ser, extremistas e radicais. Sê-lo-ão. Ao contrário do que imaginam, não ganham credibilidade alguma. A proposta é objetivamente extremista e impraticável. Com propostas destas, apenas reforçam a ideia que 90% dos eleitores (votantes do PCP incluídos) fazem deles e continuarão a ser considerados tontos e imaturos. Oferecem, nomeadamente, o flanco ao PS, que, pela voz de distintas figuras, não perdeu tempo a ridicularizá-los, descrevendo-os a queimarem o memorando no Terreiro do Paço. Presumivelmente em grande festim azteca ou de bruxas shakespeareanas em volta da pira, acrescento eu.

Louçã foi-se embora, mas legou à nova direção o grande desígnio de salvar o partido emulando o Syriza. Outro erro. Portugal não é a Grécia, nem o espetro partidário e história política têm qualquer comparação. O novo par de líderes que é suposto executar a estratégia é composto por João Semedo, um médico ex-PCP que debita serenamente no Mário Crespo, no café e provavelmente nas comissões parlamentares, já tinha idade para ter juízo, mas que na tribuna não entusiasma nem arrebata, e Catarina Martins, basicamente uma atriz que gosta de protagonismo e palco. Impressiona a forma como não pestaneja enquanto fala, como no teatro declamado. Grego? Não vão longe. Se o Louçã vier a cada momento dar uma ajudinha, vamos divertir-nos imenso. Se não vier, ai Jesus que lá vão eles.

Mas o que é “recusar o Memorando”?

Em primeiro lugar, qual o memorando que recusam? O inicial, a sua quinta versão ou todo e qualquer memorando? Ou será que recusam o Memorando por só agora verem as suas consequências? Isto tem que ser esclarecido, malta.

Caso não se lembrem, foi também por vossa responsabilidade que o país se viu obrigado a pedir um empréstimo externo que todos sabiam vir acompanhado de condições. Estas condições são historicamente tão tenebrosas que José Sócrates, como qualquer político responsável e patriótico, resistiu até ao limite a dar tal passo. Merecia que lhe dessem ouvidos e o apoiassem, pois estava completamente certo. O Bloco vir agora pugnar pela recusa do Memorando só pode significar uma de três coisas: ou são imaturos e ignorantes do historial do FMI e da visão punitiva e moralista dos europeus do norte (em boa medida, mas não exclusivamente, por conveniência eleitoral), ou querem dizer que estão arrependidos de terem contribuído para esta humilhação (para o que já vêm tarde), ou querem simplesmente dizer que Portugal não devia ter pedido empréstimo algum, não devia ter assinado documento algum e, presumo eu, devia ter ali e logo proclamado a revolução (mesmo sem apoiantes) e o fim do capitalismo em Portugal. Obviamente, a saída do euro e da União Europeia (coisa que nunca dizem). Terá sido por isso que não foram às primeiras conversas com a Troika? Mas onde está a coerência, se foram depois às segundas?

Como não chamar radicais, juvenis, agitadores e gigantones aos militantes desta corrente?

Panzer político

Ontem, Merkel foi pregar a austeridade para o Parlamento Europeu. Bem aconselhada, envolveu-a num manto de amor pela Europa, ao ponto de não ter sido confrontada com perguntas particularmente agressivas. Concedeu a graça de elogiar certos países, como o miserável Portugal dos engenheiros contratados a 800 euros antes de impostos, por terem baixado os salários, “tornando-se assim mais competitivos”. Ignora certamente que por cá, ou em Espanha ou na Grécia, ninguém nota as vantagens de ser mais competitivo nesses moldes.

De modo que, em matéria de remédio alemão para a crise, podemos pôr as coisas nestes termos, depois de lidas várias sínteses jornalísticas: se em Berlim se ouvirem os gritos das populações em “ajustamento” como antes eu ouvia os guinchos dos animais no matadouro da minha terra, ou, ainda que em silêncio, os odores do sangue derramado lá chegarem, os países estão no bom caminho. Caso contrário, o método de abate não está a ser eficaz e há que censurar, obrigar ou mesmo mudar os (ir)responsáveis locais, chantageando-os com a carteira e com o pavor de a casa vir abaixo. Esquecem-se que a casa também lhes cairá em cima. Daí o apelo à maior integração europeia.

A quem agrada esta União Europeia de orientação alemã? A senhora insiste no policiamento mútuo dos Estados-Membros (voltou a repeti-lo) a nível orçamental, pouco se importando com as desconfianças, denúncias e mal-estar que tal pode provocar (a acrescentar ao que já se verifica). Tudo o contrário de uma “união” ou mesmo de uma federação, que diz ser o seu objetivo. Desconfio que o Wisconsin não anda a meter o bedelho no orçamento do Nebraska… Mas tal controleirismo, ao invés, também pode abrir caminho, ou pelo menos não evita, compadrios, encobrimentos e negociatas. Diz querer uma Europa mais democrática e fala em atribuir mais poderes ao PE. Mas alguém na conjuntura atual está preparado para acreditar que a Alemanha cederá a sua soberania a órgãos eleitos por todos os cidadãos europeus fora do seu controlo? A Europa está na realidade a ser paulatinamente ocupada. Política e culturalmente. As primeiras consequências são a pobreza e/ou a fuga. As seguintes não são seguramente a riqueza e a paz.

Editorial falhado do Público

«Afinal, o Governo já tem um “modo de cortar 4 mil milhões de euros” na despesa social do Estado. Quem o revelou foi o líder socialista após uma reunião com o primeiro-ministro. Infelizmente, porém, António José Seguro nada disse em que consiste esse “modo” de cortar no Orçamento. De resto, essa questão não o parece preocupar. O PS está contra qualquer corte e, mais, aproveita a oportunidade para renunciar ao memorando de entendimento que assinou com a troika. Tudo o que acontecer a seguir, diz Seguro, é da responsabilidade “do Governo e da troika”. Fugir da realidade é sempre um recurso possível e por vezes lucrativo de quem está na oposição. Mas o PS não é o PCP ou o Bloco. Face à volatilidade da situação, Seguro pode ser convocado para governar antes do fim da legislatura. E, se essa “desgraça” lhe acontecer, vai ter de assumir que tem um buraco no compromisso com a troika para resolver. Fugir à discussão (envenenada, é certo) que Passos propõe pode ser, por isso, um enorme tiro no pé.»
(Segunda parte do editorial, sem link)

Não gosto do Seguro e nada naquele homem me inspira confiança ou revela saber, consistência ou segurança, mas, empurrado ou não por figuras ascendentes e pesos pesados do partido, ousou romper mais um bom bocado com os golpistas no poder. Como deve ter suado, como lhe deve ter custado. Mais friamente, por esta altura já deve ter percebido que tem a cabeça a prémio se pactuar. E, assim, não posso deixar de registar com agrado a sintonia que recentemente se criou no PS face ao descalabro orçamental e à fórmula tão espertalhona quanto assassina com que o Governo decidiu a fuga em frente – a refundação, que começou por ser uma manobra de desvio do tema essencial do orçamento, transformou-se, com os dias e com as críticas ao seu significado ou à falta dele, em reforma e fez luz sobre os cozinhados do Gaspar com os “chefs” do FMI e do Banco Mundial. Seja um percurso estudado (o confisco fiscal, o empobrecimento e o golpe fatal no Estado social), seja resultado de asneiras de incompetentes teóricos, o que é certo é que retirar mais 4000 milhões de euros à economia, em cima da carga fiscal de 2013 (a ser aceite pelo TC), vai significar a machadada final no país, que ainda mais rapidamente se encontrará na situação da Grécia.

O próximo governo não pode, por isso, ter medo de confrontar a Troika com o falhanço da receita, tenha ela sido imposta ativamente ou aceite conivente ou passivamente pelos seus representantes. Se, nas palavras de Gaspar, nem daqui a quarenta anos a nossa dívida regressa aos níveis de 2005 (e porquê 2005?), como pode o maior partido da oposição não se distanciar e propor mudanças e correções? Além disso, o Memorando inicial já não existe e o que existe nada tem a ver com o PS: o PSD incutiu-lhe outro rumo e os pressupostos em que se baseava alteraram-se significativamente. Apenas fanáticos ou rendidos não consideram útil e urgente a sua renegociação. A mudar o governo, todas as cartas devem ser postas em cima da mesa – a renegociação de prazos, de juros, da dívida e, se nada resultar, o abandono do euro. Como aqui já disse, os alemães não iam gostar. O editorial do Público não faz mais do que defender a manutenção da colónia penal em que nos estão a transformar.
Um tiro falhado.

Marrocos Norte

Aposto que, se alguém interrogasse Angela Merkel sobre o encerramento da fábrica de ursinhos de peluche de Oleiros e a sua reabertura na Tunísia, ela responderia que os portugueses têm de aceitar a redução de salários, caso contrário é isto que acontece. Para bem dela, seria bom que tal resposta fosse dada longe da multidão…

O Gaspar, apesar de se dizer ofendido por aqueles que o acusam de não estar a defender os interesses de Portugal, concordaria certamente. Mas é um forte candidato a urso. Infelizmente dos que ficam. A via dos baixos salários é um engano: há sempre um país perto de si com mão-de-obra mais barata. Até a China já “deslocaliza” para o Vietname.

Escolham outro adjetivo, por favor

E respeitem o encantamento do amor.

Obcecada, afunilada, cega, ébria, obnubilada, doente, transtornada ou algo assim.

APAIXONADA, não. Não sejam incompetentes também em comunicação. Estar apaixonado é um estado físico/emocional tão inebriante e compensador que só pode suscitar inveja a quem observa. Longe, muito longe, do que está aqui em causa e do espírito arrogante, castigador e autoritário que inspira a política alemã para a Europa hoje em dia. Em suma, esta formulação equivale a dizer que Hitler estava apaixonado por campos de concentração.

«O PS acusou este sábado Angela Merkel de estar “completamente” apaixonada por austeridade, considerando que está “em sintonia” com o primeiro-ministro português, reagindo ao apelo da chanceler alemã aos parceiros europeus para um esforço grande nos próximos cinco anos

Como implementar um programa em quatro etapas

Primeira etapa: Receção de boas-vindas à Troika. Gaspar encantado oferece-se para lhes poupar viagens e dores de cabeça.

Segunda etapa: Inventar um desvio colossal e cortar dois salários na função pública. O termo precaução ganha novo sentido.
Aumentar os impostos indiretos (IVA).
Fingir que se ignoram as consequências das duas medidas na economia, nas receitas, no desemprego. Buraco orçamental, este sim monumental, recessão.

Terceira etapa: Em cima das medidas anteriores, aumentar os impostos diretos (IRS, IMI e outros) – novo buraco, maior quebra da economia, mais desemprego. Devastação. Limite da carga fiscal atingido.
Não fingir que se ignoram as consequências, mas aludir vagamente às exigências de uma tal Troika e mais fortemente a um plano de ajustamento, que não nos deixam alternativa. Mandar emissários à televisão matraquear este argumentário. O da falta de alternativa. Começar a falar no corte da despesa.

Quarta etapa: Perante os legítimos e generalizados protestos contra a carga fiscal e o falhanço da receita, escamotear a responsabilidade do Governo, centrar as atenções na carga fiscal e alegar que menos impostos só com menos serviços e começar, a partir daí, a desmantelar ou a privatizar os serviços tradicionais do Estado (não é o que se faz na Europa) – ensino, saúde, Justiça, segurança (?), defesa – e diminuir drasticamente os apoios sociais. Diabolizar o Estado social.

E já está. É simples. Negócios entregues aos amigos e a quem pagar em géneros e em diferido ao Relvas (e não só), salários acentuadamente reduzidos e maior número de desempregados, logo, mão de obra barata à disposição, créditos do Gaspar reforçados e eventualmente premiados nas instâncias europeias. Umas pequenas chatices pelo caminho devido à pressa excessiva que os levou a esquecer o Portas e o partido dele, nada que uma boa encenação não tenha resolvido, pois o Paulo adora viajar, umas idas chatas ao Parlamento para ter de ouvir o João Galamba e o Pedro Marques, e uma maratona orçamental para aparentar árduo trabalho.

António Borges atrás da cortina: Check.

Uma maioria de portugueses votou nesta gente. Continuarem a acreditar nas patranhas que lhes vendem será quase incompreensível.

Nota: Este plano que descrevi pode não ter sido traçado e executado com régua e esquadro tão perfeitos. Mas as circunstâncias, as trapalhadas semi-brincalhonas, o amadorismo, a ausência de presidente e a base pouco sólida da oposição Seguro acabam por lhes abrir oportunidades para o concretizarem. Do seu ponto de vista, também não lhes resta qualquer outra fuga para não se afundarem de vez (e nesse sentido não têm mesmo alternativa, eles) – apresentarem-se como revolucionários (voltando ao princípio, ao programa eleitoral). Será que pega? Não perca os próximos episódios.

Já não há paciência para a União Europeia

Seremos todos vítimas das aldrabices e dos excessos dos gregos? Em 2009/2010, e na sequência das falcatruas financeiras americanas, a Grécia, membro do euro, revelou-se sem capacidade para se financiar nos mercados. A partir do pedido de resgate, ficou-se a saber muito do modo de funcionamento daquela sociedade, dos privilégios, da corrupção, dos compadrios, das ligações perigosas e também da conivência das autoridades europeias. Mas, ao mesmo tempo, uma certa Europa adquiriu ali uma série de notas de música para os seus ouvidos que iriam até hoje alimentar melodiosamente o seu argumentário estigmatizante dos povos do sul. Porque tínhamos sol, passámos a ser todos gregos.

Na realidade, cada país é um caso. No eclodir da crise, a Espanha tinha uma dívida mais baixa do que a Alemanha. A própria dívida portuguesa estava longe de insustentável. Só para se ter uma ideia do absurdo, a dívida da Bélgica é, neste momento, um pouco superior à nossa em 2010 e, no entanto, financiam-se a juros quase iguais aos da Alemanha. E se eles têm despesas com a máquina do Estado! O país está dividido em quatro regiões mais o nível federal. Segundo a nova lógica austeritária, deviam extinguir-se. A dívida de países como Portugal tornou-se insustentável com a especulação em torno das yields e quando o fecho de empresas e o número crescente de desempregados começaram a exercer uma pressão insuportável sobre os fundos de apoio social. A quebra das receitas fez o resto. Uma ressalva, aqui merecida, para fazer alguma justiça: Merkel e o BCE negociaram em 2011 com Sócrates uma espécie de pacto anti-queda que nos manteria à tona de água, pois não havia interesse em deixar cair mais um Estado. Sabemos quem entornou irremediavelmente o caldo. O desastre está à vista, mas a jogada foi de molde a poderem-nos assemelhar aos gregos, não duvido.

Ouvir Mario Draghi, que às vezes parece ser clarividente e decidido, e desejoso de alguma independência em relação à Alemanha e ao seu banco central, dizer que “muitos governos ainda não perceberam que perderam soberania nacional há muito tempo. Porque, no passado, permitiram que a sua dívida se amontoasse, agora precisam da boa vontade dos mercados financeiros” é um bocado desesperante. Mas que dívida? Mas que governos? Está a falar de quem? Da Irlanda? Da Espanha ? De Portugal? Se é a Grécia que tem em mente, porque não o diz? O que faria qualquer governo, que estivesse a esforçar-se genuinamente por conter despesas, perante o fecho sucessivo de empresas, o aumento do desemprego e a quebra drástica de receitas? Perante o aumento estratosférico dos juros sem mecanismos de barreira? Decretava o fim do país e punha o território à venda? Com “inquilinos” ou esperava que saíssem? E quem tinha comprado casa e feito planos com base num salário que entretanto acabou? E quem contava com crédito da banca para desenvolver o seu negócio? E um Estado que tivesse cumprido as instruções de Bruxelas de estimular a economia, confiando em determinado valor de juros? Começa a não haver paciência. Este método acusatório não resolve nada. Se às vezes Mario Draghi dá no cravo, outras, como esta, dá na ferradura.

Depois diz que “as taxas de juro na Alemanha estão num nível baixo, nalguns prazos negativas, não por causa das nossas [deles] medidas, mas porque a Alemanha está a receber fluxos de outras partes da área do euro, que aí se refugiam”. Grande novidade! Já toda a gente o constatou. Está mesmo aí a causa principal da nossa tragédia e até do ódio crescente aos alemães. Mas e então? Não tira daqui a mais pequena conclusão? Não há nada a corrigir, a sugerir, a decidir? Preconceitos a rever?

Mais adiante diz que só intervém na compra de dívida soberana quando os programas de ajustamento se revelarem um sucesso. Aqui dá outra vez na ferradura. Como não há nem haverá sucesso dentro das amarras de uma moeda sem Banco Central normal, o BCE não faz nada, como quer a Alemanha. A sua apregoada intenção de intervir não passa de um lindo discurso. Para empatar.

Enfim, se lerem no “Der Spiegel” tudo que o homem diz (embora haja que ter em conta que as perguntas visam esclarecer os receios dos alemães), ficarão com uma noção das contradições em que a UE está cada vez mais enredada. Hoje mesmo disseram, o BCE e a Alemanha, que não aceitam novo perdão de dívida à Grécia. Deduz-se que não aceitam perdão de dívida a ninguém. Mas também não se decidem a convidar os gregos, e outros, a sair da zona euro. Estamos a chegar a um ponto em que apetece mesmo mandá-los bugiar. E que levem consigo a integração europeia, a supervisão bancária (só para quando Merkel tiver ganhado as eleições de setembro, atenção!), a união económica e orçamental, o controlador de orçamentos mais o seu poder de veto. Já não há pachorra. Queremos o escudo. Deem-me a minha moeda de volta.

Governo sem refundação possível deve ser corrido

Vamos então à “refundação do Memorando”, que Passos acaba de tirar da cartola:

Gaspar estampou-se contra a parede. As medidas “além da Troika” abriram um buraco orçamental monumental e levaram-nos diretamente para a espiral recessiva que se adivinhava, agora implicitamente reconhecida. Esta espiral resulta e é ao mesmo tempo a causa do agravamento das medidas de austeridade. Não tem fim à vista. O mais recente saque fiscal consagrado na proposta de orçamento para 2013 faz parte desse processo.

Gaspar ficou sem estratégia e sem argumentos. Não tendo sido despedido, passa então à fase seguinte, que sempre esteve na mente dos ministros não oficiais com quem troca impressões com cada vez mais assiduidade. Em reunião com Borges e Braga de Macedo delineia então o seguinte plano de execução: acusar os portugueses que se indignam e protestam contra a carga fiscal e os cortes anunciados (que surpresa!), contando-se entre os portugueses muita gente do PSD e do CDS que até costuma falar numa reforma do Estado (seja isso o que for), e aproveitar o ensejo para vender a mensagem de que, já que não gostam de pagar tanto, então quem não quer pagar tem de estar preparado para usufruir de menos serviços públicos, como a Educação pública, o SNS, a assistência social, etc. Brilhante. A dita refundação do Memorando consistirá, assim, em reduzir as funções do Estado e, basicamente, entregar tudo aos privados. A dívida continuará entretanto a subir, mas isso não interessa nada. Está lançada a manobra de diversão (pois não me parece que vão ter qualquer sucesso no plano).

Descrever tanto cinismo e farsa repugna-me enquanto escrevo. Mas esta gente é mesmo capaz de tudo. Sejamos claros. O aumento brutal de impostos previsto para 2013 é a tentativa desesperada para adquirirem as receitas necessárias para tapar o buraco aberto neste ano e meio de governo experimentalista (e falhado). Não é para assegurar funções (para eles dispensáveis) do Estado. Tudo está a ser visto, propositadamente, ao contrário. A morte da economia é a principal razão da falta de receitas. É pela economia que o país se pode reerguer. Que os credores não queiram saber disso, é com eles, mas tinham obrigação, se querem mesmo revaer o dinheiro emprestado, de ser mais espertos e perceber que programas de ajustamento impostos a países pertencentes a uma zona monetária são coisa inédita, que exigiriam um estudo e uma revisão prévios da receita tradicional.

Espero que a oposição em bloco os mande colocar o eufemismo da refundação do Memorando no devido lugar anatómico.