Editorial falhado do Público

«Afinal, o Governo já tem um “modo de cortar 4 mil milhões de euros” na despesa social do Estado. Quem o revelou foi o líder socialista após uma reunião com o primeiro-ministro. Infelizmente, porém, António José Seguro nada disse em que consiste esse “modo” de cortar no Orçamento. De resto, essa questão não o parece preocupar. O PS está contra qualquer corte e, mais, aproveita a oportunidade para renunciar ao memorando de entendimento que assinou com a troika. Tudo o que acontecer a seguir, diz Seguro, é da responsabilidade “do Governo e da troika”. Fugir da realidade é sempre um recurso possível e por vezes lucrativo de quem está na oposição. Mas o PS não é o PCP ou o Bloco. Face à volatilidade da situação, Seguro pode ser convocado para governar antes do fim da legislatura. E, se essa “desgraça” lhe acontecer, vai ter de assumir que tem um buraco no compromisso com a troika para resolver. Fugir à discussão (envenenada, é certo) que Passos propõe pode ser, por isso, um enorme tiro no pé.»
(Segunda parte do editorial, sem link)

Não gosto do Seguro e nada naquele homem me inspira confiança ou revela saber, consistência ou segurança, mas, empurrado ou não por figuras ascendentes e pesos pesados do partido, ousou romper mais um bom bocado com os golpistas no poder. Como deve ter suado, como lhe deve ter custado. Mais friamente, por esta altura já deve ter percebido que tem a cabeça a prémio se pactuar. E, assim, não posso deixar de registar com agrado a sintonia que recentemente se criou no PS face ao descalabro orçamental e à fórmula tão espertalhona quanto assassina com que o Governo decidiu a fuga em frente – a refundação, que começou por ser uma manobra de desvio do tema essencial do orçamento, transformou-se, com os dias e com as críticas ao seu significado ou à falta dele, em reforma e fez luz sobre os cozinhados do Gaspar com os “chefs” do FMI e do Banco Mundial. Seja um percurso estudado (o confisco fiscal, o empobrecimento e o golpe fatal no Estado social), seja resultado de asneiras de incompetentes teóricos, o que é certo é que retirar mais 4000 milhões de euros à economia, em cima da carga fiscal de 2013 (a ser aceite pelo TC), vai significar a machadada final no país, que ainda mais rapidamente se encontrará na situação da Grécia.

O próximo governo não pode, por isso, ter medo de confrontar a Troika com o falhanço da receita, tenha ela sido imposta ativamente ou aceite conivente ou passivamente pelos seus representantes. Se, nas palavras de Gaspar, nem daqui a quarenta anos a nossa dívida regressa aos níveis de 2005 (e porquê 2005?), como pode o maior partido da oposição não se distanciar e propor mudanças e correções? Além disso, o Memorando inicial já não existe e o que existe nada tem a ver com o PS: o PSD incutiu-lhe outro rumo e os pressupostos em que se baseava alteraram-se significativamente. Apenas fanáticos ou rendidos não consideram útil e urgente a sua renegociação. A mudar o governo, todas as cartas devem ser postas em cima da mesa – a renegociação de prazos, de juros, da dívida e, se nada resultar, o abandono do euro. Como aqui já disse, os alemães não iam gostar. O editorial do Público não faz mais do que defender a manutenção da colónia penal em que nos estão a transformar.
Um tiro falhado.

14 thoughts on “Editorial falhado do Público”

  1. o Público está (agora mais) autofágico. Estes são os últimos estertores de um jornal que vendeu a alma, antes de se vender realmente, talvez brevemente. Alguns dos que ficaram estão em polvorosa e disparam em todos os sentidos, repetindo erros suicidas do passado próximo que retiraram credibilidade e clientela e publicidade e referência ao título. Já não é racional, é uma fuga em frente. Tanto mais que estão mais 40 na calha para o despedimento. É aproveitar os últimos cartuchos, antes que lhes tirem o megafone.

    Se o aspecto falhado do Público fosse só o editorial…

  2. Penélope,

    se o Val não tivesse já utilizado o adjetivo, eu certamente o faria.

    Infelizmente, o Seguro, não colhe as simpatias de muita gente, porém, desta vez, levado ao colo ou não, tomou a direção que se impõe.

    Também não sei qual será a opção do (des)governo, mas certamente não vejo como poderá cortar sagazmente depois de apresentar o miserável orçamento que apresentou, daí concordar com a posição do PS que vaisa que está disposto a analisar os coortes desde que eles não se façam no estado social, e parece que, pelos vistos, há ainda muita gente que não sabe o que é o estado social, ou pretende não o saber por julgar nunca vir a precisar dele.

    Que tolos…

  3. Há coisas perfeitamente patéticas neste editorial.
    Exemplo 1: “António José Seguro nada disse em que consiste esse “modo” de cortar no Orçamento.” Hello??? Quem tem que dizer como pretende cortar no orçamento é quem propõe o corte! Há um governo eleito pela maioria dos eleitores para o efeito, certo? O mínimo que se lhe exige é que explique a sua opção e não ao líder da oposição, que nada tem a ver com a solução “milagrosa”. Este tique de assacar ao PS todos os males do mundo e mais alguns já enoja.
    Exemplo 2: “De resto, essa questão não o parece preocupar.” Também não simpatizo com o carácter e estratégia anterior do Seguro, mas se há coisa que o homem tem repetido à exaustão é exactamente o contrárip: negoceiem, negoceiem, negoceiem,aproveitem as abertas que vos estão a ser dadas por parte dos interlocutores (FMI, U.E., BCE).
    Exemplo 3: “O PS está contra qualquer corte e, mais, aproveita a oportunidade para renunciar ao memorando de entendimento que assinou com a troika.”
    O dito memorando nunca foi cumprido pelo governo (nem era sua intenção,pelos vistos), antes foi revisto por cino vezes sem que o PS tenha sido consultado.
    Já estou como o Seguro disse há pouco na SIC: mas o PS é que é governo? Povo, votaram nestes trastes, é a eles que têm que pedir soluções. O PS não pode ir propôr soluções aos senhores da troika, não tem mandato do povo para tal. A Comunicação Social está caquética e ainda não descolou da patologia raivosa anti-Sócrates: alguém tem de lhes explicar que o homem já não é primeiro-ministro, que a mairia no governo MUDOU e que a alternativa que ajudaram a pular ao poleiro é que tem de ser chamada à responsabilidade. Porra, isto é difícil de entender?

  4. Edie,fizeste bem falar da entrevista de seguro na sic,pois considero o seu grande momento até agora.foi a” todas “e com argumentos consistentes. a penople quando tiver oportunidade de a ver tambem vai gostar.

  5. Pois é, Nuno, mas entretanto fiz zaping pela TV e verifiquei que vários comentadores dão nota preta ao Seguro por não colaborar na consolidação da “saída” apresentada pelo governo e “não apresentar alternativas”, enquanto representante do grande responsável pela apresentação de alternativas (PS). Afinal o editorial do Público não está tão desfazado da geral. Tiros nos pés são a nossa especialidade.

  6. E, já agora, que merda de entrevista a da Clara de Sousa, que não é brilhante, mas aparenta sempre moderação: montou um monte de clichés, interrompeu o entrevistado, sistematicamente, a meio da primeira frase, até o tom de voz quase histerizou…O que se passa aqui?????Alguém me sabe explicar? Eu intuo. A Clara, tal como a CS, tal como este povo esquizofrénico, só alinha na razão quando leva nos cornos até ao extremo dos extremos. Muito me custa dizê-lo, mas basta ver a história e ler ” O Medo de Existir”.

    Resta dar tempo ao tempo, tempo esse que pode vir tarde, mas é o nosso.
    E já não boto música há muito, por isso cá vai, o que julgo mais adequado às circunstâncias socio-culturais :))
    goodnight, sleep tight
    (especialmente importantes os berros histéricos de catarse no final)
    http://www.youtube.com/watch?v=aMTqvhV_nDM&feature=related

  7. Concordo genericamente com as observações de edie sobre a infeliz patologia anti-PS daquela nota do Público. Mas o que vale a pena perceber – e isso tem sido pouco acentuado – é que a última avaliação do Memorando correu mal para o Governo. A concessão de mais algum tempo e de uma flexibilização das metas do deficit são uma contrapartida menor para outras exigências da malfadada troika – um plano B para a eventualidade de o 1º trimestre correr mal (mais de 800 milhões de novas medidas de austeridade) e o tal plano de corte de 4 milhões na despesa para que se cumpre – custe o que custar – a célebre proporção entre cortes na despesas e na receita. Como é possível no contexto de negociações completamente cercadas de todo o sigilo procurar na sociedade, no espetro político, diga-se no PS, qualquer contemplação ou benevolência para aceitar discutir o que quer que seja desta enorme pantomina? Fez bem o PS em evitar envolver-se nesta monstruosidade política. Claro que isto vai acabar mal, mas para isso é que vale a pena resistir, na rua, na opinião explícita, no alinhamento com todos os que não querem a destruição do país.

  8. Silveira,

    bem notado. (Nota: aqui o patrão da farmácia não gosta de manifestações na rua. Está sempre à bulha com a questão de “quantos são?”, enfim, sempre à bulha com os números, como o Gaspar,mas o certo é que até às urnas, só temos a “rua” no sentido mais amplo, i.e., movimento da sociedade civil. Está, portanto, certíssimo).

    (Desta vez, presumo que não me manda largar o vinho, porque comento num post que não é dele…)

    Quanto ao resto, o PS está sempre entalado: é como o Sócrates, como não passou a a administrador não executivo de uma qualquer grande empresa, o que estaria muito mal, mas foi para Paris, sabe-se lá com que dinheiro, está igualmente muitissimo mal.

    E é por isso que concordo com a máxima que diz que cada povo merece as consequências das escolhas que faz. O nosso aprende assim, à bruta. Preferia não ter de dizer isto, mas está à vista.

  9. Edie: Muito bem. As mesmas críticas a tão infeliz editorial me ocorreram.

    Silveira: Exatamente.

    Nuno CM: Não vi a entrevista, de facto. Vou tentar corrigir essa falha mais logo.

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