Hollandix, o gaulês, vai deixar que o céu lhe caia em cima da cabeça?

Interessante e esclarecedor ler o Der Spiegel online. Notícias várias, mas sobretudo uma dá-nos uma certa noção do rumo complicado que as coisas estão a tomar no que à Europa diz respeito. A crise do orçamento que se avizinha reflete e acelera a crise do “ajustamento” que já se vive mais ou menos por todo o lado. Imposições alemãs, mas com aliados. O Reino Unido, cada vez mais eurocético (não sei se também anti-alemão) propõe-se vetar o próximo orçamento europeu, caso este não seja substancialmente reduzido. A encorajá-lo, tem sondagens que lhe garantem que 49% dos britânicos estão com vontade de abandonar a União Europeia, contra apenas 28% que querem permanecer. Merkel defende cortes, como não podia deixar de ser, embora não tão significativos como David Cameron, e vai dando graxa aos britânicos dizendo-lhes que foram eles que livraram a Alemanha do nazismo, que a UE não faz sentido sem eles. Acontece que os seus agricultores também são grandes beneficiários dos fundos da PAC. A França, por sua vez, ameaça também com o veto, mas por motivos opostos, ou seja, não quer um corte drástico nas verbas para a agricultura. O Comissário alemão com a pasta da energia, Günther Oettinger, dá-se entretanto ao luxo de proferir frases lindas, paternalistas e extremamente pacificadoras, do género “Os meu filhos problemáticos são a França e o Reino Unido” e não se inibe de dar conselhos à França para que acelere as reformas (leia-se: mais austeridade, tão ao seu gosto). Soube-se mesmo que Schäuble, ministro das Finanças alemão, decidiu convocar peritos alemães para integrarem um grupo de trabalho específico que irá estudar as medidas adequadas a aplicar … pela França. Os panzers, quando avançam, avançam. Entretanto, ainda há direito de reunião e Hollande e Cameron reúnem cada vez mais com Monti, talvez também com Rajoy. Passos não. Entende que está tudo bem porque a chanceler o diz.

A Gália também não está, pois, em bons lençóis, mas daí até receber instruções da Alemanha é capaz de ir um grande salto, ou não? Os conflitos não acontecem de um dia para o outro. Vão-se desenhando. Quando forem muitos a entender que não ganham nada em pertencer ao clube, é a chantagem, ou o fim. A chanceler alemã anda perigosamente a jogar na Europa com os olhos postos na sua reeleição, na Alemanha, daqui a dez meses, a bem dizer anda nisto constantemente, dadas as sucessivas eleições nos diversos Länder. O mínimo que se pode esperar é que os outros não sejam parvos, mas que tenham o sentido da responsabilidade, um dilema dilacerante, perante o tsunami mundial que seria o fim do euro. Se a tudo isto juntarmos o FMI a proclamar ideias contra-corrente e a não se entender com o Eurogrupo sobre a dívida da Grécia, adivinha-se muito mau tempo no canal e a sua deslocação acelerada para o continente.

+ 2 BÓNUS NATALÍCIOS

1. Adolf Hitler (pouquíssimo a ver com o post acima). Um deputado russo propõe-se comprar a casa onde nasceu Hitler, em Braunau am Inn, na Áustria. As autoridades austríacas não sabem o que fazer dela, há evidentemente controvérsia quanto ao destino a dar-lhe, mas parece que pagam atualmente ao seu proprietário 5000 euros de renda mensal. A ideia do russo é angariar fundos suficientes, comprar a casa e depois demoli-la. Só pelo prazer. Único senão: o atual proprietário não quer vender. Compreende-se.

2. O novo aeroporto de Berlim, outra vez. Devido a novos problemas no sistema de segurança contra incêndios, a conclusão do novo aeroporto de Berlim foi mais uma vez adiada. Já aqui há uns tempos relatei as peripécias e incompetências várias de que a obra tem sido vítima, o que me levou a desmistificar a suposta competência e o suposto rigor dos alemães (evidentemente, não quero generalizar; mas não são nem mais nem menos geniais que os outros). Este adiamento atira a conclusão da obra para 2014, na melhor das hipóteses, pois há técnicos que defendem que, face à gravidade dos problemas entretanto detetados, o melhor será demolir pura e simplesmente uma parte do novo terminal e recomeçar tudo de novo. Entretanto, chovem os pedidos de indemnização, que aumentam de valor.

11 thoughts on “Hollandix, o gaulês, vai deixar que o céu lhe caia em cima da cabeça?”

  1. De facto, vendo bem, os alemães (com dinheiro) não sabem construir aeroportos.
    Já os portugueses (sem dinheiro) têm aeroportos (Beja) que não servem para nada.
    Mas, tudo isto é relativo, como sabemos…

  2. oh lambreta! o aeroporto de beja foi construído por alemães, consta até que era utilizada como colónia balnear da força aérea alemã.

  3. Ignatz,

    Não desconverses. Sabes, tão bem como eu, que o aeroporto de Beja (depois dos alemães o desactivarem) foi completamente renovado em 2009-2010 e, desde então, está às “moscas”. Mais um “elefante branco”, na sequência de outros bem conhecidos. São as parcerias Público-Privadas, estúpido!

  4. Sim, e então? O meu ponto não é a coligação que fez a obra, mas a corrupção na sociedade portuguesa. Donde, comparar as derrapagens das obras no aeroporto de Berlim, com a prática portuguesa neste campo (como faz a Penélope) é um exercício completamente inútil, porque ainda temos muito de apreender neste campo.

  5. sem as parcerias privadas estupido,hoje ainda andavamos por caminho de” cabras” neste pais,e faziamos porto lisboa em 7 horas.do interior nem vale a pena falar,tal o calvario que era chegar de bragança,vila real, chaves, ou mesmo viseu ao litoral.smó fala assim que vive no litoral e não tem raizes no interior norte.

  6. sem as parcerias privadas estupido,hoje ainda andavamos por caminho de” cabras” neste pais,e faziamos porto lisboa em 7 horas.do interior nem vale a pena falar,tal o calvario que era chegar de bragança,vila real, chaves, ou mesmo viseu ao litoral.só fala assim que vive no litoral e não tem raizes no interior norte.

  7. nuno CM,

    Estás a repetir-te. As PPPs não seriam um problema se a corrupção e o tráfico de influências não fosse a prática na maior parte delas: nas pontes, nas auto-estradas, nos estádios, nos aeroportos, nos centros culturais e por aí fora. Em (quase) todas, sem excepção, a derrapagem nos custos foi colossal e todos sabemos quem ganhou: as construtoras que, depois, apoiam os partidos em troca. Por sua vez, as figuras desses partidos (do poder), uma vez aposentados, vão para as administrações das construtoras que, assim, pagam o favor em nomeações. Os exemplos são públicos e notórios e não vou aqui falar dos nomes que são conhecidos de toda a gente. De resto, esta não é apenas uma prática lusitana. Já há muito tempo que é conhecida em Itália (a máfia vive disso) e é mais usual nos países do Sul da Europa, onde a corrupção é maior.
    Dito isto, também penso que as auto-estradas são necessárias para ligar o interior ao litoral. Quem disse o contrário? A palavra-chave no meu comentário é corrupção, não são as PPPs, sem bem que estas sirvam a primeira.

    Ignatz,
    Eu não me escondo em abstrações. Penso que mais grave do que a partidocracia, que governa Portugal, é a corrupção generalizada, que grassa no país. Uma questão cultural, se quiseres. Por isso (volto ao “post” da Penélope) atirar pedras ao telhado dos alemães quando se tem telhados de vidro, não é um bom argumento.

  8. os alemães são da mesma opinião, estamos assim porque somos corruptos e eles alinham na corrupção porque querem vender o produto. se legalizares as comissões deixa de haver corrupção mas sobe o preço do produto em função dos impostos sobre a mediação. enquanto houver negócios será sempre assim e não há volta a dar-lhe.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.