Arquivo da Categoria: Penélope

Não temos nada

Com a decisão de Mario Draghi, presidente do BCE, de comprar dívida soberana (embora no mercado secundário), a chegada de Monti à liderança da Itália, a eleição de Hollande em França e o agravamento da situação em Espanha, finalmente uma ameaça séria à sobrevivência do euro, alguma coisa está a mudar na Europa, apesar das imposições alemãs e dos discursos de Merkel para o eleitorado. Ontem, Mario Draghi deslocou-se ao Parlamento alemão, ato inédito, a que não está naturalmente obrigado, alegando que queria ouvir as dúvidas dos deputados quanto à mais recente política do banco, cujo mero anúncio já representou um importante tiro de partida para uma certa descompressão na zona euro. Na prática, foi explicá-la melhor e desfazer os receios dos cabeças duras alemães, desconfortáveis, ofendidos ou simplesmente tontos com tanta ousadia. Só prova que o italiano está determinado e tem um objetivo. Esta passagem do seu discurso é sintomática:

In our analysis, a main cause of disruptions in the transmission was unfounded fears about the future of the euro area. Some investors had become excessively influenced by imagined scenarios of disaster. They were therefore charging interest rates to countries they perceived to be most vulnerable that went beyond levels warranted by economic fundamentals and justifiable risk premia.

Clearly, it was not by chance that some countries found themselves in a more difficult situation than others. It was mainly those countries that had implemented inappropriate economic policies in the past. This is also why the first responsibility in this situation is for countries to make determined reforms and convince markets that they are credible.

But many were already doing this, only for interest rates to rise even higher. There was an element of fear in markets’ assessments that governments, acting alone, could not remove. Markets were not prepared to wait for the positive effects of reforms to emerge.

In our view, to restore the proper transmission of monetary policy, those unfounded fears about the future of the euro area had to be removed. And the only way to do so was to establish a fully credible backstop against disaster scenarios.

We designed the OMTs exactly to fulfil this role and restore monetary policy transmission in two key ways.

First, it provides for ex ante unlimited interventions in government bond markets, focusing on bonds with a remaining maturity of up to three years. A lot of comments have been made about this commitment. But we have to understand how markets work. Interventions are designed to send a clear signal to investors that their fears about the euro area are baseless.”

Infelizmente, é evidente que tudo isto acontece muito tarde para as populações. A situação na Grécia está péssima, embora mais calma, em Espanha idem e em Portugal a agravar-se a cada hora. Mas… Mas. A Grécia descobriu que tem petróleo em abundância no mar Egeu e no Jónico, podendo estar aí uma das explicações para o facto de, aparentemente, já ninguém falar na sua saída do euro, conseguindo há dias um prolongamento de dois anos para o seu programa de ajustamento, a Espanha é grande demais para ser resgatada nas condições dos seus predecessores, começando por beneficiar de uma tolerância em matéria de défice, a que se vão seguir outras medidas, como a ajuda direta ao setor bancário (OK, há de haver uma maneira de não escandalizar os alemães eleitores da chanceler), a Irlanda fala inglês, tem muitos ruivos e muita família americana. No entanto, Portugal não tem nada, a não ser um repugnante servilismo. Não tem sequer um governo com orgulho nacional suficiente para congeminar uma estratégia de amenização das exigências desta diabólica Troika (para 99,5% dos portugueses) e de busca de possíveis aliados. Pior ainda, o próprio Ministro das Finanças, que podia bem integrar a missão assassina, do outro lado da relação, portanto, tem a cabeça formatada pelos anos de trabalho no Banco de Portugal e depois na CE, numa época em que o FMI ainda não fazia auto-críticas. Arrisca-se a ser chamado de antigo e quadrado, na melhor das hipóteses desatualizado e ultrapassado, pelo Selassie, e a rever os modelos sob a pressão dos críticos, já que o povo português, e o maior partido da oposição, não força a sua expulsão. A posição de reverência em que este governo se colocou, apenas faz com que o tratem como um cachorro. Não tenho mais nada a dizer. Portugal devia ter.

Gaspar aprendeu depressa as técnicas da demagogia

«Existe aparentemente um enorme desvio entre o que os portugueses acham que devem ter como funções do Estado e os impostos que estão dispostos a pagar».

Gaspar convenceu-se de que tem piada e pretende aqui fazer humor e ironia com a famosa expressão “enorme desvio”. Acontece que piada já não tem nenhuma, sobretudo quando pensa que faz de nós parvos. Não são as “funções do Estado” que estão aqui em causa neste aumento brutal de impostos que propõe. A maior parte dos portugueses não se importaria de pagar mais para obter melhores serviços de saúde, de educação, de transportes ou sociais. Tal como os cidadãos dos países nórdicos aceitam o nível de impostos a que estão sujeitos face ao que o Estado lhes garante. Mas o Governo não está a aumentar os impostos desta maneira para prestar melhores serviços aos cidadãos. Aumenta-os, e de maneira punitiva, para tapar o buraco enorme nas contas públicas de 2012, da responsabilidade exclusiva do Ministro das Finanças. Destes novos impostos, muito pouco reverte em benefício dos cidadãos. Assim sendo, a afirmação é totalmente falaciosa e deslocada.

Psst, ó Paulo Rangel, o homem não acha que exista algo de que reclamar!

Paulo Rangel, na sua página de hoje no Público, defende, conciliador e crítico suave, que o Governo jogue em dois tabuleiros: no primeiro estaria o Gaspar a fazer de bom aluno, no segundo o Portas a exercer pressão diplomática junto da UE para sensibilizar os seus dirigentes para o efeito contraproducente da austeridade e demonstrar-lhes “que esse não será talvez o melhor caminho”. O oximoro governativo que tal situação criaria não preocupa Rangel. O Gaspar e o Portas a colaborarem? Nem Portas ousaria, nem Gaspar sabe quem é Portas. Gaspar sente-se “confortável” com o que está a fazer, já o disse pela voz de Passos. Gaspar nem quer ouvir falar da possibilidade de uma flexibilização das medidas. Para ele, este é o caminho e quem o contradisser é burro e não sabe ler folhas Excel.

O problema de Paulo Rangel é não estar a ver bem quem é no Governo o primeiro-ministro em termos práticos. Mais: parece não saber de onde ele saiu e para onde vai voltar não tarda.

Aqui fica a parte final do seu artigo:

“Poderia também objectar-se que o ministro dos Negócios Estrangeiros ao fazer — registe-se a ironia — “diplomacia paralela” ameaçava entrar em divergência com o eixo do primeiro tabuleiro, protagonizado pelas Finanças. Mas sabemos que o ministro dos Negócios Estrangeiros não se tem inibido de expressar divergências nos mais vários domínios. Ora, não seria de esperar que as formulasse, se as tem, com mais cabimento e com mais legitimidade, precisamente na área que tutela, que melhor conhece e na qual dispõe de poder próprio de intervenção? E, feitas as contas, essa pretensa divergência e a complexidade que ela traduziria não poderiam constituir também mais um trunfo negocial junto dos nossos parceiros?
6. Mostrar disponibilidade para cumprir o que nos é exigido, mas demonstrar que esse não será talvez o melhor caminho; creio que anda por aí a solução para mais uma crise da nossa independência. Oxalá, os ministros de Estado a compreendam.”

Os extraordinários Conselhos Europeus

Eis como imagino o último:

Depois da sessão de cumprimentos e gracejos de circunstância, Van Rompuy toca a sineta e todos se sentam nos respetivos lugares. O mesmo presidente apresenta os temas em discussão, faz uma pequena exposição e dá a palavra aos diversos intervenientes, o primeiro dos quais pode até, por estes dias, ser Hollande. O francês procura diferenciar-se das teses oficiais alemãs, minar a sua preponderância e fazer valer o peso da França, desta feita com uma perspetiva mais à esquerda. O seu discurso fica a pairar. Seguem-se a Espanha, a Grécia e a Irlanda, que aproveitam o mote para tentarem resolver o seu problema bancário. Depois, países como a Finlândia, a Holanda e a Áustria contrapõem de forma arrogante e intolerante e a cizânia instala-se. Os argumentos saltam de uns para outros, com trocas de comentários em surdina entre pares mais próximos; a Alemanha intervém de vez em quando para repor o “foco”, aliás, é solicitada com o olhar a cada pausa para suscitar a aprovação ou a desaprovação ao que se diz e ao que se ouve. Passos faz que não conhece Rajoy nem Monti de lado nenhum e ignora Samaras. Possivelmente, senta-se ao lado de Merkel e olha os restantes com a tranquilidade de um pateta. No final, esta grita que não haverá mais euros para ninguém, se não vingarem os seus pontos de vista, nomeadamente que a supervisão bancária apenas arranque a sério, se arrancar, após as eleições de setembro de 2013. Hollande ainda replica “Mais votre jeu électoral est inacceptable!”. Acontece que o argumento eleitoral poderá vir a ser utilizado por qualquer dos presentes em causa própria, num futuro próximo. E não há como ir mais longe com a revolta. Quem vai querer sair do euro? A Itália diz com autoridade real ou imaginária que a situação está controlada, na voz de um Monti providencial e bem relacionado. Diz até que vai conseguir em breve sair da crise. Portugal cola-se a Merkel e cala-se, apostado em que as manifestações em Portugal passem despercebidas face ao barulho de Espanha; Samaras e a Grécia estão desacreditados, mas não querem abandonar a moeda única, o que Merkel agradece; e a Espanha tenta garantir ajuda para os bancos de uma forma não oficial, para não ferir os interesses eleitorais da chanceler. É até capaz de o conseguir. E assim vamos. Mas não vamos bem. O grande objetivo é, pois, dados os ditames alemães, controlar as populações, a quem até oferece uns empregozinhos na sua terra. A grande arma é a incógnita de um abandono do euro. Esta armadilha é poderosa e a Alemanha a sua principal beneficiária. Passos não deixa de ser um palhaço. Pobre.

++++++

Bem podem os deputados e comentadores do PSD dizer que não há alternativa, que lamentam, mas estamos sujeitos às imposições da Troika e que não temos soberania, para justificarem as violentas medidas previstas no orçamento. Nada disso é verdade. Gaspar, que é quem manda no Governo, cujo chefe já percebeu ser ignorante, não conheceria outra forma de conduzir as finanças. E gosta desta. É a sua receita. Estes são os seus cálculos. Dispensa bem a Troika; na malvadez vai muito mais longe. É um caso de estudo. As pessoas pouco lhe interessam.

Não nos bastava termos de aguentar o Cavaco os anos que ainda faltam do seu mandato, vamos ainda ter de aturar este bando de incompetentes e de lacaios pelo menos até abril, quando os cortes já doerem e a execução orçamental se revelar desastrosa. Além de continuarmos a pagar as viagens a Portas.

E Hollande?

Na véspera de mais uma cimeira europeia, François Hollande respondeu às perguntas de seis jornais de diferentes países sobre os problemas da Europa. As respostas estão cheias de boas intenções (“temos o dever de aplicar rapidamente as decisões da cimeira de 28 e 29 de Junho”), de desejos de que se acelere a aplicação das decisões tomadas (“até o fim do ano”) e de otimismo quanto ao futuro político da Europa, que, já no próximo ano, segundo ele, se começará a construir atarefadamente como se num estaleiro. O seu cardápio de soluções para a crise continua, para quem o ouve, sintonizado com as suas propostas pré-eleitorais. Continua a mencionar a necessidade de medidas de crescimento (cuja passagem à prática pelos vistos não depende dele), de intervenção do BCE, de reforço do núcleo duro, de mutualização da dívida, de solidariedade, enfim, de desejos um tanto ou quanto frustrados. E é justamente esse o problema. Nada do que vemos se assemelha a uma concretização. Ou seja, a França parece ser em todas as circunstâncias práticas ultrapassada pelas decisões alemãs.

Quanto à evolução política da União (admite várias velocidades, que já existem, mas mais do que ele sugere), e mais precisamente da zona euro, Hollande diz, por exemplo, o seguinte:

“Nous avons une zone euro, elle a un patrimoine, c’est la monnaie unique. Elle appelle une nouvelle gouvernance. Cette zone euro doit prendre une dimension politique. Je suis favorable à ce que l’Eurogroupe, qui rassemble les ministres des finances, soit renforcé et que le président de l’Eurogroupe ait un mandat clair et suffisamment long.

Je suis également partisan d’une réunion mensuelle des chefs d’Etat et de gouvernement de cette zone. Finissons-en avec ces sommets soi-disant de la dernière chance, ces réunions historiques, ces rendez-vous exceptionnels… et qui n’ont débouché que sur des succès éphémères. Les marchés, c’est tous les jours, les arbitrages des entreprises, c’est dans l’instant! L’Europe ne peut plus être en retard.

Le Conseil de la zone euro permettra de mieux coordonner la politique économique et de prendre, pays par pays, les décisions appropriées.”
Eurogrupo reforçado e o seu presidente com um mandato claro. Mas como garantir uma defesa supranacional, imparcial do euro? Por sua vez, defende que o Conselho (de chefes de Estado) da zona euro se reúna mensalmente e coordene a política económica dos países que dela fazem parte. Assim dito, poderia ser o ideal, mas muitas perguntas deveriam primeiro ser respondidas. Suponhamos que existe democracia nos diversos Estados da zona euro e que os chefes de governo são eleitos pelo povo. Suponhamos que nem todos os chefes de Estado e de Governo eleitos partilham os mesmos pontos de vista sobre as políticas económicas e orçamentais a seguir. Como coordenar as diferentes posições, resultantes da defesa de interesses conflituantes, e sobretudo com uma carga moral subjacente, como acontece hoje em dia? Sabemos como é bonita essa coisa da defesa dos interesses da Europa como um todo e como neste momento não existe. E que é quem diz que mais paga quem mais manda (ele diz que está de acordo). Como contrariar essa regra perante o sufoco que nos é imposto e evitar não equacionar o abandono de tão rígida zona? E seria este um tema demasiado escandaloso para tais reuniões? Que interessa Hollande dizer que não é bem assim (que a Alemanha mande mais porque paga mais), porque todos os países contribuem para o MEE? Na prática, ninguém tem força para impor orientações que vão contra os interesses alemães (que dominam o BCE). E é ou não verdade que a França também tem interesse em colar-se à Alemanha (descaradamente como Sarkozy ou disfarçadamente como Hollande), na mira de se poder financiar a juros igualmente baixos, beneficiando inclusivamente das transferências de dinheiro do sul para países como a Suíça, que depois lhes (à França e à Alemanha) compra dívida? E aí chegamos à hipocrisia, de que Hollande não fala, porque prefere manter a toada otimista e conciliadora. Enquanto os alemães se sentirem confortáveis a receber os depósitos de capitais em fuga dos países fustigados pelo seu chicote, não há forma de países como a Espanha ou a Itália ou Portugal acreditarem na defesa do interesse coletivo. A menos que tenham dirigentes vendidos. A menos que todos se submetam ao princípio de que o que é bom para a Alemanha é bom para o resto da Europa. O que neste momento não é manifestamente verdade. Mas, se fosse, não deveríamos votar todos nas eleições alemãs? Pois é, aqui voltamos ao início do problema.

Não digo que Hollande não esteja a esforçar-se por inverter um certo caminho, até porque assumiu essa responsabilidade. Mas, enquanto no seu discurso predominarem expressões como “a Europa tem que” ou “a Europa não pode” ou “devemos” ou “eu sou favorável a que”, e outras no mesmo registo, o fim da crise que ele considera próximo parece tudo menos garantido. Basta olhar para Portugal, que toda a gente parece, ou prefere, ignorar (calar?). E no entanto sabemos como está próxima a implosão.

Mas que brincadeira é esta?

Gaspar apresenta um orçamento devastador que põe os trabalhadores e pensionistas a pagar mais de 70% do buraco orçamental que ele próprio abriu, pouco se importando com o agravamento inevitável da recessão. As justificações para o que aconteceu ou está a acontecer são desconhecidas, pelo menos pela boca do próprio. Tudo é nebuloso e, para a maior parte das pessoas, totalmente inesperado e um autêntico choque.
Em Agosto, o indivíduo a que se chama Primeiro-Ministro anunciou que 2013 seria o ano da recuperação. Esse anúncio dispensa comentários na hora atual. O governo de que Gaspar faz parte tinha-se comprometido a aplicar medidas de ajustamento que fossem 2/3 do lado da despesa e 1/3 do da receita. Há mais de um ano que sabem que têm de estudar cortes na despesa; aliás já muito antes, ainda Passos Coelho era apenas presidente do PSD, o partido andava a pedir contributos de milhares de militantes e simpatizantes para reduções na despesa do Estado. Disseram que a participação na iniciativa foi intensa. Pois não só não fizeram nada nessa matéria neste ano e meio, como todos os contributos que eventualmente receberam parece terem ido para o lixo. No fundo, era show-off para mostrar ao povo (que depois neles votou) que o governo de Sócrates era incompetente a cortar nas despesas, que “havia limites para os sacrifícios”. Mas, apesar de não saberem nada de nada do que era governar, possivelmente nem o que são despesas do Estado, apresentaram-se a eleições como peritos nesta matéria. Em pouco tempo, quem ainda não sabia ficou a saber que a única coisa em que são peritos é mesmo na vigarice e no descaramento.

Agora, depois do anunciado massacre fiscal, lê-se nos jornais que Gaspar pede aos deputados do PSD e do CDS que apresentem medidas de corte nas despesas para «calibrar» o aumento de impostos. Isto depois de os membros dos Governo terem passado horas e horas em Conselho de Ministros com esse mesmo objetivo e de lá terem saído sem que a mais pequena alteração tenha sido introduzida no plano? Penso que a brincadeira já foi longe de mais. O que está a acontecer é muito grave. A ser aprovado este orçamento, o país enterra-se de vez e o Gaspar, principal responsável, acaba por sair, mas tranquilamente para um belo cargo num organismo europeu ou internacional. Depois de o país lhe ter pago principescamente e com que dor o que, pelos vistos, será a última tranche da sua dispendiosa educação…

Nenhuma crise é desejável, mas muitas são inevitáveis: acontecem quando a situação presente é ainda pior do que a incerteza do que pode vir. O Portas, se tem algum pingo de dignidade, devia abandonar o barco. E ainda antes da aprovação deste orçamento. É que tudo o que aconteça depois será irreversível. Sabemos que o seu objetivo político único na vida era fazer parte de um governo e que todas as demagogias e sujeiras foram válidas para lá chegar, tendo aí um grande ponto em comum com o seu parceiro de coligação. E que finalmente andava realizado. Mas a pouca credibilidade que lhe resta ao aliar-se a este bando de desmiolados depois de tudo o que tem acontecido, sendo certo que Gaspar e Passos o ignoraram olimpicamente, está a perder-se, pelo que não lhe resta outra saída que não seja a rutura. Esta brincadeira não é barata a nenhum título, mas Portas pagará menos se mostrar distanciamento de tamanhas incompetências. E o país, esse só pode perder muito menos.

Chamar o patrão, que não se importa de vir

Todos nos lembramos do quanto José Sócrates se bateu para evitar o resgate de Portugal, uma situação que considerava humilhante e com consequências devastadoras (tinha razão). Tinha-o conseguido, com o apoio dos alemães, do BCE e da Comissão, que queriam travar a onda de resgates na zona euro. Rajoy, em Espanha, está agora pressionado pela própria Alemanha, que vai fazendo umas contas, a não pedir o resgate. Seria um rombo no FEEF, que, para já, conta apenas com mais 80 000 milhões de euros do que o MEE, seu antecessor. E poderá significar um rombo ainda maior na economia europeia, da qual a Alemanha faz parte, sobretudo se se seguir a Itália.
O PSD entendeu por bem, no ano passado, mandar às urtigas meses de laboriosas negociações e um saneamento mais racional e gradual das contas públicas, que procurava não destruir a economia; reeleito Cavaco, mandou o Governo abaixo e chamou entusiasticamente a Troika. Estão agora os portugueses todos a pagar por isso. Não é que não o mereçam: votaram nestas abéculas. Mas protestam. Mesmo os que irresponsavelmente diziam que isto só lá ia com a “ajuda” externa. Sem a mínima ideia do que andam a fazer, Passos e Gaspar berram agora (Gaspar em inglês) que o objetivo é verem-se livres o mais depressa possível daqueles que eles próprios tão prontamente chamaram. Sem vergonha. Na prática, a vinda da Troika serviu para venderem a REN e a EDP, premiarem uns amigos, flexibilizarem os despedimentos, acabarem com uns feriados e, pelo caminho, porem o país a pão e água e mais endividado do que antes.

Depois da visita a Atenas, Angela Merkel vem a Lisboa. E a pergunta é… o que vem cá fazer na era das tecnologias da comunicação? Será que nunca viu ao vivo Passos Coelho, o seu vassalo do sul? Não. Já viu, já cheirou, já osculou, já deu até cubo de açúcar.

A ida de Merkel a Atenas esta semana teve como justificação oficial o desejo de conhecer melhor a situação in loco. Ora, se tivermos em conta que a forma como o fez consistiu em sair do avião, cumprimentar o anfitrião, ser escoltada até à sede do Governo, certificar-se de que não havia qualquer elemento do povo num raio de 3 km da sua pessoa que lhe pudesse dizer como se sente, conversar e beber um Ouzo (ou vários) com o Samaras, regressar escoltada ao aeroporto e deixar o país menos de 6 horas depois de ter aterrado, a informação obtida não terá sido muito diferente, nem mais fidedigna, do que a que obteria se falasse com o Samaras e o Dimitris Avramopoulos por videochamada. Dizem os informados que a ideia foi (ajudar Samaras a) mostrar aos gregos que não estão sozinhos, que há pelo menos uma alemã rica que os quer na Europa e se preocupa com eles (no sentido de ir ver se ainda lá estão, se ainda lá vive alguém), num momento em que não está fácil o entendimento no Governo quanto aos novos cortes no valor de 11 000 M€.

A vinda a Portugal, prevista para Novembro e combinada com inédito secretismo, servirá para o mesmo e acontece em pleno boom manifestivo. A estratégia de chamar o verdadeiro patrão para acalmar os ânimos da populaça com o brilho do dinheiro e o falso brilho da solidartiedade é bastante repulsiva para quem observa daqui desta janela, pacífica e soalheira. Por muito que compreendamos a Alemanha, a sua democracia interna, a sua inocência no que toca ao lugar geográfico que Odin lhe destinou, a sua disciplina e controlo, os seus alegados receios ditados pela História, sabemos que muitos alemães têm tendência a confundir os seus interesses com os de toda a gente à sua volta e a levarem o controlo longe demais, rapidamente se transformando em gente arrogante. Angela Merkel não tem um aspeto antipático, mas por motivos próprios e de política interna convenceu o eleitorado de que o que o seu país andou a ganhar durante anos com a capitalização dos países do sul e os negócios com eles afinal foi apenas o espírito esbanjador e despreocupado das cigarras, que agora têm de pagar (outra vez) pelos seus pecados. Pagar, note-se, pelo que lhes andaram a comprar ou a dar a ganhar. E assim chegámos ao diktat, eventualmente ao arrepio do que a Alemanha pretendia inicialmente. O absurdo está em que idiotas do sul como Passos e sua trupe assumam um discurso falso e autoflagelador. Com ou sem procuração. Entalados por tanta asneira junta desde há ano e meio, chamam agora o patrão que, se soubesse verdadeiramente o que se passa, despedia o capataz por completa incompetência. É que não tarda corrido.

A Al-Qaeda nos aeródromos (desativados) da Beira interior

Devemos rir ou mandar estes vigaristas que agora dirigem o Governo para a Justiça? Ou as duas coisas?

Passada a incredulidade, é impossível não largar uma sonora gargalhada, à mistura com muita revolta, ao lermos a reportagem publicada hoje no Público, da autoria de José António Cerejo. Segundo apurou o jornalista, e tão detalhadamente que não deixa margem para dúvidas, a Tecnoforma, empresa de que Passos Coelho era consultor e depois gestor em 2003/2004 e possivelmente até 2007, concorreu (candidatura no valor de 1,2 milhões de euros) a fundos do programa Foral para formação, gerido por Miguel Relvas enquanto Secretário de Estado da Administração Local do Governo de Durão Barroso, inventando a necessidade de dotar os aeródromos e heliportos municipais do país de técnicos altamente qualificados capazes de responder com competência e prontidão a ataques terroristas. A maior parte dessas infraestruturas estava desativada ou não tinha a mínima necessidade de mais pessoal (os alegados formandos seriam à volta de 400, para uma média de pessoal de 4 pessoas!). No fim, ninguém obteve qualquer certificado, se é que houve aulas. Mas foram recebidos trezentos e muitos mil euros. Não esquecer que tudo isso acresce ao ridículo da justificação e da urgência invocadas.
Todos os envolvidos neste esquema eram gente do PSD. Não vou reproduzir aqui a reportagem, nem tenho link. É hilariante e imperdível. Recomendo a todos a sua leitura, nem que tenham que pagar um euro. Os sinais de fraude são mais do que evidentes. O contraste entre as práticas destes dois senhores e o que agora gostam de apregoar quanto à relação das empresas com o Estado é de bradar aos céus e deixa os seus já ínfimos créditos na lama.
Aguardo curiosa pelas consequências. E, para já, fico à espera que o José Gomes Ferreira, entrevistador, aplique a sua sanha de inquisidor-mor a um dos membros desta dupla, ou aos dois. Verá que reabilitará a sua imagem e sairá de lá menos enxovalhado do que com o Paulo Campos, prestando simultaneamente um serviço bem mais valioso ao país.

A Declaração Final do Congresso das Alternativas

Uma versão preliminar do futuro programa do Bloco, ou partido substituto, e linhas a mais para tão fraca proposta é o que vejo na Declaração. Tratava-se de aproveitar a crise e a desastrosa incompetência do Governo (que ajudaram a eleger) para fazer publicidade à causa e conquistar adeptos. Duvido que o tenham conseguido.
Dividida em vários pontos, apenas o dos «objetivos da alternativa», o ponto 2, interessa verdadeiramente nesta declaração para perceber o que querem, no imediato, os seus subscritores e como pensam concretizá-lo. O resto é conversa que qualquer pessoa de bom senso, da esquerda à direita, proclamaria sobre o descalabro das medidas do governo, as consequências da austeridade (embora se saiba que a grande maioria dos promotores confunde propositadamente o tipo de austeridade gaspariana de inspiração alemã com a necessária contenção de despesas do Estado e sua racionalização) e o desejo de um país melhor, nomeadamente através da dignificação do trabalho, da dinamização da economia, da subida dos salários, da redução das desigualdades, do aumento da transparência, da valorização dos nossos recursos e do interior, do reforço da voz de Portugal no mundo, etc., etc. Mas voltando ao ponto 2, que incomprensivelmente aparece antes como alínea a) do ponto 1.5, e depois volta ainda a aparecer com outro número (7.3), enfim, amadorismo, nele se enuncia o objetivo central de «Retirar a economia e a sociedade do sufoco da austeridade e da dívida: denunciar o Memorando».

Se bem entendi, o percurso desta alternativa para o «fim do sufoco» consiste nos seguintes passos, o primeiro dos quais, a meu ver, de difícil execução:

1. Eleições para que o povo legitime democraticamente os defensores destas propostas.
2. Uma vez eleitos, denúncia do Memorando.
3. Proposta à Troika de renegociação da dívida pública e da dívida bancária.
4. Como há a noção de que a reestruturação da dívida apenas seria possível «num quadro europeu mais favorável do que o atual» (cito a Declaração), a etapa seguinte seria, pois, «preparar-se para uma resposta da Troika que passa pela suspensão do financiamento acordado até 2013» (fim de citação). Mas não desmoralizar.
5. Nessas circunstâncias, «atitude negocial determinada exigiria que a resposta ao
corte do financiamento fosse a declaração de uma moratória ao serviço da dívida
», única maneira de provermos às necessidades financeiras. Não pagamos os juros, portanto, e isso chegar-nos-ia.
6. Em caso de expulsão do euro, não ficar paralisado. Buscar alianças com outros países em dificuldades e, a partir daí… não sabemos. Por isso estamos a debater. Mas dizem eles desde já ao povo que as coisas não vão ser fáceis. («Não há que ficar paralisado pelo medo. Mas não há também que eludir os perigos e a dificuldade da escolha.»)

Não tendo eu ilusões de que este congresso seria inútil para unificar visões do mundo, da Europa, da sociedade, da economia, do trabalho e da política incompatíveis, reconheço mesmo assim que, de vez em quando, importa ir ver como evoluíram as utopias. A conclusão é de que não há nada de novo a assinalar. O PCP continua a considerar-se uma elite histórica que não admite compromissos – na falta de poder eleito, dirigem a rua – e praticamente alheou-se. O Bloco toma estas iniciativas aparentemente conciliatórias com o objetivo exclusivo de abrir fissuras no PS e alargar a sua base de apoio, mas tem dificudades em esconder o radicalismo e os devaneios de um partido de protesto, que sempre foi, e por essa mesma razão desconhecedor de todas as variáveis da complexa equação da Europa, nomeadamente a política e a diplomática.
A saída do euro, desfecho fatídico admitido na própria declaração, é uma questão demasiado séria e plausível para ser posta em marcha com esta proclamação radical, populista e muito desajeitada de uma denúncia do Memorando e «depois logo se vê». Em suma, o Bloco que lute pela vida depois das asneiras cometidas. E que organize um pós-Congresso e um pós-pós-Congresso e continue a debater tudo, desde a «política de direita de Sócrates» até ao “sucesso” do SYRIZA na Grécia. O disparatado governo que temos e o atual líder do PS facilitam-lhe a vida. Mas é tudo.

Helena e os fretes

Quanto mais o Governo se esfarela na sua leviandade, falsidade, loucura e desnorte, levantando um coro de repúdio, mais Helena Garrido rema contra a corrente, com súbito e tardio amor. É incompreensível. Esta senhora anda, há várias semanas, a contorcer-se nos seus artigos no Jornal de Negócios para encontrar qualidades neste miserável governo. Neste artigo, por exemplo, chega a meter dó, além de nos cansar, com as voltas que dá à folha para enaltecer as virtudes da mexida na TSU. No final, o leitor já enjoado com tanto meandro, percebe que afinal Helena só queria dizer, como os Borges que por aí andam, que os empresários são um bocado… ignorantes e acomodados demais. Pouco modernos, em suma. Da próxima, seria melhor ir direta ao assunto.

Hoje retoma as apologias, evitando a linha reta através das pequenas reservas que deixa aqui e ali, au cas où. A linhas tantas, diz o seguinte:

«As escolhas do Governo podem estar envoltas no caos comunicacional e nas tentativas de cada um dos partidos da coligação evitar a sua morte com esta crise. Mas são opções que são determinadas pelas preferências da maioria dos portugueses.

A maioria de nós quer ficar no euro. Com esta preferência, revelada pelo voto da maioria dos portugueses em partidos que apoiam a União Monetária, os caminhos que nos restam não são muitos. As políticas são aquelas e apenas aquelas que são aceites no clube do euro, a que pertencemos.»

Dizer que, sendo a preferência da maioria dos portugueses a permanência no euro (e resta saber até quando), estas são as únicas opções é um abuso. E também um serviço. A permanência no euro é um pressuposto dos programas eleitorais e mesmo das declarações atuais de TODOS os partidos. O problema está no programa com que estas bestas se apresentaram a eleições e no seu programa de governo. E no que pretendiam de facto fazer e no pouco estudo que nisso investiram. Estão no poder à custa de mentiras e mais mentiras, como muita gente apenas há pouco percebeu. Helena Garrido ainda está de fora desse número. Também não é inteiramente verdade que o “clube do euro” queira ou exija exatamente o que a cabeça de Gaspar produz.

Depois, a repetição da tese peregrina de que o problema está na falta de jeito do Governo para a comunicação (!). Como se o que se comunica tivesse algum mérito! E que dizer de mais uma versão do fatalista e intimidatório chavão «não há alternativa»? É o que Helena quer dizer quando fala do que determina as opções. Helena, como não há alternativa? Claro que há alternativa a estes incompetentes! As mentiras são deles. O excesso de austeridade foi escolha deles. O buraco aberto nas contas públicas, finalmente colossal, é da responsabilidade deles. O fundamentalismo é deles. A anulação de todo e qualquer investimento é escolha deles. E as consequências não estão a ser nada bonitas de ver.

Depois, já muita gente disse, mas HG não ouviu, que o Memorando não está escrito na pedra e a comprová-lo estão as sucessivas revisões de que tem sido alvo. Um acordo que produz os efeitos contrários aos desejados, que em princípio são a redução do défice e a redução e o pagamento da dívida, não só pode como deve ser revisto. Não o reconhecer é fazer fretes. Outro governo ou não teria chegado a esta situação catastrófica um ano depois da “ajuda financeira”, ou já teria insistido numa renegociação, ou até já andava em negociações com outros países do sul. O que está a acontecer não era inevitável. Mas não sou ingénua: é verdade que os programas de ajustamento dos países sob resgate podem ter outros objetivos menos claros e eventualmente mais verdadeiros que os cumprimentos dos défices apenas escondem: manter os países em dificuldades pela trela de Angela Merkel e subjugados aos interesses económicos da Alemanha, que passam precisamente por construir uma mini-China no sul do continente europeu, ao seu dispor. E, para isso, o empobrecimento e a miséria serão indispensáveis. Como jornalista, Helena Garrido devia ponderar essa hipótese. Como portuguesa, devia sentir-se indignada. Mas não sente: HG, como Passos Coelho, acha que a subserviência é a única atitude e amedronta-se com a perspetiva de punição, mormente com a expulsão da zona euro. Sem razão. Não interessa à Alemanha a saída de ninguém do euro. Helena já devia saber. Além disso, se o descalabro atingir uma determinada ordem de grandeza, sair da moeda única pode ser a melhor solução, inclusivamente por não ser a melhor para a Alemanha.

«[…] comprometendo-se Lisboa a cortar mais quatro mil milhões de euros na despesa este ano e no próximo». Até agora, só vimos tentativas de aumento das receitas. Têm saído goradas. Os novos aumentos da carga fiscal não vão resultar melhor.

«Há estradas, hospitais, centros culturais e muitos outros monstros, que não são necessários, mas que têm de ser pagos e, para isso, corta-se no que está à mão, na educação, na saúde, nas prestações sociais, na defesa e na segurança.»
Por favor. A lengalenga das obras faraónicas, não. E de que é pecado construir hospitais e escolas e estradas. O PSD adora dizer que se corta na educação e na saúde por causa de monstros como… estradas e… hospitais. Por que razão repete HG inanidades como estas? Que história nos conta de que as estradas não são necessárias – não? E as escolas e unidades de saúde com condições limitadas que puderam encerrar devido ao encurtamento das distâncias? Na minha infância, demorava-se 5 horas de Viseu ao Porto! – de que os hospitais não são necessários – esta brada mesmo aos céus – de que a cultura e o desporto não são necessários?

No Jornal de Negócios, que leio com alguma confiança, o Camilo Lourenço já está para lá de Marraquexe, mas a Helena Garrido e este seu improvável combate surpreendeu-me.

Como se inverte e inventa a realidade a nível internacional

Atente-se no que diz esta notícia do Financial Times:

«Portugal may need to extend its bailout programme beyond the scheduled three years as a weak economy and a public backlash against austerity threaten to delay Lisbon’s plans to regain access to government bond markets, two rating agencies have warned.
Moody’s said on Friday that a “recent emergence of social upheaval” suggested regaining market access would be slow, “perhaps requiring an extension of financial support” beyond September 2013, when Portugal is currently scheduled to resume issuing long-term debt.
»

(Ler toda a notícia)

Temos então que, para esta agência, são as manifestações e o descontentamento popular a razão para o atraso do plano de ajustamento português e do regresso aos mercados. Não lhes ocorre, nem por um minuto, que os protestos e o descontentamento são, eles sim, o resultado do rotundo falhanço das medidas do Gaspar (abençoadas pela Troika) para corrigir o défice e reduzir a dívida, aposto que defendidas também entusiasticamente pelos iluminados das agências de notação financeira. Muito menos lhes ocorre que é totalmente legítimo reagir quando as expectativas são frustradas, as pessoas se sentem enganadas e empobrecidas e se constata que a receita aplicada não funciona. Que a reação é a consequência e não a causa!

Mais, esta e certamente as outras agências continuam a achar que as mexidas na TSU anunciadas há duas semanas (saberão eles sequer as modalidades concretas?) eram importantíssimas e iriam resolver a situação económica do país. Que dizer? Parece-me cada vez mais que estamos nas mãos de loucos a precisar de internamento. Pior, de criminosos a precisar de prisão.

Ah, quase me esquecia: já perceberam, vem aí novo resgate. Hello Greece!

“Parole, parole, signor Draghi”

Há poucos meses, Mario Draghi anunciou que o BCE estaria disposto a comprar títulos de dívida dos países da zona euro em dificuldades (o que muito aliviou a pressão dos mercados), mas na condição de os países em causa formularem um pedido de resgate e assinarem com a Troika um plano de ajustamento. O país destinatário da mensagem era claramente a Espanha. Mas Portugal não podia deixar de figurar em cópia. Portugal não só pediu o resgate, como também já se encontra a “cumprir” o dito plano de ajustamento e tem sido oficialmente elogiado pela sua execução (a realidade cá dentro é outra, como sabemos). Elogiado, repito. Apesar disso, o que lemos (no Público) é que :

«Na conferência de imprensa, o presidente do BCE esclareceu que Portugal apenas poderá vir a beneficiar do novo e mais ambicioso programa de compras de obrigações anunciado pela autoridade monetária após ter conseguido obter, no mercado primário de obrigações de tesouro, o que caracteriza como “acesso total”. “O programa de compra de obrigações não é um substituto para uma falta de acesso ao mercado primário”, disse. »

Ora, assim, batatas, ou melhor, “patate”. Afinal, a intervenção do BCE só acontecerá depois de o país ter percorrido o calvário suficientemente duro do desemprego e da recessão e cumprido a pena pelos pecados cometidos (a que se deve acrescentar, presume-se, a venda ao desbarato de todas as empresas públicas), mas, como se isso ainda não bastasse, se já tiver regressado ao mercado primário. Uma nova condição, portanto.

Como medida de descompressão não está mal… Como sinal de independência do banco em relação à Alemanha, também estamos conversados. No fundo, este número do anúncio foi todo combinado. Ganhar tempo enquanto castiga é o único programa da Alemanha para a parte sul da zona euro, em concertação com o BCE, que se encarrega das manobras de diversão.

E o caso absurdo da Espanha? Rajoy (com quem não simpatizo minimamente) alega, e com razão, que o “programa de ajustamento” aprovado pelo seu governo é em tudo igual ao que a Troika lhes imporia, uma verdade que parece estar à vista. Draghi, pobre homem, confessou-se ontem pessimista com a economia da zona euro. Porque insiste então o BCE em fazer-se difícil, impondo condições patéticas?

Ainda no Público: «O apelo mais dramático ontem feito pelo presidente do BCE dirigia-se especialmente a Madrid, que tem vindo a adiar o recurso a este mecanismo, por não querer aceitar entrar em negociações com a troika para a aplicação de um plano de ajustamento. O Governo Rajoy defende que já tem em prática o seu novo plano e não precisa de outro, imposto pela troika.»

Tudo isto é de um ridículo sem fim.

Palavras não ditas

Caros jovens, ilustres cinquentões:

Alguns de vós compreendem agora finalmente que um partido de protesto, sem a herança histórica do PCP, além de inútil à democracia, não dura eternamente. Alguns de vós criticaram, e bem, a direção do partido por se ter aliado à direita em Março do ano passado para derrubar o governo anterior, com os resultados eleitorais e as consequências calamitosas para os portugueses por demais conhecidos. Alguns de vós sentem responsabilidade pela subida ao poder do maior bando de aldrabões, incompetentes, oportunistas, insensíveis, vendedores e vendidos de que há memória neste país, querendo redimir-se através de um grande gesto, procurando aliados. Alguns, pelo contrário, não sentem nada disso: intencionalmente os colocaram no poder, despudoradamente discutem agora alternativa(s), pelo que me pergunto, por esses, o que estou aqui a fazer. Alguns pensam convictamente, pretendendo arrastar outros para o radicalismo de sempre, que correr com a Troika é abrir as portas ao progresso do país. Alguns de vós perceberam sem dificuldade que o António José Seguro nunca conseguirá levar os socialistas à maioria absoluta, uma oportunidade, pois, para acederem a cargos de poder, numa eventual coligação. Muitos de vós, eternos revolucionários, simpatizam com quem, no PS, se mostra mais contestatário e inconformado. Muitos de vós têm ou mantêm um único objetivo estratégico, dividir o partido socialista e conquistar assim mais votos em futuras eleições. Esta será mais uma tentativa nesse sentido, com pouco juízo, diga-se. Muitos de vós simplesmente invejam e desejam o sucesso, até ver entre aspas, do Syriza, sobretudo do seu líder.

Pois bem, o facto é que também eu estou indignado (e descrente no Seguro). E interessado em ouvi-los. Sou um homem de esquerda.

(palavras que não constarão, e não por acaso, de uma hipotética introdução de um hipotético discurso de Mário Soares no próximo Congresso das Alternativas, onde o BE estará em força e predominantemente)

Nota à margem: Alguém ouviu, como eu, o Nicolau Santos dizer ontem na SIC N que não esteve na conferência de imprensa do Gaspar, porque parece que até os jornalistas esta gente já seleciona?

Emergência

Estava Tozé posto em sossego, de seu cargo colhendo doce fruto, naquele engano de alma ledo e cego, que a fortuna não (não?) deixa durar muito…
Cai-lhe um governo podre no regaço. Grande susto. Fim do poema.

Mais prosaicamente, gostaria de saber umas coisas, que este governo é pior que mau e está a mandar o país para o esgoto: Afinal quem são os homens e mulheres que apoiam o Seguro? São dignos de integrar um governo? Tirando o Zorrinho e a Maria de Belém, que se mostram muito alinhados, quem fala, e melhor, na televisão não parece ter grande proximidade com o líder. Falo de João Galamba, Santos Silva, Silva Pereira, António Costa, Marcos Perestrelo, Basílio Horta, Assis, Lello, entre outros (e estiveram na reunião de domingo?). Irá o país ser governado por líderes de distritais e presidentes de freguesias? Que Camões nos valha! Quando é o próximo congresso?

Os alemães só querem o nosso bem

Primeiro atam-nos a corda ao pescoço ao impedirem que se reveja o estatuto do BCE de modo a que este possa comprar diretamente a dívida do Estado, pondo de uma vez por todas fim à especulação. Estrangulam-nos, castigam-nos, matam a nossa economia, chamam-nos preguiçosos e gastadores (não, não é por terem nascido maus; é por puro interesse económico e eleitoral). Depois, lançam ou criam condições para que se lancem “beneméritos” programas de formação e contratação de jovens quadros desempregados dos países sob garrote, num gesto de aparente bondade que só nos poderá deixar agradecidos.
O cinismo vai alto. A braços com falta de mão-de-obra qualificada interna, tudo fazem para que lhes seja fácil recrutar a malta desesperada do sul. E conseguem-no, sem qualquer dúvida. E há até quem veja nisso um gesto de grandeza e solidariedade. Escusava era a agência que tal propõe de sugerir que “os países de origem podem mais tarde recuperar trabalhadores com experiência”. Já chega de Antónios Borges. É que se está mesmo a ver que quem se sentir revoltado com esta situação só pode ser burro, não é?

(Pausa na política) A morte é um erro corrigível

Se o mundo não for pelos ares graças aos fanáticos e suicidas fundamentalistas islâmicos, à raiva acumulada ou instigada nalguns povos, à ligeireza, arrogância ou provocação de algum governante do tipo António Borges, ou simplesmente a um acaso cósmico, a humanidade poderá viver para usufruir de um mundo semelhante ao gizado e pacientemente construído (tantas vezes involuntariamente) por inúmeros cientistas anónimos da área da biotecnologia, da medicina genética e da inteligência artificial, cujo trabalho é agora divulgado por Michio Kaku, um físico teórico norte-americano de ascendência japonesa, que se especializou na teoria das cordas, lecciona no City College de Nova Iorque e dedica ainda algum tempo a entrevistar para a rádio e a televisão dezenas de colegas cientistas visionários. O seu papel (e desejo) ao publicar livros que fazem o ponto da situação dos avanços tecnológicos é, de certo modo, o de Júlio Verne – prever o futuro. E como o francês acertou!

A vida eterna não viola as leis da física.

A revista Der Spiegel (versão inglesa) entrevistou-o a propósito do seu mais recente livro, de 2011, “Physics of the future. The inventions that will transform our lives”. Vale a pena ler, quer a entrevista, que aguça o apetite, quer o livro (já cá canta). Algo do que descreve virá a ser realidade um dia. Não sei se será um bom e tranquilizante futuro, se um mau e angustiante o que nos espera, mas o que está previsto é, por exemplo, que objetos como uma sanita nos possam dizer instantaneamente o nosso estado de saúde, nomeadamente se há algum tumor maligno em desenvolvimento, ou algum cancro declarado, para ir direta ao que mais nos assusta. Se o veredicto que resulta da mera satisfação de uma necessidade fisiológica for positivo, o mais provável é não termos de entrar em pânico e ficar perdidos; prevê o cientista a possibilidade de comunicarmos, ou melhor “confessarmos”, de imediato à parede do sanitário o nosso problema, parede essa que estará ligada a um médico-robô, que nos dirá o que fazer. A solução ideal poderá vir a ser uma correção genética. No limite, tantas quantas forem necessárias para a vida eterna. Mas já antes de darmos o primeiro berro de protesto por nos lançarem neste mundo, as nossas imperfeições, digamos, poderão ser corrigidas. O que fazemos com os robôs não impedirá, muito pelo contrário, que sejamos nós próprios objeto de aperfeiçoamentos. Podemos fundir-nos. E, sim, podemos trabalhar em nós. Já o fazemos, de resto.

Este e outros temas, como a necessidade de acrescentar a sensação de dor aos robôs para evitar a sua própria destruição em determinados contextos agressivos, ou a possibilidade futura de ligar as lentes de contacto à Internet, são tratados nesta entrevista, que, podendo levar-nos a duvidar e a sorrir, nos permite mesmo assim acreditar na nossa espécie e refletir sobre uma cadeia de questões.

Boas leituras.

Alternativa mesmo

O futuro para os países do sul da Europa apresenta-se cada vez mais negro. Nem a Grécia, nem Portugal, nem a Espanha (e vamos a ver a Itália) conseguirão sair do buraco para onde estão a ser empurrados enquanto continuarem membros da união monetária. Mas ninguém ousa propor seriamente o regresso à moeda nacional, o que me parece estranho, pois já por cá tivemos o FMI no passado e recuperámos em dois anos. Fantasmas vários são permanentemente acenados. Pergunto-me se, para a maioria da população, o abandono do euro seria assim tão catastrófico, ou pelo menos tão mais catastrófico do que a sua preservação, que é o que acontece de momento.

A permanência no euro implica claramente o controlo das operações de crise pela Alemanha, o maior contribuinte. E em que têm consistido? Desde o rebentar da bolha financeira que a estratégia não tem sido outra senão a de ganhar tempo para que os bancos nortenhos estabilizem a sua situação e recuperem ao máximo da exposição à dívida dos meridionais, aos quais se impõem políticas de austeridade/rapina insuportáveis. O BCE tem sido um mero joguete nesta estratégia. Ora não diz nada de diferente da chanceler e dos ministros alemães, atendo-se estritamente aos seus estatutos, ora aparenta ultrapassar as personagens pela esquerda e promete comprar dívida soberana sem limites no mercado secundário, aliviando um pouco a pressão sobre os países em dificuldades, mas logo impondo condições de tal maneira teutónicas que praticamente anulam os efeitos do anúncio anterior, como se vê com o caso atual da Espanha. Agora já nem a ajuda à banca espanhola parece estar garantida, depois das declarações de recusa de países como a Finlândia, Holanda e Alemanha. Enquanto isto, a economia dos países que se encontram a “cumprir pena” sem julgamento vai-se destruindo, o património é vendido ao desbarato, o nível de vida das populações regressa aos anos 60, muito antes da adesão à CEE, o Estado social esfuma-se e a democracia deixa de existir, pois nenhum governo se aguenta muito tempo aplicando políticas ostensivamente suicidas, ainda que as assuma como suas.

Estamos, pois, a chegar a uma encruzilhada. Não intervindo o BCE para parar a especulação no início, já empobrecemos tanto quanto teríamos empobrecido se tivéssemos abandonado a moeda única. Vamos empobrecer mais, como tudo indica e nos exigem. Se, em cima disso, e por força da situação espanhola, formos forçados a sair do euro, então será o abismo, se bem que temporário, e, mais grave ainda, a sensação de que foi totalmente perdido o tempo gasto nas sucessivas austeridades. É verdade que toda a Europa está a aplicar políticas de contenção orçamental. Mas são de intensidade muito variável e incidem sobre bases de rendimentos muito diferentes. E não põem em causa o generoso Estado social. Como pedir a pessoas que ganham 500 euros que passem a ganhar 300? Além disso, há notícias de que bancos suíços terão há pouco tempo comprado maciçamente dívida alemã, francesa, holandesa, etc., conferindo a esses países vantagens incompreensíveis sobre outros. Já não existe União Europeia. Há muito que entrámos no “cada um por si” e no “quem pode pode”.

Em suma, que esta história é longa e não acabou, se e enquanto a linha política da UE continuar a ser a austeridade cega e a punição dos mais fracos, independentemente das consequências a nível doméstico, qualquer político que queira assumir as rédeas de um país como o nosso dando alguma esperança de saída deste sufoco terá de apresentar-se com a hipótese de saída do euro na bagagem. Caso contrário, (já) não adianta. Será queimado vivo. Mas precisamos de alguém que fale claro. Para dentro e para fora.

Estamos a precisar urgentemente de uma “Désintox TV”

No jornal francês Libération, há uma rubrica audiovisual* que desmente ou corrige a má informação. Define-se como um observatório das mentiras e do discurso político. Se há país onde tal rubrica não teria falta de conteúdos, além de criar alguns postos de trabalho, esse país seria Portugal. Por cada Cantiga Esteves, Medina Carreira, Braga de Macedo, Mário Crespo, Nuno Crato, José Luís Arnaut, Passos Coelho, Matos Correia, Ribeiro e Castro e muitos, muitos outros e outras que lançam alarvidades para a praça pública sem nunca serem rebatidos, um videozinho rápido e bem feito todos os dias contribuiria imenso para esclarecer, repor a verdade e desintoxicar o ambiente.

* Acabadinho de aprender: o Désintox já era um blogue do Libération, mas há dias passou a ter um espaço TV. (Obrigada à Shiznogud pela chamada de atenção).