Governo sem refundação possível deve ser corrido

Vamos então à “refundação do Memorando”, que Passos acaba de tirar da cartola:

Gaspar estampou-se contra a parede. As medidas “além da Troika” abriram um buraco orçamental monumental e levaram-nos diretamente para a espiral recessiva que se adivinhava, agora implicitamente reconhecida. Esta espiral resulta e é ao mesmo tempo a causa do agravamento das medidas de austeridade. Não tem fim à vista. O mais recente saque fiscal consagrado na proposta de orçamento para 2013 faz parte desse processo.

Gaspar ficou sem estratégia e sem argumentos. Não tendo sido despedido, passa então à fase seguinte, que sempre esteve na mente dos ministros não oficiais com quem troca impressões com cada vez mais assiduidade. Em reunião com Borges e Braga de Macedo delineia então o seguinte plano de execução: acusar os portugueses que se indignam e protestam contra a carga fiscal e os cortes anunciados (que surpresa!), contando-se entre os portugueses muita gente do PSD e do CDS que até costuma falar numa reforma do Estado (seja isso o que for), e aproveitar o ensejo para vender a mensagem de que, já que não gostam de pagar tanto, então quem não quer pagar tem de estar preparado para usufruir de menos serviços públicos, como a Educação pública, o SNS, a assistência social, etc. Brilhante. A dita refundação do Memorando consistirá, assim, em reduzir as funções do Estado e, basicamente, entregar tudo aos privados. A dívida continuará entretanto a subir, mas isso não interessa nada. Está lançada a manobra de diversão (pois não me parece que vão ter qualquer sucesso no plano).

Descrever tanto cinismo e farsa repugna-me enquanto escrevo. Mas esta gente é mesmo capaz de tudo. Sejamos claros. O aumento brutal de impostos previsto para 2013 é a tentativa desesperada para adquirirem as receitas necessárias para tapar o buraco aberto neste ano e meio de governo experimentalista (e falhado). Não é para assegurar funções (para eles dispensáveis) do Estado. Tudo está a ser visto, propositadamente, ao contrário. A morte da economia é a principal razão da falta de receitas. É pela economia que o país se pode reerguer. Que os credores não queiram saber disso, é com eles, mas tinham obrigação, se querem mesmo revaer o dinheiro emprestado, de ser mais espertos e perceber que programas de ajustamento impostos a países pertencentes a uma zona monetária são coisa inédita, que exigiriam um estudo e uma revisão prévios da receita tradicional.

Espero que a oposição em bloco os mande colocar o eufemismo da refundação do Memorando no devido lugar anatómico.

11 thoughts on “Governo sem refundação possível deve ser corrido”

  1. Não acredito que o Gaspar se esteja a “estampar”. Tinha o exemplo da Grécia e, antes disso, de outros países: Chile, Argentina, Russia, Iraque (ainda que por razões diferentes), Irlanda e por aí fora…
    O governo tem necessidade de aplicar o programa até ao fim, para que nada reste do que havia e poder começar de novo. Agora, segundo um modelo de “regeneração” onde não haja lugar para o estado social e onde as relações de trabalho tenham sido de tal forma destruídas que o Capital possa determinar as suas leis sem grande contestação. Esse é objectivo final.
    Juntamente com Borges, Macedo e não só, o plano está em marcha. Como já não estamos em épocas de ditaduras de bota cardada, tenta-se o golpe administrativo. Mas, falta um parceiro fundamental. Daí o apelo ao PS para se juntar à “refundação”. Se resultar (e nada nos garante que não resulte) será sempre mais fácil justificar a golpada.
    Está em curso um “golpe de estado” que, mais cedo ou mais tarde, vai terminar num governo de “salvação nacional” indigitado pelo PR com o apoio do PS. Passaremos, então, à fase dois deste plano: uma democracia musculada, para impôr o pavor depois do choque. “Choque e Pavor”, lembras-te? Pois é…

  2. “quem tem um carro em segunda mão para vender, com 3 ou 4 anos de uso, tem obrigação de certificar o carro que vai vender para não enganar quem o vai comprar.”

    eheheh… vêm aí mais taxas e empresas de certificação de chassos, o que nos vale são as arrecuas.

  3. Ó Mota, não andas a ver muitos filmes?
    Nessa teoria toda onde é que pões o povo?
    Porque será que os partidos e o governo teimam em tratar as pessoas como mentecaptos?
    Já tiveram uma amostra no 15 de Setembro, será que vão pensar que está tudo controlado?
    Ó Mota queres apostar que essa linda teoria, não passa disso mesmo, uma linda teoria.
    É em Novembro que “eles” vêm cá outra vez, não é? Vais ver na prática como é que as coisas funcionam.

  4. A minha dúvida é saber qual das deputadas socialistas é a Penélope. Aposto que é a Sónia Fertuzinhos. A táctica cobarde é a mesma dos outros deputados que escrevem no Corporações: como não assinam com o próprio nome, podem atacar ad hominem adversários sem dar a cara.

  5. Carlos Sousa,
    É verdade. tenho visto muitos filmes. Ainda ontem vi um no DOCs sobre a Grécia. Está lá tudo. Só não percebe quem não quer.
    Sobre o “povo”, espero que tenhas razão. A experiência recente é ainda muito recente para avaliar. Se o “povo” for votar, em quem é que pensas que vota? E se tiver de escolher entre ficar ou sair do Euro, o que é que pensas que escolhe?

  6. “A morte da economia é a principal razão da falta de receitas. É pela economia que o país se pode reerguer. Que os credores não queiram saber disso, é com eles, mas tinham obrigação, se querem mesmo revaer o dinheiro emprestado, de ser mais espertos e perceber que programas de ajustamento impostos a países pertencentes a uma zona monetária são coisa inédita, que exigiriam um estudo e uma revisão prévios da receita tradicional.”

    Portugal não é “too big to fail” portanto os credores poderão preferir sugar o país até ao tutano e depois abandoná-lo à sua sorte. É isto que quer dizer o “pacto de agressão” na terminologia do PCP, explorar o país ao máximo e depois largá-lo.

    A refundação do memorando é apenas o spin do Coelho para a já previsível incapacidade de Portugal pagar aos credores e regressar aos ditos mercados depois deste memorando. Se não me engano, a Grécia já teve um segundo memorando e Portugal vai a caminho. O PSD vai chamá-lo refundação do memorando; o PS em princípio vai fazer algum barulho mas depois assina.

  7. Renato: Deputada eu? Só se fosse pelo Skype. Ao contrário do que tu pensas, há pontos de vista comuns entre milhares de pessoas que nem se conhecem nem nunca se viram, como é o caso dos ilustres colaboradores deste blogue.

  8. Vamos lá ver:

    1 – O estampanço orçamental é intencional, a ideia é destruir o nosso pequeno estado social, por outro lado, os países que mais nos apertam (Alemanha, Holanda, Finlândia), têm um bom estado social e não tocam nele. Pois…

    O desGoverno:

    Passos – vendedor de banha da cobra de terceira categoria, está lá para cumprir o que lhe ordenaram.
    Relvas – chico-esperto de baixo calibre, está lá para se amanhar e amanhar os seus patrões.
    Portas – escorpião nojento, hipócrita, só pensa nele.
    Gaspar – foi escolhido porque sofre de síndrome de Asperger (ver na wikipédia), e leva a cassete até às últimas consequências.

    Os outros:

    PS- oxalá não se venda por trinta dinheiros, como Judas. Não estou muito descansado.

    BE e PCP – contam para animar a rua.

    E nós (ex-classe média e pobres)?

    ESTAMOS FODIDOS. SÓ NOS RESTA LUTAR ORGANIZADOS.

  9. Esta refundação do memorando é a refodação de Portugal. Explico.

    O plano sempre foi este; não foram estes meninos que começaram logo por dizer que queriam destruir a Constituição? Como o nível de vida dos portugueses estava no caminho das suas mesquinharias, que determinavam um Portugal pequenino, pobre, de cidadãos analfabetos, a morrer à fome e de doenças, de crianças escravizadas, a trabalhar, de uma educação e uma cultura anti-iluminista, enfim, um Portugal onde os Relvas e outros patos bravos têm habilitações suficientes para mandar, o que é que os relvinhas fizeram? Aproveitando o memorando, destruíram a economia interna. Pois essa economia interna era a que dava suporte ao nível de vida dos portugueses.

    E eis-nos no ponto que eles queriam. Este nível de produção não suporta a despesa pública social que temos. Então, que fazer? Regenerar a economia interna, que cresceria com um pequeno estímulo? Não!!! Vamos mas é manter este Portugal pobrezinho, refundado à moda do salazarismo económico (não do político)! Vamos mas é cortar nos serviços públicos até equilibrar o orçamento…

    O problema é que esta receita já foi tentada em vários sítios (Chile, Rússia, Argentina, Reino Unido) e na maior parte dos casos não deu o resultado que os seus arquitectos pretendiam. Deu inclusivamente origem — excepto no Reino Unido — a perdas estratégicas importantes para o Ocidente. Daí o nervosismo de alguns actores internacionais… Que parecem, no entanto, incapazes de se pôr de acordo. Aparentemente, não sabem (não querem saber?) mais teoria económica…

  10. Penélope, não valia a pena gastares latim com o pide. Deixa-o continuar a espojar-se, corajosamente na sombra, na esterqueira que lhe sai dos poros.

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