A Declaração Final do Congresso das Alternativas

Uma versão preliminar do futuro programa do Bloco, ou partido substituto, e linhas a mais para tão fraca proposta é o que vejo na Declaração. Tratava-se de aproveitar a crise e a desastrosa incompetência do Governo (que ajudaram a eleger) para fazer publicidade à causa e conquistar adeptos. Duvido que o tenham conseguido.
Dividida em vários pontos, apenas o dos «objetivos da alternativa», o ponto 2, interessa verdadeiramente nesta declaração para perceber o que querem, no imediato, os seus subscritores e como pensam concretizá-lo. O resto é conversa que qualquer pessoa de bom senso, da esquerda à direita, proclamaria sobre o descalabro das medidas do governo, as consequências da austeridade (embora se saiba que a grande maioria dos promotores confunde propositadamente o tipo de austeridade gaspariana de inspiração alemã com a necessária contenção de despesas do Estado e sua racionalização) e o desejo de um país melhor, nomeadamente através da dignificação do trabalho, da dinamização da economia, da subida dos salários, da redução das desigualdades, do aumento da transparência, da valorização dos nossos recursos e do interior, do reforço da voz de Portugal no mundo, etc., etc. Mas voltando ao ponto 2, que incomprensivelmente aparece antes como alínea a) do ponto 1.5, e depois volta ainda a aparecer com outro número (7.3), enfim, amadorismo, nele se enuncia o objetivo central de «Retirar a economia e a sociedade do sufoco da austeridade e da dívida: denunciar o Memorando».

Se bem entendi, o percurso desta alternativa para o «fim do sufoco» consiste nos seguintes passos, o primeiro dos quais, a meu ver, de difícil execução:

1. Eleições para que o povo legitime democraticamente os defensores destas propostas.
2. Uma vez eleitos, denúncia do Memorando.
3. Proposta à Troika de renegociação da dívida pública e da dívida bancária.
4. Como há a noção de que a reestruturação da dívida apenas seria possível «num quadro europeu mais favorável do que o atual» (cito a Declaração), a etapa seguinte seria, pois, «preparar-se para uma resposta da Troika que passa pela suspensão do financiamento acordado até 2013» (fim de citação). Mas não desmoralizar.
5. Nessas circunstâncias, «atitude negocial determinada exigiria que a resposta ao
corte do financiamento fosse a declaração de uma moratória ao serviço da dívida
», única maneira de provermos às necessidades financeiras. Não pagamos os juros, portanto, e isso chegar-nos-ia.
6. Em caso de expulsão do euro, não ficar paralisado. Buscar alianças com outros países em dificuldades e, a partir daí… não sabemos. Por isso estamos a debater. Mas dizem eles desde já ao povo que as coisas não vão ser fáceis. («Não há que ficar paralisado pelo medo. Mas não há também que eludir os perigos e a dificuldade da escolha.»)

Não tendo eu ilusões de que este congresso seria inútil para unificar visões do mundo, da Europa, da sociedade, da economia, do trabalho e da política incompatíveis, reconheço mesmo assim que, de vez em quando, importa ir ver como evoluíram as utopias. A conclusão é de que não há nada de novo a assinalar. O PCP continua a considerar-se uma elite histórica que não admite compromissos – na falta de poder eleito, dirigem a rua – e praticamente alheou-se. O Bloco toma estas iniciativas aparentemente conciliatórias com o objetivo exclusivo de abrir fissuras no PS e alargar a sua base de apoio, mas tem dificudades em esconder o radicalismo e os devaneios de um partido de protesto, que sempre foi, e por essa mesma razão desconhecedor de todas as variáveis da complexa equação da Europa, nomeadamente a política e a diplomática.
A saída do euro, desfecho fatídico admitido na própria declaração, é uma questão demasiado séria e plausível para ser posta em marcha com esta proclamação radical, populista e muito desajeitada de uma denúncia do Memorando e «depois logo se vê». Em suma, o Bloco que lute pela vida depois das asneiras cometidas. E que organize um pós-Congresso e um pós-pós-Congresso e continue a debater tudo, desde a «política de direita de Sócrates» até ao “sucesso” do SYRIZA na Grécia. O disparatado governo que temos e o atual líder do PS facilitam-lhe a vida. Mas é tudo.

15 thoughts on “A Declaração Final do Congresso das Alternativas”

  1. Penso que há também grande confusão sobre o que significaria realmente uma denúncia do memorando (e suas consequências previsíveis). O desfecho final poderá ser muito doloroso, mas também poderá ser bastante vantajoso, mesmo na hipótese de sairmos da eurozona. O pré-requisito mais importante para as coisas correrem pelo melhor é termos um governo à altura do desafio. Veja-se o caso do Equador, que declarou uma moratória aos pagamentos da dívida, viu o valor da mesma colapsar para uma fracção ínfima do seu valor, e logo depois aproveitou isso para a recomprar toda, no mercado secundário. É claro que com partidos e políticos vendidos à alta finança europeia (aos nossos credores) não é possível fazer uma coisa dessas…

    Quanto a ajuda exterior… a Europa está em decadência e o Brasil e a América do Sul em ascensão, portanto não sei se seria assim tão mau sairmos da zona euro e aproximarmo-nos dos latino-americanos e dos africanos.

    Estas observações nada têm a ver com ideologias. Tanto o Brasil como a Argentina continuam a ser economias de mercado. Apenas se afastaram do liberalismo, nada mais que isso.

  2. Caro Teófilo, esse comentário será um pouco demagógico, pois teria que comparar também o custo de vida de ambos os países (em moeda do Equador isso é muito mais barato) e também comparar com a situação da Argentina e não do Equador, dado que o PIB per capita de Portugal é da ordem de grandeza do da Argentina. Há também que ter em linha de conta o problema do desemprego, que seria rapidamente resolvido com a desvalorização da moeda (e que é a principal preocupação dos portugueses, nos dias de hoje)

    O que os portugueses poderão ter dificuldade em aceitar, tenho que o admitir, é que os preços dos produtos importados subirão devido à previsível desvalorização do escudo. Subirão tanto mais quanto maior for essa desvalorização. No Equador esse problema foi evitado porque o governo, com um programa saído de eleições, foi muito competente a gerir a suspensão dos pagamentos dos juros da dívida. Contudo, na Argentina, dada a enorme confusão política que reinou e atendendo também dado a que o povo — previamente iludido pelos “anos loucos” de Carlos Menem — não aceitava o regresso ao peso. A situação era muito parecida com a do nosso país, nesta altura. A Argentina usava efectivamente o dólar: tinha “dolarizado” a economia, indexando rigidamente o peso argentino ao dólar. Tal decisão foi irresponsável por dois motivos: 1) não teve em conta a competitividade da Argentina, nos mercados em que a SUA produção nacional competia; 2) o extremo rigor orçamental exigido a um estado que deixa de poder emitir moeda para pagar dívida (monetarizar a dívida). Os argentinos passaram alguns meses muito difíceis; porém, e porque a desvalorização do peso operada pelos mercados foi punitiva, acabou por ser excessiva. Não só as exportações subiram em flecha como as importações foram rapidamente substituídas por produção própria. Alguns anos depois, e devido aos grandes excedentes da balança comercial, o governo teve que taxar as exportações (!) para impedir a valorização excessiva do peso argentino contra o dólar, bem como para aumentar o mercado interno, fortemente deprimido pelo colapso financeiro. Como se vê, pode ser fácil se houver consenso e disciplina, mas também pode ser muito complicado se for acompanhado de caos político e de pânico da população.

    O problema é, pois, conseguir encontrar um consenso político para se realizar um projecto desses.

  3. Pode parecer pessimismo mas da maneira que as coisas estão, qualquer alternativa á renegociação da dívida e saida do euro é agora impossivel.
    Portugal só tinha uma bala para gastar em Junho de 2011. Gastou-a mal, falhou o alvo. O caminho será daqui para a frente penoso, sem esperança , negro. Tal como o da Grécia.
    Serão os dois únicos paises a sair do euro e a ter de reestruturar a divida de forma apreciavel.
    Por mim, quanto mais depressa a população perceber isto, mais depressa se poderá começar de novo.
    O estrago feito pela dupla PSD-CDS em apenas um ano é de tal monta que já não é possivel recuperar, qualquer que seja o governo que o sustitua.
    O único milagre que nos poderá socorrer será uma volta a 180º da politica europeia durante o próximo ano. Um milagre ainda mais dificil de crer do que as aparições de fátima.

  4. Concordo, Gato Vadio. O caminho tomado desde Junho de 2011 vai-nos custar muito, muito caro. Por isso mesmo deveríamos aceitar a realidade e preparar as coisas para o melhor desfecho (na medida do possível).

    Acho que, tal como na Argentina, corremos o risco de passar por um mau bocado, pois não há uma plataforma política com legitimidade eleitoral suficiente para fazer o que era preciso.

  5. É pena que interprete isso como, e cito, “versão preliminar do futuro programa do Bloco, ou partido substituto,”, envolvendo toda a discussão sobre a declaração do Congresso com questões políticas em torno do BE e do PCP. Demonstra muito sobre a honestidade intelectual e preconceitos do autor do escrito. Já agora, o que a Penélope, tão caustica com o criminoso governo do PSD/CDS e desdenhosa do PS de Seguro, tem a dizer, sem palas, sobre o assunto? Qual é a sua saída para o atoleiro económico em que nos encontramos?

  6. Caro joãopft, será demagógico, mas que dizer sobre o Equador a não ser que é um dos países mais pobres da América Latina?
    Nivelar por baixo?
    E porque falar na Argentina? Teremos porventura as possibilidades dos argentinos? Onde estão as pampas para a criação de gado e produção leiteira, o petróleo, as terras para plantio de milho, de soja, de mate, de trigo, com direito a exportação, da indústria automóvel?
    Deixemo-nos de miragens.
    O que podemos exportar por cá, são serviços (investigação, turismo, eventos, cultura, portos/aeroportos, construção/reparação), tecnologia (máquinas, equipamentos, processos, novas aplicações), calçado, vestuário e produtos de muito boa qualidade (alimentares, moda, agrícolas).
    Fixemo-nos nisso e façamos por apoiar e dinamizar a indústria e centros de desenvolvimento o resto virá por si.
    Haja quem tenha cabeça e saiba imprimir o rumo, o resto, a rapaziada dá uma mãozinha.

  7. Dica:amigos, para os sensíveis, não usem os exemplos da Argentina, Equador ou mesmo da reestruturação feita na Alemanha para ilustrar caminhos alternativos. Podem usar o exemplo da Islândia com o seu “não pagamos”, mas prudentemente, que eles acenem logo com o novo “marco” (aka euro). Para os crentes, deixo o exemplo mais recente de renegociação da dívida: Portugal, o país que adia o pagamento da dívida mas não lhe chama reestruturação.

  8. Fui assistir ao final do Congresso, a fim de ouvir alguns discursos que, pensei, poderem trazer algo de novo na apreciação do que a “verdadeira esquerda” faz do momento actual. Ao chegar, estava a discursar um senhor, não sei o nome, que disse a certa altura:”este governo está a enterrar o País, mas quem abriu a cova foi o governo do PS”.
    Fiquei esclarecido àcerca do que eram as novas propostas desta nova “alternativa”, isto é: mais do mesmo. Assim, não há que contar com esta gente para qualquer alternativa credível para se sair deste impasse. Se, eventualmente, houvesse eleições e o PS viesse a ter uma maioria relativa e viesse a formar governo, já sabemos com o que poderiamos contar de novo: esta gente não teria quaisquer escrupulos em se voltar a aliar à direita para correr com esse governo, e dar à dita direita uma nova e maioritária alternativa para voltar a fazer o mesmo; and so, and so, and so…

  9. Amigo José, você também. Há pouco tempo um dos autores deste espaço resumia todo um congresso ao momento em que assistiu uma e outra pessoa a discursar contra o governo de Sócrates. Das dezenas ou centenas de palestrastes, destacou “uma ou outra pessoa” e fez um grande post sobre o assunto. Resumidamente: de um acontecimento marginal tiram conclusões que a própria existência do congresso contraria. Sejamos sinceros, os partidos à esquerda do PS têm de fazer a sua parte (e, vá lá, alguma aproximação tem sido feita) mas o PS também, porra. O que faz o PS para se aproximar da sua esquerda? Eu sou de esquerda mas algo lhe possa adiantar, amigo José, se este PS (o do José Seguro, com Seguro inclusive) chegar a ter a possibilidade de formar uma maioria relativa, estamos lixados. Basta ver as suas propostas políticas e seu discurso fingido. Se é isto que o PS tem para apresentar como alternativa de governo, então, amigo, estamos duplamente lixados.

  10. segundo o que me disse um amigo que participou na iniciativa, havia gente sem partido, gente sem partdo alinhda à esquerda, os do do PS, os do PC,os do BE. Espanta-me é como conseuiram produzir um documento (miscelânico, é certo) no fim daquilo tudo. Realce-se a vontade de passara a imgem de que não há só um caminho, embora os caminhos alternativos não sejam fáceis de encontrar enquanto parte da esquerda achar que o seu principal inimigo é o outro lado da esquerda.

    E prontos, keep it cool:
    http://www.youtube.com/watch?v=Vbg7-kVtPKs

  11. Peço perdão, agora que estava convencida que o horário de trabalho da isabel terminava às 16:00, constato que nem começa antes das 11:00.

  12. sra deputadíssima, com todo o respeito, não lhe estamos a pagar o ordenado e demais regalias para passar o seu tempo de trabalho a vir aqui insultar a inteligência das pessoas, neste caso os da aspirina. Tenha vergonha , comente com respeito e de preferência fora do horário do trabalho que lhe foi encomendado e pago. Não lhe pago para ser comentadora no aspirina enquanto está aproveitando o computador para efeitos extra nos “trabalhos” da assembleia. Até há quem já a ponha ao nível da feira de carcavelos. Enxergue-se e respeite e não tenha a fobia de apagar os comentários que não lhe agradam. A senhora deputadíssima representa o piorio do desleixo corporativista do funcionalismo.E assuma-se, em vez de vir com conversas parvas de conflito entre tipos de família e tipos de trabalhadores. Felizmente, há outros bons exemplos, infelizmente os que estão na lista para o desemprego.
    Estou, estamos fartos do seu distanciamento acéfalo. Demita-se. E apague o meu comentário, isso já é suposto.

  13. como é óbvio, o comentário era para a sra deputadíssima e não para a Penélope, que faz o trabalho de casa.

  14. Caro Teofilo, peço desculpa se fui um pouco incisivo.

    Agora não tenho tempo para isto, mas para ser rápido, conheço bem a Argentina e o Chile, tenho vários amigos nesses países e visitei os locais. Acompanhei também de perto a crise Argentina e, desde 2002, que ando a pregar (no deserto) que o mesmo erro estava a ser cometido em Portugal, com a adesão à zona euro. Felizmente para os chilenos, o regime democrático chileno que sucedeu a Pinochet não cometeu tal loucura (embora Pinochet tivesse antes tentado políticas liberais, em 1973-, com resultados terríveis). Entre esses dois países e Portugal as vantagens e os inconvenientes equilibram-se; eles têm mais recursos naturais, nós temos melhor infraestrutura, melhor educação e uma estrutura social mais equilibrada. Lá os pobres são mesmo pobres, as favelas são imensas. Em Valparaiso, tirando o centro e Viña del Rey (uma espécie de Estoril do Chile), tudo o resto são morros e morros de favelas. Isto num país cujo PIB per capita é próximo do português. Isto constitui uma imensa vulnerabilidade, um travão ao desenvolvimento económico, pois os recursos humanos qualificados são escassos.

    De qualquer forma, a nossa vontade será irrelevante, creio que os dados estão lançados. Podíamos associarmo-nos aos países sul-europeus e, em conjunto, organizar uma saída colectiva (e ordenada) da zona euro. Mas creio que não há a vontade política para fazer isso, pois cada qual acha-se melhor que o vizinho. Acabaremos que ter que aguentar com uma saída desordenada da zona euro.

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