Não temos nada

Com a decisão de Mario Draghi, presidente do BCE, de comprar dívida soberana (embora no mercado secundário), a chegada de Monti à liderança da Itália, a eleição de Hollande em França e o agravamento da situação em Espanha, finalmente uma ameaça séria à sobrevivência do euro, alguma coisa está a mudar na Europa, apesar das imposições alemãs e dos discursos de Merkel para o eleitorado. Ontem, Mario Draghi deslocou-se ao Parlamento alemão, ato inédito, a que não está naturalmente obrigado, alegando que queria ouvir as dúvidas dos deputados quanto à mais recente política do banco, cujo mero anúncio já representou um importante tiro de partida para uma certa descompressão na zona euro. Na prática, foi explicá-la melhor e desfazer os receios dos cabeças duras alemães, desconfortáveis, ofendidos ou simplesmente tontos com tanta ousadia. Só prova que o italiano está determinado e tem um objetivo. Esta passagem do seu discurso é sintomática:

In our analysis, a main cause of disruptions in the transmission was unfounded fears about the future of the euro area. Some investors had become excessively influenced by imagined scenarios of disaster. They were therefore charging interest rates to countries they perceived to be most vulnerable that went beyond levels warranted by economic fundamentals and justifiable risk premia.

Clearly, it was not by chance that some countries found themselves in a more difficult situation than others. It was mainly those countries that had implemented inappropriate economic policies in the past. This is also why the first responsibility in this situation is for countries to make determined reforms and convince markets that they are credible.

But many were already doing this, only for interest rates to rise even higher. There was an element of fear in markets’ assessments that governments, acting alone, could not remove. Markets were not prepared to wait for the positive effects of reforms to emerge.

In our view, to restore the proper transmission of monetary policy, those unfounded fears about the future of the euro area had to be removed. And the only way to do so was to establish a fully credible backstop against disaster scenarios.

We designed the OMTs exactly to fulfil this role and restore monetary policy transmission in two key ways.

First, it provides for ex ante unlimited interventions in government bond markets, focusing on bonds with a remaining maturity of up to three years. A lot of comments have been made about this commitment. But we have to understand how markets work. Interventions are designed to send a clear signal to investors that their fears about the euro area are baseless.”

Infelizmente, é evidente que tudo isto acontece muito tarde para as populações. A situação na Grécia está péssima, embora mais calma, em Espanha idem e em Portugal a agravar-se a cada hora. Mas… Mas. A Grécia descobriu que tem petróleo em abundância no mar Egeu e no Jónico, podendo estar aí uma das explicações para o facto de, aparentemente, já ninguém falar na sua saída do euro, conseguindo há dias um prolongamento de dois anos para o seu programa de ajustamento, a Espanha é grande demais para ser resgatada nas condições dos seus predecessores, começando por beneficiar de uma tolerância em matéria de défice, a que se vão seguir outras medidas, como a ajuda direta ao setor bancário (OK, há de haver uma maneira de não escandalizar os alemães eleitores da chanceler), a Irlanda fala inglês, tem muitos ruivos e muita família americana. No entanto, Portugal não tem nada, a não ser um repugnante servilismo. Não tem sequer um governo com orgulho nacional suficiente para congeminar uma estratégia de amenização das exigências desta diabólica Troika (para 99,5% dos portugueses) e de busca de possíveis aliados. Pior ainda, o próprio Ministro das Finanças, que podia bem integrar a missão assassina, do outro lado da relação, portanto, tem a cabeça formatada pelos anos de trabalho no Banco de Portugal e depois na CE, numa época em que o FMI ainda não fazia auto-críticas. Arrisca-se a ser chamado de antigo e quadrado, na melhor das hipóteses desatualizado e ultrapassado, pelo Selassie, e a rever os modelos sob a pressão dos críticos, já que o povo português, e o maior partido da oposição, não força a sua expulsão. A posição de reverência em que este governo se colocou, apenas faz com que o tratem como um cachorro. Não tenho mais nada a dizer. Portugal devia ter.

4 thoughts on “Não temos nada”

  1. não temos…o Gaspar percebeu isso e quis demitir-se, o Portas percebeu isso e quis demitir-se, até o Passos não percebeu isso mas quis demitir-se na mesma.

    Resta-nos o cavaco alzheimico, o relvas a despachar os últimos negócios e o seguro a fazer não sei o quê. Só nós não nos podemos demitir (excepto algumas centenas de milhares de jovens que o fazem compulsivamente).

  2. puxando a brasa à minha sardinha, já que estamos no Titanic 2, eu, como mulher, devia ter saída prioritária. Escolho bote para a américa.

  3. A Alemanha destruiu a Europa duas vezes no século passado e em 2014 faz cem anos sobre o início da primeira dessas destruições. Será que a Merkel, tremendo de húmida excitação com a aproximação da data, não aguenta até à chegada do centenário perfeito e rebenta prematuramente com o paiol, antecipando o fogo-de-artifício das comemorações com a primeira destruição da Europa no século XXI?

    Aceitam-se apostas, mas não em euros (é chão que provavelmente vai deixar de dar uvas) e também não em marcos (que se trompique o IV Reich). Que tal sacos de arroz ou feijão? Ou latas de atum? Ou papel higiénico, já agora, que vai haver por aí muita caganeira?

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