“Parole, parole, signor Draghi”

Há poucos meses, Mario Draghi anunciou que o BCE estaria disposto a comprar títulos de dívida dos países da zona euro em dificuldades (o que muito aliviou a pressão dos mercados), mas na condição de os países em causa formularem um pedido de resgate e assinarem com a Troika um plano de ajustamento. O país destinatário da mensagem era claramente a Espanha. Mas Portugal não podia deixar de figurar em cópia. Portugal não só pediu o resgate, como também já se encontra a “cumprir” o dito plano de ajustamento e tem sido oficialmente elogiado pela sua execução (a realidade cá dentro é outra, como sabemos). Elogiado, repito. Apesar disso, o que lemos (no Público) é que :

«Na conferência de imprensa, o presidente do BCE esclareceu que Portugal apenas poderá vir a beneficiar do novo e mais ambicioso programa de compras de obrigações anunciado pela autoridade monetária após ter conseguido obter, no mercado primário de obrigações de tesouro, o que caracteriza como “acesso total”. “O programa de compra de obrigações não é um substituto para uma falta de acesso ao mercado primário”, disse. »

Ora, assim, batatas, ou melhor, “patate”. Afinal, a intervenção do BCE só acontecerá depois de o país ter percorrido o calvário suficientemente duro do desemprego e da recessão e cumprido a pena pelos pecados cometidos (a que se deve acrescentar, presume-se, a venda ao desbarato de todas as empresas públicas), mas, como se isso ainda não bastasse, se já tiver regressado ao mercado primário. Uma nova condição, portanto.

Como medida de descompressão não está mal… Como sinal de independência do banco em relação à Alemanha, também estamos conversados. No fundo, este número do anúncio foi todo combinado. Ganhar tempo enquanto castiga é o único programa da Alemanha para a parte sul da zona euro, em concertação com o BCE, que se encarrega das manobras de diversão.

E o caso absurdo da Espanha? Rajoy (com quem não simpatizo minimamente) alega, e com razão, que o “programa de ajustamento” aprovado pelo seu governo é em tudo igual ao que a Troika lhes imporia, uma verdade que parece estar à vista. Draghi, pobre homem, confessou-se ontem pessimista com a economia da zona euro. Porque insiste então o BCE em fazer-se difícil, impondo condições patéticas?

Ainda no Público: «O apelo mais dramático ontem feito pelo presidente do BCE dirigia-se especialmente a Madrid, que tem vindo a adiar o recurso a este mecanismo, por não querer aceitar entrar em negociações com a troika para a aplicação de um plano de ajustamento. O Governo Rajoy defende que já tem em prática o seu novo plano e não precisa de outro, imposto pela troika.»

Tudo isto é de um ridículo sem fim.

24 thoughts on ““Parole, parole, signor Draghi””

  1. esse draghi também me saiu cá um cromo. porque não fez ele o mesmo ultimato quando os juros da itália tocavam os 8% na véspera da demissão do berlusconi. cada um tenta safar-se a sua maneira é o que é (menos o barraco do passos).

  2. Há muito sabemos que o negócios dos bancos é emprestar um guarda-chuva quando faz sol e ir buscá-lo quando começa a chover.
    Haja alguém que no fim desta História faça as contas a quanto uns países ganharam e quanto outros perderam com estas solidariedade e fraternidade europeias.

  3. Penélope, pensar que este Draghi é diferente de qualquer um dos funcionários que, em alegre trio, andam por aí a espatifar o euro e a europa, é apenas um sonho.
    Apesar de todas as malfeitorias feitas aos cidadãos ou às balanças comerciais superavitárias, o euro aprecia-se face ao dólar deitando assim por água abaixo todo o esforço desenvolvido.
    É como se um patrão conseguisse, através de um bom acordo, que os empregados fizessem o dobro do trabalho por metade do pagamento a fim de salvarem a empresa e os seu fornecedores triplicassem o preço dos materiais levando a que o seu produto acabasse por ter de ser vendido mais caro num mercado sem compradores.
    Estes mafarricos dos modelos, das teorias económicas coladas a cuspe que na maior parte das vezes não entram em linha de conta com um monte de variáveis que lhe são adversas ou apenas incontroláveis/previsíveis estão a arrastar os países, a europa e o mundo para mais uma situação que julgava ter sido ultrapassada.
    Se nos recordarmos que, ainda há poucos anos, eram estas alimárias que em altos brados anunciavam o milagre irlandês, do mesmo modo que o japão esteve na moda nos anos 70/80, ou que o “american way of life” era um símbolo dos idos cinquentas.
    Hoje em dia, os países europeus do sul exploram-se com juros agiotas ao mesmo tempo que se financiam os do norte a custos risíveis!
    Não era esta a europa que se pretendia, mas ainda há por aí quem ache que quem manda é quem empresta.
    Certamente são os mesmos que falam do utilizador/pagador, do prejuízo gerado pelo estado social, dos que tentam limitar o direito à defesa, dos que encolhem os ombros quando são os reformados, pensionista, professores ou os funcionários públicos a pagar, mas que quando lhes mexem nos bolsos se apressam a chamar roubo indecente ao que antes era apenas bom senso e necessidade de equlibrar as contas públicas.

  4. Rajoy,se estivesse na oposiçao já estava a pressionar o governo para o resgate, como o fez a miseravel direita em Portugal? acho que não.Catroga (vem no livro os “resgatados”) disse a alguem isto: vamos-lhe dar mais dez dias para ele se afogar de vez. Como já perceberam estou a a falar de socrates.Assim se faz politica em portugal.

  5. Era bom que os donos da CP, da TAP, do Metro e dos Barcos fizessem menos greves, pois alguns dos impostos nossos vão para esse sacanas.

  6. Verdade, Rural.
    Tão ruim como suportar a monumental mentira com que o actual primeiro-ministro enganou o eleitorado e o cinismo com que políticos iluminados construtores de uma “Europa solidária” assistem à transferência maciça de recursos do Sul para o Norte,é ver três ou quatro sindicatos empenhados na estratégia terrorista do não fica pedra sobre pedra e que lixe o parceiro. O Valupi ali p’ra baixo bem disse que é tudo farinha do mesmo saco.

  7. Ah! pois, já cá faltava a conversazita das greves que prejudicam o pobre povo!
    Mas queriam greves assépticas?
    Então quem é que poderia fazer greve?
    Os desempregados? Os reformados e pensionistas?
    Essa estupidez que é a afirmação; “coitadinhos, eles até têm razão, mas eu é que não tenho nada a ver com isso” ter alguma coisa a ver com a luta de interesses antagónicos, com solidariedade ou outra coisa qualquer só lembraria a inteligentíssimas sapiências nacionais!
    Que eu saiba, a falta ao trabalho por motivo não imputável ao trabalhador (ex.: greve dos transportes) é considerada justificada (alínea d) do artº 249 do CGT) desde que comunicada oportunamente.
    Haja vontade politica por parte dos sindicatos e demais agentes envolvidos e se calhar as greves não seriam tão utilizadas.
    A greve, é uma arma que é utilizada por ambas as partes. Ver trabalhadores a utilizarem-na como arma de arremesso a outros trabalhadores, para mim, é incompreensível, mas como já nem um porco a andar de bicicleta me surpreende face ao disparate nacional, é melhor que me habitue a viver na “animal farm”.

  8. “Que eu saiba, a falta ao trabalho por motivo não imputável ao trabalhador (ex.: greve dos transportes) é considerada justificada (alínea d) do artº 249 do CGT) desde que comunicada oportunamente.”

    Ora cá está, máscara no chão.
    E as vendas que se perdem (e os impostos que se perdem) por motivo não imputável à empresa? E os milhões em divisas, e os mercados, e o ânimo colectivo, que se perdem para satisfação lúdica de três ou quatro revolucionários em luta? Também são considerados justificados perante a inevitável constatação de que o dinheiro não cai do céu?

  9. Mas estás a falar de quê?
    três ou quatro revolucionários em luta?
    Mas vives onde?
    Mas que divisas, que mercados?
    Mas sabes do que estás a falar ao menos, ou é apenas por teres visto a bandeira ao contrário?

  10. Os administradores das Tap, Reffer, CP, Barcos etc, são juntamente com os sindicatos, de braço dado há 38 anos uma das desgraças deste país.

    Eles, mas também os bancos banqueiros e bancários.

    Lembram-se das jogadas das nacionalizações e depois das reprivatizações?

    Tanto se aproveitaram os banqueiros como os bancários com a benção dos sindicatos.

    Foi tudo a lambuzar-se!

  11. Nestas empresas como Reffer, TAP etc. a irresponsabilidade dos sindicatos e das administrações são irmãs gémeas.

    É tudo motivo para mamar até ao tutano, é o desenracanço parolo, e os motivos das greves não passam de ditaduras demagógicas que aproveitam a incapacidade de vivermos em democracia.

  12. “E a greve é porque?”

    Seja pelo que fôr. Os fins não justificam os meios.

    Mas já agora. A greve é porque? Boa ideia. Cada pré-anúncio de greve deveria ser acompanhado com publicitação da respectiva folha de salários dos grevistas. Se são públicos os inconvenientes que causam porque não hão-de ser públicas as razões objectivas das suas causas? Porque razão merecem menos desconfiança que os titulares de cargos públicos?

  13. Seja pelo que for!
    Boa resposta!
    Não se fazem mais greves! Proiba-se já o direito à greve!
    Bem me parecia que a democracia era só para o que interessa.
    Greves, direitos, qual quê?!
    O interesse nacional acima de tudo!
    São saudades do “botas”, não?
    O campónio, pelo menos já mete bancários ao barulho a governarem-se com as nacionalizações e tudo! Boa pá! Chega-lhes! Esses madraços que eram a vanguarda automobilizada do proletariado. Cadeia c’os gajos. Patifes! A orientarem-se com o nosso ouro e as nossas poupanças!
    É vê-los a dar o coirão das 08H30 às 20H00, de bico calado, sem horas extra, num priveligiado lugar de caixa front-office, com a dinheirama à mão e necessidade de ter pelo menos uma licenciaturazinha sem equivalências… e bico calado, pois o contrato acaba daqui a meses e se pias, rua!
    Vai bonita a farra, cá por casa pá.
    O Val, tem cuidado co’a chave da adega.

  14. O Rajoy não precisa da troika, já a interiorizou. Em sonhos tem com ela um “relacionamento diário” (expressão do Relvas a propósito das relações do governo portuga com a troika). A mulher do Rajoy, que arranha o italiano, até já lhe perguntou quem era aquela “troia” que o faz arfar de noite.

  15. “Proiba-se já o direito à greve!”

    A greve é um direito, como o de fazer barulho, que não se pode sobrepôr ao do vizinho poder trabalhar ou poder dormir. Fantasias românticas é nos filmes. Haverá greves que muito contribuirão para que quem trabalha das 8H30 às 20H00 (já agora, quem são? os Médicos?) fique sem trabalho. E a mentalidade do Teófilo, às vezes, também.

  16. A greve faz parte dos pilares democráticos em que vivemos hoje em dia.
    Está consagrada na constituição o seu direito.

    Aprender a jogar com o quadro de regras que existem ( constituição e leis portuguesas) e faze-lo bem ou mal denota fair play e compreensão do que é viver em democracia.

    Querer alterar as regras a meio do jogo, porque não dá jeito nenhum que as regras sejam as que são no momento em que atravessamos, é tipico de quem não só não lida bem com a democracia mas de quem nem sequer sabe o que ela significa.

    Quando a bailarina não sabe dançar mas diz que o palco está torto percebe-se bem o tipo de mentalidade que lhe assiste : tudo é válido em democracia desde que salvaguarde os meus direitos. Os dos outros é para esquecer.
    Patético.Vivemos de facto tempos de autenticas bestas.

  17. “Patético.Vivemos de facto tempos de autenticas bestas.”

    Faço também minha esta frase, Gato Vadio.

    Há quem pense que o tempo das bestas foram outros tempos.

  18. “A greve é um direito, como o de fazer barulho,…”

    Depois de ler isto, continuar a conversa para quê?

    O meu tempo é demasiado valioso para eu o desperdiçar.

  19. Há quem pense, como eu , que o tempo das bestas foi de facto outro, mas penso mais : as bestas do outro tempo, apesar de orfãs do botas, nunca desistiram.
    Adormeceram durante o tempo que durou a euforia do 25 de abril, para recuperar forças. Ei-los de novo, ao poder e em força, retemperados pelo alheamento do povo, prontos para voltarem a ser bestiais no topo da chain food.
    Para tal contam com o apoio de incautos pouco dados a raciocinio que só conseguem vêr o que lhes mandam vêr e que , diz-se, é sempre pior que no tempo das outras bestas.
    Patético. De novo.

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