Cala-te, Cavaco

Não atravessamos dificuldades unicamente para corrigir os erros do passado recente, mas também para encontrar um rumo de futuro.

Durante tempo demais, Portugal foi um país iludido pelo curto prazo, que de algum modo se deixou envolver pela espuma dos dias, vivendo o presente sem cuidar do futuro.

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Aconteceu uma cena nas Américas em 2008 que só compara com outra acontecida nas mesmas paragens 80 anos antes. Como os sistemas bancários podiam ir para o galheiro um pouco por todo o Mundo, a Europa decidiu que a resposta a essa crise seria a injecção de dinheiro no sistema, com a suprema finalidade de evitar que a recessão se transformasse numa depressão. Quando os responsáveis políticos ao tempo falavam da crise, era desta, a única que conheciam, a única que existia. Foi assim possível constatar que o ano de 2009 correu bem naquela parte em que não correu tão mal como se temia. Ao mesmo tempo, circulava uma inevitável interrogação quanto à política europeia a respeito dos défices que iriam inevitavelmente aumentar em consequência dessa resposta à crise. Alguns alvitravam que a política dos 3% iria ser revista ou, pelo menos, suspendida até que a crise tivesse sido debelada e fosse possível voltar a essa meta. Assim estava a União Europeia até ao começo de 2010 e queda da Grécia: foi então que “o mundo mudou”, a Europa invertia por completo a sua estratégia e lançava-se desenfreada nas políticas de austeridade. Passados 2 anos, ainda não encontrou outra solução e agora é a própria moeda que começa a estar em risco pelo alastramento constante do problema a cada vez mais países da Zona Euro. Esta crise das dívidas soberanas, embora decorrente da crise de 2007-8, era uma outra crise.

A crise das dívidas soberanas está a expor de forma cruel aquela que é uma característica essencial da União Europeia: a partilha da soberania – que o mesmo é dizer, a cedência de soberania local para a obtenção de soberania de grupo. Portugal tem sempre de negociar as suas políticas com os parceiros, pois existe um património comum. É esse o preciso sentido do PEC enquanto instrumento de protecção e uniformização das economias da UE. Numa outra vertente, esta crise de 2010 veio também expor a fragilidade política do projecto europeu, revelando discrepâncias radicais entre os interesses dos diferentes países. Temos assistido a um festival de cimeiras, medidas e declarações que nos deixa atónitos perante tanta impotência das instituições e Estados europeus e tanto desvario verbal dos seus principais responsáveis políticos.

Altura de regressarmos a Cavaco, essa espécie de Presidente da República. Disse ele, num discurso solene a comemorar o 5 de Outubro, que as actuais dificuldades nasceram de erros, e que esses erros foram recentes. Disse ele, em nome da República, que este país andou iludido pelo curto prazo e pela espuma dos dias, sem cuidar do futuro. Mas não nos disse que erros foram esses nem quão recentes tendo em conta que a Nação já vai com quase nove séculos de bailarico. Mas não nos disse quem é que iludiu este país, quem é que nos privou do futuro, ou se o fenómeno surgiu por geração espontânea no cocuruto de cada português.

De que, e de quem, fala este homem? De Sócrates, o anticristo? Das muitas cigarras e das poucas formigas? Como é que alguém que está na política desde 1980, que já foi primeiro-ministro durante 10 anos, que é o Chefe de Estado desde 2006, pode insultar e ofender tanta gente sem que ninguém, nem sequer um único cidadão, lhe diga na cara para se calar?

3 thoughts on “Cala-te, Cavaco”

  1. Que autoridade moral tem este” cromo”,para criticar quem quer que seja,quando em 10 anos consecutivos com maioria absoluta, a herança que deixou aos vindouros, foi o monstro na função publica com o seu estatuto remuneratorio (agiu em causa propria!) e a destruiçao da agricultura pescas e marinha mercante. Do regabofe “laranjinha” na distribuiçao das paletes com subsidios vindos da CEE,não falo,deixo para os historiadores.

  2. A única e correcta saída que Cavaco Silva pode ter perante os portugueses é simples, pedir perdão por todo o mal feito e resignar por esgotamento retirando-se para a sua mansão na quinta da coelha!
    Como ministro das Finanças de Sá Carneiro foi o que se viu, como p.ministro durante dez
    anos oito dos quais com maioria absoluta, empandeirou a agricultura, quase acabou com as pescas, foi muito determinado nas suas curtas vistas para um melhor futuro do País, limitou-se a ficar muito satisfeito por ser considerado o “bom aluno” de CEE!
    Dedicou-se com afinco ao negócio do alcatrão, às primeiras PPP, eregiu C.C.Belém com
    uma enorme derrapagem, esqueceu ou não teve tempo para as tais reformas de que hoje
    tanto se fala; Justiça, Educação, Saúde, etc.!
    Como presidente da República, nunca ligou ao sentir dos portugueses, escudando-se na cooperação institucional, trabalhou fundamentalmente, para a reeleição que conseguiu
    com a mais baixa participação de eleitores, tal o desencanto com seu primeiro mandato!
    Logo, no seu discurso de vitória mostrou a sua falta de dimensão cultural e humana para a função, continuou com o discurso de posse, insistiu no prefácio do livro dos feitos em
    atacar o ex. Primeiro Ministro e, a partir daí passou a ver o Mundo ao contrário!!!

  3. Cavaco Silva tem razão. A situação actual decorre de erros do passado não muito longínquo. Erros grosseiros e simples. As instituições Banco de Portugal e Governo da Republica, por onde Cavaco passou, foram incapazes de prever as consequências de longo prazo de baixas taxas de juro, câmbio forte e fixo em relação aos principais parceiros comerciais e ausência de medidas macroprudenciais restritivas ao crédito, na nossa economia. Com crise ou sem crise de 2008, com Sócrates ou com Santana, o resultado seria o mesmo, a bomba-relógio estava a fazer tic-tac. Há uma série de gente, com Cavaco Silva e Victor Constâncio à cabeça, que deve a Portugal um sonoro “desculpem, não foi com má intenção, mas erramos espectacular”.

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