Os extraordinários Conselhos Europeus

Eis como imagino o último:

Depois da sessão de cumprimentos e gracejos de circunstância, Van Rompuy toca a sineta e todos se sentam nos respetivos lugares. O mesmo presidente apresenta os temas em discussão, faz uma pequena exposição e dá a palavra aos diversos intervenientes, o primeiro dos quais pode até, por estes dias, ser Hollande. O francês procura diferenciar-se das teses oficiais alemãs, minar a sua preponderância e fazer valer o peso da França, desta feita com uma perspetiva mais à esquerda. O seu discurso fica a pairar. Seguem-se a Espanha, a Grécia e a Irlanda, que aproveitam o mote para tentarem resolver o seu problema bancário. Depois, países como a Finlândia, a Holanda e a Áustria contrapõem de forma arrogante e intolerante e a cizânia instala-se. Os argumentos saltam de uns para outros, com trocas de comentários em surdina entre pares mais próximos; a Alemanha intervém de vez em quando para repor o “foco”, aliás, é solicitada com o olhar a cada pausa para suscitar a aprovação ou a desaprovação ao que se diz e ao que se ouve. Passos faz que não conhece Rajoy nem Monti de lado nenhum e ignora Samaras. Possivelmente, senta-se ao lado de Merkel e olha os restantes com a tranquilidade de um pateta. No final, esta grita que não haverá mais euros para ninguém, se não vingarem os seus pontos de vista, nomeadamente que a supervisão bancária apenas arranque a sério, se arrancar, após as eleições de setembro de 2013. Hollande ainda replica “Mais votre jeu électoral est inacceptable!”. Acontece que o argumento eleitoral poderá vir a ser utilizado por qualquer dos presentes em causa própria, num futuro próximo. E não há como ir mais longe com a revolta. Quem vai querer sair do euro? A Itália diz com autoridade real ou imaginária que a situação está controlada, na voz de um Monti providencial e bem relacionado. Diz até que vai conseguir em breve sair da crise. Portugal cola-se a Merkel e cala-se, apostado em que as manifestações em Portugal passem despercebidas face ao barulho de Espanha; Samaras e a Grécia estão desacreditados, mas não querem abandonar a moeda única, o que Merkel agradece; e a Espanha tenta garantir ajuda para os bancos de uma forma não oficial, para não ferir os interesses eleitorais da chanceler. É até capaz de o conseguir. E assim vamos. Mas não vamos bem. O grande objetivo é, pois, dados os ditames alemães, controlar as populações, a quem até oferece uns empregozinhos na sua terra. A grande arma é a incógnita de um abandono do euro. Esta armadilha é poderosa e a Alemanha a sua principal beneficiária. Passos não deixa de ser um palhaço. Pobre.

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Bem podem os deputados e comentadores do PSD dizer que não há alternativa, que lamentam, mas estamos sujeitos às imposições da Troika e que não temos soberania, para justificarem as violentas medidas previstas no orçamento. Nada disso é verdade. Gaspar, que é quem manda no Governo, cujo chefe já percebeu ser ignorante, não conheceria outra forma de conduzir as finanças. E gosta desta. É a sua receita. Estes são os seus cálculos. Dispensa bem a Troika; na malvadez vai muito mais longe. É um caso de estudo. As pessoas pouco lhe interessam.

Não nos bastava termos de aguentar o Cavaco os anos que ainda faltam do seu mandato, vamos ainda ter de aturar este bando de incompetentes e de lacaios pelo menos até abril, quando os cortes já doerem e a execução orçamental se revelar desastrosa. Além de continuarmos a pagar as viagens a Portas.

7 thoughts on “Os extraordinários Conselhos Europeus”

  1. I met a traveler from an antique land
    Who said: “Two vast and trunkless legs of stone
    Stand in the desert. Near them, on the sand,
    Half sunk, a shattered visage lies, whose frown,
    And wrinkled lip and sneer of cold command,
    Tell that its sculptor well those passions read,
    Which yet survive, stampt on these lifeless things,
    The hand that mockt them and the heart that fed:
    On the pedestal these words appear:
    ‘My name is Ozymandias, king of kings:
    Look on my works, ye Mighty, and despair!’
    Nothing beside remains. Round the decay
    Of that colossal wreck, boundless and bare
    The lone and level sands stretch far away.”

    (Percy Bysshe Shelly, 1817)

  2. Encontrei um viajante de uma terra antiga
    Que disse: —Duas vastas pernas de pedra, sem tronco
    Erguem-se no deserto. Perto delas, na areia,
    Meio enterrada, jaz uma face despedaçada, cuja fronte,

    E lábio enrugado e esgar de frio comando
    Contam que aquelas paixões o seu escultor bem lera,
    Que ainda sobrevivem, gravadas nessas coisas inertes,
    A mão que os escarneceu e o coração que alimentou.

    No pedestal estas palavras aparecem:
    “Meu nome é Ozymandias, rei dos reis:
    Vede as minhas obras, ó poderosos, e desesperai!”

    Nada mais resta: em redor a decadência
    Daquele destroço colossal, ilimitado e despido
    As solitárias e planas areias estendem-se a perder de vista.

    (Tradução livre do soneto de Shelly;
    Ozymandias é o sobrenome grego do faraó Ramsés II)

  3. o homem não discute porque já percebeu que não tem voto na matéria. ou então, sente-se manco, um incapaz, sem o gasparinho a tiracolo. ou pior, apaixonou-se pela blonde, tipo síndrome de Estocolmo.

  4. “Os extraordinários Conselhos Europeus”, essa é boa!
    Os países do sul precisamos de dinheiro não é conselhos.
    Uma vez o Alemão Beckenbauer do Bayern disse que ainda um dia havia de ver o Barcelona e o Real Madrid falidos.

    Estes parece, digo, parece que ainda se aguentam, Mas a Espanha e o Sporting já se lixaram.

    Beckenbauer não acertou, por enquanto.

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