Helena e os fretes

Quanto mais o Governo se esfarela na sua leviandade, falsidade, loucura e desnorte, levantando um coro de repúdio, mais Helena Garrido rema contra a corrente, com súbito e tardio amor. É incompreensível. Esta senhora anda, há várias semanas, a contorcer-se nos seus artigos no Jornal de Negócios para encontrar qualidades neste miserável governo. Neste artigo, por exemplo, chega a meter dó, além de nos cansar, com as voltas que dá à folha para enaltecer as virtudes da mexida na TSU. No final, o leitor já enjoado com tanto meandro, percebe que afinal Helena só queria dizer, como os Borges que por aí andam, que os empresários são um bocado… ignorantes e acomodados demais. Pouco modernos, em suma. Da próxima, seria melhor ir direta ao assunto.

Hoje retoma as apologias, evitando a linha reta através das pequenas reservas que deixa aqui e ali, au cas où. A linhas tantas, diz o seguinte:

«As escolhas do Governo podem estar envoltas no caos comunicacional e nas tentativas de cada um dos partidos da coligação evitar a sua morte com esta crise. Mas são opções que são determinadas pelas preferências da maioria dos portugueses.

A maioria de nós quer ficar no euro. Com esta preferência, revelada pelo voto da maioria dos portugueses em partidos que apoiam a União Monetária, os caminhos que nos restam não são muitos. As políticas são aquelas e apenas aquelas que são aceites no clube do euro, a que pertencemos.»

Dizer que, sendo a preferência da maioria dos portugueses a permanência no euro (e resta saber até quando), estas são as únicas opções é um abuso. E também um serviço. A permanência no euro é um pressuposto dos programas eleitorais e mesmo das declarações atuais de TODOS os partidos. O problema está no programa com que estas bestas se apresentaram a eleições e no seu programa de governo. E no que pretendiam de facto fazer e no pouco estudo que nisso investiram. Estão no poder à custa de mentiras e mais mentiras, como muita gente apenas há pouco percebeu. Helena Garrido ainda está de fora desse número. Também não é inteiramente verdade que o “clube do euro” queira ou exija exatamente o que a cabeça de Gaspar produz.

Depois, a repetição da tese peregrina de que o problema está na falta de jeito do Governo para a comunicação (!). Como se o que se comunica tivesse algum mérito! E que dizer de mais uma versão do fatalista e intimidatório chavão «não há alternativa»? É o que Helena quer dizer quando fala do que determina as opções. Helena, como não há alternativa? Claro que há alternativa a estes incompetentes! As mentiras são deles. O excesso de austeridade foi escolha deles. O buraco aberto nas contas públicas, finalmente colossal, é da responsabilidade deles. O fundamentalismo é deles. A anulação de todo e qualquer investimento é escolha deles. E as consequências não estão a ser nada bonitas de ver.

Depois, já muita gente disse, mas HG não ouviu, que o Memorando não está escrito na pedra e a comprová-lo estão as sucessivas revisões de que tem sido alvo. Um acordo que produz os efeitos contrários aos desejados, que em princípio são a redução do défice e a redução e o pagamento da dívida, não só pode como deve ser revisto. Não o reconhecer é fazer fretes. Outro governo ou não teria chegado a esta situação catastrófica um ano depois da “ajuda financeira”, ou já teria insistido numa renegociação, ou até já andava em negociações com outros países do sul. O que está a acontecer não era inevitável. Mas não sou ingénua: é verdade que os programas de ajustamento dos países sob resgate podem ter outros objetivos menos claros e eventualmente mais verdadeiros que os cumprimentos dos défices apenas escondem: manter os países em dificuldades pela trela de Angela Merkel e subjugados aos interesses económicos da Alemanha, que passam precisamente por construir uma mini-China no sul do continente europeu, ao seu dispor. E, para isso, o empobrecimento e a miséria serão indispensáveis. Como jornalista, Helena Garrido devia ponderar essa hipótese. Como portuguesa, devia sentir-se indignada. Mas não sente: HG, como Passos Coelho, acha que a subserviência é a única atitude e amedronta-se com a perspetiva de punição, mormente com a expulsão da zona euro. Sem razão. Não interessa à Alemanha a saída de ninguém do euro. Helena já devia saber. Além disso, se o descalabro atingir uma determinada ordem de grandeza, sair da moeda única pode ser a melhor solução, inclusivamente por não ser a melhor para a Alemanha.

«[…] comprometendo-se Lisboa a cortar mais quatro mil milhões de euros na despesa este ano e no próximo». Até agora, só vimos tentativas de aumento das receitas. Têm saído goradas. Os novos aumentos da carga fiscal não vão resultar melhor.

«Há estradas, hospitais, centros culturais e muitos outros monstros, que não são necessários, mas que têm de ser pagos e, para isso, corta-se no que está à mão, na educação, na saúde, nas prestações sociais, na defesa e na segurança.»
Por favor. A lengalenga das obras faraónicas, não. E de que é pecado construir hospitais e escolas e estradas. O PSD adora dizer que se corta na educação e na saúde por causa de monstros como… estradas e… hospitais. Por que razão repete HG inanidades como estas? Que história nos conta de que as estradas não são necessárias – não? E as escolas e unidades de saúde com condições limitadas que puderam encerrar devido ao encurtamento das distâncias? Na minha infância, demorava-se 5 horas de Viseu ao Porto! – de que os hospitais não são necessários – esta brada mesmo aos céus – de que a cultura e o desporto não são necessários?

No Jornal de Negócios, que leio com alguma confiança, o Camilo Lourenço já está para lá de Marraquexe, mas a Helena Garrido e este seu improvável combate surpreendeu-me.

7 thoughts on “Helena e os fretes”

  1. Perdoa-me, Penélope, por meter aqui de candonga um comentário que não tem a ver com o assunto que abordas, e bem, mas o post de Isabel Moreira com um poema de Baudelaire não está aberto a comentários e eu gostaria de tornar público o meu protesto por a transcrição do poema de um poeta francês estar em inglês.

    A publicá-lo noutra língua que não a do autor, era perfeitamente legítimo à Isabel tê-lo traduzido para português, se achasse que isso facilitava a divulgação, mas pôr aqui uma versão em inglês é coisa que não lembra ao Diabo.

    Por respeito ao poeta, aqui vai o original:

    “Il faut être toujours ivre. Tout est là: c’est l’unique question. Pour ne pas sentir l’horrible fardeau du Temps qui brise vos épaules et vous penche vers la terre, il faut vous enivrer sans trêve.

    Mais de quoi? De vin, de poésie ou de vertu, à votre guise. Mais enivrez-vous. Et si quelquefois, sur les marches d’un palais, sur l’herbe verte d’un fossé, dans la solitude morne de votre chambre, vous vous réveillez, l’ivresse déjà diminuée ou disparue, demandez au vent, à la vague, à l’étoile, à l’oiseau, à l’horloge, à tout ce qui fuit, à tout ce qui gémit, à tout ce qui roule, à tout ce qui chante, à tout ce qui parle, demandez quelle heure il est; et le vent, la vague, l’étoile, l’oiseau, l’horloge, vous répondront: “Il est l’heure de s’enivrer! Pour n’être pas les esclaves martyrisés du Temps, enivrez-vous; enivrez-vous sans cesse! De vin, de poésie ou de vertu, à votre guise.”

    E, já agora, uma versão portuguesa, que a Net está cheia delas:

    “É necessário estar sempre bêbado.
    Tudo se reduz a isso; eis o único problema.
    Para não sentirdes o horrível fardo do Tempo, que vos abate e vos faz pender para a terra, é preciso que vos embriagueis sem cessar.
    Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha.
    Contanto que vos embriagueis.
    E, se algumas vezes, nos degraus de um palácio, na verde relva de um fosso, na desolada solidão do vosso quarto, despertardes, com a embriaguez já atenuada ou desaparecida, perguntai ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai-lhes que horas são; e o vento, e a vaga, e a estrela, e o pássaro, e o relógio, hão-de vos responder: É hora de se embriagar!
    Para não serdes os martirizados escravos do Tempo, embriagai-vos; embriagai-vos sem tréguas!
    De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha.”

  2. Apoiadíssimo, Joaquim Camacho! Eu também queria lá pôr um comentário e não dá. É que não lembra mesmo ao diabo, Isabel!

  3. Thanks a lot, my dear friend Penélope… perdão: obrigado, amiga Penélope!

    E agora, a propósito do teu post: o problema da Helena Garrido é o pânico do vazio, que ela associa ao caos. E é o vazio, a ausência de alternativa, a única coisa que vê no horizonte. É esse o problema dela, mas é também esse o seu erro, porque o tao do Lá-Lá-Lá de Massamá e do Gasparvo não é alternativa a esse vazio e a esse caos, antes é precisamente aí que ele vai dar, sem apelo nem agravo. Com a única diferença, em relação ao horizonte tremendo que assombra a Helena Garrido, de que, com o Lá-Lá-Lá de Massamá e o Gasparvo, a duração da tortura vai ser maior até ao inevitável estertor e peido final.

    Um dos principais objectivos da União Europeia, “consolidada” com a moeda única, era que as pessoas, em todos os países a ela pertencentes, tivessem uma vida melhor. Se dizem a essas mesmas pessoas que afinal a União Europeia e a moeda única só são possíveis se a sua vida passar a ser pior (até mesmo pior do que antes da adesão), porque se viverem melhor estão a fazê-lo “acima das suas possibilidades”, a resposta só pode ser uma: bardamerda para a União Europeia e para a moeda única, quero voltar ao que era antes! União Europeia, sim. IV Reich com províncias periféricas chinesas, não, obrigado.

    Que isso significa caos, pois disso não tenho qualquer dúvida, mas o caos, na evolução das sociedades, não é eterno e acaba sempre por se chegar a um ponto de equilíbrio. Se esse equilíbrio, pelo menos no início, vai ser uma coisa boa, pois também aí não tenho dúvidas: não só não vai ser bom como vai ser muito mau. Infelizmente, é isso que acontece quando manadas de burocratas, filhos de puta, idiotas, incompetentes, garotos irresponsáveis e ladrões tomam nas suas mãos o destino de muitos e empurram sociedades, povos e países para becos sem saída e ausência total de esperança e perspectivas.

    A minha única esperança é que alguns deles acabem em voo picado do alto dos seus gabinetes com vista para o Reno, o Sena ou a puta que os pariu. Os de Maio de 68 diziam: “Sous le pavé, la plage.” O meu desejo, para estes, é: “Sur le pavé, a mioleira esparramada dos cabrões!”

  4. Onde se lê “o Reno, o Sena ou a puta que os pariu” deve ler-se “o Reno, o Sena, o Tejo ou a puta que os pariu”. Peço perdão pelo lapso.

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