Sexto exame regular ao ministro: não passa

Por interesse político e sociológico, convém não perder, de vez em quando, uma conferência de imprensa de Vítor Gaspar, enquanto duram, e preparar-se para resistir. Foi o que fiz.

Fiquei a saber, dada a minha distração, que o programa de ajustamento está a ser um sucesso. Tudo corre conforme previsto e 95% das medidas já foram ou estão a ser implementadas com êxito. Assim sendo, diz-nos Gaspar articuladamente, em finais de 2013 retomaremos o crescimento, que em 2014 será de 0,8% e em 2015 de 1,8%. O restante relato deste extraordinário caso de sucesso pode ser lido num jornal perto de si, ou eventualmente no site do Ministério das Finanças, transpondo a porta da realidade. Destaco apenas a parte em que se referiu ao corte de 4000 M€ na despesa nos próximos dois anos, a iniciar já no início de 2013, que deliberadamente não especificou, mas cuja abordagem revelou claramente o apreço que tem pela democracia e o consenso. Sua Competência não considera necessário discutir o assunto com a oposição nem com os partidos enquanto tal. Já que tem de ter em conta variáveis políticas/sociais desse género lembradas pelos jornalistas, mas que não lhe apareciam na folha, diz privilegiar antes a discussão alargada a toda a sociedade, incluindo os parceiros sociais, mas não aos partidos. Ou seja, a todos e a ninguém. Enquanto tal acontece, em televisões, nos jornais, nos cafés, nas ruas, no planeta, de preferência não no Parlamento, e os portugueses andam assim entretidos com o circo, o Banco Mundial e outras eminências convidadas já lhe traçam o modelo que ele mesmo preencherá com todo o gosto e apresentará em Fevereiro aos portugueses, findos os debates, que ele espera tenham decorrido bem e com espírito de cidadania, mas em que obviamente não participou.

O à-vontade e visível deleite com que recorre a eufemismos e tergiversações, sobretudo quando não lhe interessa ou não quer responder, é tal que me pergunto com que habilidades de estilo nos brindará na altura da cessação precoce das suas funções. Gostaria de não demorar muito a saber. O ministro tem todo o direito e mais algum de ir para uma conferência de imprensa munido das defesas que melhor domina. Pena que as perguntas nem sempre tenham sido mais incisivas e persistentes ao ponto de as quebrarem, embora eu tenha consciência de que o ministro manteria o sistema estudado de não aprofundar o que não lhe interessa, que é muito. Pelo que desse círculo não se sairia nunca. Mas teria valido a pena expor mais a opacidade. E o que não lhe interessa, percebeu-se, é justificar-se quando confrontado com erros de previsões, derrapagens orçamentais sempre ignoradas, destruição evitável de empresas e de postos de trabalho, crescimento da dívida pública, diminuição das exportações, exageros e fundamentalismos de consequências tragicamente à vista. Enfim, as ruínas. As que ele não pisa, nem conhece. E, tudo indica, não importam. São coisas que acontecem, danos colaterais, por vezes premimos um botão e a casa vem abaixo, mas estaremos sempre no caminho certo. É só voltar a premir o mesmo botão. Os estrangeiros da Troika, sobretudo os europeus, concordam.

O certo é que, se o homem já acreditava à partida num ajustamento “científico” da nossa economia, com base num modelo que ignora os ecossistemas e sobretudo as pessoas, os descalabros reais e as críticas apenas o levam a intensificar a crença nas virtudes da sua missão. Soou assim a pergunta vinda do outro mundo aquela que pretendia saber o que faria o ministro na reunião em que estará presente na quarta-feira, em Berlim, em defesa dos interesses do país. Interesses do país?

Há pouco a fazer, mas alguma coisa terá de ser feita. Por nós, cidadãos com voz, pelos partidos, ou até, em última análise, como diz quem sabe, pelos bancos, a quem não pode interessar a miséria sem fim dos potenciais clientes. Um ministro destes, que raia a loucura e é o modelo acabado da subserviência a interesses políticos alheios, não nos interessa mesmo nada.

7 thoughts on “Sexto exame regular ao ministro: não passa”

  1. Penélope, o Passos Coelho é bem pior, em tudo, e a elite republicana e democrática deste país alçou-o a PM de Portugal. Todos sabiam que Passos era herdeiro do governo Sócrates. E essa elite sabia de cor o curriculo de Passos. Que fazer? “Aguenta, ai aguenta aguenta!”

  2. Todos sabemos que Vitor Gaspar é um funcionario obdiente dos nossos credores, colocado estrategicamente no governo de direita (isto num pais decente era caso de policia)mas é mais corajoso do que o primo,que covardemente abandonou a liderança do partido,na altura mais dramatica da nossa vida democratica.é estranho,mas tudo tem explicaçao.depois de ajudar a direita a ascender ao poder, abandona o parlamento,para fugir ao confronto com o primo que por sinal tambem é economista.o lema a” familia está primeiro”, foi levado à risca, como nas mafias secilianas. Como tinha que por mais “môlho” nas suas malfeitorias! deixou o partido com uma soluçao bicefala, para se cumprir com mais rigor outro lema:” quem nos substitui não pode fazer melhor do que nós”.o espanto é que esta pulhice foi levado a cabo, num cenario de loucura coletiva de gente que se diz esclarecida! e aos gritos: louça,louça,louça,louça.louça.gaspar é efectivamente mais corajoso do que o primo. Outro lema se vai cumprir: dos fracos a historia não rezará!

  3. nunoCM: Não percebi bem a comparação. Gaspar é o primo corajoso e Louçã é o cobarde?

    Por muito que ache que o Louçã é um radical que, ao longo de toda a sua vida parlamentar se dedicou a pouco mais do que o protesto, a retórica e a sabotagem na mira de erguer um grande, grande partido, faço-lhe a justiça de reconhecer que não tinha, a nível interno, condições para continuar depois das sucessivas argoladas, nomeadamente a das últimas eleições. Mas foi, de certa forma, empurrado por outras pessoas e pelas circunstâncias, entre as quais o tempo, que não perdoa. Não diria, assim, que foi por cobardia que deixou a liderança.

    No Gaspar não se trata de coragem. O homem integra um governo de maioria absoluta, não derrubável à partida e alcandorado ao poder com a ajuda do presidente da República, e em que o partido mais fraco tem um líder que toda a vida mais não fez do que lutar com toda a força da demagogia por um lugar num governo, sendo essa uma forte razão para não romper facilmente a atual coligação, provavelmente nem debaixo de fogo. Além disso, tem uma carreira a proteger e boas relações junto dos neoliberais europeus e o BCE. Não chamaria a isto coragem.

  4. Alguém á capaz de me explicar porque razão uma questão supostamente estrutural do país como a discussão sobre as funções do estado é dirigida pelo Salazar das Finanças? Será que está a fazer tirocínio para substituir o imbecil analfabeto que foi eleito 1.º Ministro? Tratando-se de um questão de politica geral, não se percebe porque não é o alegado 1.º Ministro a liderar a suposta discussão. A não ser por medo das bacoradas que habitualmente lhe saem pela boca fora quando não lê o papel! È o que faz eleger um casting da TVI para 1.º Ministro, haja pachorra!

  5. oh mendes! o gaspar é mau e não acerta uma, mas é o único que dispara. a matilha limita-se a espantar a caça e como recompensa rói o osso à malta.

  6. Penople,para fazer tanta canalhice, alem de outros atributos tem que ter uma boa dose de coragem,pois a qualquer momento pode surgir outro Buiça desesperado.penélople louça podia não ter condiçoes para continuar,mas teve força suficiente para impor a sua sucessão e arrasar com a oposição interna, liderada por daniel oliveira.na minha opinião quem sai nesta altura não o faz por altruismo,mas por covardia politica.para outros pode ser por estrategia para regressar em grande! a vingar esta tese ,só posso dizer que isto não é serio.

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