Panzer político

Ontem, Merkel foi pregar a austeridade para o Parlamento Europeu. Bem aconselhada, envolveu-a num manto de amor pela Europa, ao ponto de não ter sido confrontada com perguntas particularmente agressivas. Concedeu a graça de elogiar certos países, como o miserável Portugal dos engenheiros contratados a 800 euros antes de impostos, por terem baixado os salários, “tornando-se assim mais competitivos”. Ignora certamente que por cá, ou em Espanha ou na Grécia, ninguém nota as vantagens de ser mais competitivo nesses moldes.

De modo que, em matéria de remédio alemão para a crise, podemos pôr as coisas nestes termos, depois de lidas várias sínteses jornalísticas: se em Berlim se ouvirem os gritos das populações em “ajustamento” como antes eu ouvia os guinchos dos animais no matadouro da minha terra, ou, ainda que em silêncio, os odores do sangue derramado lá chegarem, os países estão no bom caminho. Caso contrário, o método de abate não está a ser eficaz e há que censurar, obrigar ou mesmo mudar os (ir)responsáveis locais, chantageando-os com a carteira e com o pavor de a casa vir abaixo. Esquecem-se que a casa também lhes cairá em cima. Daí o apelo à maior integração europeia.

A quem agrada esta União Europeia de orientação alemã? A senhora insiste no policiamento mútuo dos Estados-Membros (voltou a repeti-lo) a nível orçamental, pouco se importando com as desconfianças, denúncias e mal-estar que tal pode provocar (a acrescentar ao que já se verifica). Tudo o contrário de uma “união” ou mesmo de uma federação, que diz ser o seu objetivo. Desconfio que o Wisconsin não anda a meter o bedelho no orçamento do Nebraska… Mas tal controleirismo, ao invés, também pode abrir caminho, ou pelo menos não evita, compadrios, encobrimentos e negociatas. Diz querer uma Europa mais democrática e fala em atribuir mais poderes ao PE. Mas alguém na conjuntura atual está preparado para acreditar que a Alemanha cederá a sua soberania a órgãos eleitos por todos os cidadãos europeus fora do seu controlo? A Europa está na realidade a ser paulatinamente ocupada. Política e culturalmente. As primeiras consequências são a pobreza e/ou a fuga. As seguintes não são seguramente a riqueza e a paz.

14 thoughts on “Panzer político”

  1. Eu só gostava de fazer uma pergunta…
    Quem é que tem moralidade para dizer que há pessoas a viver acima das possibilidades?
    E já agora mais umas quantas perguntas…
    Porque é que eu tenho de pagar o buraco do BPN? Porque é que o orçamento da assembleia da república aumentou? Porque é que o orçamento da presidência da república também aumentou? Porque é que o costa, o borges, e a restante camarilha afecta ao banco de Portugal não sofrem cortes nos vencimentos?

  2. Uma das tretas que estou farto de ouvir é a de que os alemães não estão para pagar os desvarios dos países do Sul, madraços falhos de competitividade que insistem em querer sistemas de saúde e de ensino decentes, entre outras extravagâncias. Olha se os portugueses da Grande Lisboa, do Grande Porto e outras zonas mais desenvolvidas do país, com produção e produtividade nitidamente superiores às do interior pouco desenvolvido, aplicassem o mesmo raciocínio aos portugueses dessas áreas! Alguém consegue imaginar lisboetas e portuenses a vociferar, indignados, que não estão para pagar os desvarios dessa gente que vive nas berças, criaturas obviamente inferiores que insistem em reclamar direitos iguais aos deles no que respeita a sistemas de saúde e ensino e outras extravagâncias? Vá-se lá entender essa cambada de abusadores, que teima em querer viver acima das suas possibilidades, madraços dum cabrão, e nós a pagar!

    Numa União a sério, esses impolutos arianos do Norte não deviam pensar como os lisboetas e portuenses em relação aos transmontanos ou algarvios do interior, ou continuamos na velha porra de que todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que outros?

    A União Europeia foi criada para que os povos da Europa a ela pertencentes tivessem uma vida melhor. Se agora nos dizem que só podemos estar na União Europeia se concordarmos em ter uma vida pior, pior até do que antes de a ela aderirmos, então continuamos na União Europeia porquê e para quê? Pagamos para pertencer ao clube e não temos nenhuma das vantagens dos sócios?

    Disse ontem a patroa Merkel: “Na Irlanda, Espanha e Portugal, mas também na Grécia, os custos do trabalho desceram muito e isso é um factor importante para a competitividade.” Se o raciocínio fosse assim tão linear e simplista, não seria também um factor importante para a competitividade os custos do trabalho descerem igualmente na Alemanha? O objectivo é pôr os madraços do Sul a trabalhar a preços chineses, fabricando componentes para a indústria alemã, felizes e agradecidos aos arianos por lhes darem a esmola de um emprego. Sem baixar os seus próprios custos do trabalho, e evitando assim conflitualidade social, a Alemanha poderá então baixar os preços dos seus produtos e tornar-se mais competitiva com a China, a médio prazo, quando esta começar a inundar o mercado global com mercadorias de alta qualidade a preços de saldo.

    Para isso, interessa à Alemanha manter uma aparência de União Europeia que mantenha também o euro como moeda forte, facto de que apenas ela beneficia, pois aos chineses da Europa do Sul o que interessaria seria a desvalorização da moeda. Como não a têm, eles que se fodam.

    Essa União Europeia interessa-nos para alguma coisa? Ela que se foda também! Creio recordar que as estimativas feitas há uns dois anos sobre a perda de rendimento que teríamos se saíssemos do euro eram para aí de uns 50%, mas depois ficávamos livres do espartilho da moeda única, podíamos desvalorizar a moeda e começar a recuperar a economia. Ora com a porra da austeridade agiota dos gatos gordos de Bruxelas, FMI e resto das máfias do Goldman Sachs e outros cabrões, só este ano vamos perder 30% ou mais, a acrescer ao que já perdemos no ano passado, e não ganhámos a ponta de um chavelho com isso. Quando finalmente fizermos o inevitável, já não serão 50%, mas sim 50 mais os 30 ou 40 que já perdemos até agora, ou seja: uma perda de rendimento de 80 ou 90%.

    Por mais que nos custe abdicar do sonho de pertença a uma Europa unida e em paz, João Ferreira do Amaral tem razão quando há muito tempo advoga a saída do euro, onde aliás nunca devíamos ter entrado. Adiar o inevitável só o tornará mais doloroso.

  3. “Concedeu a graça de elogiar certos países, como o miserável Portugal dos engenheiros contratados a 800 euros antes de impostos, por terem baixado os salários, “tornando-se assim mais competitivos”.
    Mais competitivos, no sentido em que deixam de o ser. Ver caso dos ursos de peluche e outras industrialices de deutsche technologie. Temos de ser salarialmente competitivos ao NÍVEL DA GÃMBIA. É difícil de perceber, dumm Portugiesisch??

  4. segundo consta,os alemães não têm contribuido com um” tusto” para os povos em dificuldade.o que fizeram, foi avalizar um fundo, que consegue dinheiro a juros de 0% e empresta a 2 e 3%. o que alguem chama ajuda! não é mais nem menos, do que um ESBULHO.Que os pariu!

  5. Ana: Basicamente, para as pessoas comuns que tenham 1000 euros no banco, passarão a ter metade, porque o escudo valerá muito menos que o euro. Ainda que o que tem estado a acontecer seja uma perda de rendimentos equiparável, nem toda a gente gosta de se ver nessa situação de um dia para o outro. Também o receio de que tal venha a acontecer levará a uma corrida em massa aos bancos para retirar o mais rapidamente possível as poupanças e transferi-las para países fortes do euro. O resultado para o sistema bancário português não será famoso… Além disso, a dívida ao exterior continua a ser em euros e teremos de a pagar, se pagarmos, em escudos – mais difícil. Estas são razões ditas de uma maneira simplificada e muuuuuito resumida. Há o problema das empresas, da nossa situação na UE, do efeito dominó, etc e muitos etc. Mas, na verdade, passado o caos inicial, as perspetivas de recuperação da economia serão melhores, digo eu.

  6. Penelope, obrigado pela sua resposta. aparentemente continuamos em Alcacer Quibir: morrer sim, mas devagar…
    Vou pensar na sua resposta. Mas assim de repente e porque não tenho muito tempo ocorre-me que quando fala no resultado para o sistema bancário português, quer a Penelope dizer que ficariam todos os bancos como o BPN???.
    Voltarei mais tarde.

  7. Resta saber quanto tempo durará este estado de coisas. A desindustrialização do Ocidente prossegue. Na própria Alemanha, os proventos do trabalho produtivo são substituídos pelos dos serviços e do acabamento de produtos. Nestes dias, a única contribuição alemã para muitos produtos “made in Germany” parece ser a de pôr a etiqueta.

    Temos, agora, a refundação dos Estados ocidentais, forçada pelas debilidades da economia produtiva. Querem-nos fazer, por isso, engolir o sapo da refundação dos Estados Sociais europeus; esse refugo de Estado Social que passaremos a ter só se torna “inevitável” porque a economia produtiva foi esventrada pelas deslocalizações. Eis, por fim, a capitulação económica da Europa. A novíssima teoria económico-financeira da UE chama-se repressão da inflação e pauperismo. Mas, de acordo com as visões míopes de uns, a culpa é de “não haver dinheiro”; ou seja, a culpa é de uma abstracção.

    Como se sabe, o dinheiro é apenas uma convenção social, baseada na confiança de uma sociedade no valor dessa convenção. O dinheiro funciona como uma mercadoria virtual, cujo valor ABSTRACTO deriva da confiança dos cidadãos nessa própria ideia, e cujo valor CONCRETO, em cada momento, deriva do funcionamento, regular ou manipulado, dos mercados. Assim sendo, a ideia de que “não há dinheiro” é absurda. Há uma crise económica que tem a sua origem na desindustrialização e pauperização do Ocidente.

    A crise manifesta-se como “falta de dinheiro” pelo facto de ela estar — desde há dez anos a esta parte — a ser “gerida” através da repressão da inflação; mais concretamente, eliminando-se parte da liquidez que circula na economia de consumo. Antes do colapso financeiro do subprime, o BCE conseguia fazer isso de forma convencional e bem testada: colocando a taxa de juro do BCE acima da taxa de inflação.

    Mas, após 2007, o BCE precisou de baixar a taxa de juro para valores reais NEGATIVOS, para injectar liquidez e assim salvar os bancos atolados em títulos tóxicos. Consegue-se agora impedir que essa liquidez entre na economia de consumo de forma descontrolada através do racionamento do dinheiro em circulação. Esse racionamento do dinheiro é feito através dos programas de austeridade (em países onde o povo, por fraca auto-estima nacional, melhor engole o pretexto da dívida) e através de baixas de salários (onde o pretexto da dívida não passaria, mas passa o da necessidade de competir com outras regiões com salários bem mais baixos). O efeito da contracção da massa monetária em circulação, na economia de consumo, é o de uma baixa da procura. que assim é forçada a alinhar-se com a enfraquecida oferta.

    Como se vê, o resultado desta pressão sobre a liquidez é idêntico ao dos racionamentos de guerra de bens de consumo, também motivados por falta de oferta de bens de consumo. Quando o mecanismo monetário de repressão da inflação falhar — por exemplo, pela ocorrência de revoltas populares — a crise passará a manifestar-se através de inflação livre. E, então, todos teremos a ocasião de constatar o estado real da economia produtiva do Ocidente.

  8. Ana e Penélope:

    Boa parte da dívida externa portuguesa foi contraída sob a lei portuguesa. Essa dívida não só pode mas deve ser redenominada em escudos. A desvalorização da nossa moeda teria o efeito de uma reestruturação da dívida, com a vantagem de que era feita pelos mercados. Esta situação negocial portuguesa era bem mais favorável antes do resgate, pois nessa altura toda a dívida estava sob a lei portuguesa. Neste momento, a “ajuda” da troika não está, e teremos conflito relativamente a isso, mais a mais porque o empréstimo do FEEF é garantido pelos impostos dos cidadãos alemães, franceses, etc. Por isso, quanto menos “ajuda externa” recebermos, melhor.

    O problema serão as necessidades de financiamento do país, que após tal travessura será ostracizado pelos mercados financeiros. No entanto, essas dificuldades de financiamento já existem na situação actual. Portanto… que venha o diabo e escolha.

    A saída do euro deveria ser devidamente preparada — nomeadamente através de intervenção estatal na banca, para impedir a fuga de capitais e garantir que as taxas de juro acompanharão a desvalorização da moeda. Sem essas medidas haverá grande pânico, o que provocará uma corrida aos bancos e dificuldades de liquidez dos mesmos. Seriam precisos governantes heróicos para liderar um processo desses.

  9. joaopft: Boa explanação, que muito vem a calhar. Um dia terá mesmo que aparecer um “herói”, nem que seja pela força das circunstâncias, pois provavelmente atiram-nos à piscina.

  10. joaopft, subscrevo a Penélope quanto à tua explanação. Um dos nossos males, trabalhadores e reformados eurochineses esmifrados até à medula pelos deslumbrados ladrões do pote, é o economês deliberadamente críptico, cada vez mais críptico, da ladroagem. É uma estratégia que serve apenas para nos manter quietos, amarrados ao medo do desconhecido, ao pavor do caos, e os mafiosos cultivam-na com descaramento ou subtileza, conforme lhes dá mais jeito. A tua explicação é um bom antídoto.

  11. O que a europa nos exige que seja feito em um par de anos deveria ter sido feito ao longo dos quase 40 anos de democracia : reorganização do tecido produtivo, escolarização e formação das elites empresariais ( continuamos com uma enorme quantidade de analfabrutos que dirigem as suas “empresas” como se dirige uma meercearia), formação dos trabalhadores(arrastados por uma maior formação por parte dos patrões) aposta em novas tecnologias, ciencia e industrias de ponta.
    Se não o fizemos em 40 anos ( e deveria ter sido feito em grande parte nos anos cavaco, se tivessemos, lá está, uma elite empresarial inteligente), não vamos faze-lo em dois ou três e acima de tudo não vamos faze-lo numa situação de espiral recessiva, onde já nos encontramos.

    A nossa salvação dentro do euro só virá depois de Merkl ganhar eleições, mas temo que nesa altura já seja tarde demais.
    A culpa não é da Merkl, é do povo preconceituoso que é o alemão, que acredita nas patranhas que a senhora chanceler lhes vende acerca das nações do sul. E enquanto esse discurso lhes agradar, a Merkl não vai mexer uma palha para resolver toda esta embrulhada e salvar de uma vez por todas a zona euro.

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