Deixem lá, para a próxima não será melhor

Louçã, tivesse nascido no século I AD, poderia ter sido um Apolónio de Tiana, famoso e milagreiro como Cristo, vestido de túnica branca e pregando a frugalidade e a pureza, no império e mais longe. A voz está lá. Mas, nestes anos da graça, não lhe foi fácil conquistar adeptos sequer numa zona circunscrita desta ex-província romana. Na prática, há poucos crentes no reino dos amanhãs que cantam. Era um sátiro e admirado enquanto tal. O par que agora o substituiu, e que ontem foi entrevistado na RTP, não permite, dos seus rostos, a mesma leitura, pelo que a “mensagem” ainda menos passa. Sem a voz e as convicções algo alucinadas de Louçã, as propostas de rasgar o Memorando, nacionalizar os bancos, a crença de que a evolução da situação social em Portugal lhes dará um número avassalador de votos, a ideia de que Cavaco demite o Governo já para lhes fazer o serviço, a cortesia de Semedo a remeter cadenciadamente para as palavras da sua consorte, mas vindo em seu socorro quando a via “entalada”, a falta de explicação da nossa futura fonte de financiamento após a rutura com a Troika, a resposta patética de que um líder único também nada decide sem consultar outros, enfim, tudo aquilo foi penoso de ver. A ponto de não excluir a possibilidade de me ter escapado alguma afirmação verdadeiramente importante por ter, nalguns momentos, mudado de canal.

12 thoughts on “Deixem lá, para a próxima não será melhor”

  1. Claro, bom líder tem o PS. Faz tanta comichão o BE que o querem enterrar antes de estar morto. Talvez o PS vá primeiro para a cova? Já não existe, portanto está bem lançado.

  2. só falta nascer um louçinho e botar o fazenda mais a aibécula na bafejação para completar o presépio da calçada portuguesa de esquerda. atenção! pessoal das barracas adjacentes ao colombo o merchandising natalício tá a sair.

  3. o ps pode não ter um grande líder, mas ainda tem líder, enquanto que o bloco tem dois paralelipipedos a coordenar a calçada portuguesa.

  4. Sem dúvida, Seguro não está na categoria de paralelipípedo, é mais “calhau com olhos”, usando a verve reaccionária de um camarada escriba aqui do sítio.

  5. Concordo com a denúncia do absurdo da liderança bicéfala e do delírio de que o BE vai ser um Syriza. E muito mais de pouco simpático se podia dizer sobre um partido que vale 7% ou 8% e se comporta, quando se fala numa hipotética coligação com o PS, como se valesse 30% ou 40%.

    Mas não percebo a embirração com o “rasgar do Memorando”. Parece-me que mais uma vez a esquerda se entretém a criar cismas a partir de detalhes semânticos. Haverá alguma negociação minimamente séria que não tenha como alternativa a um não-acordo a denúncia do Memorando por parte de Portugal? E haverá alguma denúncia do memorando por parte de Portugal que não pressuponha um processo negocial?

    Também não vejo porque se ridiculariza a ideia de nacionalização da banca. A nacionalização provisória será um passo quase inevitável quando sairmos (expulsos ou pelo nosso próprio pé) do Euro. Além disso a reprivatização pode ser uma oportunidade para evitar repetir os erros do passado – em particular a concentração e a ausência de divisão rigorosa entre banca comercial e banca de investimento.

    Muito menos percebo o problema do financiamento. O financiamento da Troika funciona em circuito fechado: destina-se exclusivamente a pagar dívida, não a assegurar as outras funções do Estado. Além disso, não são os juros da dívida – só os juros – 9% do orçamento? De quanto é o défice mesmo? Claro que seria trágico fazermos o simétrico da folha de Excel de Gaspar e não considerar os impactos imediatos da saída do Euro na economia e sociedade portuguesas. Mas daí a entrar no discurso demagógico de que é a Troika que assegura os salários dos funcionários públicos e das pensões, vai um grande passo

  6. Confrangedor é o termo que se adequa melhor ao pensamento (?) da liderança bicéfala do BE. Nada de novo, ideias inconsistentes e inviáveis, projectos sem atino, enfim, coitados de todos nós portugueses que, como se já não nos bastassem o pr e o 1º.m. que temos, ainda temos que gramar estes líderes da oposição!!!

  7. Um tem um não líder
    O outro tem 2 não líderes.
    No concurso da liderança mais fraca o BE ganha 2-1.
    Tinham que ser melhores em alguma coisa né?

  8. Pedro Estêvão: Rasgar, na minha modesta opinião, não quer dizer renegociar. Quer dizer simplesmente “não pagamos, vão-se embora”. Quanto ao financiamento, lembro-te que a razão para o pedido de empréstimo foram os juros exorbitantes que te obrigavam a pagar no mercado. A Troika cobra-nos juros altos, mas, ainda assim, mais baixos, eventualmente renegociáveis. Todos os Estados emitem dívida, certo? Mas correr com a Troika tão “bluntly” como estes indivíduos querem é ter de recorrer aos mercados imediatamente. Estás a vê-los a cobrarem-nos juros de 1% pelos belos olhos da Catarina Martins? Quanto à nacionalização da banca – não passa de uma primeira medida de uma série de “nacionalizações” que forçosamente se seguiriam, como a história nos conta. Uma tragédia que ninguém quererá ver repetida.
    A saída do euro não pode deixar de estar em cima da mesa. Por um lado, pode ter algum valor negocial, por outro, pode chegar uma altura em que seja efetivamente a melhor alternativa, se não a única.

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