De vento em popa

Pergunto-me onde está o fornecedor

Quem não consome drogas pode acabar por se sentir um pouco atordoado, a questionar os parâmetros da existência e intrigado com a biologia do riso na presença de quem consumiu e, nos casos extremos, a duvidar da sua própria lucidez. O que se passa na Europa hoje em dia tem tudo para poder ser comparado a uma situação dessas. Para quem observa os dirigentes europeus, sobretudo os que se propõem fazer diferente enquanto candidatos a primeiros-ministros, dir-se-ia que alguma mistura lhes dão a beber, alguma flauta encantatória lhes dão a ouvir nos conselhos europeus e nas reuniões do Eurogrupo, pois as criaturas, à terceira sessão, revelam-se ao mundo completamente transformadas. Olhem-me para o Hollande: diz que a crise já ficou para trás e não tarda nada está a querer ir além da Alemanha. Dois dias depois do anúncio de um novo combate eleitoral em Itália, que muitas convulsões promete provocar, o comissário Olli Rehn vem dizer que já vê a luz ao fundo do túnel e que a austeridade está a resultar! A Espanha prepara-se para pedir um resgate e a Grécia está exangue. Dos nossos governantes e do enorme sucesso do nosso ajustamento nem vale a pena falar, até porque esses, em vez de consumidores, poderiam ser traficantes, faltando-lhes apenas a dimensão. Dá que pensar… a quem consegue ainda estar lúcido.

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Entalados entre chineses e alemães

Os chineses da Huawei (n.º 2 mundial em telemóveis e afins), depois de barrados nos Estados Unidos, voltam-se para a Europa (já viram o estado em que isto está) e vão instalar-se na Finlândia, praticamente no quintal da Nokia (apenas a 20 km de Espoo), uma empresa que já foi líder de mercado e que agora se encontra em apuros, tendo já colocado à venda a sua magnífica sede num esforço para reduzir custos. O objetivo dos chineses é tirar partido das fragilidades das empresas europeias, ficar-lhes com os quadros qualificados e o know-how e conquistar (ainda mais) mercado. Acontece que as empresas chinesas ou são do Estado ou são fortemente subsidiadas por ele. “According to a report in the Wall Street Journal, the EC’s findings show that both Chinese companies (Huawei and ZTE) are dumping network equipment in Europe at 35 per cent below fair market prices. This, the EC says is because Huawei and ZTE are “extensively supported by the Chinese government” and that support runs as far as to the provision of “preferential financing for customers of the two companies”. (Artigos sobre este tema aqui e aqui)

Neste como noutros ramos, os chineses avançam um pouco por toda a Europa – Reino Unido, onde preveem um investimento de 1200 milhões de libras; ou em Espanha, onde construirão em 2013 um centro de investigação. Se, por um lado, criam emprego num continente à beira do colapso económico, por outro, são parte da causa deste mesmo colapso, porque as suas empresas não nascem nem operam nas mesmas condições que as europeias. Como resolver o imbróglio, sem provocar na China uma forte subida das taxas aduaneiras e das tarifas de importação, que encarecem os produtos europeus no vasto mercado chinês (as nossas exportações, estão a ver)? Dificultando-lhes a vinda? Voltando a nacionalizar as economias e fazer como eles? Baixando os salários aos europeus? Tem graça, mas diria que, sem mais nada, isso é oferecer a Europa de bandeja à China.

6 thoughts on “De vento em popa”

  1. enquanto católico o Mundo é um aldeia de seres humanos iguais que devem ter os mesmo rendimentos

    enquanto europeu e católico com bom senso, a solução é fechar um pouco mais a Europa para amortecer o choque da globalização (com 500 milhões de habitantes seria uma economia perfeitamente auto-sustentável);

    contudo no longo prazo iriamos empobrecendo lentamente (o que é contudo melhor do que empobrecer rapidamente :))

    se não se realizar rapidamente uma globalização política da solidariedade, como refere o Papa Bento XVI, em que existam políticas radicais de redistribuição ao nível mundial, a Europa terá o mesmo destino que teve a URSS e o Mundo regressará ao século XIX com meia dúzia de super-ricos com fortunas colossais e biliões de proletários

    o Mundo

  2. a nova ordem económica internacional por um fio: nos estados desunidos da europa a maior ameaça é a perda da democracia; a china, quem viver saberá: se a sua demanda é anti-imperialista, pela multipolarização do poder que cultiva, ou antes neo-imperialista pelo aumento do seu poder económico – e também de barganha – na europa e no mundo.

    e um dia destes haverá mais cadeias de xau-xaujintao do que mcdonalds.

  3. Penélope,
    achas que estão xonés, drogados ou bêbedos? A mim parece-me a propaganda do desespero. Costuma ser o sinal de que não há nenhuma luz ao fundo do túnel.

    E se fornecedor há somos nós, os povos da Europa caquéticos e sem acção (quer dizer, alguma acção prontamente calada com meios desesperados). We’re lost.

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