Não me faz pena, mas Cavaco é de facto irrelevante

A história de «uma maioria, um Presidente» materializa-se no seu pleno por estes tempos. Mas não como a imaginávamos. A versão a que estamos a assistir é a de «uma maioria, nenhum Presidente». O que é surpreendente, mas muito melhor.

Por razões sobre as quais temos especulado e podemos continuar a especular, este governo está-se completamente marimbando para Cavaco Silva. Para Cavaco Silva e para toda a gente – concertação social, sindicatos, portugueses das classes média e baixa. Diria mesmo que até para a Troika o governo se está a marimbar, pois Gaspar (e Borges) acha-se um sobredotado para quem a Troika, e sobretudo o FMI, está lamentavelmente muito aquém das suas capacidades.

Nestes dias fala-se do discurso do Presidente como se algo pudesse mudar pelo facto de o homem ter finalmente aberto a boca para proferir mais do que duas frases. Puro engano: é do protocolo que faça um discurso de ano novo. Contra vontade o fez e a técnica discursiva foi previsivelmente, basicamente, a de dar uma cravo e outra na ferradura. Fazer umas críticas ao Governo para agradar à maioria dos portugueses, que o detestam, mas defender a promulgação do orçamento sem pedir a fiscalização preventiva para satisfazer o Governo – se é que tudo já não estava combinado. Mandar uns recados à oposição para que garanta um ambiente de consensos (giro, não é, em finais de 2012 e não em princípios de 2011, antes deste descalabro?) e frisar que o Memorando é para ser cumprido. Enfim, contradizendo-se de forma a anular tudo o que possa ter sugerido um minuto antes, o que diferente poderia dizer um presidente que não quer, ou não pode, assumir a responsabilidade de afastar este governo nem inverter-lhe as políticas? Cavaco Silva é e sente-se totalmente irrelevante e mostra-se como tal. Duvido também que tenha sequer força para pressionar Passos no sentido de uma remodelação que possa, nomeadamente, implicar o afastamento de Gaspar. Não só não tem força como não quer problemas. Assim, a maioria reina. Seguem-se uns dias de comentários ao dircurso e às possibilidades que encerra ou que alguns gostariam que encerrasse, mas o senhor Silva vai novamente remeter-se ao silêncio e às pantufas e o Gaspar fazer o que entende. Pelas bandas de Belém vai ser assim até 2015. Só mesmo a opinião pública e a rua poderão fazer com que algo aconteça. Temo até que o Tribunal Constitucional se acanhe de «fazer política», como alguns acusam.

8 thoughts on “Não me faz pena, mas Cavaco é de facto irrelevante”

  1. Pois é, Penélope, mas, para o PS, o dicurso foi excelente. E para a UGT também. Foi assim, contemporizando com coisas nefandas da presidencia de Cavaco, como a “inventona” das escutas, que Sócrates foi entalado e todo o seu trabalho está, agora, a ser desfeito. E a gente pergunta: para que serviu usar “paninhos quentes” com este presidente Cavaco e a sua direita salazarenta? Claro que agora é fácil falar e dizer que uma reacção forte contra Cavaco, por parte de Sócrates, na altura da inventona, iria antecipar a crise, mas deixava a nu o rei Cavaco. Possivelmente não seria reeleito. Não vale a pena especular. Mas julgava eu que o PS fosse tirando algumas lições da história recente. Pelos vistos, isso é uma impossibilidade determinada pelo ADN do partido. O mesmo ADN que tolheu um primeiro ministro, Sócrates, que nos fez acreditar, por breves anos, que o país podia sair definitivamente do marasmo. Sócrates foi derrotado, em primeiro lugar, pelo seu ADN socialista contemporizador de português suave e brandos costumes, que minou e continua a minar os pilares da república. Tolerou este presidente Cavaco até ao absurdo, tolerou uma comunicação social enredada com a justiça sem dar um murro na mesa, permitindo-lhes que o imolassem em lume brando na praça pública, esquecendo, Sócrates-ADN-PS, que era a dignidade do cargo que exerecia que estava a ser enxovalhada. No fundo, a republica e a democracia. Nisto, Sócrates falhou redondamente e a democracia está agonizante também por culpa da sua tolerancia cumplice.

  2. Até que enfim, alguém analisa com acertividade o discurso do atrasado mental.
    É impressão minha, ou a maioria dos (três) pontos que lhe suscitaram (extensas e elaboradas, ou lá como chamaram) dúvidas, o afectam directamente?
    Bom Ano (?)

  3. pedro,o seu texto na minha opinião não cola com a realidade .quem fragilizou socrates não foi cavaco silva nem a direita,mas a extrema esquerda,que na sua ansia de crescer,mete na gaveta a defesa dos trabalhadores, custe o que custar,para ver se o seu umbigo cresce. deixando o passado,tenho a dizer que o discurso foi penalizador para a direita como tal só pode agradar à oposiçao.podia ser mais duro? podia, mas cavaco não é de grandes tiradas,mas de odios.socrates contemporizador suave? imagino o que aconteceria se fosse o contrario,com tanta reforma contra ventos e marés.lutar contra a comunicaçao social? lembra-se da “claustrofobia democratica? dos telejornais da tvi e do inquerito parlamentar,para ser acusado de querer controlar a comunicaçao social mais uma vez com a extrema esquerda lá metida para apanhar as migalhas deixadas pelos abutres? O discurso de tomada de posse de cavaco, demonstra cabalmente a que nivel estavam as relaçoes de ambos.

  4. Nuno, o presidente fez um discurso ( na tomada de posse) coerente com a sua atitude anterior para com Sócrates. Este discurso talvez nunca tivesse existido se Sócrates tivesse reagido à inventona, em nome da salvaguarda da dignidade das instituições da república. Possivelmente, pensou que era mais importante para o país manter a estabilidade política, sacrificando o respeito pelas instituições da república, achincalhadas pelos homens do presidente e pelos agentes da justiça. O resultado foi o desastre da reeleição cavaquista, o desprezo consentido pelas instituições da república e a entrega do poder a esta gente que ri da democracia. Se Sócrates pretendia defender o trabalho realizado com tanto empenho e sucesso, hoje é claro que foi um desastre para a democracia descurar o respeito pelas instituições, neste caso, por omissão.

  5. “Pelas bandas de Belém vai ser assim até 2015” e o patrão do CDS vai continuar a encenar aquele ar de patriota da treta enquanto diz que a estabilidade é a salvação da pátria mas pensando, secretamente, que sem a dita lá se vai o penacho.
    O PS está de mãos atadas pelo software do seu programado SG , que se comporta como se vivêssemos um tempo absolutamente normal, dizendo que 2015 é que é., como se não houvesse amanhã.
    Só resta a rua.

  6. Pedro: Mas que querias que Sócrates fizesse? Mesmo mantendo o respeito institucional (há um povo a olhar para as instituições e uma ideia de democracia a preservar) e tudo fazendo para dar alguma dignidade à função de presidente, o Cavaco comportou-se da maneira pulha e vingativa que sabemos! Murros na mesa e conflitos abertos em plena crise económico-financeira? Pensa bem. Era evidente que, depois de perder a maioria absoluta, teria uma governação extremamente difícil pela frente, praticamente impossível, mas o PS ganhara as eleições, havia que ir em frente. A alternativa era talvez repetir as eleições, uma vez que ninguém aceitara coligar-se com base num calculismo irresponsável? Não era. A situação era difícil, mas uma guerra aberta com Cavaco e com a imprensa, já totalmente hostil, apenas precipitaria a queda do Governo, o qual acusariam depois, em campanha eleitoral, de ser agressivo, conflituoso e irresponsável em plena crise. Pois é, a política é lixada.

    Vieira: Um bom ano, o melhor possível, para ti também!

    Eduardo J: Nem mais.

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