Relatório do FMI – “Careful disposal, potential lethal effects”

Fui ler partes do famoso relatório do FMI (há um link no J Negócios), que contou com a colaboração (ou terá sido ao contrário?) de 11 ministros e alguns secretários de Estado (Passos não passou por ali, nem para beber um café com os representantes do Fiscal Affairs Department e dizer que ele é que é o primeiro-ministro). O relatório é revoltante e deixa qualquer cidadão que preze o seu país mal disposto. Razão tinha Sócrates: governar com estes indivíduos? Pois se a simples leitura dos princípios nos provoca convulsões!

Citam-se autores e mais autores, mas os escolhidos são invariavelmente do mais neoliberal que existe no mercado e cuja obra já pôde ser observada em vários pontos do mundo, infelizmente para quem lá vivia. A verdade é que poderiam ser citados muitos outros que defenderiam exatamente o contrário. Mas o que salta mais à vista é o menosprezo absoluto pelo enquadramento monetário, regional e institucional do país. Como é possível propor receitas atrás de receitas para o nosso caso baseadas em teses deste e daquele sem atender em absoluto ao sistema monetário e político em que estamos inseridos, do qual dependemos, e que é caso único no mundo? E que nos obrigou a chegar aqui! Para já não falar 1) no nosso ponto de partida (há 35 anos) e que é ignorado nos gráficos da evolução das despesas e 2) na crise financeira de 2008, que obrigou à tomada de determinadas medidas com influência direta na dívida e que foram concertadas, incentivadas e apoiadas pelo bloco político a que pertencemos. Tudo é tratado ao nível interno. Se lerem, verão como Portugal é uma ilha a flutuar num planeta praticamente deserto, pontuado aqui e ali por alguns outros países ali colocados por acaso, e como a economia não existe. Não se lê uma palavra sobre a diminuição da atividade económica, causa principal, se não única, da diminuição das receitas do Estado para pagar o tão abominado “Estado social”, assim como não se lê uma linha sobre o modo de a dinamizar e a urgência em fazê-lo, o que, a acontecer, tornaria completamente inútil e ridículo todo o relambório do relatório (passe a cacofonia).

Frases como esta, por exemplo: “there were (in 2011) 3.8 medical doctors and 5.7 nurses per 1,000 people, which compares to OECD averages of 3.1 for doctors and 8.7 for nurses.” Pois bem, e eu pergunto: Mas na OCDE tudo está perfeito? Quem diz que não há nada a mudar na média da OCDE? Qual é o juízo sobre a tendência ideal? E se o ideal forem 5 médicos e 10 enfermeiros por 1000 habitantes, dando-se prioridade ao investimento na educação e na qualificação e aos incentivos inteligentes ao desenvolvimento (que podem vir de fundos europeus)? Que quero eu saber da OCDE se estou doente e com fome e antes não estava?

Mas deixo aqui algumas das pérolas, seguidas de breves comentários:

Over-employment is of concern in the education sector, the security forces, and with respect to workers with little formal training, while high overtime pay (for doctors) is of concern in the health sector. (Há trabalhadores a mais na educação e na segurança; os primeiros a despedir são os menos qualificados)

To reduce employment, voluntary departures with financial incentives are the least adversarial but also the most costly option, and may cause the best-qualified to depart. In designing a strategy for employment reductions, the government should target specific areas of over-employment, and it will not have the luxury to choose reform options on the expensive end. (Atentar no objetivo bem declarado de “reduzir o emprego” (nunca o desemprego). Incentivar a saída dos mais qualificados sai muito caro)

Big governments have usually been linked to lower growth. Research using historical data shows a clear association between the size of government and low growth in advanced economies. For example, in a recent survey Bergh and Henrekson2 conclude that in wealthy countries, there is a negative correlation between government size and economic growth—if government size were to increase by 10 percentage points, annual growth rates decrease by 0.5 to 1 percent. The overall findings are also supported by other research, e.g., Afonso and Furceri,3 who show that both size and volatility of government revenue and spending are detrimental to growth in OECD and EU countries. Their research also shows that composition effects matter; on the expenditure side, for example, subsidies and government consumption had the most negative impact on growth. (A Suécia e a China, para só citar dois, têm grandes setores públicos e crescem bastante! Agora que não há “consumo” estatal nem subsídios é que é crescer, ó gente!)

Taking education as an example, and notwithstanding recent reforms, the Portuguese state still attempts to do (almost) everything: it provides education, sets standards, evaluates (its own) performance, and enforces standards. Yet, the state has been falling behind in providing quality education: of the 50 top schools, 44 are private, 4 are charter schools, and only 2 are public schools. (Aqui a clarividência atinge o apogeu. O ranking das escolas ilustrar a eficácia do privado face à ineficácia do público é demais!)

For example, unemployment benefits need to link automatically to retraining and job search support to facilitate finding employment. Child benefits need to be designed to enable, rather than hold back, mothers that wish to return to work and increase their incomes. (Não há empregos, capite? Qual destas três palavras não perceberam?)

For example, reducing the base salary by 3–7 percent (na função pública) could save €325–760 million annually. (Olha que fácil, não é?)

13 thoughts on “Relatório do FMI – “Careful disposal, potential lethal effects””

  1. Parabéns pelo texto!
    Já só me apetece fugir! E temos polícias a mais e tudo e tudo!!!
    Porque raio é que serão estes os donos da verdade????
    Só sabem cortar??? E como raio vamos desenvolver este País? Estando todos na miséria?
    E o Governo apela a debate “construtivo e sério” e à participação “de todos”!
    Ai que raiva!

  2. Parabéns ao Jeronimo e ao Louçã. Bravo. Pena não terem derrubado Sócrates há mais tempo. Mesmo assim valeu a pena, valentes da esquerda à séria! O povo não, mas Louçã e Jerónimo sabiam muito bem a quem estavam a entregar o país e a democracia.
    Isto vai ficar sem volta. Os novos vão continuar a emigrar e os mais velhos estão muito bem habituados à canga e à miséria. Parabéns, BE e PCP. Bravissimo. A direita há-de mandar fazer uma estátua a Jerónimo e a Louçã.

  3. eu gosto da interpretação selectiva dos técnicos do FMI acerca dos estudos que citam: na pesquisa de Andreas Bergh e Magnus Henrekson, referida como prova de que ‘Big governments have usually been linked to lower growth’, aparece lá isto nas conclusões finais:

    “Hence, our results do not imply that government must shrink for growth to increase.”

    Ou seja, os autores fazem questão de ressalvar que não se pode deduzir que o Estado deve encolher para haver crescimento económico elevado.
    Frisam aliás que, quanto muito, este pode ser directamente relacionado com a estrutura fiscal de cada nação e com a forma como esta conduz a sua despesa pública de modo potenciar taxas de crescimento elevadas.
    Pegar em dados que dizem que as nações com mais altas taxas de crescimento (que por acaso também são mais pobres) são aquelas que possuem um ‘Estado leve’ e concluir que, como tal, ter um Estado anoréctico é condição máxima para haver crescimento é uma descabida patetice falaciosa.

    O próprio estudo refere o caso da Suécia e dos estados escandinavos como exemplo de nações cuja percentagem da despesa pública no PIB é consideravelmente grande e que, todavia, conseguem manter altas taxas de crescimento económico.

    O FMI especializou-se neste relatório em manipular dados e situações (de que a história do ensino público vs ensino privado é um outro exemplo) de modo a acertarem com as suas conclusões pré-concebidas.
    E o Governo português agradece o esforço.

  4. No “ralatório” que terá contado “com a colaboração (ou terá sido ao contrário?) de 11 ministros e alguns secretários de Estado”, acredito que a resposta à tua pergunta entre parênteses, Penélope, é “sim senhora, foi ao contrário”. O inglês martelado com construções tipicamente lusas é para aí que aponta e parece-me que o facto de um dos pretensos autores oficiais ser português não chega como explicação.

    Aquilo só não é gato escondido com o rabo de fora porque a única coisa que está (mal) tapada é o rabo, o gato está todo desavergonhadamente à mostra. E apostava o meu tomate esquerdo em como o autor é o grilo falante da troika e Goldman Sachs: “Eh pá, faz lá isso à tua vontade que nós não pescamos nada dessa porra e as Seychelles são óptimas nesta altura do ano. A gente assina por baixo, em ponto de cruz, não te preocupeides!”

    Diz o grilo falante, na sua irritante vozinha aflautada (não digo amaricada para não ser acusado de homofobia), que o ralatório celerado “está muito bem feito” e a bojarda soa-me a auto-elogio. Parece que o insecto tem pretensões a ministro (como substituto do Álvaro), mas em verdade te digo, Penélope, que ficávamos mais bem servidos com o Artur Baptista da Silva.

  5. Maria Teresa: Obrigada! Depois de ler aquilo, fiquei com a mesma sensação.

    Jeremias: Nem mais.

    David Crisóstomo: Exatamente, a seleção é uma alegria.

    Joaquim Camacho: Este é o relatório dos amigos do Gaspar e do Borges. Há tempos Gaspar veio dizer que pediu a colaboração de técnicos do FMI e da OCDE para os ajudarem a rever as “funções do Estado”. O resultado só podia ser este. Eles conhecem o pessoal que interessa. E possivelmente pagámos-lhes bem para lá porem o nomezinho.

  6. Ao ler ontem o relatório do FMI, não na sua versão final já entretanto alterada a favor das teses do executivo, não pude deixar de relembrar umas palavras que o nosso primeiro proferiu perante uma associação de antigos combatentes. Na realidade isto é uma guerra tão obscena que antecipadamente já sabemos quais são aqueles que vão constituir o número das suas baixas.
    Ao ouvir, também ontem, o inevitável conjunto de comentadores, analistas, especialistas, jornalistas económicos, arregimentados e avençados para nos fazer a cabeça, pensei: porque não instituir para resolução do problema, uma coisa tipo solução final ? Nela seriam incluídos todos aqueles com mais de sessenta anos, doentes, improdutivos e sobretudo reformados/pensionistas. Para os outros, ainda capazes de produzir alguma coisa estaria reservado o trabalho nas empresas exportadoras ou exercício da actividade agrícola, voluntária está bem de ver. Esta última solução já foi tentada algures e pelos vistos com sucesso, tendo em conta que as empresas que a ela recorreram ainda por cá andam. Para esclarecimentos adicionais, não recorrendo a estudos académicos, a que os nossos estimados governantes não parecem muito votados, pedia-se ajuda aos arquivos alemães para os quais poderiam a ser necessários os prestimosos serviços da sua chanceler para o acesso a estes últimos.
    A acção destes senhores, o desempenho dos seus seguidores, toca o pornográfico. Ai, ai, cry for me Argentina.

  7. mais uma produção do aborges e dos artistas contratados vgaspar, pportas, abranco, mmacedo, pcruz, apereira, acristas, pmacedo, ncrato, psoares, cmoedas, pjúlio, lsarmento, hrosalino e mleitão, o papel timbrado do fmi foi gamado da pasta do abexim durante uma pausa para café na última avaliação. agora andam todos a dizer que não sabiam de nada, têm de nascer duas vezes para chegarem aos calcanhares do artur silva.

  8. Concordo com o relatório, que aliás, tem o meu apoio total – e até o meu apoio restrito.

    De facto, há empregados a mais, e desempregados a menos.

  9. Penélope,

    ainda agoniado depois de uma leitura, demasiado rápida confesso, do documento, fico com a ideia que a encomenda serve apenas para preparar o terreno no caso de chumbo vindo do lado do TC.

    Ler as teses do governo espalhadas num relatório que não tem ponta por onde se lhe pegue, preferindo tratar do país como se ele fosse uma folha de Excel e tirando-o do contexto não é análise nenhuma mas apenas desvario.

    Finalmente gostaria de saber quano é que esta bosta terá custado, pois já imagino para o que deverá servir e não me parece ser nada de bom.

    Que se cuidem os funcionários públicos, os pensionistas e a massacrada classe média, pois parece que a oligarquia dominante, que olha para nós como limões, ainda quer mais refrescos.

  10. “Porque não instituir para resolução do problema uma coisa tipo solução final? Nela seriam incluídos todos aqueles com mais de sessenta anos, doentes, improdutivos e sobretudo reformados/pensionistas.” (jafonso dixit)

    Bem alvitrado, jafonso, já por várias vezes me ocorreu que só falta mesmo isso. Esta direita vigarista, mafiosa, primária e incompetente colecciona entre os seus primarismos de estimação o chamado anticomunismo primário, que em tempos lhe permitiu afirmar com convicção absoluta, sem pestanejar, que os comunistas comiam criancinhas ao pequeno-almoço e aplicavam aos velhos improdutivos a solução final dando-lhes “injecções atrás da orelha”. Ironicamente, afinal são eles que, culpabilizando implícita e despudoradamente os velhos por receberem sem nada fazer, como se para isso não tivessem trabalhado e descontado uma vida inteira, adoptam a caricatura que vestiam aos outros. Só lhes falta mesmo instituir uma idade-limite para além da qual os sacanas dos velhos perdem o direito à vida e devem ser eutanasiados. E já agora, porque não ecologicamente “reciclados”? Um dia destes ainda teremos de andar por aí a alertar as massas: “Soylent Green is people! Soylent Green is people!”

    Tendo ultrapassado há alguns anos o “prazo de validade” que em breve a máfia do pote oficializará, só me resta escolher o meu melhor fatinho e pôr-me na bicha para a reciclagem. Adeus, mundo cruel!

    Pensando melhor, acho que prefiro ir à procura dos cabrões e atirá-los pela janela. Que aterrem de cabeça!

  11. O relatório tem a aparência de ter sido escrito de forma desleixada, mas talvez isso seja só aparência. No actual contexto, enuncia os planos fantasiosos do governo português, ao mesmo tempo que confessa, nas entrelinhas, que esses planos são inexequíveis. É puro veneno para o governo laranja, mas também para a saúde financeira de Portugal.

    O relatório vai ao ponto de dizer que as mães vão deixar de poder amamentar os filhos, e os polícias vão ser despedidos. Também diz que era muito bom mandar 50 mil profs para o olho da rua; mas, como o FMI bem sabe (mas não diz) o dinheiro que Gaspar havia posto de lado para pagar as indemnizações sumiu-se, devido a um erro de cálculo nascido do próprio FMI. Mas, como quem não tem cão caça com gato, despedem-se em vez disso os polícias, que assim sempre se consegue fingir (aos mais distraídos de Wall Street) que se está a cumprir o memorando.

    A esta hora, os neoconservadores de Wall Street já perceberam tudo… Pensarão eles: mais abortos, bebés ao Deus dará…. E a polícia, meu Deus, quem vai ficar a proteger a lei e na ordem e os nossos investimentos? Portugal está perdido! Aproveito agora, que o BCE está a comprar em força, despacho mas é os títulos enquanto é tempo…

  12. Ah, caro Joaquim Camacho, haverá por aí muita rapaziada que terá que dar explicações sobre a injecção atrás da orelha que afanosamente preparam, para dar aos velhinhos.

    Numa aldeia do concelho de Oleiros havia uma lenda que descrevia o destino que era dado na Idade Média, aos velhos: eles eram abandonados no cimo de um monte, para serem comidos pelos lobos. Apesar de a vida ser bem difícil — nos tempos em que a lenda era contada governava Salazar — a mesma era contada como forma de as pessoas se afastarem desses tempos de barbárie. No governo, vê-se o oposto: pessoas que contam histórias da tanga como justificativo para se juntarem à barbárie.

    Para quando, o merecido castigo?

  13. La finestra, caro joaopft, o tao de la finestra. Poderá não solucionar nada, mas é possível que saiba bem, o que não é de somenos numa época em que os pratos que nos enfiam diariamente pela goela abaixo sabem a estricnina ou a arsénico e já esquecemos o sabor do bife ou da mousse de chocolate.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.