Um governo em pecado mortal

Vem hoje no Público uma súmula muito útil dos temas polémicos que marcaram o pontificado de Bento XVI, enumerados segundo palavras-chave. No domínio “Pecados” (os outros são Aborto, Bertone (Tarcisio), Capitalismo, Futuro, Homossexualidade, Intelectual, Islão, Pedofilia, Presépio, Reformas, Relativismo, Renúncia, Twitter e Vatileaks), informa-nos a jornalista:

“Com Bento XVI a lista dos pecados mortais aumentou em sete pecados. Passam a ser pecados as violações bioéticas, as acções que poluam o ambiente, a participação em experiências científicas “moralmente duvidosas” (nomeadamente manipulação genética), a acumulação de riquezas excessivas, o consumo e tráfico de droga, a criação de pobreza e tudo o que contribua para a injustiça e desigualdade social.”

A lista provoca-nos um longo suspiro, sobretudo se nos lembrarmos do fiasco histórico da relação entre a Igreja e a ciência, mas uma campainha toca quando lemos que “a criação de pobreza e tudo o que contribua para a injustiça e desigualdade social” passaram, com este papa, a ser pecado mortal. Então, ó Gaspar, Passos e Borges, ó Angela Merkel (apesar de luterana), estarem assim condenados não vos tira o sono? E como vão eleitores crentes (estou a pensar, entre outros, nesse expoente da fé chamado César das Neves) apoiar uns governantes que decidem empobrecer a população, louvando os benefícios de tal ato? Não estão a “criar pobreza”?

É verdade que a Igreja Católica Apostólica Romana prevê a confissão como forma espiritual de lixívia. Mas é caso para perguntar qual o prazo de validade dos produtos de limpeza “confissão” e “perdão”. 24 horas? Grande correria diária para o confessionário! Uma semana, se forem rezados cinco padres-nossos? Mesmo assim, será um desassossego. Abrem-se exceções e neste caso a validade do perdão é de 4 anos? Ah bom… o eterno conluio. O Governo não é católico e além disso há separação de poderes entre Igreja e Estado? Há pelo menos dois ministros muito devotos e praticantes – Paulo Macedo e Assunção Cristas. Pode-se perguntar, quanto à questão da separação, por que razão se pronuncia então a Igreja sobre atos políticos ao ponto de os declarar pecado mortal? Neste caso não está a pensar nos políticos? Então está a pensar em quem? E por aí fora seguiria a perguntar.

Já sem paciência para tanta notícia sobre um papa que renunciou, vejo mesmo assim alguma utilidade na divulgação e no esmiuçar de toda esta enorme vigarice institucionalizada. Está bem, é o negócio da morte e das almas, alguém tem que estar no ramo. É também o reino da fantasia, do qual não vem qualquer mal ao mundo, e, se há quem se tranquilize com uma boa e bonita história, porquê contestar? Muito bem, mas há quem se torture (por exemplo, com a falta de sexo) para cumprir os preceitos. Não gosto sobretudo é que venham com teorias do bem e do mal (o pecado), porque, como se vê, nem a Igreja sabe dizer com isenção o que isso é, nem quem decide verdadeiramente da vida de milhões de pessoas tem tais preceitos em conta. O que há para levar a sério?

9 thoughts on “Um governo em pecado mortal”

  1. Nem mais, o César das Neves é que tem de nos explicar bem explicadinho esse imbróglio da criação de pobreza e desigualdade social ter passado a ser pecado. E com números, que o Diabo está nos detalhes.

  2. para levar a sério é tudo, mesmo brincando. é que falar ao mesmo tempo de política e de religião é estar a chamar o sectarismo pelos cornos. mas se queres saber assustam-me bem mais os pecados da renuncia do viver do que os da resignação de morrer e esse – o da pobreza e desigualdade social pertence à primeira categoria.

  3. oh assanhada! como é que se chama pelos cornos? deves ter altifalantes montados nos teus, só pode. de caminho desenvolve a teoria da pobreza ser um pecado de renúncia à vida para o pessoal partilhar essas experiências místicas à jorze jesú.

  4. Assim sendo, o governo vai direitinho para o inferno. Se o aborto é pecado, o mega-aborto Relvas é sacrilégio.

    Ratzinger é um pobre velho carcomido pelos anos que já não dava conta do recado. Em relação a Fátima, teve uma acção bastante positiva, acabou com a treta dos segredos e mandou calar a Lúcia.

  5. Bento XVI ficará na história como o papa que resignou. Foi humano e coerente, pois penso que também terá aconselhado JP II a fazê-lo.

  6. Penelope

    Agora não tenho muito tempo para te responder sobre esta matéria. Por isso aconselhava-te a pedires esclarecimentos ao teu amigo e confessor D. Januário Torgal Ferreira sobre estes problemas dos Mistérios da Fé!

  7. Penelope

    So tenho uma coisa para te dizer. Eu sou um crente pouco crente na actual situação da Igreja Católica. Não passo de um leigo que cada vez se sente mais leigo, quando oiço Bispos como o Januário Torgal Ferreira a falar. Mas prefiro seguir os ensinamentos de Jesus Cristo, ” A Deus o que é de Deus e a César o que é de César”.

    O Bispo Januário Torgal Ferreia gosta muito de falar de política, do Estado Social, do dinheiro dos ricos. Entao, ele que comece a dar o exemplo e peça à Santa Igreja para fazer um novo acordo com o Estado português, para que os padres paguem mais IRS e segurança social, assim com os bens da Igreja começem a pagar IMI e com taxa máxima.

    Depois disso, falarei sobre os novos 7 pecados mortais.

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