Devia combater-se mais essa ilegitimidade e essa imoralidade. A UE opõe-se à aplicação da pena de morte em todos os casos e quaisquer que sejam as circunstâncias. A sua abolição universal é um dos principais objetivos da política da UE em matéria de direitos humanos.
Para quem esteja interessado, ir aqui.
Arquivo mensal: Outubro 2012
Os gordos do Estado
Juros são dívida
Dizer e desdizer: uma forma de ser
Um dos maiores argumentos para o corte, em 2012, de um ou dois subsídios dos funcionários públicos (FP), portanto de uma ou duas remunerações e, para a mesma lógica, relativamente aos pensionistas, apesar de tiro ter atingido os reformados, foi o da situação de favor dos FP.
O TC demonstrou a inconstitucionalidade e não teve de explicar o que milhares e milhares de pessoas sabem: não há posição de favor alguma, e mesmo que houvesse, estava por justificar proporcionalmente a loucura. Estamos a falar de gente com salários congelados, estamos a falar de gente com um “contrato em funções públicas” que marca a quebra de diferencial com o regime privado, estamos a falar de gente que ganha menos à medida que sobe na carreira, isto é, para trabalho igual no público e no privado, o publico ganha menos.
Sim, estamos a falar de gente que serve o país, que não é intocável, claro que não, mas que por servir o país a sua eventual saída tem de ser precedida de estudos, como se fazem há quatro anos, olhando serviço a serviço, pensando se no lugar x faz sentido contratar ou antes, com calma, implementar regras como, com base em números, contratar um FP por cada três que saiam.
Mas este Governo, que dizia que os FP eram gente de pedra e de privilégios, atirou para as notícias isto: “Executivo quer cortar no “mínimo” 50% dos contratados na função pública”.
Trata-se do maior despedimento coletivo de que há memória em Portugal. E atinge os “contratados a prazo”. Mas há disso na AP?
Afinal há.
Qual foi o estudo desta medida que pode atingir mais de 50 mil pessoas?
Qual foi o estudo que teve em conta que serão atingidos (contratos a prazo) os mais jovens da AP; Os mais qualificados?
Por quê a sangria?
Difícil perguntar se quem vai à AR anunciar o maior despedimento coletivo de sempre é Relvas.
Ou fácil de perceber que é só um corte de despesa orçamental. Cego e desumano, precisamente porque não havia nada para explicar.
Restam as explicações fruto de uma coligação ofensiva: nos dias seguintes alguém vem dizer que “não é bem assim”.
Vamos lá falar então de deputados
Na perfeitamente disparatada (para dizer o menos) proposta para “reduzir o número de deputados” há duas coisas a discutir. Em primeiro lugar, Seguro e o PS podem agora dizer o que quiserem, dar pinos e cambalhotas, mas o que é certo é que a “redução” foi apresentada como um fim em si mesmo, logo como algo de bom. O que significa, para o cidadão comum, que Seguro acha que menos deputados é positivo, ou seja, pintou os deputados – e por extensão todos os políticos – como algo de negativo, na melhor senda da escola de ciência política da ANTRAL. Se acham que é uma leitura exagerada, é só pensar porque razão nunca ouviram um político propor publicamente menos polícias, sendo que alguma redução por contenção de custos é tratada discretamente fora dos olhares públicos. Ora, como eu acho que os deputados, como os polícias, fazem um trabalho meritório a favor do país, gostava de os ver tratados pelo menos com o mesmo respeito.
E depois, apresenta a medida para quê? A leitura populista seria a de “reduzir custos”, mesmo que não tenha sido expressa. Sujeitar o parlamento à mesma “dieta” do país. Oficialmente, a razão seria “responsabilizar os deputados perante os eleitores”. Aqui a confusão é enorme, o que só ajuda a tresleituras da proposta. Vamos pela mais benigna, vá, a assumir que Seguro quer simplesmente e de boa-fé avançar para os círculos uninominais. Ora, à partida isto é positivo, mas é muito, muito mais do que simples matemática eleitoral e diversos sistemas de eleição que vejo tratados aqui e ali. Isto muda toda a governação, tudo o que estamos habituados. Vamos por partes:
1) A principal preocupação seriam os pequenos partidos e a sua representatividade. Ora a verdade é que um sistema de círculos uninominais e a sua dinâmica de “winner takes it all” oblitera os pequenos partidos. Aí não há volta a dar, é uma das consequências do sistema. Para compensar, tenho visto propostas de “círculos nacionais” desenhados expressamente para estes. Para mim, é um perfeito disparate, porque estaríamos nesse caso a criar duas categorias de deputados – aqueles que seriam directamente responsáveis perante os eleitores do seu círculo, e aqueles que continuariam, como aqui, responsáveis apenas à sua estrutura partidária, sendo que neste caso estes últimos estariam desproporcionalmente ligados aos pequenos partidos. Ou seja, criam-se também duas categorias de partidos: os grandes, que veriam toda o seu modo de actuar completamente modificado, e os pequenos para os quais não haveria essa “responsabilização” a que os outros estão obrigados. Filhos e enteados no mesmo parlamento. Não me parece grande ideia. Continuar a lerVamos lá falar então de deputados
Rir pode não ser o melhor remédio, mas é o mais barato
O último dos neandertais
Apesar de já estar tudo visto, revisto e à venda na Amazon, ninguém nos preparou para este objecto aqui em baixo. Pior: ninguém nos avisou da possibilidade da sua existência. Pois ele existe, deixa-se ver e desafia os limites semânticos à disposição. A sua história – isto é, o conjunto das circunstâncias aleatórias regidas pela soberana necessidade – é fácil de contar. Um grupo de bifes foi para Gibraltar participar numa conferência sobre a evolução humana. E um grupinho, reunindo ecologistas, arqueólogos e paleoantropólogos, foi acabar um dos dias da jornada na caverna de Gorham, aquele que terá sido o local onde viveu e morreu o último dos neandertais. Lá chegados, fizeram uma cantoria. Porém – e estamos face a um grande enigma científico na área da antropologia como podem constatar se lerem a letra da canção – de quem eles estão realmente a falar na musiqueta é de António José Seguro, “the ultimate” em matéria de neandertalismo político.
LAST MAN STANDIN, May 3, 2005 © D.Larson
Pull the hood down on my face,
feel the cold wind steal my grace
Beg the sun to warm my back
beg the hunger not to attack200 000 years of peace
all coming down to this
Left here all alone the others I will miss,
now it’s just me, me and the abyssthink I’m the
last man standing
the last one to recall
the last man standing
wonderin, wonderin,I can recall the land was ours,
I can recall the many hours
I spent chipping at the stone,
now there’s nothin left nothing left but bonesWe were hundreds just last year,
then the cold came and the fear
We saw Africa across the straight
but we cannot swim and cannot waitSee our mark upon the land, see my footprints in the sand
think I’m the
last man standing
the last one to fall
think I’m the
last man standing
wonderin, wonderin
Exactissimamente
PSD e CDS, partidos do arco da desgovernação
Na última campanha para as legislativas, a direita chantageou os eleitores ameaçando os que pretendiam votar PS com cenários de instabilidade, ou eles ou o caos. Apregoavam estar em vantagem em relação ao PS porque à direita havia a possibilidade de coligação o que não se verificava à esquerda. Está bem à vista de todos onde nos levou essa vantagem. Mas, pior ainda, este Governo é a prova de que a direita, para além de não saber fazer oposição, e talvez por causa disso, não sabe governar. Nem mesmo com o apoio mais do que alargado que o actual Governo teve, nem com a troika a ditar-lhes o que fazer, nada os impede de se estatelarem ao comprido. Ou seja, tivemos recentemente dois governos de maioria da direita, qual deles o pior. Na oposição também nada há a elogiar, muito pelo contrário. Pelo PSD passaram uma série de líderes, qual deles o pior. Nem no poder nem na oposição se lhes conheceu uma ideia digna desse nome. Não espanta por isso o desnorte e falta de rumo de todos os líderes, que neste partido são descartáveis. E isto, sim, devia ser uma preocupação para o exército de comentadores de direita, que há um ano e meio alinharam na chantagem garantindo que só haveria competência e estabilidade com um governo PSD/CDS, e que agora sugerem remodelações mesmo sabendo que não servirão para nada, muito menos para devolver a credibilidade a esta maioria. Mas, em vez disso, preferem dizer que o PS não é alternativa, embora saibam que isso não é verdade. É que não é o PS que não é alternativa, é o Seguro. Sabem perfeitamente que qualquer pessoa consegue enumerar vários nomes de políticos socialistas que de um momento para o outro poderiam alterar completamente esse cenário onde o PS não se apresenta como alternativa. E à direita, que alternativas existem? Do CDS nem vale a pena falar, sem Portas o mais certo é desaparecer. E no PSD, quem são as alternativas aos inseparáveis Passos e Relvas? Enquanto esperamos pela resposta, podemos recordar os últimos governos minoritários do PS e concluir que, apesar dos problemas que enfrentaram, que foram muitos e variados, é muito mais estável e competente um governo minoritário do PS do que as maiorias de direita todas juntas.
Até prova em contrário
A escolha do próximo Procurador-Geral da República é uma das mais importantes de sempre para o regime, para o Estado de direito, para a democracia em Portugal. Atendamos ao contexto:
– Em 2009, tentou-se incriminar um primeiro-ministro e secretário-geral do PS em funções a partir de escutas ilícitas a conversas privadas e tendo a iniciativa ocorrido em período eleitoral. Essa golpada não foi avante apenas porque o Procurador-Geral considerou destituída de fundamento a acusação. Essa acusação improcedente, recorde-se, recorria à difusa figura de “atentado ao Estado de direito”. Leia-se o que de facto estava em causa: “Não há indícios de que Sócrates tenha proposto, sugerido ou apoiado a compra da TVI pela PT”
– O material recolhido nas escutas das conversas privadas, apesar de judicialmente irrelevante, serviu de alimento para o combate político e para a sua exploração na imprensa. De imediato, as máquinas de Belém e da São Caetano ocuparam o espaço público com todo o tipo de insinuações e sensacionalismos, sendo explícitos no afã de mostrar que aquele era o seu grande trunfo para vencer as eleições: pintar os socialistas como criminosos através do apogeu da caça a Sócrates. Cavaco Silva, Ferreira Leite e Pacheco Pereira, cada um a seu tempo e modo (e apenas para nomear os cabecilhas da campanha negra), vieram garantir que algo de muito grave tinha sido apanhado pelos bravos de Aveiro. O histerismo tomou conta do laranjal televisivo e jornaleiro, era desta que o demónio ia para o chilindró, juravam babados e a gargalhar.
– Essa golpada não avançou de acordo com o plano, o qual passava por fazer de Sócrates arguido a dois meses das eleições de Setembro. Porém, viria a ter continuação até meados de 2010, levando a duas comissões de inquérito parlamentares, sucessivas campanhas de desgaste do Governo e espasmos de difamação raivosa cujos alvos foram Sócrates, Pinto Monteiro e Noronha do Nascimento que ficarão para sempre aos olhos dos canalhas e dos broncos como cúmplices de encobrimento criminal. O que avançou, qual plano B já em desespero para um bando de inimputáveis, foi a “Inventona de Belém” – igualmente a meter escutas na sua encenação, mas onde o verdadeiro espiado passava agora a espião. Este caso da conspiração nascida na Casa Civil para perverter actos eleitorais, e suportada até hoje pelo Presidente da República, é tranquilamente o episódio mais sórdido do regime democrático. Aqui, como no BPN, não se faz investigação jornalística nem se lançam livros a contar histórias. Reina um silêncio siciliano.
Diz que “é preciso ouvir o Povo”. Força nisso.
1. Conferência de imprensa de Vítor Gaspar onde se anuncia (sobretudo ao CDS) um “enorme aumento de impostos”
2. O povo sabe que o pacote seria sempre aquele, tirando a sobretaxa, porque nada daquele horror é uma alternativa à TSU. Sem TSU, que não combateria o défice, o Senhor Vítor Gaspar teria sempre de dizer “enorme aumento de impostos”
3. Portas entra e sai calado no debate das moções de censura, mas à porta pede mais cortes na despesa e mais alívio fiscal
4. Tudo isto depois de tudo isto ter sido negociado como bandidos escondidos com os amantes do Governo: “os parceiros internacionais”
5. O Governo, mentiroso, acena com o memorando, que nem sequer está a cumprir
6. O Governo falha e repousa o seu falhanço no memorando que viola
7. O memorando, hoje, é uma plasticina que o Governo altera unilateralmente com a TROIKA, com quem não pode “incumprir”, mas garante que cá dentro não há alternativas (esse totalitarismo chantagista), como seja renegociar o tal do memorando que já renegociou sempre que eles e eles se entenderam. Seria, pasme-se, intolerável juntarmo-nos a parceiros internacionais – que os há – para renegociar o santo memorando, no sentido da democracia, que parece não ser outro que não o de cumprir com as obrigações que o Estado tem com os seus cidadãos
8. O Governo, isolado, investe na morte do país que governa; a República, ao contrário, é festejada em local diferente, local para políticos protegidos do povo
9. Os pobres são tidos por aldrabões
10. Os estudantes perdem bolsas se o agregado familiar incumpre obrigações fiscais (viva a ensino público para ricos, viva a lógica policial pidesca da transmissão de culpa)
11. Aumentam as entregas de casas aos bancos, e as emigrações forçadas, e a escravatura laboral, e o desespero do mês dos que têm mês acabar a dia 15, e os despedimentos pelos que não queriam despedir mas que foram também eles esmagados, e as empresas fechadas, e tudo para nada, o nada de visão alguma, esperança em quê?
12. Um país em que os reformados são despesa, e logo esbulhados, um país sem que uma medida surja com um estudo que a sustente, um país entegue a loucos que “diminuíram” o Governo e aumentaram a ilegitimidade do poder: assessores, grupos, conselheiros, poderes invisíveis
13. Um Governo exato a dizer o que esmaga e poético a ocultar o que oculta
14. Um Governo que debate 3 horas sem falar no desemprego
15. Um Governo morto por dentro, um CDS sem S, um CDS em suicídio, em auto-revogação, mas um PSD, também, em tudo o que prometeu e programou
16. Hoje um PM a dizer que é contra o aumento de impostos: – “quem não é?”. De ir à loucura.
17. Cavaco caladinho até dar uma entrevista a jornal espanhol: – “é preciso ouvir o Povo”
18. É? Então demita o Governo, porque isto está insustentável
Helena e os fretes
Quanto mais o Governo se esfarela na sua leviandade, falsidade, loucura e desnorte, levantando um coro de repúdio, mais Helena Garrido rema contra a corrente, com súbito e tardio amor. É incompreensível. Esta senhora anda, há várias semanas, a contorcer-se nos seus artigos no Jornal de Negócios para encontrar qualidades neste miserável governo. Neste artigo, por exemplo, chega a meter dó, além de nos cansar, com as voltas que dá à folha para enaltecer as virtudes da mexida na TSU. No final, o leitor já enjoado com tanto meandro, percebe que afinal Helena só queria dizer, como os Borges que por aí andam, que os empresários são um bocado… ignorantes e acomodados demais. Pouco modernos, em suma. Da próxima, seria melhor ir direta ao assunto.
Hoje retoma as apologias, evitando a linha reta através das pequenas reservas que deixa aqui e ali, au cas où. A linhas tantas, diz o seguinte:
A maioria de nós quer ficar no euro. Com esta preferência, revelada pelo voto da maioria dos portugueses em partidos que apoiam a União Monetária, os caminhos que nos restam não são muitos. As políticas são aquelas e apenas aquelas que são aceites no clube do euro, a que pertencemos.»
Dizer que, sendo a preferência da maioria dos portugueses a permanência no euro (e resta saber até quando), estas são as únicas opções é um abuso. E também um serviço. A permanência no euro é um pressuposto dos programas eleitorais e mesmo das declarações atuais de TODOS os partidos. O problema está no programa com que estas bestas se apresentaram a eleições e no seu programa de governo. E no que pretendiam de facto fazer e no pouco estudo que nisso investiram. Estão no poder à custa de mentiras e mais mentiras, como muita gente apenas há pouco percebeu. Helena Garrido ainda está de fora desse número. Também não é inteiramente verdade que o “clube do euro” queira ou exija exatamente o que a cabeça de Gaspar produz.
Depois, a repetição da tese peregrina de que o problema está na falta de jeito do Governo para a comunicação (!). Como se o que se comunica tivesse algum mérito! E que dizer de mais uma versão do fatalista e intimidatório chavão «não há alternativa»? É o que Helena quer dizer quando fala do que determina as opções. Helena, como não há alternativa? Claro que há alternativa a estes incompetentes! As mentiras são deles. O excesso de austeridade foi escolha deles. O buraco aberto nas contas públicas, finalmente colossal, é da responsabilidade deles. O fundamentalismo é deles. A anulação de todo e qualquer investimento é escolha deles. E as consequências não estão a ser nada bonitas de ver.
Depois, já muita gente disse, mas HG não ouviu, que o Memorando não está escrito na pedra e a comprová-lo estão as sucessivas revisões de que tem sido alvo. Um acordo que produz os efeitos contrários aos desejados, que em princípio são a redução do défice e a redução e o pagamento da dívida, não só pode como deve ser revisto. Não o reconhecer é fazer fretes. Outro governo ou não teria chegado a esta situação catastrófica um ano depois da “ajuda financeira”, ou já teria insistido numa renegociação, ou até já andava em negociações com outros países do sul. O que está a acontecer não era inevitável. Mas não sou ingénua: é verdade que os programas de ajustamento dos países sob resgate podem ter outros objetivos menos claros e eventualmente mais verdadeiros que os cumprimentos dos défices apenas escondem: manter os países em dificuldades pela trela de Angela Merkel e subjugados aos interesses económicos da Alemanha, que passam precisamente por construir uma mini-China no sul do continente europeu, ao seu dispor. E, para isso, o empobrecimento e a miséria serão indispensáveis. Como jornalista, Helena Garrido devia ponderar essa hipótese. Como portuguesa, devia sentir-se indignada. Mas não sente: HG, como Passos Coelho, acha que a subserviência é a única atitude e amedronta-se com a perspetiva de punição, mormente com a expulsão da zona euro. Sem razão. Não interessa à Alemanha a saída de ninguém do euro. Helena já devia saber. Além disso, se o descalabro atingir uma determinada ordem de grandeza, sair da moeda única pode ser a melhor solução, inclusivamente por não ser a melhor para a Alemanha.
«[…] comprometendo-se Lisboa a cortar mais quatro mil milhões de euros na despesa este ano e no próximo». Até agora, só vimos tentativas de aumento das receitas. Têm saído goradas. Os novos aumentos da carga fiscal não vão resultar melhor.
«Há estradas, hospitais, centros culturais e muitos outros monstros, que não são necessários, mas que têm de ser pagos e, para isso, corta-se no que está à mão, na educação, na saúde, nas prestações sociais, na defesa e na segurança.»
Por favor. A lengalenga das obras faraónicas, não. E de que é pecado construir hospitais e escolas e estradas. O PSD adora dizer que se corta na educação e na saúde por causa de monstros como… estradas e… hospitais. Por que razão repete HG inanidades como estas? Que história nos conta de que as estradas não são necessárias – não? E as escolas e unidades de saúde com condições limitadas que puderam encerrar devido ao encurtamento das distâncias? Na minha infância, demorava-se 5 horas de Viseu ao Porto! – de que os hospitais não são necessários – esta brada mesmo aos céus – de que a cultura e o desporto não são necessários?
No Jornal de Negócios, que leio com alguma confiança, o Camilo Lourenço já está para lá de Marraquexe, mas a Helena Garrido e este seu improvável combate surpreendeu-me.
“Be Drunk” – C. Baudelaire
“You have to be always drunk. That’s all there is to it–it’s the
only way. So as not to feel the horrible burden of time that breaks
your back and bends you to the earth, you have to be continually
drunk.
But on what?Wine, poetry or virtue, as you wish. But be
drunk.
And if sometimes, on the steps of a palace or the green grass of
a ditch, in the mournful solitude of your room, you wake again,
drunkenness already diminishing or gone, ask the wind, the wave,
the star, the bird, the clock, everything that is flying, everything
that is groaning, everything that is rolling, everything that is
singing, everything that is speaking. . .ask what time it is and
wind, wave, star, bird, clock will answer you:”It is time to be
drunk! So as not to be the martyred slaves of time, be drunk, be
continually drunk! On wine, on poetry or on virtue as you wish.”
Erro meu
Neste post apresento um vídeo como se tivesse sido “um pouco do dia do Congresso das alternativas democráticas de 5 de Outubro”.
Enganei-me no vídeo, que é de outra data. As minhas desculpas.
Vale a pena vê-lo, de qualquer maneira, pois o que lá vai dito foi, de facto, um dos temas do Congresso e com aqueles protagonistas e com aquela mensagem.
Pequeno interludio Seguro
As coisas estavam calmas na governação, e o país avançava sem grandes sobressaltos ou preocupações. Uns ajuntamentos aqui e ali, uma converseta de impostos acolá, o costume nesta modorra insuportável que caracterizava o país nos últimos tempos. E depois o tédio. Tédio esse que incomodava de sobremaneira António, o irrequieto líder da oposição. Nada para dizer, nada para criticar, e um país cujos eleitores, felizes e prósperos, falavam de tudo e coisa nenhuma, excepto governo, situação politica e economia. O normal quando tudo vai bem. E foi ao ver a edição desse dia do Público, constituída exclusivamente por páginas em branco num original protesto por não se passar nada que valesse a pena escrever, que lhe rebentou a tampa. Alguma coisa tinha que ser feita. Este país tinha que despertar, havia que agitar o charco, fazer-se notado, liderar a conversa nacional. Pensou no casamento gay, essa malta era sempre polémica. Azar, estava tratado. Depois pensou em mais um TGV, rapidamente abandonando a ideia quando passou o primeiro lá ao longe, e depois o segundo. Demasiado banal. Desempregados, caramba! Tem de se falar dos desempregados. Abriu o relatório sobre desemprego ali à mão. 2.7%, dizia. Negativos, que as empresas não conseguiam preencher porque estava toda a gente ocupada. Nem pagando uma pequena fortuna. Não seria por aí. Sacana da prosperidade.
Ligou para o Zorrinho, ele saberia o que fazer, o homem na lua tinha sido proposta dele. Revirou os olhos quando quem respondeu foi o voicemail. Tem um homem um líder parlamentar para isto. Olhou pela janela. No Tejo, um sem-fim de cargueiros executavam um intrincado ballet aquático em conjunto com as frenéticas gruas. Tantos, tantos contentores a sair. Sentou-se ao computador, alguma coisa tinha de ser feita, este não-se-passa-nada-no-país era insuportável. Levantou-se da cadeira, não conseguia estar quieto. Escreveria de pé. E enviou um email para os deputados, com o assunto “Precisamos de propostas, já, qualquer coisa”. Marcou como “importante”. Enviou para todos. Depois esperou. Foi passear o cão, demorando mais do que o costume. Apercebeu-se do burburinho da animada zona de restauração ao longe, na próspera zona empresarial. Havia tantas agora, era impressionante. Ao longe, o fumo das inúmeras indústrias tentava transformar o céu num código de barras. Recordou-se da grande polémica quando propôs limitar a quantidade de fábricas por não haver espaço para mais. Tinha brilhado, tempos felizes. E agora isto, este vazio. Limpando os pensamentos negativos da mente, voltou para casa. Verificou o email com expectativa. Nenhuma resposta, excepto de um que o questionava se apresentar propostas agora, quando estava tudo bem, não seria demasiado arriscado. E era isto, caramba, era assim que estávamos. 74 deputados ociosos e nenhuma ideia. Nem uma. Se era para isto para que raio queria ele tantos, o Zorrinho bastava, sempre contava umas anedotas. E foi então que teve uma ideia. Uma grande ideia, que entusiasmaria o povo e lhe daria algo que discutir. Seria algo polémico, já que os deputados gozavam de enorme prestígio e popularidade graças à prosperidade, mas que diabo, demonstraria coragem e determinação e sempre se assegurava a elevação no debate. Feliz com o seu génio, foi deitar-se para a sesta habitual. Dormiria bem, as próximas eleições estavam no papo.
A propósito do regular funcionamento das instituições democráticas
Revolution through evolution
Doctors Speak out About Unnecessary Care as Cost Put at $800 Billion a Year
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Anthropologist Finds Evidence of Hominin Meat Eating 1.5 Million Years Ago: Eating Meat May Have ‘Made Us Human’
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Among Voters Lacking Strong Party Preferences, Obama Faces 20 Percent Handicap Due to Race Bias
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How Science Explains America’s Great Moral Divide
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Bald Men: More Masculine, Less Attractive?
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New Study Sheds Light On Cancer-Protective Properties of Milk
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The More We Know About Celebrities, the Less We Like Them
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Republican Strength in Congress Aids Super-Rich, President’s Affiliation Has No Effect
Lunático pretende que teria evitado a crise…
…se não se tivesse demitido.
Campos e Cunha em entrevista ao i de hoje disse que “o Estado foi à falência com base nas políticas seguidas, em particular desde 2008, pelo engenheiro Sócrates”. E acrescentou: “Não esqueço quem nos levou à bancarrota”.
Curioso. O fulano opta por não falar de 2005-2008, pois seria penoso reconhecer a consolidação orçamental desses anos, dirigida por Teixeira dos Santos. Mas que terá acontecido a partir de 2008 que precipitou uma crise económica e das finanças públicas em Portugal? Talvez uma crise financeira internacional seguida da crise europeia das dívidas soberanas? Estavas acordado, Campos e Cunha?
Impõe-se uma pergunta: se Campos e Cunha não tivesse feito chichi pelas pernas abaixo e não se tivesse demitido em 2005, poucos meses depois de ter tomado posse como ministro das Finanças, e se tivesse continuado no governo, como é que ele teria passado entre as pedras de granizo a partir de 2008? Porque é isso que, na entrevista ao i, ele pretende que teria conseguido fazer. Não tem coragem para o afirmar claramente, o que é típico da sua índole esquiva e temerosa. Mas insinua, de facto, que teria evitado a crise das finanças públicas em Portugal.
Que solução milagrosa teria ele para evitar a quebra das exportações, a retracção da procura interna e externa, a subida do desemprego, a descapitalização dos bancos e das empresas, a dramática quebra das receitas fiscais, a urgente necessidade de financiamento do Estado, dos bancos e das empresas privadas, a subida dos juros das obrigações da dívida pública no mercado internacional, etc.? Teria Campos e Cunha evitado a crise internacional, a crise na Europa ou só a crise portuguesa? Teria posto Portugal a pão e água desde 2005, ou mesmo desde 2008, quando ainda se estava longe de conhecer a duração e todos os efeitos da crise? E teria sido isso uma boa solução? Não sabemos nem ele o explicou. Nem hoje nem nunca.
Mas da bancada do ex-ministro cobardola e ressabiado é fácil pôr culpas, mandar postas de pescada e, em matéria política, dar palpites cabotinos como este, revelador do lunático que ele é:
“Os votos em branco deviam estar representados no parlamento por lugares vazios. Tinha duas vantagens. A primeira era trazer pessoas que não votam para dentro do sistema. Em segundo lugar, levaria a que os partidos competissem entre eles, mas também que ganhassem confiança do seu eleitorado.”
A solução mágica de Campos e Cunha, insistentemente exposta por ele na comunicação social – e hoje novamente no i – para o problema político português, tal como o fulano o diagnostica (a alegada falta de representatividade do parlamento e do sistema de partidos), é esta: incentivar o voto em branco. Uma imbecilidade nunca experimentada em nenhum país do mundo, porque nenhum país do mundo tem o azar de ter um governante lunático como Campos e Cunha. O fulano acha que cadeiras vazias no parlamento significaria “trazer pessoas para dentro do sistema” e “levar os partidos a competir entre eles”. Esta é a lógica da batata do tal especialista em finanças públicas que pretende que teria evitado a actual crise financeira do Estado português.
Não sei se a abécula fez as contas, mas a habitual percentagem de votos em branco não daria, com sorte, para mais de uma cadeira vazia no parlamento. Para Campos e Cunha bastaria. Seria a cadeira dele, vazia. É uma boa imagem.
Acetilsalicílicalizando
O nosso amigo Joaquim Camacho enviou-nos este recado para dar ao Governo: pessoal, se o objectivo é reduzir as gorduras do nosso estado, antes pela farmácia do que pelos impostos:

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A nossa amiga mdsol informa-nos do que o frontal, honesto, exemplar Paulo Portas diria do Governo a que pertence caso não estivesse sob o jugo da asfixia asnática que lhe tolhe o verbo:
“Isto é um bombardeamento fiscal de um governo sem palavra”
*
A nossa amiga Raquel recorda-nos aquele tempo em que teria sido possível evitar a desgraça actual, e onde vimos o maior mentiroso da história da democracia portuguesa a debater o destino de Portugal com um político que deixou algumas verdades para memória futura. Foi aqui:
Denunciar o que deve ser denunciado, sim?
Ontem mesmo, no Congresso das Alternativas Democráticas, ouvi uma ou outra pessoa assacar as culpas da situação catastrófica em que vivemos aos “6 anos de governação socialista”.
Fico sempre surpreendida – ou não? – quando vejo gente de esquerda absorver o discurso cuspido e escarrado a partir de 2007 pela direita, histérica por chegar ao poder.
Um discurso que andou por todo o lado, na imprensa do costume, nos doutrinadores de serviço, sabendo da sua mentira, um discurso apoiado na crise 2007-2010, já então a maior de que tínhamos memória em 80 anos, para usar de 3 anos de evidente crime internacional um mote para o sound bite “os últimos seis anos do PS”.
Aflige-me gente de esquerda, que tem de ter na sua identidade genética um profundo desprezo e uma atenta identificação dos culpados do que se passou a partir de 2007, os mercados financeiros internacionais, o seu comportamento de ganância desumana, os crimes conhecidos de 2007, em vez de se horrorizar com as consequências que estes poderes desregulados e sem rosto tiveram nas nossas vidas, em vez de bramirem contra o capitalismo selvagem, prefiram atacar os políticos que há data governavam e tentavam resistir-lhes.
Repetem e repetem a frase desta maioria: que o anterior Governo subiu a dívida em 38%.
“Seis anos – dizem”.
De que falam?
Sem crise internacional, sem contágio da crise dos mercados financeiros, o anterior Governo, nos seus primeiros anos – é que foram realmente 6 –, reduziu o défice deixado pela direita PSD/CDS, que governou sem crise, de 6, 8 para 3%.
Foi o Governo da reforma da segurança social, foi o Governo da reforma da energia, foi o Governo da reforma da Educação (Inglês no básico ou as Novas Oportunidades), foi o Governo da simplificação administrativa, de muita coisa, que pelo meio terá errado, sim, essa coisa exclusiva de quem é eleito e estranha a quem nunca tem os votos dos portugueses para tanto.
O tal “Governo de seis anos” foi atingido pela crise que atingiu todos. Sim, a dívida subiu – não nos seis anos – mas no final, 38%. Culpa do anterior Governo? Talvez. Mas então também culpa sua que na mesma altura a dívida do Reino Unido tenha subido 58%, que a dívida da Espanha tenha subido 60%, que a dívida dos EUA tenha subido 53%, que a dívida média da UE tenha subido 34% ou mesmo que a dívida da Irlanda tenha subido 200%.
O que fizeram estes Governantes foi o seu dever. Enquanto recebiam ondas de crise faziam uma outra dívida, a da proteção dos mais fracos.
Por isso aflige-me que gente de esquerda grite mais contra um homem do que contra todo um sistema selvagem que supostamente repudiam ideologicamente, precisamente porque uma coisa destas, a crise que começou em 2007, criminosa, pode acontecer.
Podendo acontecer, quem é de esquerda não alinha em políticas que têm o mesmo resultado das ditas crises. Começa precisamente por aí, por se arrepiar com a correria com que a direita, aliando-se à extrema-esquerda, quis ir para o poder, nas tintas para a palavra dada, como se está a ver, e executando o que um monstro financeiro poderoso e invisível executaria.
O mal não são “os últimos seis anos do PS” ou dos Governantes que enunciei.
O mal é outro e ameaça a democracia.
O resgate a fazer é esse: o da democracia, que é como quem diz o resgate de escolhas. Renegociar. Bater o pé. Juntarmo-nos à Espanha, à Itália, à Grécia – já agora não faltar a essas reuniões – e exigir uma mudança de política. Não há memória de tratados inalterados. Seria anedótico um acordo ser de pedra.
Liderar não é apresentar um programa selvagem à TROIKA e anunciar com cara de puto que se passou no exame, que se “cumpriu”, à custa de “incumprir” com todos nós.
Liderar é estar ao lado do povo e dizer que a mudança impõe-se.
Contestar é querer exatamente isto, prevenir da adesão do Governo à imoralidade de um qualquer agente financeiro de 2007; não é, certamente, ilibar os criminosos do início desta história engolindo a mentira de uma tal “Governo de seis anos”.
