Não digam que não foram avisados, digam que têm o que pediram

Um dos efeitos da crise global, que acabou por condicionar todo este ano de 2010, foi a séria crise de confiança que se abateu nos mercados financeiros sobre as dívidas soberanas dos países do Euro. Esta situação, sem precedentes na União Europeia, levou à subida injustificada dos juros, e afectou todas as economias europeias. Basta, aliás, ver o que passa lá fora para se compreender a dimensão europeia desta crise que a todos afecta embora a alguns países de forma mais intensa.

A verdade é que todos os governos europeus tiveram este ano de fazer ajustamentos nas suas estratégias e tiveram de adoptar medidas difíceis e exigentes, de modo a antecipar a redução dos seus défices como forma de contribuir para a recuperação da confiança nos mercados financeiros.

O Governo português tomou as medidas necessárias para enfrentar esta situação. Com confiança, com sentido de responsabilidade e com determinação. Definiu metas ambiciosas para 2010 e 2011 que vamos cumprir. O que está em causa é da maior importância. O que está em causa é o financiamento da nossa economia, a protecção do emprego, a credibilidade do Estado português e o próprio modelo social em que queremos viver.

Sócrates, Natal de 2010

*

Em 2010, com um Governo minoritário por escolha da oposição e do Presidente da República, o primeiro-ministro ao tempo apresentava um diagnóstico da situação que foi apropriado pelo actual Governo logo após a tomada de posse. Igualmente anunciava que estava disposto, apesar da fragilidade política do seu Executivo, a tomar as medidas de ajustamento que se impunham pelo contexto. E deixava claro que o Estado social ficaria ameaçado caso o País não se unisse na sua defesa. O tal país, 3 meses depois, fez exactamente o contrário e entregou-se nas mãos daqueles que, à mistura com as maiores mentiras alguma vez ditas em campanhas eleitorais, já tinham deixado todos os sinais de se quererem vingar do 25 de Abril.

Como é que foi possível premiar com o poder tamanha violência e incompetência do casal Passos-Relvas? Como é que PCP e BE puderam alinhar com tal plano? Como é que os social-democratas e democratas-cristãos que existam em Portugal se deixaram ficar num silêncio cúmplice?

A miséria maior em Portugal é a da inteligência.

Como implementar um programa em quatro etapas

Primeira etapa: Receção de boas-vindas à Troika. Gaspar encantado oferece-se para lhes poupar viagens e dores de cabeça.

Segunda etapa: Inventar um desvio colossal e cortar dois salários na função pública. O termo precaução ganha novo sentido.
Aumentar os impostos indiretos (IVA).
Fingir que se ignoram as consequências das duas medidas na economia, nas receitas, no desemprego. Buraco orçamental, este sim monumental, recessão.

Terceira etapa: Em cima das medidas anteriores, aumentar os impostos diretos (IRS, IMI e outros) – novo buraco, maior quebra da economia, mais desemprego. Devastação. Limite da carga fiscal atingido.
Não fingir que se ignoram as consequências, mas aludir vagamente às exigências de uma tal Troika e mais fortemente a um plano de ajustamento, que não nos deixam alternativa. Mandar emissários à televisão matraquear este argumentário. O da falta de alternativa. Começar a falar no corte da despesa.

Quarta etapa: Perante os legítimos e generalizados protestos contra a carga fiscal e o falhanço da receita, escamotear a responsabilidade do Governo, centrar as atenções na carga fiscal e alegar que menos impostos só com menos serviços e começar, a partir daí, a desmantelar ou a privatizar os serviços tradicionais do Estado (não é o que se faz na Europa) – ensino, saúde, Justiça, segurança (?), defesa – e diminuir drasticamente os apoios sociais. Diabolizar o Estado social.

E já está. É simples. Negócios entregues aos amigos e a quem pagar em géneros e em diferido ao Relvas (e não só), salários acentuadamente reduzidos e maior número de desempregados, logo, mão de obra barata à disposição, créditos do Gaspar reforçados e eventualmente premiados nas instâncias europeias. Umas pequenas chatices pelo caminho devido à pressa excessiva que os levou a esquecer o Portas e o partido dele, nada que uma boa encenação não tenha resolvido, pois o Paulo adora viajar, umas idas chatas ao Parlamento para ter de ouvir o João Galamba e o Pedro Marques, e uma maratona orçamental para aparentar árduo trabalho.

António Borges atrás da cortina: Check.

Uma maioria de portugueses votou nesta gente. Continuarem a acreditar nas patranhas que lhes vendem será quase incompreensível.

Nota: Este plano que descrevi pode não ter sido traçado e executado com régua e esquadro tão perfeitos. Mas as circunstâncias, as trapalhadas semi-brincalhonas, o amadorismo, a ausência de presidente e a base pouco sólida da oposição Seguro acabam por lhes abrir oportunidades para o concretizarem. Do seu ponto de vista, também não lhes resta qualquer outra fuga para não se afundarem de vez (e nesse sentido não têm mesmo alternativa, eles) – apresentarem-se como revolucionários (voltando ao princípio, ao programa eleitoral). Será que pega? Não perca os próximos episódios.

O início da pré-campanha eleitoral: por Pedro Passos Coelho

Passos Coelho apresentou-se na discussão do OE de 2013 com um plano infantil. Pensava, imagino, que ninguém daria por ele.
O PM, esgotado de guerras com Portas, incapaz de substituir os Ministros que são paredes entre o povo e o Governo, podia, ainda assim, ter razão.
Podia ter razão na aposta que fez na sua aposta sem alternativa, o Ministro das Finanças, um homem que lhe apresentou um modelo em 2012 apetecível de mais para Passos resistir, que não viu nada de estranho ali: o modelo era ir muito para além do memorando, cortar subsídios e pensões e reformas, fazer história na lei laboral, tornando-a ao mesmo tempo flexível e insegura, tudo sem estudos que garantissem ou explicassem as medidas, veja-se o IVA na restauração, mas como resistir, quase salivando, a um modelo que dizia ser mais rápido do que a TROIKA, que dizia a Passos isto: – vais ser o PM que dirá aos credores que acabaste a tarefa antes mesmo do acordado! Como resistir?
Pensando antes de agir.
Passos não pensou e depositou toda a sua fé no modelo do seu próprio modelo, o Ministro Vítor Gaspar.
O resultado é conhecido e nenhuma das metas foi atingida. A passividade facial de Gaspar não evitou que a evidência fosse às ruas, às ruas daqueles que tinham ouvido que a quebra das promessas eleitorais em 2012 era só por um ano, tinha um objetivo e seriam recompensadas. O povo, sabendo-se enganado ainda teve de assistir a cenas de um casamento/divórcio entre um CDS em suicídio retroativo e um PSD em frente e sem pausas, apostado no modelo e no modelo.
Do falhanço de 2012 em todos os indicadores – défice, dívida, desemprego, etc., – o Governo fez a escolha de entrar numa patologização da política, mentindo, falando por eufemismos, apresentando propostas soltas e revogando-as dias ou um dia depois, para finalmente dar a palavra a Vítor Gaspar, que apresenta um OE de 2013 que insiste no modelo de 2012 mas em dobro. Faz várias intervenções, às vezes mais duras, às vezes mais abertas, sempre cheio de certezas, afirmando que não há outra alternativa, e nessa frase negando a essência da democracia.
Eis Vítor Gaspar e através dele todo o Governo conivente com ele. Gaspar, a patologia que nos atira os números da desgraça, anuncia uma “enorme subida de impostos”, 34%, anuncia um OE que acaba com o país, mas Passos aceita que Gaspar vá até ao nosso fim procurando que a realidade se adeque ao seu modelo em vez de mudar o modelo e adaptá-lo à realidade portuguesa.
Por isso mesmo não fala do estado do país na Europa, não luta por nós na Europa, não se esforça por milhões contra um, Vítor Gaspar.
Acontece que Gaspar fez umas continhas e explicou a Passos – pasme-se – que a execução orçamental de 2013 vai correr mal, o que na verdade é-lhe indiferente, desde que lhe ofereçam a permanência no lugar e a possibilidade de se desdizer, hábito seu, e de cortar mais e mais e mais.
Por isso mesmo estamos neste debate para aprovar o OE de 2013 já a discutir medidas adicionais de 832 milhões de Euros, isto é, estamos a discutir um OE cujos autores antecipam falhado nessa quantia, nesse buraco, estamos a discutir dois orçamentos. Este e um retificativo.
Como sair disto?
Dizendo que a culpa não está no falhanço da execução de 2012 e das decisões políticas do Governo mas na necessidade de “refundar” o memorando, ou as funções do Estado. Assim, distrai-se – tenta-se – o povo da questão central – colapso governamental – e enche-se cada telejornal com um verbo: refundar. Mais: chama-se para tanto o PS e ainda se deixa no ar a discussão idiota acerca de uma revisão constitucional, a tal que Passos queria quando ganhou as eleições no PSD e que provocou uma gargalhada na Academia. Mas como lança o tema, lá se vê gente na TV dizendo, ai pois, a Constituição é “datada”.
Não é. É de 1976 e é das Constituições mais revistas que conheço: foi sendo adaptada à mudança da realidade em 1982, 89, 92, 94, 97, 2001, 2005. Nada na sua dimensão de princípios e de direitos sociais impede escolhas políticas de direita e de esquerda. A Constituição é aberta à política, não é rígida, não é fechada, ou todas as reformas sociais a que assistimos desde 1976 seriam inconstitucionais. Para terminar com esta questão liceal, não se revê uma lei fundamental em momentos de perturbação social. Nunca. Só os irresponsáveis, os manipuladores ou os demagógicos.
Tudo isto é nada. É a escondida confissão de culpa de um Governo em vestes de um novo desígnio: refundar as funções do Estado. Estamos em campanha pré-eleitoral. O Governo desistiu.

Um ano e sete meses depois, descobrir o conceito de “consequências”

Quem recusa este caminho económico e financeiro, quem considera que ele piorará a nossa situação, pondo o País na mesma situação em que a Grécia e a Irlanda se encontram, só poderia votar contra este PEC (IV).
(…)
Não houve uma coligação negativa. Houve três partidos que se têm oposto aos PEC’s e coerentemente se recusaram a colocar a sua assinatura num pacote de medidas que consideram inaceitável. E houve um partido que aceita, na prática, estas medidas, mas quer ser ele a aplicá-las. E que para isso abriu uma crise política.

Daniel Oliveira, 24 de Março de 2011

Os deputados representam os cidadãos, não representam partidos políticos ou governos. Cada um é deles é responsável pelo seu voto, que não é delegável em nenhum líder parlamentar. Nenhum deles se pode esconder atrás da disciplina partidária ou de declarações de voto inconsequentes. Cada um deles, nominalmente, será responsável por todas as consequências que este orçamento venha a ter para o País. Não vale a pena, daqui a um ou dois anos, criticarem as decisões que tomaram, como se elas lhes fossem estranhas.
(…)
Se aprovarem um orçamento em que, como já todos perceberam, não acreditam, os deputados que suportam a maioria terão de ser, cada um deles, responsabilizados por todas as consequências económicas, sociais e políticas que dele advenham. E se elas forem a que toda a gente com o mínimo de bom senso prevê, os portugueses não se devem esquecer dos seus nomes. Quem falha num momento destes não deve continuar na vida política. Nem como deputado, nem como ministro, nem como presidente de uma junta de freguesia. Em próximas eleições, a forma como cada um destes representantes dos cidadãos tiver votado deve ser exibida como o mais importante elemento do seu currículo político. Se soubessem que assim seria talvez pensassem duas vezes antes de votar.

Daniel Oliveira, 31 de Outubro de 2012

Bolds meus

Ofender os portugueses: as palavras que se seguem, não criaram debate, antes levaram a que V. Gaspar solicitasse a “defesa da honra”.

O deputado socialista João Galamba pediu hoje ao ministro das Finanças que defenda o país perante a ‘troika’ e deixe de ser um “Governo honradinho” porque o país já não tem mais “disponibilidade para discursos salazarentos”.
“Estamos neste momento em insustentabilidade e o que precisamos, senhor ministro, não é de um Governo honradinho, porque este país não tem mais disponibilidade para discursos salazarentos. O que nós precisamos, senhor ministro das Finanças, é de um Governo que diga a verdade e que defenda o país perante a ‘troika’ e que diga de uma vez por todas, em nome de Portugal, em nome dos portugueses, que esta estratégia não resulta”, afirmou João Galamba.
O deputado do PS interpelava o ministro das Finanças, Vítor Gaspar, a quem acusou de ter falhado nos três pilares do programa de ajustamento, contas públicas, transformação estrutural e estabilidade no setor financeiro.
“A sua façanha em 2012 no ajustamento só tem paralelo numa economia de guerra com racionamento em 1943. Não é, não pode ser um sucesso”, acusou.
“O seu orçamento de 2012 não resultou e o de 2013 não pode resultar. Qual destas dez palavras é que não entende?”, concluiu João Galamba.

Ofender os portugueses

Os portugueses, ainda mais num momento de desânimo em relação à classe política, têm direito a uma discussão séria sobre o Orçamento de Estado de 2013.
O agendamento paralamentar do dia é esse e os portugueses querem saber o que diz esse documento que lhes modela a vida, querem saber por que falharam todas as previsões do OE de 2012, querem saber por que estiveram um ano a fazer sacrifícios que eram só de um ano, querem saber por que razão há três meses o PM anunciava crescimento económico para 2013, querem saber que Governo é este tão firme na solução de roubar ao trabalho e dar ao capital (TSU) que afinal voltou atrás, querem saber por que razão o IRS, pasme-se, vai aumentar em geral 36%, não poupando os mais fracos, querem saber por que razão afinal os sacrifícios do ano passado acabaram na proposta de OE mais brutal da história da democracia portuguesa, querem perceber por que razão de Manuela Ferreira Leite, a patrões, a sindicatos, a académicos se ouvem apelos contra este OE, querem saber por que razão após o maior ataque de sempre às prestações sociais, o Governo vem falar numa “refundação” que incidiria sobre, precisamente, o Estado social, o tal, esmagado no OE, querem ouvir o Governo a dizer de sua justiça e querem ouvir a oposição.
Com a “refundação”, o PM arranjou uma nuvem de fumo para não falar de nada daquilo; com o inovador “englobamento” das perguntas dos líderes paralementares, fugiu a respostas que de outro modo teriam de ser incisivas, fugindo, portanto, à democracia; com a criação de incidentes parlamentares como a defesa da honra perante uma afirmação política de Seguro segundo a qual o PM “entra e sai calado nos Conselhos”, cala o OE e rebola para a demagogia de um homem honrado, magoado, mais uma vez calado; com a resposta à resposta sem autorização de uma PAR muda e quieta, temos bancadas laranjas e azuis histéricas com mais um episódio, mais um que esquece por que razão estamos todos aqui, sob os olhos dos portugueses; com a instrução dos Deputados da maioria para, no debate do OE de 2013 fazerem intervenções situadas entre 2005 e 2011, mais uma vez ganha o barulho de quem se alivia de uma dor com uma droga intravenosa, o passado, isso, não vamos discutir a ordem do dia, não vamos discutir o próximo ano dos portugueses, por que não começar em D. Afonso Henriques que ficou com uma dívida papal nos braços?
Este Governo é insuportável.
Os portugueses já não merecem sequer o respeito pelo funcionamento normal da democracia.

Não é uma maratona, é uma corrida de malucos

A propósito da declaração de Vítor Gaspar em que comparou o processo de ajustamento a uma maratona, Marcelo Rebelo de Sousa pediu ao Governo que se decidisse quanto ao tipo de corrida, pois tinha começado por ser uma corrida de poucos metros e já ia na maratona. Penso que, nesta altura, a questão não é essa, uma vez que o ministro já se decidiu pela maratona, e nem era preciso pois já todos percebemos que a corrida é longa. A questão é que, apesar de ter sido muito preciso e de ter informado que a corrida já levava 27 quilómetros percorridos, faltando apenas correr um terço, Vítor Gaspar não sabe o que é uma maratona. É que numa maratona o percurso está bem definido, nunca se altera a meio, e todos os maratonistas sabem onde está a meta e o que ganham caso lá cheguem. Mas não é isso que se passa nesta corrida em que o Governo está constantemente a alterar o percurso, a mandar-nos correr para becos sem saída, ou para ruas que são verdadeiros obstáculos intransponíveis, como é o caso do Orçamento do Estado que está em discussão, por exemplo. Que é como se, de repente, os maratonistas fossem desviados para uma rua com 20% de inclinação, com o piso ensebado e sem fim à vista. E depois vem dizer que o sucesso não está garantido. Pudera! Mas mesmo que, por milagre, fosse possível terminar a corrida, o ministro não diz qual é o prémio. Talvez por saber que o único prémio a que teremos direito é um bilhete para voltarmos a participar numa corrida organizada por si, ou seja, mais uma corrida de malucos.

Descentrar e adivinhar: o PM que nos calhou

Por que é que estamos a discutir a necessidade de cortar 4 mil milhões de Euros para 2014?
Por acaso somos bruxos?
Ou estúpidos?
O Senhor PM importa-se de discutir o OE de 2013? É que os portugueses pagam-nos a nós – Deputados – e a eles – Governo – para estarmos aqui, neste dia, a discutirem o OE de 2013, as medidas concretas nele previstas: os cortes em todas as áreas sociais, sim, na escola pública, na saúde pública e nas prestações sociais, todas elas, as mais baixas, também. O PM tem de discutir por que razão se prevê no OE de 2013 números em matéria de desemprego e em matéria de crescimento horripilantes, mas ainda assim longe do que toda a gente prevê.
O PM tem de assumir que a causa de mais esta escolha política, a causa desta revolução fiscal, foi o falhanço do OE de 2012. Convinha analisar onde se falhou e por quê?
Convinha ver na AR um PM a defender este OE. Como ele conseguisse.
Mas não consegue. Pior: consegue, dizendo o número redondo que é necessário “cortar” para o ano, em 2014.
Mas que sabe Passos Coelho?
Que credibilidade tem Passos Coelho??
O homem que fez tudo o que prometeu não fazer e que esmagou Portugal na execução de 2012, sabe que o que interessa discutir é o número 4 para o ano que vem.
Como se Passos soubesse ou pudesse fingir saber a que número estaremos condenados se o seu OE de 2013, esse salto sem rede, fosse executado.

Para a história do desrespeito da tradição democrática do Parlamento

Sim, é difícil discutir este OE. Muito difícil. É, no entanto, um dever do PM deslocar-se à AR, fazer um discurso inicial e, depois, sujeitar-se, separadamente, às questões tradicionalmente colocadas pelos líderes parlamentares. Como sabem, em cada interpelação, há réplicas e tréplicas.
Assim que Seguro faz a sua primeira interpelação, a AR é de imediato avisada de que o PM entendeu inaugurar uma nova forma de discussão do OE: responderá a todas as interpelações, “em conjunto”, no final, num bolo, com consequências nesse tempo de resposta, e assim podendo fazer um discurso vago após todas as intervenções.
Triste dia este.
O Governo finta tudo. Até as regras básicas de um debate democrático sobre essa coisinha de nada, o OE de 2013.

Discussão do OE de Estado para 2013: curtas

Passos a declarar a sua morte: no discurso inicial foge ao seu falhanço e avança para a “refundação” das funções do Estado, mais uma vez, uma caminho “sem alternativa”, para nos livrarmos dos nossos credores.
Chama pela PS para que seja possível cumprir o resgate, cortar 4 mil milhões.
O PS, o tal que estava a tentar evitar um resgate quando Passos, Portas e toda a extrema esquerda derrubou o Governo PS.

Vem aí um Estado novo

Imaginemos que conseguíamos reunir um grupo abrangente representando o escol nacional, do Adriano Moreira ao Garcia Pereira, do Marinho e Pinto ao Roberto Carneiro, do PCP ao CDS, dos sindicatos aos empresários, dos académicos aos artistas. E que lhes dávamos esta tarefa: reavaliem as funções do Estado. Quanto tempo seria adequado estabelecer para esse levantamento e reflexão, tendo em conta as três décadas passadas na construção do actual modelo e as perspectivas a respeito dos factores internacionais que irão condicionar o nosso crescimento económico? Seria um ano muito ou pouco tempo? E que tal seis meses? Mas não seriam os seis meses ridiculamente curtos tendo em conta a magnitude, complexidade e relevância do que está em causa? E que tal 5 anos, seria de mais face ao desafio ou o mínimo para que as decisões fossem fundadas na realidade e nas nossas capacidades?

Consta que Portugal vai entregar à rapaziada da Tecnoforma e das equivalências folclóricas, os mesmos que concorreram a eleições para libertarem a economia da amarra dos impostos mas que têm primeiro de despachar uns negócios antes de tratarem dessa parte, a feitura da coisa. E que vai ser rápido, uma ou duas reuniões e aparece um Estado novo prontinho a usar.

Colhe dizer que o seu à-vontade e completa ausência de pudor dizem mais de nós do que deles. Eles sabem muito bem com quem estão a lidar, os mesmos que os levaram ao pote. Os mesmos que foram avisados do que iria acontecer. Os mesmos que nada aprenderam apesar da gula pudenda ter estado obscenamente à mostra.

Revolution through evolution

Computer Simulation Shows Grandmas Made Humans Live Longer
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Exercise the Body to Keep the Brain Healthy, Study Suggests
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Short Interval Training Burns Big Calories
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Moderate Drinking Decreases Number of New Brain Cells
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Exercise Boosts Satisfaction With Life, Researchers Find
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Lifting Weights Protects Against Metabolic Syndrome, Reports Journal of Strength and Conditioning Research
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Self-Affirmation Enhances Performance & More
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Parenting and Temperament in Childhood Predict Later Political Ideology

O meu 29 de Setembro

Naquele sábado em que a maior manifestação dos últimos anos da CGTP encheu o Terreiro do Paço com alguns 9 milhões de valentes, estimativa cautelosa tendo em conta a força popular do PCP e sua incontável frota de camionetas e furgonetas, os quais deixaram a Capital e o capital a tremerem de medo perante uma luta bem organizadinha como só esses profissionais do poder da rua conseguem montar, estive noutra manifestação. Tão ou mais impressionante. Aliás, muito mais impressionante. Mas mesmo muito mais. Falo, e aposto que já adivinhaste, do 11º Encontro Nacional de Tocadores de Concertina.

As manifestações de 15 e 29 de Setembro, que quase mandaram o Governo abaixo, são ridículas perante este evento ocorrido no meio da Serra de Aire. Porque qualquer manifestação política corresponde sempre a uma percentagem da população total. Será que a 15 de Setembro tivemos 1 milhão de portugueses em protesto pelo País fora? A ser verdade, não chegaram aos 10% da população total. Será que a 29 de Setembro a CGTP conseguiu reunir 300 mil indivíduos em Lisboa? A ser verdade, e não é, nem nada que se pareça, tal corresponderia a pouco mais de metade da população residente ou a 10% da população da Grande Lisboa. Ora, este super-acontecimento de que vos falo ainda embargado faz com que um nico de terra onde habitam 42 cidadãos seja invadido durante um dia por 4 a 6 mil concidadãos – portanto, a população aumenta 100 ou mais vezes. E como eles comeram, beberam e bateram os pezinhos ao som das concertinas os cidadãos e cidadonas e concidadonados, olá.

Os cínicos dirão que isso não é nada comparado com os festivais de música que levam quantidades estupidamente maiores de visitantes para lugares igualmente remotos e despovoados. Mas é precisamente por isso que os cínicos são cínicos, porque um cínico está condenado a carregar com uma sensibilidade calejada e uma inteligência anoréctica. Já não se conseguem alimentar, perdem o gosto e a fome. Ficam enjoados. Passam os dias e as horas enjoados. Acima de tudo, os cínicos ignoram os aspectos essenciais do tecido espácio-temporal; no caso, de que estamos a lidar com o 11º Encontro Nacional de Tocadores de Concertina.

E estamos na Barrenta. Pouco mais do que a Rua Principal, mas ainda oferecendo a Rua do Emigrante, para partir ou regressar, e a Rua da Felicidade, para morar ou atravessar. Foi para lá que fomos nessa tarde de suave luminosidade outonal. E não fomos sozinhos, nem a pé. Fomos a cavalo, fomos a saltar e a voar através dos caminhos da serra que nos saudavam à passagem. Uma festa antes da festa. E outra festa dentro da festa. Os rostos abertos em sorriso, as mãos a tocarem medrosas ou confiantes nas montadas, olhares hipnotizados, fotografias, pedidos de miúdos e graúdos para subirem à sela. E um devir de encantamento e temor que a mera presença do cavalo desperta nos humanos. O cavalo como símbolo vivo do equilíbrio entre a natureza domável e a liberdade indomável.

Já sabes o que vais fazer aquando do 12º Encontro Nacional de Tocadores de Concertina? Exacto: vais participar na maior manifestação que ocorre em Portugal, ali num pachola fim do mundo. Cavalagem opcional.

Refundar: uma curta, ou por outras palavras

“Como tomei a decisão de ignorar o memorando de entendimento e tomar medidas recessivas duas, três vezes para lá do acordado; como tomei a decisão de tomar medidas inconstitucionais e também recessivas não constantes do memorando; como fiz tudo isso, com o laboratório Gaspar que escolhi, tudo para chegar às metas do memorando mais rápido do que o que estava nele previsto; como jurei mil vezes que não admitia qualquer revisão/negociação/alteração/renegociação/ ou denúncia de um memorando que eu iria cumprir por excesso; como entretanto falhei em todas as previsões de 2012 à custa de desemprego, recessão, miséria, explosão fiscal; resta-me esquecer que estamos onde estamos porque falhei, donde talvez passe, em tempos de crise, falar numa nova palavra: “refundação”.
Assim, a responsabilidade deste descalabro não é minha, mas das funções do Estado, a saúde, a educação, a justiça, as prestações sociais, que por acaso já lá estavam quando eu dizia do sucesso garantido das minhas medidas, para já não falar na minha campanha eleitoral, mas isso agora não interessa nada. Como eu falhei, culpe-se o sistema e convoque-se o PS para explicar aos credores, juntinho com o Governo, que a coisa está a falhar porque temos de reformular todo o Estado social no memorando (e não por causa das minhas decisões), o que, por acaso, implicará uma revisão constitucional. Esta parte não sei se diga, porque isto de se discutir os princípios essenciais constitucionais sem ser em tempos de serenidade é coisa para doidos.”
Pedro, o PM e o pai.

Já não há paciência para a União Europeia

Seremos todos vítimas das aldrabices e dos excessos dos gregos? Em 2009/2010, e na sequência das falcatruas financeiras americanas, a Grécia, membro do euro, revelou-se sem capacidade para se financiar nos mercados. A partir do pedido de resgate, ficou-se a saber muito do modo de funcionamento daquela sociedade, dos privilégios, da corrupção, dos compadrios, das ligações perigosas e também da conivência das autoridades europeias. Mas, ao mesmo tempo, uma certa Europa adquiriu ali uma série de notas de música para os seus ouvidos que iriam até hoje alimentar melodiosamente o seu argumentário estigmatizante dos povos do sul. Porque tínhamos sol, passámos a ser todos gregos.

Na realidade, cada país é um caso. No eclodir da crise, a Espanha tinha uma dívida mais baixa do que a Alemanha. A própria dívida portuguesa estava longe de insustentável. Só para se ter uma ideia do absurdo, a dívida da Bélgica é, neste momento, um pouco superior à nossa em 2010 e, no entanto, financiam-se a juros quase iguais aos da Alemanha. E se eles têm despesas com a máquina do Estado! O país está dividido em quatro regiões mais o nível federal. Segundo a nova lógica austeritária, deviam extinguir-se. A dívida de países como Portugal tornou-se insustentável com a especulação em torno das yields e quando o fecho de empresas e o número crescente de desempregados começaram a exercer uma pressão insuportável sobre os fundos de apoio social. A quebra das receitas fez o resto. Uma ressalva, aqui merecida, para fazer alguma justiça: Merkel e o BCE negociaram em 2011 com Sócrates uma espécie de pacto anti-queda que nos manteria à tona de água, pois não havia interesse em deixar cair mais um Estado. Sabemos quem entornou irremediavelmente o caldo. O desastre está à vista, mas a jogada foi de molde a poderem-nos assemelhar aos gregos, não duvido.

Ouvir Mario Draghi, que às vezes parece ser clarividente e decidido, e desejoso de alguma independência em relação à Alemanha e ao seu banco central, dizer que “muitos governos ainda não perceberam que perderam soberania nacional há muito tempo. Porque, no passado, permitiram que a sua dívida se amontoasse, agora precisam da boa vontade dos mercados financeiros” é um bocado desesperante. Mas que dívida? Mas que governos? Está a falar de quem? Da Irlanda? Da Espanha ? De Portugal? Se é a Grécia que tem em mente, porque não o diz? O que faria qualquer governo, que estivesse a esforçar-se genuinamente por conter despesas, perante o fecho sucessivo de empresas, o aumento do desemprego e a quebra drástica de receitas? Perante o aumento estratosférico dos juros sem mecanismos de barreira? Decretava o fim do país e punha o território à venda? Com “inquilinos” ou esperava que saíssem? E quem tinha comprado casa e feito planos com base num salário que entretanto acabou? E quem contava com crédito da banca para desenvolver o seu negócio? E um Estado que tivesse cumprido as instruções de Bruxelas de estimular a economia, confiando em determinado valor de juros? Começa a não haver paciência. Este método acusatório não resolve nada. Se às vezes Mario Draghi dá no cravo, outras, como esta, dá na ferradura.

Depois diz que “as taxas de juro na Alemanha estão num nível baixo, nalguns prazos negativas, não por causa das nossas [deles] medidas, mas porque a Alemanha está a receber fluxos de outras partes da área do euro, que aí se refugiam”. Grande novidade! Já toda a gente o constatou. Está mesmo aí a causa principal da nossa tragédia e até do ódio crescente aos alemães. Mas e então? Não tira daqui a mais pequena conclusão? Não há nada a corrigir, a sugerir, a decidir? Preconceitos a rever?

Mais adiante diz que só intervém na compra de dívida soberana quando os programas de ajustamento se revelarem um sucesso. Aqui dá outra vez na ferradura. Como não há nem haverá sucesso dentro das amarras de uma moeda sem Banco Central normal, o BCE não faz nada, como quer a Alemanha. A sua apregoada intenção de intervir não passa de um lindo discurso. Para empatar.

Enfim, se lerem no “Der Spiegel” tudo que o homem diz (embora haja que ter em conta que as perguntas visam esclarecer os receios dos alemães), ficarão com uma noção das contradições em que a UE está cada vez mais enredada. Hoje mesmo disseram, o BCE e a Alemanha, que não aceitam novo perdão de dívida à Grécia. Deduz-se que não aceitam perdão de dívida a ninguém. Mas também não se decidem a convidar os gregos, e outros, a sair da zona euro. Estamos a chegar a um ponto em que apetece mesmo mandá-los bugiar. E que levem consigo a integração europeia, a supervisão bancária (só para quando Merkel tiver ganhado as eleições de setembro, atenção!), a união económica e orçamental, o controlador de orçamentos mais o seu poder de veto. Já não há pachorra. Queremos o escudo. Deem-me a minha moeda de volta.

Agora que a impunidade finalmente acabou

A gente séria andou anos a garantir diariamente que os socialistas eram ladrões, incompetentes e doidos. Em simultâneo. Fartaram-se de pedir a criminalização dessa bandidagem. E chegaram ao ponto de terem ido entregar ao Ministério Público carradas de documentos para comprovar as colossais falcatruas.

Pois bem. Neste momento, a gente séria manda na Presidência da República, no Parlamento, no Governo, na Procuradoria-Geral, na Madeira e em dois submarinos novinhos a estrear. Por que estão a demorar tanto para apanharem Sócrates (pelo menos o Sócrates), Paulo Campos (pelo menos o Paulo Campos, há mínimos…) e todos os ex-ministros e ex-secretários de Estado que usaram os seus cartões de crédito para oferecerem jóias aos amantes, viagens aos amigos e gelados aos filhos (pelo menos tratem de expor essa pouca-vergonha, organizem-se!)?

Isto da impunidade ter acabado é muito bom e já fazia muita falta. Mas sem um ou dois socialistas no chilindró, idealmente para aí uns duzentos numa primeira fase, é como se a impunidade continuasse em vigor.

Gente séria, vamos lá a apresentar resultados, ’tá?