Refundar: uma curta, ou por outras palavras

“Como tomei a decisão de ignorar o memorando de entendimento e tomar medidas recessivas duas, três vezes para lá do acordado; como tomei a decisão de tomar medidas inconstitucionais e também recessivas não constantes do memorando; como fiz tudo isso, com o laboratório Gaspar que escolhi, tudo para chegar às metas do memorando mais rápido do que o que estava nele previsto; como jurei mil vezes que não admitia qualquer revisão/negociação/alteração/renegociação/ ou denúncia de um memorando que eu iria cumprir por excesso; como entretanto falhei em todas as previsões de 2012 à custa de desemprego, recessão, miséria, explosão fiscal; resta-me esquecer que estamos onde estamos porque falhei, donde talvez passe, em tempos de crise, falar numa nova palavra: “refundação”.
Assim, a responsabilidade deste descalabro não é minha, mas das funções do Estado, a saúde, a educação, a justiça, as prestações sociais, que por acaso já lá estavam quando eu dizia do sucesso garantido das minhas medidas, para já não falar na minha campanha eleitoral, mas isso agora não interessa nada. Como eu falhei, culpe-se o sistema e convoque-se o PS para explicar aos credores, juntinho com o Governo, que a coisa está a falhar porque temos de reformular todo o Estado social no memorando (e não por causa das minhas decisões), o que, por acaso, implicará uma revisão constitucional. Esta parte não sei se diga, porque isto de se discutir os princípios essenciais constitucionais sem ser em tempos de serenidade é coisa para doidos.”
Pedro, o PM e o pai.

2 thoughts on “Refundar: uma curta, ou por outras palavras”

  1. Concordo inteiramente com o que diz, cara Isabel.
    Como já muitos bloguistas referiram, está em curso desde 2010 um plano para destruir o nosso modelo de sociedade, sem alteração da Constituição, um golpe estado. Chegámos agora à etapa final, isto é, o povo amedrontado e de tanga (literalmente) depois de acusado de viver acima das possibilidades, vê-se confrontado com uma escolha:
    – Ou acabas com o estado social e eu baixo-te os impostos, ou continuas com o estado social e eu vou-te matando lentamente à fome!
    Se esta narrativa, ou escolha, for a votos, tenho receio do resultado.
    É que só aproximadamente 50% dos agregados paga impostos. Os outros, por estarem no limite de exclusão social não contribuem. Mas infelizmente também não costumam votar, penso eu.
    De facto, se tivessem exercido o direito de voto os beneficiários do RSI e do CSI, duas enormes conquistas sociais do PS, os pensionistas e os reformados, José Socrates nunca teria sido derrotado em 2011.
    Neste contexto, qual será a reacção dos contribuintes, bombardeados pela comunicação social aos serviço da direita, perante a opção descrita? Temo que seja, “baixem os impostos”. É um pouco o que acontece nos USA. Os socialmente excluídos não votam. Os outros, no âmbito de uma cultura suicida de individualismo e alienados pela cadeia FOX, votam nos republicanos, ou seja na direita reaccionária, e amiga do 1% da população.
    Temo que a destruição, em curso, da coesão nacional nos leve para níveis extremos de individualismo e falta de solidariedade tal como nos States. É nisto que apostam os terroristas da direita instalados no poder.
    Tempos difíceis para a esquerda, a exigirem muita reflexão e lideres inspiradores.
    Conto consigo.

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