Coitadinhos dos açorianos

É bem sabido que Carlos César gastou o que tinha e o que não tinha (mas mais do que não tinha, claro) na construção de altos muros em betão armado com que cercou o arquipélago. A intenção era só uma: impedir que chegassem aos delicados tímpanos dos ilhéus as escabrosas notícias vindas de Lisboa. Foi assim que os açorianos foram votar neste domingo, completamente a oeste da verdade continental. E agora temos de nos interrogar acerca da legitimidade desse acto eleitoral.

Como pode um cidadão votar em consciência e liberdade se ninguém ainda lhe disse que Sócrates falcatruou projectos de casas na Guarda, embora tal não tenha sido provado nas investigações feitas pelas autoridades, que Sócrates obteve a sua licenciatura através de irregularidades académicas, embora tal não tenha sido provado nas investigações feitas pelas autoridades, que Sócrates recebeu dinheiro para aprovar o Freeport, embora tal não tenha sido provado nas investigações feitas pelas autoridades, que Sócrates mandou a PT comprar a TVI para conseguir transformar os portugueses em zombies e despedir a Moura Guedes, embora tal não tenha sido provado nas investigações feitas pelas autoridades nem o Rei de Espanha o confirme nos intervalos em que não anda a despachar elefantes, que Sócrates espiou Cavaco na Madeira e em Belém, embora tal só se explique em pastelarias seleccionadas da Avenida de Roma, que Sócrates entre 2005 e 2011, ou entre 2008 e 2011, ou entre 2010 e 2011, encheu Portugal de auto-estradas, fundações, aeroportos e linhas de TGV, o que fez com que os mercados ficassem muito zangados connosco e também com os gregos e os irlandeses e os espanhóis e os italianos e ainda com os cipriotas para já, que Sócrates mentia que se fartava e que andou a engonhar meses e meses e meses, ou anos, o que nos impediu de ter o laranjal a ir além da Troika muito mais cedo e com resultados ainda mais melhores bons do que os actuais?

Coitadinhos dos açorianos. Voltaram a meter-se nas mãos de uns aldrabões, uns broncos, uns loucos como nunca se viu nem se julgava poder ver neste país com a gente séria mais séria do Mundo.

Temos, urgentemente, de apurar esta raça

Todos sabemos, porque todos os dias disso somos lembrados, que o endividamento é um dos principais problemas do País. Também sabemos que existe uma dívida pública e uma dívida privada, contraída pela banca, empresas e famílias. Portanto, de uma maneira ou de outra, somos todos responsáveis pelo endividamento do País, é o que se conclui. Mas afinal parece que não é bem assim. No último debate quinzenal fomos surpreendidos por uma revelação verdadeiramente espantosa, a de que o primeiro-ministro pertence a uma raça de homens que, não sendo os próprios “a causa do endividamento”, gostam de pagar o que devem. Ele falou no singular, mas não me parece adequado, se o primeiro-ministro fosse um caso único, não seria uma raça, mas sim uma aberração. Adiante. Como é que, ao contrário dos restantes portugueses, esta raça de homens não é responsável pelo endividamento? Somos quase tentados a pensar que é uma raça acabada de chegar de um planeta distante, o que explicaria muita coisa, mas não, temos a certeza que estes indivíduos vivem há muitos anos entre nós. Nesse caso, como é que evoluíram e se distinguiram de todos os outros? Apesar de só agora termos conhecimento da existência desta raça, há coisas que podemos deduzir. Por exemplo, é mais do que certo que esta raça de homens nunca usufruiu de serviços prestados pelo Estado. Nunca frequentaram escolas públicas, nunca puseram um pé nos transportes públicos, nunca viram um minuto de emissão da RTP, nunca recorreram ao SNS, ou melhor, provavelmente, os indivíduos desta raça nunca adoecem. Nunca, mas nunca utilizam as auto-estradas, circulam apenas por estradas secundárias e caminhos de cabras. De certeza que nunca recorreram ao crédito, nem em nome individual nem em nome de eventuais empresas por onde tenham passado, e muito menos se candidataram a quaisquer fundos ou subsídios estatais. E é óbvio que não consomem energia, nem pensar, não contribuem para a factura mais pesada das importações. Aliás, não devem consumir nenhum tipo de produtos importados. Isto é extraordinário, e o estudo desta raça, para além de poder fazer de nós um país riquíssimo, talvez traga a solução para muitos dos problemas que afectam a Humanidade. É só perguntar-lhes qual o segredo. Tem é de ser com jeitinho e com muito cuidado com as palavras, pois, aparentemente, esta raça é muito sensível e bastante medrosa.
Enfim, a Natureza não é perfeita.

Chamar o patrão, que não se importa de vir

Todos nos lembramos do quanto José Sócrates se bateu para evitar o resgate de Portugal, uma situação que considerava humilhante e com consequências devastadoras (tinha razão). Tinha-o conseguido, com o apoio dos alemães, do BCE e da Comissão, que queriam travar a onda de resgates na zona euro. Rajoy, em Espanha, está agora pressionado pela própria Alemanha, que vai fazendo umas contas, a não pedir o resgate. Seria um rombo no FEEF, que, para já, conta apenas com mais 80 000 milhões de euros do que o MEE, seu antecessor. E poderá significar um rombo ainda maior na economia europeia, da qual a Alemanha faz parte, sobretudo se se seguir a Itália.
O PSD entendeu por bem, no ano passado, mandar às urtigas meses de laboriosas negociações e um saneamento mais racional e gradual das contas públicas, que procurava não destruir a economia; reeleito Cavaco, mandou o Governo abaixo e chamou entusiasticamente a Troika. Estão agora os portugueses todos a pagar por isso. Não é que não o mereçam: votaram nestas abéculas. Mas protestam. Mesmo os que irresponsavelmente diziam que isto só lá ia com a “ajuda” externa. Sem a mínima ideia do que andam a fazer, Passos e Gaspar berram agora (Gaspar em inglês) que o objetivo é verem-se livres o mais depressa possível daqueles que eles próprios tão prontamente chamaram. Sem vergonha. Na prática, a vinda da Troika serviu para venderem a REN e a EDP, premiarem uns amigos, flexibilizarem os despedimentos, acabarem com uns feriados e, pelo caminho, porem o país a pão e água e mais endividado do que antes.

Depois da visita a Atenas, Angela Merkel vem a Lisboa. E a pergunta é… o que vem cá fazer na era das tecnologias da comunicação? Será que nunca viu ao vivo Passos Coelho, o seu vassalo do sul? Não. Já viu, já cheirou, já osculou, já deu até cubo de açúcar.

A ida de Merkel a Atenas esta semana teve como justificação oficial o desejo de conhecer melhor a situação in loco. Ora, se tivermos em conta que a forma como o fez consistiu em sair do avião, cumprimentar o anfitrião, ser escoltada até à sede do Governo, certificar-se de que não havia qualquer elemento do povo num raio de 3 km da sua pessoa que lhe pudesse dizer como se sente, conversar e beber um Ouzo (ou vários) com o Samaras, regressar escoltada ao aeroporto e deixar o país menos de 6 horas depois de ter aterrado, a informação obtida não terá sido muito diferente, nem mais fidedigna, do que a que obteria se falasse com o Samaras e o Dimitris Avramopoulos por videochamada. Dizem os informados que a ideia foi (ajudar Samaras a) mostrar aos gregos que não estão sozinhos, que há pelo menos uma alemã rica que os quer na Europa e se preocupa com eles (no sentido de ir ver se ainda lá estão, se ainda lá vive alguém), num momento em que não está fácil o entendimento no Governo quanto aos novos cortes no valor de 11 000 M€.

A vinda a Portugal, prevista para Novembro e combinada com inédito secretismo, servirá para o mesmo e acontece em pleno boom manifestivo. A estratégia de chamar o verdadeiro patrão para acalmar os ânimos da populaça com o brilho do dinheiro e o falso brilho da solidartiedade é bastante repulsiva para quem observa daqui desta janela, pacífica e soalheira. Por muito que compreendamos a Alemanha, a sua democracia interna, a sua inocência no que toca ao lugar geográfico que Odin lhe destinou, a sua disciplina e controlo, os seus alegados receios ditados pela História, sabemos que muitos alemães têm tendência a confundir os seus interesses com os de toda a gente à sua volta e a levarem o controlo longe demais, rapidamente se transformando em gente arrogante. Angela Merkel não tem um aspeto antipático, mas por motivos próprios e de política interna convenceu o eleitorado de que o que o seu país andou a ganhar durante anos com a capitalização dos países do sul e os negócios com eles afinal foi apenas o espírito esbanjador e despreocupado das cigarras, que agora têm de pagar (outra vez) pelos seus pecados. Pagar, note-se, pelo que lhes andaram a comprar ou a dar a ganhar. E assim chegámos ao diktat, eventualmente ao arrepio do que a Alemanha pretendia inicialmente. O absurdo está em que idiotas do sul como Passos e sua trupe assumam um discurso falso e autoflagelador. Com ou sem procuração. Entalados por tanta asneira junta desde há ano e meio, chamam agora o patrão que, se soubesse verdadeiramente o que se passa, despedia o capataz por completa incompetência. É que não tarda corrido.

Não foi pela sua estupidez que os atenienses ficaram na História

A história do populismo em Portugal está ligada ao PCP e à extrema-esquerda em geral, na forma da sua recusa em serem parte de um regime democrático e pela sua constante intoxicação demagógica, ao Paulinho das feiras, da lavoura e do contribuinte, ao PSD desde Menezes até Passos e, em especial, a Cavaco Silva. Talvez o discurso mais populista alguma vez feito cá no burgo, desde Abril de 74, tenha sido o da tomada de posse do Presidente da República Portuguesa em 9 de Março de 2011. Para além de ter funcionado como a “Grândola Vila Morena” para o derrube do Governo e a capitulação do País à lógica da austeridade destrutiva, nele encontramos um repúdio verrinoso dos políticos por atacado e um apelo às manifestações populares de rua como veículos de condicionamento e alteração do poder eleito. Sabemos que o alvo estava no Governo PS, mas para Cavaco o prazer era duplo pois igualmente lhe permitia despejar todo o desdém que sente pelos que o rodeiam na vida política. Cavaco conhece de ginjeira as fortunas que o seu exercício governativo permitiu gerar, e como elas se geraram. Cavaco não teria qualquer dificuldade em explicar como foi possível acontecer o BPN. Mas Cavaco é igualmente um beneficiário directo e indirecto desse modo de usurpação de riqueza. A saída psicológica para o dilema é a neurose: detesta o vício e os viciados, mas não pode nem quer largar a droga.

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How low can you all go?

“Eu pertenço a uma raça de homens que gosta, mesmo quando não é o próprio a causa do endividamento, de honrar os compromissos do país, de pagar aquilo que deve – mesmo que por essa razão tenha de solicitar aos portugueses um sacrifício ainda maior”, disse, usando um tom de voz elevado e recebendo uma prolongada salva de palmas das bancadas do PSD e do CDS.

Passos, uma raça de homem

Cuidado com as palavras, disse hoje Passos. Vamos a isso. Com as suas.

2013 não vai ser um ano de recessão

Vai. Brutal.

A austeridade deste ano de 2012 tem um fim. O défice a que nos propusemos

Não teve. A austeridade dobrou porque o Governo falhou.

A TSU vai aumentar a competitividade e reduzir os custos do trabalho

Mentira. Os tais custos eram de quanto? Esqueceram-se e temos uma austeridade de 9, 5 que nada tem a ver, antes inverte a lógica da TSU.

Vamos combater o desemprego

Então por que atacam os recibos verdes?

Nós protegemos os mais fracos

Então por que é que o subsídio de desemprego passa a pagar imposto (6%)? E por que é que os subsídios de doença passam a ter contribuição para a segurança social? Mentira, vergonha, gente (a)social.

Queremos que seja bom viver em Portugal

Nem morrer nem viver após a morte dos seus. Os subsídios por morte baixam.

A habitação é uma prioridade

Então por que rebentam com as deduções das rendas no IRS? E que dizer do aumento louco do IMI?

Os pensionistas vão ser protegidos

Os pensionistas foram ainda mais penalizados do que os demais

Vamos respeitar o Tribunal Constitucional

Então por que não devolvem o que pertence às pessoas? Subsídios são remuneração e reformas e pensões são dinheiro dos seus titulares.

Vamos então circular, malta, procurar emprego, não fosse tão difícil pagar um transporte público. O que está a dar é ser milionário, violar a lei, espetar com o dinheiro num paraíso fiscal e pô-lo cá outra vez com uma amnistia.

Cuidado com as palavras? Quem?

Escravatura ou do novo “Rendimento Social de Inserção”

Quando já dissemos “não escapará ninguém”, temos de ir ainda mais fundo na amoralidade deste Governo.
Foi publicado hoje o sonho levado ao extremo dos inimigos públicos do rendimento social de inserção (RSI).
Todos nos lembramos do dia em que o CDS fez aprovar uma alteração ao então RMG: tratava-se de o eliminar de imediato, sem medida de substituição, para os malandros entre os 18 e os 25 anos. Paulo Portas falava, a propósito desta política social, de um “incentivo à preguiça”.
Nessa data, o PR requereu a fiscalização preventiva da brutalidade, e o TC fez história ao pronunciar-se pela inconstitucionalidade das normas em questão, invocando, nomeadamente, o princípio da dignidade da pessoa humana (Ac 509/202).
E hoje?
Hoje foi publicado o Decreto-Lei nº 221/2012, de 12 de Outubro, o qual pune, com trabalho forçado, os benificiários do RSI.
Isso mesmo: trabalho escravo devidamente regulado para aqueles e para os membros do respetivo agregado familiar. Numa palavra bonita, a escravatura chama-se “atividade socialmente útil”.
Os “trabalhadores” têm “horas” de trabalho, “semana de trabalho”, “deveres”, “carta de compromisso com a entidade promotora”, “consequências da violação dos deveres”, enfim, tudo e as “demais condições” previstas na tal da “carta”.
Só falta, naturalmente, o salário.
É como se em vez de um contrato de trabalho ou uma prestação de serviços tivéssemos uma carta sofisticada de punição a trabalho escravo.
Numa palavra, trata-se de obrigar estes cidadãos a prestarem, até 15 horas semanais, atividade profissional subordinada não remunerada a entidades que incluem serviços e organismos da administração pública.

Dá jeito, não dá?

Então não se anunciou um despedimento brutal de funcionários públicos?

Perante este horror, é urgente fazer uma pergunta: havendo o precedente do Acórdão 509/202, como é possível Cavaco, perante uma alteração destas, não ter requerido a fiscalização preventiva?
Podem dizer-me que é Cavaco, já sabemos. Mas aqui há jurisprudência assente sobre o RSI a propósito de muito menos do que isto: “dignidade da pessoa humana”; “mínimo de existência condigna”; “direito ao trabalho”; é ler.
Mas não leu.
Mas não quis.
Estamos cá nós, Senhor Presidente; nós damos conta quando o Governo retrocede uns séculos.

(No P3)

Um país de ficção

Imaginemos um país onde aqueles para quem a recessão global começada em 2008 foi um abalozinho se juntavam àqueles para quem os mercados só estavam à espera que um certo primeiro-ministro fosse afastado para acabarem em seis meses com a crise do financiamento externo. E que iam todos juntos para o Governo aplicar um programa de empréstimo destrutivo que tinham desejado, apoiado, influenciado, assinado e transformado.

Qual podia ser o único desfecho desta experiência que, felizmente, só é concebível na literatura de fantástico terror?

BCP, da glória à Paula

Magalhães e Silva, advogado de defesa de Jardim Gonçalves, diz que este julgamento serve apenas para justificar o assalto levado a cabo pelo governo do PS ao BCP: “A transferência dos administradores do banco do Estado, a Caixa Geral de Depósitos, para o BCP significou a autoria, em última instância, desse assalto.”

Segundo o advogado a nomeação de Carlos Santos Ferreira e de Armando Vara para a administração do banco é prova do envolvimento socialista. “Falei em comissários políticos e disse expressamente Carlos Santos Ferreira e Armando Vara, nomeados pelo accionista Estado e o Governo, que era efectivamente o Partido Socialista. Em última instância, não há a menor dúvida de que a responsabilidade por esse assalto é do Governo do tempo”.

Fonte

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A Ministra da Justiça comprou milhares de acções do BCP a mais de dois euros por título. Hoje valem menos 90%.

Talvez por influencia do ex-marido, ex-presidente do BCP, ou por iniciativa própria, mas o grosso dos seus investimentos são em acções, com um peso substancial dos títulos deste banco. Na conta que detém no BCP, 61.7% do investimento é em acções do banco, em dois lotes distintos, um comprado a 2.42 euros por acção e outro por 2.33. O total investido atinge os 376 mil euros quando ontem, as mesmas acções foram transaccionadas a 0.26 euros – uma desvalorização de quase 90%.

Fonte

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Jardim Gonçalves foi uma lenda viva da direita portuguesa, um dos homens mais poderosos da nossa oligarquia. Representava a excelência suprema para uma sociedade culturalmente rural, politicamente inculta e civicamente reprimida: o poder financeiro embrulhado na santidade católica. O BCP era o Vaticano da banca nacional, com o mesmo secretismo e a mesma misoginia ao serviço de um papa engenheiro. Quando em 2005 anuncia uma pseudo-retirada, surpreendeu pela escolha do sucessor: o jovem Paulo Teixeira Pinto, 44 anos então. Parecia um aggiornamento feliz, a renovação que realiza na essência a tradição, e dizia-se que o BCP tinha encontrado um presidente para mais 20 anos.

De imediato, o novel manda-chuva começou a meter água. Primeiro, perdeu a privatização de um banco romeno, em Dezembro de 2005. Três meses depois, mergulha de cabeça no abismo para onde arrastou o banco: a OPA sobre o BPI. Esse negócio falhou e destruiu a relação entre Jardim Gonçalves e Teixeira Pinto. Entraram numa guerra civil que arrasou com a credibilidade dos envolvidos e desembocou na denúncia de crimes agora em julgamento. O banco foi alvo de uma operação de salvamento que envolveu os principais accionistas. Nesse contexto, a ida de Santos Ferreira para o BCP foi a solução que melhor salvaguardou os interesses daqueles que pretendiam restituir credibilidade à instituição face às opções disponíveis. A complexidade deste processo ilustra-se com um singelo aspecto anedótico: Filipe Pinhal, um braço-direito de Jardim Gonçalves, apoiou a ida de Santos Ferreira para o BCP.

A tese de que o Governo Sócrates tinha conseguido captar o BCP ficou larvar e entredentes, mas foi ganhando sonoridade nos escritos e ditos da guarda pretoriana da oligarquia, furibunda por ver o seu mais excelso símbolo ocupado pelos nojentos socialistas. Ainda por cima, um deles era amigo íntimo de Sócrates. Exigia-se uma vingança que apanhasse os dois e lhes desse o castigo merecido: tribunal, cadeia, ostracismo, vergonha, morte política e social.

Uma das mais activas figuras públicas na campanha pela criminalização de socialistas foi precisamente Paula Teixeira da Cruz. Antes das eleições de 2011, os seus comentários públicos invariavelmente sugeriam que algo do foro criminal deveria ficar associado a Sócrates e seus próximos. O ódio que transmitia era autêntico, visceral, ilimitado. Aquela pessoa não tinha a mínima dúvida acerca da culpa das outras pessoas e da pena a aplicar. Só lhe faltava a oportunidade para fazer justiça pelas suas próprias mãos.

A ser verdade que a Paula partilha da mesma opinião do Gonçalves, então quem a levou para o cargo de Ministra da Justiça, e quem permite que lá permaneça depois do que ela já fez e disse, é responsável pela entrega de um enorme poder a alguém sem condições mentais e morais para o exercício do cargo.

A Al-Qaeda nos aeródromos (desativados) da Beira interior

Devemos rir ou mandar estes vigaristas que agora dirigem o Governo para a Justiça? Ou as duas coisas?

Passada a incredulidade, é impossível não largar uma sonora gargalhada, à mistura com muita revolta, ao lermos a reportagem publicada hoje no Público, da autoria de José António Cerejo. Segundo apurou o jornalista, e tão detalhadamente que não deixa margem para dúvidas, a Tecnoforma, empresa de que Passos Coelho era consultor e depois gestor em 2003/2004 e possivelmente até 2007, concorreu (candidatura no valor de 1,2 milhões de euros) a fundos do programa Foral para formação, gerido por Miguel Relvas enquanto Secretário de Estado da Administração Local do Governo de Durão Barroso, inventando a necessidade de dotar os aeródromos e heliportos municipais do país de técnicos altamente qualificados capazes de responder com competência e prontidão a ataques terroristas. A maior parte dessas infraestruturas estava desativada ou não tinha a mínima necessidade de mais pessoal (os alegados formandos seriam à volta de 400, para uma média de pessoal de 4 pessoas!). No fim, ninguém obteve qualquer certificado, se é que houve aulas. Mas foram recebidos trezentos e muitos mil euros. Não esquecer que tudo isso acresce ao ridículo da justificação e da urgência invocadas.
Todos os envolvidos neste esquema eram gente do PSD. Não vou reproduzir aqui a reportagem, nem tenho link. É hilariante e imperdível. Recomendo a todos a sua leitura, nem que tenham que pagar um euro. Os sinais de fraude são mais do que evidentes. O contraste entre as práticas destes dois senhores e o que agora gostam de apregoar quanto à relação das empresas com o Estado é de bradar aos céus e deixa os seus já ínfimos créditos na lama.
Aguardo curiosa pelas consequências. E, para já, fico à espera que o José Gomes Ferreira, entrevistador, aplique a sua sanha de inquisidor-mor a um dos membros desta dupla, ou aos dois. Verá que reabilitará a sua imagem e sairá de lá menos enxovalhado do que com o Paulo Campos, prestando simultaneamente um serviço bem mais valioso ao país.

Gasparismo ultrapassa gonçalvismo

A Isabel já aqui deixou a ligação para o artigo do Eduardo Cabrita, mas vale a pena renovar o convite à sua leitura pois, entre outros méritos, temos ali aquela que talvez seja a melhor síntese até agora do desgoverno que os portugueses elegeram para se verem livres dos Magalhães, aeroportos e TGV que lhes andavam a infernizar a vida:

Perdido o Norte, vamos já na segunda falsa partida orçamental, primeiro a TSU e depois o tsunami fiscal, com a amarga ironia de um Governo de obsessão liberal a bater os recordes de ritmo de crescimento da dívida pública (finalmente acima da Itália..), de impostos (com taxas marginais nórdicas…) e de destruição de empresas superior à do gonçalvismo.

A PIDE não faria melhor

Até ontem julgo que nunca tinha visto um interrogatório tão pidesco como o que José Gomes Ferreira fez a Paulo Campos. Para aquele interrogadorzeco não há cá presunções de inocência, Paulo Campos e, já agora, todos os que se relacionaram com Sócrates, são culpados de todos os males que nos afectam agora e afectarão nos próximos milhares de anos. O interrogadorzeco tem provas de tudo, está munido de relatórios e pareceres que anulam todos os outros que os acusados possam usar para se defenderem. E se se mostrarem, enfim, ineficazes para os seus propósitos acusatórios, o interrogadorzeco, tem um plano B, que passa por perder todo o respeito por si próprio, e por quem o ouve, e desatar a bombardear o interrogado com perguntas/acusações acerca dos seus rendimentos, das suas amizades e dos seus medos. Medo, por exemplo, de que com a nova Procuradora-Geral, em quem ele, pelos vistos, deposita muita esperança, as investigações possam ter outro desfecho. Este espectáculo deplorável revela muito mais acerca do interrogadorzeco do que do interrogado que, obviamente, mesmo que fosse culpado jamais o assumiria em directo num programa de televisão. Mas tem uma justificação, o exagero do interrogatório, que o próprio reconheceu, deve-se a uma enorme preocupação. O interrogadorzeco está preocupadíssimo com o que estamos a deixar para os nossos filhos e netos. E eu também. Preocupa-me que, em vez de jornalistas, os nossos filhos e netos tenham de levar com estes ranhosos.

A Declaração Final do Congresso das Alternativas

Uma versão preliminar do futuro programa do Bloco, ou partido substituto, e linhas a mais para tão fraca proposta é o que vejo na Declaração. Tratava-se de aproveitar a crise e a desastrosa incompetência do Governo (que ajudaram a eleger) para fazer publicidade à causa e conquistar adeptos. Duvido que o tenham conseguido.
Dividida em vários pontos, apenas o dos «objetivos da alternativa», o ponto 2, interessa verdadeiramente nesta declaração para perceber o que querem, no imediato, os seus subscritores e como pensam concretizá-lo. O resto é conversa que qualquer pessoa de bom senso, da esquerda à direita, proclamaria sobre o descalabro das medidas do governo, as consequências da austeridade (embora se saiba que a grande maioria dos promotores confunde propositadamente o tipo de austeridade gaspariana de inspiração alemã com a necessária contenção de despesas do Estado e sua racionalização) e o desejo de um país melhor, nomeadamente através da dignificação do trabalho, da dinamização da economia, da subida dos salários, da redução das desigualdades, do aumento da transparência, da valorização dos nossos recursos e do interior, do reforço da voz de Portugal no mundo, etc., etc. Mas voltando ao ponto 2, que incomprensivelmente aparece antes como alínea a) do ponto 1.5, e depois volta ainda a aparecer com outro número (7.3), enfim, amadorismo, nele se enuncia o objetivo central de «Retirar a economia e a sociedade do sufoco da austeridade e da dívida: denunciar o Memorando».

Se bem entendi, o percurso desta alternativa para o «fim do sufoco» consiste nos seguintes passos, o primeiro dos quais, a meu ver, de difícil execução:

1. Eleições para que o povo legitime democraticamente os defensores destas propostas.
2. Uma vez eleitos, denúncia do Memorando.
3. Proposta à Troika de renegociação da dívida pública e da dívida bancária.
4. Como há a noção de que a reestruturação da dívida apenas seria possível «num quadro europeu mais favorável do que o atual» (cito a Declaração), a etapa seguinte seria, pois, «preparar-se para uma resposta da Troika que passa pela suspensão do financiamento acordado até 2013» (fim de citação). Mas não desmoralizar.
5. Nessas circunstâncias, «atitude negocial determinada exigiria que a resposta ao
corte do financiamento fosse a declaração de uma moratória ao serviço da dívida
», única maneira de provermos às necessidades financeiras. Não pagamos os juros, portanto, e isso chegar-nos-ia.
6. Em caso de expulsão do euro, não ficar paralisado. Buscar alianças com outros países em dificuldades e, a partir daí… não sabemos. Por isso estamos a debater. Mas dizem eles desde já ao povo que as coisas não vão ser fáceis. («Não há que ficar paralisado pelo medo. Mas não há também que eludir os perigos e a dificuldade da escolha.»)

Não tendo eu ilusões de que este congresso seria inútil para unificar visões do mundo, da Europa, da sociedade, da economia, do trabalho e da política incompatíveis, reconheço mesmo assim que, de vez em quando, importa ir ver como evoluíram as utopias. A conclusão é de que não há nada de novo a assinalar. O PCP continua a considerar-se uma elite histórica que não admite compromissos – na falta de poder eleito, dirigem a rua – e praticamente alheou-se. O Bloco toma estas iniciativas aparentemente conciliatórias com o objetivo exclusivo de abrir fissuras no PS e alargar a sua base de apoio, mas tem dificudades em esconder o radicalismo e os devaneios de um partido de protesto, que sempre foi, e por essa mesma razão desconhecedor de todas as variáveis da complexa equação da Europa, nomeadamente a política e a diplomática.
A saída do euro, desfecho fatídico admitido na própria declaração, é uma questão demasiado séria e plausível para ser posta em marcha com esta proclamação radical, populista e muito desajeitada de uma denúncia do Memorando e «depois logo se vê». Em suma, o Bloco que lute pela vida depois das asneiras cometidas. E que organize um pós-Congresso e um pós-pós-Congresso e continue a debater tudo, desde a «política de direita de Sócrates» até ao “sucesso” do SYRIZA na Grécia. O disparatado governo que temos e o atual líder do PS facilitam-lhe a vida. Mas é tudo.