Todos nos lembramos do quanto José Sócrates se bateu para evitar o resgate de Portugal, uma situação que considerava humilhante e com consequências devastadoras (tinha razão). Tinha-o conseguido, com o apoio dos alemães, do BCE e da Comissão, que queriam travar a onda de resgates na zona euro. Rajoy, em Espanha, está agora pressionado pela própria Alemanha, que vai fazendo umas contas, a não pedir o resgate. Seria um rombo no FEEF, que, para já, conta apenas com mais 80 000 milhões de euros do que o MEE, seu antecessor. E poderá significar um rombo ainda maior na economia europeia, da qual a Alemanha faz parte, sobretudo se se seguir a Itália.
O PSD entendeu por bem, no ano passado, mandar às urtigas meses de laboriosas negociações e um saneamento mais racional e gradual das contas públicas, que procurava não destruir a economia; reeleito Cavaco, mandou o Governo abaixo e chamou entusiasticamente a Troika. Estão agora os portugueses todos a pagar por isso. Não é que não o mereçam: votaram nestas abéculas. Mas protestam. Mesmo os que irresponsavelmente diziam que isto só lá ia com a “ajuda” externa. Sem a mínima ideia do que andam a fazer, Passos e Gaspar berram agora (Gaspar em inglês) que o objetivo é verem-se livres o mais depressa possível daqueles que eles próprios tão prontamente chamaram. Sem vergonha. Na prática, a vinda da Troika serviu para venderem a REN e a EDP, premiarem uns amigos, flexibilizarem os despedimentos, acabarem com uns feriados e, pelo caminho, porem o país a pão e água e mais endividado do que antes.
Depois da visita a Atenas, Angela Merkel vem a Lisboa. E a pergunta é… o que vem cá fazer na era das tecnologias da comunicação? Será que nunca viu ao vivo Passos Coelho, o seu vassalo do sul? Não. Já viu, já cheirou, já osculou, já deu até cubo de açúcar.
A ida de Merkel a Atenas esta semana teve como justificação oficial o desejo de conhecer melhor a situação in loco. Ora, se tivermos em conta que a forma como o fez consistiu em sair do avião, cumprimentar o anfitrião, ser escoltada até à sede do Governo, certificar-se de que não havia qualquer elemento do povo num raio de 3 km da sua pessoa que lhe pudesse dizer como se sente, conversar e beber um Ouzo (ou vários) com o Samaras, regressar escoltada ao aeroporto e deixar o país menos de 6 horas depois de ter aterrado, a informação obtida não terá sido muito diferente, nem mais fidedigna, do que a que obteria se falasse com o Samaras e o Dimitris Avramopoulos por videochamada. Dizem os informados que a ideia foi (ajudar Samaras a) mostrar aos gregos que não estão sozinhos, que há pelo menos uma alemã rica que os quer na Europa e se preocupa com eles (no sentido de ir ver se ainda lá estão, se ainda lá vive alguém), num momento em que não está fácil o entendimento no Governo quanto aos novos cortes no valor de 11 000 M€.
A vinda a Portugal, prevista para Novembro e combinada com inédito secretismo, servirá para o mesmo e acontece em pleno boom manifestivo. A estratégia de chamar o verdadeiro patrão para acalmar os ânimos da populaça com o brilho do dinheiro e o falso brilho da solidartiedade é bastante repulsiva para quem observa daqui desta janela, pacífica e soalheira. Por muito que compreendamos a Alemanha, a sua democracia interna, a sua inocência no que toca ao lugar geográfico que Odin lhe destinou, a sua disciplina e controlo, os seus alegados receios ditados pela História, sabemos que muitos alemães têm tendência a confundir os seus interesses com os de toda a gente à sua volta e a levarem o controlo longe demais, rapidamente se transformando em gente arrogante. Angela Merkel não tem um aspeto antipático, mas por motivos próprios e de política interna convenceu o eleitorado de que o que o seu país andou a ganhar durante anos com a capitalização dos países do sul e os negócios com eles afinal foi apenas o espírito esbanjador e despreocupado das cigarras, que agora têm de pagar (outra vez) pelos seus pecados. Pagar, note-se, pelo que lhes andaram a comprar ou a dar a ganhar. E assim chegámos ao diktat, eventualmente ao arrepio do que a Alemanha pretendia inicialmente. O absurdo está em que idiotas do sul como Passos e sua trupe assumam um discurso falso e autoflagelador. Com ou sem procuração. Entalados por tanta asneira junta desde há ano e meio, chamam agora o patrão que, se soubesse verdadeiramente o que se passa, despedia o capataz por completa incompetência. É que não tarda corrido.