Os preços dos registos foram, sem explicação, aumentados. Os preços, portanto, o exercício de direitos fundamentais dos cidadãos, de actos das nossas vidas: estou a falar do divórcio, de comprar uma casa, de constituir uma empresa, de a extinguir, isto num banco público.
Diz a MJ que estes aumentos absurdos (o divório, por exemplo, aumenta 100 euros) serve para “aumentar a competitividade e promover o crescimento económico”.
Mas de quem?
Disse-me a MJ em resposta a uma pergunta “que era necessário atualizar os preços”. Ponto.
Era?
Mas por quê?
Não o foram recentemente?
A MJ é, isso sim, corporativista e perigosa. Neste caso, à conta de todos nós, dos nossos bolsos, privilegia uma classe, a dos notários privados, como é tão evidente que dói.
Agora, com os preços públicos devidamente aumentados, poderá aquela classe aumentar os seus, concorrendo bastante mais acima.
Eis a concorrência. É esta e não outra. Uma concorrência oferecida como um serviço a uma classe. À nossa custa.
Mas não se esqueçam. Ai de quem tentar parar a MJ. Ela sabe o que quer e para onde vai e como usa dizer “não me vão conseguir parar”.
Arquivo mensal: Outubro 2012
Perguntas simples a uma Ministra da Justiça difícil de acompanhar
Se vão ser extintos 49 tribunais, mas nenhum funcionário judicial ou magistrado, segundo as palavras da MJ, vai ser despedido, qual é o efeito no “corte da despesa” da “corajosa” medida?
(Tem de se dizer sempre “corajosa” quando falamos da MJ, porque em todas as audições em Comissão, a titular da pasta entende que estar em desacordo com as suas propostas é ter algo a temer (tese no enriquecimento ilícito) ou falta de coragem. Nunca é diferença de opinião)
O governo vai acabar com essa coisa dos pobres
Este governo teve várias ideias geniais para acabar com o regabofe do Rendimento Social de Inserção, que permitia vestir Prada e comer lagosta a gente que não tem rendimentos porque não quer trabalhar. Porque essa coisa dos pobres é uma treta, eles não querem é trabalhar! Perguntem ao homem da lambreta.
Dados: a imensa maioria das famílias (54.034) recebe uma prestação entre 100 e 200 euros mensais, ou seja, 20 a 30 % do salário mínimo nacional, havendo até 5.715 famílias que recebe menos de 25 euros, que é cerca de 5% do salário mínimo. Mas há 400 famílias que têm direito a mais de 600 euros por mês de RSI. (São de certeza traficantes de droga que vão diariamente de Mercedes SLK coupé ao casino do Santana Lopes estafar a massa.)
Agora, graças ao homem da lambreta, quem tenha mais de 25.000 euros no banco não pode pedir RSI. Pimba! Quem tenha carros, barcos ou motociclos de valor superior aos mesmos 25.000, idem. Toma! (Esqueceram-se das trotinetes Ferrari e dos cavalinhos de balancé de raça, mas pimba e toma à mesma!)
Pronto, lá vai ficar o Audi dos falsos pobres a enferrujar na garagem da vivenda de verão. Imagino que muitos milhares destes falsários tinham pelo menos 50.000 € ou mais a render, além do seu Lamborghini, do seu iate e da sua moto BMW. Está na cara! Contaram esses tais malandros? Sorry, não há estatísticas. Há é muita demagogia bacoca e muita manipulação por parte de um governo de pulhas e por parte de muitos queridos compatriotas que se servem dos argumentos mais reles e baixos para justificarem a sua fuga maciça ao fisco.
A outra medida brilhante do governo é a de obrigar por contrato os beneficiários do RSI a fazer “trabalho útil para a comunidade”. O governo, que se informou junto de uma tia velha, militante n.º 324 da União Nacional e n.º 234 do PPD/PSD, parte do princípio de que eles não encontram trabalho porque não querem. E que é imoral dar-lhes dinheiro “para não trabalharem”.
Sérgio Aires, presidente da Rede Europeia Antipobreza (deve ser um tacho chorudo como o do Catroga) disse hoje no Público que a conversa do governo é bullshit. E é. O problema é que a esmagadora maioria dos beneficiários do RSI não têm rendimento porque não encontram “trabalho útil”, nem para eles nem “para a comunidade”. Qual a receita do governo, então? Talvez obrigá-los a trabalhar em merdas inúteis e humilhantes, inventadas por um idiota inútil qualquer, para os desencorajar de pedirem RSI? Talvez fazer deles fura-greves dos varredores de ruas? Talvez pô-los a concorrer com as ocupações de voluntariado gratuito que já existem? Ou, lá no fundo, enviá-los para as indústrias de lazer mais conhecidas e para os ramos ilegais do comércio farmacêutico?
Santos Pereira e a nova inventona do Governo
Hoje, na AR, Santos Pereira esqueceu-se que existiu um OE de 2012 e que vem aí um OE de 2013 avassalador pelo que, em desespero, voltou ao período eleitoral que levou à vitória da direita e fez propaganda histérica e mentirosa acerca de uma tal “festa que durou seis anos”.
É o desespero.
Só falando, e mal, de parcerias público-privadas, apenas as do PS, claro, reúne as palmas febris das duas bancadas, unidas no barulho, mas com um ódio a cair de podre que as separa, como separado está ao Governo.
Hoje, na AR, falou o melhor do Governo, isto é, aqueles cuja remodelação foi pedida há mais tempo: Santos Pereira no início e Relvas no final.
É isto, numa interpelação ao Governo sobre renegociação da dívida, Passos oferece à casa da democracia, para discussão do tema “irrelevante”, Ministros irrelevantes e incompetentes, sobretudo na matéria.
Pensando bem…faz sentido.
Então ia o Governo falar do falhanço monumental do OE de 2012 e discutir com roupa própria todos os aspetos gritantes da proposta de OE para 2013 que foram evidenciados pela oposição?
Não.
Até à regimental e inescapável discussão do OE, se esse tema vier a lume, e deverá vir todos os dias, o Governo já traçou a estratégia análoga à de uma norma penal permissiva do silêncio seguida de um apagão temporal: o tempo decorrido desde que tomou posse e o falhanço de toda a sua estratégia nunca existiu; assim, também não existe proposta de OE de 2013; por isso, o tempo em que vivemos é o do momento de intriga, mentira e cumplicidades várias que levaram à queda do último Governo.
O problema é que até ajuda esta ficção temporal, porque as pessoas não são estúpidas e a omissão e o regresso ao golpe só sublinham a matéria desta gente.
Para quem ainda tinha dúvidas acerca da psicopatia política de V. Gaspar
Toda a gente já percebeu que a proposta de OE para 2013 é fruto da insistência obstinada na receita – agora a dobrar – que falhou em todos os objetivos no OE para 2012.
Toda a gente.
Já se disse quase tudo.
É impressionante, por isso mesmo, perceber que a destruição de um país seja vista como um meio para uma ressurreição, talvez evangélica, porque não há “médio” ou “longo” prazo real, isto é, no país real em que toda a gente vive, no qual, por efeito do “sistema”, o morto desate a viver à grande.
Mas Vítor Gaspar, a verdadeira única alternativa de Passos, sofre de obstinação e de psicopatia política. Como dizia, ontem, Miguel Sousa Tavares, dele já só resta dizer que é como o homem da anedota, que vai na autoestrada e ouvindo na rádio que nessa autoestrada circula um carro em sentido contrário, afirma perplexo: – que disparate, vão todos!
Toda a gente percebeu o erro da proposta do OE para 2013, toda a gente sabe que é inexequível, toda a gente explicou tudo, gente de todos os quadrantes políticos, mas Gaspar acelera em sentido contrário, sem qualquer réstia de carácter empático.
Para quem ainda tivesse dúvidas da psicopatia política do homem que afirmou não haver alternativa a esta proposta, todas as dúvidas caíram por terra no mais recente e extraordinário episódio do personagem.
Perante uma confissão de culpa, ou de erro em alguns pressupostos, por parte dos nossos credores, como foi o caso do FMI, que faz Gaspar?
Aproveita a oportunidade para os confrontar com isso mesmo e tentar negociar condições mais favoráveis?
Não.
Toma a atitude do FMI como uma afronta.
Como é possível?
É. É Vítor Gaspar.
Piores do que condutores bêbados
Estamos muito mais descansados. Primeiro foi Portas que nos veio tranquilizar através de um comunicado onde garante que o CDS votará favoravelmente o Orçamento, pois não quer provocar uma crise política. Esquece que só a simples existência do comunicado já é a prova provada de que existe uma grave crise no Governo. Se não é uma crise política, não sei o que será. De seguida, aparece Passos Coelho a garantir que ‘o Governo não está para cair’. Esquece que o facto de ter de dizê-lo é a prova provada de que o Governo está por um fio. E, pior ainda, o primeiro-ministro diz uma frase destas no estrangeiro e a caminho de um Conselho Europeu. Ou seja, mesmo aqueles dirigentes europeus mais distraídos que ainda não tivessem conhecimento da grave crise política que se instalou no Governo português, com aquela frase ficaram esclarecidos. E é desta forma, ainda mais fragilizado, que Passos se vai apresentar neste Conselho Europeu para defender os interesses do País.
Depois queixam-se de que o caminho é estreito. Os condutores bêbados também se queixam do mesmo. Até em estradas larguíssimas lhes falta margem de manobra.
Cavaco, Cavaco e Cavaco
Cavaco passou o mês de Fevereiro de 2011 a ouvir as personalidades mais relevantes para a política nacional e a preparar a sua intervenção na tomada de posse. Sabia que o Governo estava a negociar uma solução com a Alemanha e com os parceiros europeus que até tinha gerado um título na imprensa que deixou a direita partidária a espumar-se de raiva: “FMI já não vem”. Por estas exactas razões, quando decidiu atacar o Governo explorando o tema dos “sacrifícios” e apelando à revolta popular estava a antecipar-se ao anúncio iminente, por dias, do PEC IV.
Cavaco e Passos poderiam ter atendido à racionalidade óbvia daquele momento, onde o interesse nacional obrigava a aprovar o plano acordado com a Europa para tentar escapar ao resgate. Poderiam ter esperado pelo Orçamento de 2012 para derrubarem os socialistas, mas aí num contexto onde continuaria a ser viável manter a soberania. Ou poderiam ter esperado ainda mais, que o Governo provasse ter a capacidade de encontrar e concretizar as melhores soluções numa conjuntura de emergência pátria e caos político europeu. Não o fizeram por uma única razão: temiam que Sócrates vencesse o Adamastor da crise. Nos seus cálculos rapaces, ver o Governo a chegar à elaboração do Orçamento para 2012 sem quebrar e com o apoio da Europa, quiçá da China e do Brasil, tornaria cada vez mais difícil a golpada para interromper a legislatura.
Ter agora Portugal nas mãos de um desqualificado irrecuperável como é Passos, cujo braço-direito é esse farrapo de seu nome Miguel Relvas, e ambos a servirem de lacaios para um economista fanático e com asco aos políticos e à política, tem uma história, uma lógica e uma moral. Estas: Cavaco, Cavaco e Cavaco.
Trouble in Expresso

Parece ter sido há 25 anos que abria o Expresso para ler com sofreguidão as críticas aos filmes. Primeiro a realidade do cinema, só depois a ficção do real. O facto de não compreender, ou mesmo perceber, 80% do que lia, por me faltar leituras e vida, não impedia a recolha de um gosto culto que convidava à experiência. É esta a suprema função da crítica, ser uma força que leve ao encontro presencial da obra. Devo, pois, aos entusiasmantes escribas da Revista nos anos 80 o sofrimento atroz de ter visto As Lágrimas Amargas de Petra von Kant numa daquelas sessões maradas do Quarteto das sextas-feiras duplas (um formato que permitia ver dois filmes seguidos madrugada adentro, um hino ao cinema como não me ocorre outro exemplo) algo que não se deve nunca fazer quando se tem 15 anos. Tirando esse episódio, traumático, obrigados muitos por tudo o resto.
Eis que o Expresso, nos idos de 2012, se lembrou de fazer uma lista intitulada 50 filmes que toda a gente deve ver. Porquê 50 e não 51 ou 49, ou porquê para toda a gente quando são raros os que gostam de cinema, magnas questões que ficam sem resposta. Mas foi dado a entender um critério na listagem: não se repetir o realizador. Esta regra é tão decisiva que alguém no jornal deveria ter tido a honestidade de alterar o título do exercício para: 50 filmes de 50 realizadores, um filme por realizador, que toda a gente deve ver, o que equivale a dizer que se trata na verdade de uma lista de 50 realizadores, tendo nós escolhido um filme mais ou menos ao calhas para representar o seu currículo. Resultado deste disparate pegado: foi seleccionado One Hour with You, de Lubitsch, o que implicou deixar de fora Trouble in Paradise, curiosamente ambos de 1932.
Sim, certamente haverá milhentas razões para incluir Uma Hora Contigo em milhentas listagens. Porém, contudo, todavia, jamais em 2012, e jamais em Portugal em 2012. Porque não existe outro filme no Universo inteiro que retrate melhor os tempos que estamos a viver do que o eternamente jovem de exactos 80 anos Ladrão de Alcova – ou, como lá se repete 5 ou 6 vezes, o que se passa à nossa volta e connosco in times like these. E o que se passa fica à mostra logo nos primeiros segundos: um almeida veneziano anda a recolher o lixo da cidade para uma barcaça na qual segue viagem cantando O Sole Mio. É o brilho ofuscante do lixo que os restantes 82 minutos de película se ocupam em fazer chegar à nossa alma em êxtase cinematográfico.
2012 é 1932. Então estava-se a viver a Grande Depressão. Esta obra documenta obliquamente essa situação, registando em segundo plano da narrativa a luxúria dos ricos, a corrupção dos administradores de empresas, a política de redução de salários aos trabalhadores e de recusa de corte de bónus e benefícios aos gestores, a venda desesperada de jóias e ouro na alta sociedade, a vaga dos “noveaux poor”, a incerteza e insegurança financeira generalizadas. Sounds familiar? Até o Louçã aparece neste filme a citar Trostky em russo, e de modo tão eloquente que nem precisamos da tradução. Ver para crer.
Para lá da dimensão sociológica, a qual por si só não chegaria para merecer qualquer elogio, o que nos é dado em Trouble in Paradise é uma impossível sucessão de cenas geniais. Normalmente, recordamos uma ou duas cenas por filme se calhar termos apreciado a fita. Usualmente, recordamos uma mão-cheia de cenas de todos os filmes vistos que ficaram indeléveis na nossa memória. Com este monumento à 7ª arte, os quadros onde o corpo dos actores, o texto e a câmara se fundem de forma sublime ocorrem com intervalos de dois minutos – do princípio ao fim.
Mas ainda mais impossível é o Expresso achar que este feito de uma inteligência libertina em estado de graça não deva ser visto com urgência.
E Hollande?
Na véspera de mais uma cimeira europeia, François Hollande respondeu às perguntas de seis jornais de diferentes países sobre os problemas da Europa. As respostas estão cheias de boas intenções (“temos o dever de aplicar rapidamente as decisões da cimeira de 28 e 29 de Junho”), de desejos de que se acelere a aplicação das decisões tomadas (“até o fim do ano”) e de otimismo quanto ao futuro político da Europa, que, já no próximo ano, segundo ele, se começará a construir atarefadamente como se num estaleiro. O seu cardápio de soluções para a crise continua, para quem o ouve, sintonizado com as suas propostas pré-eleitorais. Continua a mencionar a necessidade de medidas de crescimento (cuja passagem à prática pelos vistos não depende dele), de intervenção do BCE, de reforço do núcleo duro, de mutualização da dívida, de solidariedade, enfim, de desejos um tanto ou quanto frustrados. E é justamente esse o problema. Nada do que vemos se assemelha a uma concretização. Ou seja, a França parece ser em todas as circunstâncias práticas ultrapassada pelas decisões alemãs.
Quanto à evolução política da União (admite várias velocidades, que já existem, mas mais do que ele sugere), e mais precisamente da zona euro, Hollande diz, por exemplo, o seguinte:
Je suis également partisan d’une réunion mensuelle des chefs d’Etat et de gouvernement de cette zone. Finissons-en avec ces sommets soi-disant de la dernière chance, ces réunions historiques, ces rendez-vous exceptionnels… et qui n’ont débouché que sur des succès éphémères. Les marchés, c’est tous les jours, les arbitrages des entreprises, c’est dans l’instant! L’Europe ne peut plus être en retard.
Le Conseil de la zone euro permettra de mieux coordonner la politique économique et de prendre, pays par pays, les décisions appropriées.”
Eurogrupo reforçado e o seu presidente com um mandato claro. Mas como garantir uma defesa supranacional, imparcial do euro? Por sua vez, defende que o Conselho (de chefes de Estado) da zona euro se reúna mensalmente e coordene a política económica dos países que dela fazem parte. Assim dito, poderia ser o ideal, mas muitas perguntas deveriam primeiro ser respondidas. Suponhamos que existe democracia nos diversos Estados da zona euro e que os chefes de governo são eleitos pelo povo. Suponhamos que nem todos os chefes de Estado e de Governo eleitos partilham os mesmos pontos de vista sobre as políticas económicas e orçamentais a seguir. Como coordenar as diferentes posições, resultantes da defesa de interesses conflituantes, e sobretudo com uma carga moral subjacente, como acontece hoje em dia? Sabemos como é bonita essa coisa da defesa dos interesses da Europa como um todo e como neste momento não existe. E que é quem diz que mais paga quem mais manda (ele diz que está de acordo). Como contrariar essa regra perante o sufoco que nos é imposto e evitar não equacionar o abandono de tão rígida zona? E seria este um tema demasiado escandaloso para tais reuniões? Que interessa Hollande dizer que não é bem assim (que a Alemanha mande mais porque paga mais), porque todos os países contribuem para o MEE? Na prática, ninguém tem força para impor orientações que vão contra os interesses alemães (que dominam o BCE). E é ou não verdade que a França também tem interesse em colar-se à Alemanha (descaradamente como Sarkozy ou disfarçadamente como Hollande), na mira de se poder financiar a juros igualmente baixos, beneficiando inclusivamente das transferências de dinheiro do sul para países como a Suíça, que depois lhes (à França e à Alemanha) compra dívida? E aí chegamos à hipocrisia, de que Hollande não fala, porque prefere manter a toada otimista e conciliadora. Enquanto os alemães se sentirem confortáveis a receber os depósitos de capitais em fuga dos países fustigados pelo seu chicote, não há forma de países como a Espanha ou a Itália ou Portugal acreditarem na defesa do interesse coletivo. A menos que tenham dirigentes vendidos. A menos que todos se submetam ao princípio de que o que é bom para a Alemanha é bom para o resto da Europa. O que neste momento não é manifestamente verdade. Mas, se fosse, não deveríamos votar todos nas eleições alemãs? Pois é, aqui voltamos ao início do problema.
Não digo que Hollande não esteja a esforçar-se por inverter um certo caminho, até porque assumiu essa responsabilidade. Mas, enquanto no seu discurso predominarem expressões como “a Europa tem que” ou “a Europa não pode” ou “devemos” ou “eu sou favorável a que”, e outras no mesmo registo, o fim da crise que ele considera próximo parece tudo menos garantido. Basta olhar para Portugal, que toda a gente parece, ou prefere, ignorar (calar?). E no entanto sabemos como está próxima a implosão.
O Orçamento é uma merda
Pensava eu que durante os governos de Sócrates se tinham esgotado os nomes feios para chamar aos governantes e as piores analogias e metáforas para ilustrar as suas acções. Como se tem visto nos últimos tempos, estava redondamente enganada. Por estes dias, até arrepia ler os jornais tal é a quantidade de material bélico e catástrofes naturais e outras que aparecem associados a este Governo e ao Orçamento. Pensar que, para os catastrofistas, no tempo dos PEC dos governos de Sócrates, o grande perigo que o País enfrentava era o de estar prestes a bater numa parede. Uma parede. Aposto que, perante esta avalanche de desgraças, muitos têm saudades dessa parede.
A verdade é que não é nada fácil escolher um termo que ainda não tenha sido utilizado, e ainda menos um que seja mais devastador. Por isso, decidi ir por outro caminho e escolher um termo mais simples, que toda a gente percebe e que, apesar de resumir o que todos pensam, ainda não vi escrito em nenhum jornal: o Orçamento é uma merda.
O Gomes Ferreira já foi servido, tragam agora o Medina Carreira e o Marques Mendes
A entrevista de José Gomes Ferreira a Paulo Campos é um documento notável. Sem dúvida, um dos melhores espectáculos de televisão dos últimos anos. E, para quem se interessar por política, economia, jornalismo e moral pública, trata-se de um objecto de análise e referência incontornável.
O entrevistador é um jornalista, especializado em temáticas económicas, que trabalha para o militante nº 1 do PSD. Seja por isso ou por outra causa qualquer, o nosso José permite-se praticar uma actividade profissional que extravasa o código deontológico dos jornalistas a partir logo do primeiro ponto:
1. O jornalista deve relatar os factos com rigor e exactidão e interpretá-los com honestidade. Os factos devem ser comprovados, ouvindo as partes com interesses atendíveis no caso. A distinção entre notícia e opinião deve ficar bem clara aos olhos do público.
A sua crescente fama, ao invés do preceito, tem vindo da promiscuidade e confusão entre o que seja notícia e o que seja a sua excitada opinião. Os tempos têm sido de instigação ao ódio e de populismos, e o valente José cavalga o tigre com a displicência dos deslumbrados. Foi com essa confiança, e esse cinismo letal, que partiu para o confronto com um adversário que julgava já derrotado à partida, o qual imaginou poder sovar do princípio ao fim e ainda dançar por cima do seu cadáver. Vai daí, a primeira pergunta a Campos foi um ataque sofístico em forma de fulanização hipócrita: Sente-se culpado por estarmos a viver esta austeridade, a qual é necessária para pagar dívidas?
Continuar a lerO Gomes Ferreira já foi servido, tragam agora o Medina Carreira e o Marques Mendes
Mas que brincadeira é esta?
Gaspar apresenta um orçamento devastador que põe os trabalhadores e pensionistas a pagar mais de 70% do buraco orçamental que ele próprio abriu, pouco se importando com o agravamento inevitável da recessão. As justificações para o que aconteceu ou está a acontecer são desconhecidas, pelo menos pela boca do próprio. Tudo é nebuloso e, para a maior parte das pessoas, totalmente inesperado e um autêntico choque.
Em Agosto, o indivíduo a que se chama Primeiro-Ministro anunciou que 2013 seria o ano da recuperação. Esse anúncio dispensa comentários na hora atual. O governo de que Gaspar faz parte tinha-se comprometido a aplicar medidas de ajustamento que fossem 2/3 do lado da despesa e 1/3 do da receita. Há mais de um ano que sabem que têm de estudar cortes na despesa; aliás já muito antes, ainda Passos Coelho era apenas presidente do PSD, o partido andava a pedir contributos de milhares de militantes e simpatizantes para reduções na despesa do Estado. Disseram que a participação na iniciativa foi intensa. Pois não só não fizeram nada nessa matéria neste ano e meio, como todos os contributos que eventualmente receberam parece terem ido para o lixo. No fundo, era show-off para mostrar ao povo (que depois neles votou) que o governo de Sócrates era incompetente a cortar nas despesas, que “havia limites para os sacrifícios”. Mas, apesar de não saberem nada de nada do que era governar, possivelmente nem o que são despesas do Estado, apresentaram-se a eleições como peritos nesta matéria. Em pouco tempo, quem ainda não sabia ficou a saber que a única coisa em que são peritos é mesmo na vigarice e no descaramento.
Agora, depois do anunciado massacre fiscal, lê-se nos jornais que Gaspar pede aos deputados do PSD e do CDS que apresentem medidas de corte nas despesas para «calibrar» o aumento de impostos. Isto depois de os membros dos Governo terem passado horas e horas em Conselho de Ministros com esse mesmo objetivo e de lá terem saído sem que a mais pequena alteração tenha sido introduzida no plano? Penso que a brincadeira já foi longe de mais. O que está a acontecer é muito grave. A ser aprovado este orçamento, o país enterra-se de vez e o Gaspar, principal responsável, acaba por sair, mas tranquilamente para um belo cargo num organismo europeu ou internacional. Depois de o país lhe ter pago principescamente e com que dor o que, pelos vistos, será a última tranche da sua dispendiosa educação…
Nenhuma crise é desejável, mas muitas são inevitáveis: acontecem quando a situação presente é ainda pior do que a incerteza do que pode vir. O Portas, se tem algum pingo de dignidade, devia abandonar o barco. E ainda antes da aprovação deste orçamento. É que tudo o que aconteça depois será irreversível. Sabemos que o seu objetivo político único na vida era fazer parte de um governo e que todas as demagogias e sujeiras foram válidas para lá chegar, tendo aí um grande ponto em comum com o seu parceiro de coligação. E que finalmente andava realizado. Mas a pouca credibilidade que lhe resta ao aliar-se a este bando de desmiolados depois de tudo o que tem acontecido, sendo certo que Gaspar e Passos o ignoraram olimpicamente, está a perder-se, pelo que não lhe resta outra saída que não seja a rutura. Esta brincadeira não é barata a nenhum título, mas Portas pagará menos se mostrar distanciamento de tamanhas incompetências. E o país, esse só pode perder muito menos.
Gaspar a brincar com o fogo
Há muito que o consenso que havia à volta deste Governo se foi, mas parece que Vítor Gaspar ainda não está satisfeito. Ter o País de pantanas, o Governo estilhaçado e a coligação em guerra aberta ainda é pouco. Quando ontem confessou ‘embaraçado’ (os sonsos são os piores) que não tinha estudado as declarações do Presidente da República, Gaspar revelou uma imprudência colossal. É que não devem ter sido só as últimas declarações de Cavaco que lhe passaram ao lado, Gaspar deve ter andado muito distraído nas últimas décadas e desconhece por completo uma das principais características do actual PR: o seu espírito vingativo. Com aquela simples frase, Gaspar deve tê-lo deixado laranja de raiva. E não é que Cavaco, depois de tudo o que disse e fez contra os governos anteriores, não mereça este tratamento, mas, por muito que nos custe, continua a ser Presidente da República e não se espera de um ministro das Finanças que o trate publicamente com este desprezo. Além disso, fica bem demonstrada a disponibilidade deste Governo para ouvir os outros.
Por onde andarão agora os que berravam indignados e exigiam a Sócrates, apesar de ser de outro partido e de obviamente ter ideias diferentes, que ouvisse todos os conselhos e cumprisse à risca as ordens que vinham de Belém? Se calhar também andam muito ocupados e ainda não se aperceberam desta guerra entre Belém e S. Bento. Ocupados a assobiar para o lado.
Essa cara de poker é perfeita, Aníbal
E as tuas jogadas no Facebook foram bastante barulhentas e impressionantes. Excepto, como viste ontem, para o teu adversário, que acha que não tens nada na mão, que isso é apenas bluff e acabou de pagar para ver. Por isso, está na altura de mostrar se tens realmente jogo. Ou, em alternativa, metes o rabinho entre as pernas e deixas de fazer figuras tristes.
Jogas bem, Paulo
E as tuas jogadas nos jornais foram bastante barulhentas e impressionantes. Excepto, como viste ontem, para o teu adversário, que acha que não tens nada na mão, que isso é apenas bluff e acabou de pagar para ver. Por isso, está na altura de mostrar se tens realmente jogo. Ou, em alternativa, metes o rabinho entre as pernas e deixas de fazer figuras tristes.
O mínimo que se pode dizer…
Revolution through evolution
Child-Free Women Feel Intense Pressure to Have Kids, but Rarely Stress Over It
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New Psychology Study Reveals Unexamined Costs of Rape
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UC Study Finds Flirting Can Pay Off for Women
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Negative News Stories Affect Women’s Stress Levels but Not Men’s
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Happiness and mental health are highest among people who eat seven portions of fruit and vegetables a day
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Testosterone Increases Honesty, Study Suggests
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The Good, the Bad, and the Guilty: Anticipating Feelings of Guilt Predicts Ethical Behavior
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Is there any way to pursue self-interest without feeling bad about it?
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Can Eating Tomatoes Lower the Risk of Stroke?
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Potential Debt Problems More Common Among the Educated, Study Suggests
Azarinho
Dizer-se que a vitória do PS nos Açores é também uma vitória de Seguro é estar a juntar presbiopia à miopia. O que aquele resultado confirma, e lança, é a candidatura de Carlos César para secretário-geral do PS ou Presidente da República. No caso de ambicionar chefiar o PS, o que só lhe ficaria bem, terá de primeiro perder com António Costa, idealmente, ou ficar na varanda a ver essa caravana passar, convencionalmente. Seja como for, o PS volta a mostrar que é o esteio do regime, não lhe faltando quadros à altura das suas diversas responsabilidades governativas e representativas.
Quanto a Seguro, é apenas mais uma peça da tempestade perfeita que se abateu sobre Portugal. A prova de que a política também está dependente da sorte e do azar.
Dito isto
Ninguém sabe o que viria a seguir ao PEC IV caso tivesse sido aprovado, como é que os mercados reagiriam, como é que a economia nacional se comportaria, como é que a Europa evoluiria nas suas medidas sistémicas face à crise. Mas sabe-se que Merkel ficou furibunda com Passos e que Barroso tentou até à última que o PSD não chumbasse o PEC. Estava em jogo muito mais do que o destino de um país, era a Europa toda que temia o alastrar dos resgates. Cada nova vítima fazendo aumentar a probabilidade de novo episódio, seria muito benéfico para os parceiros europeus que Portugal continuasse a ser o improvável tampão de uma UE com rachas cada vez mais fundas. E Sócrates era a personalidade política com melhores capacidades para o tentar, pois aliava a liderança carismática à competência técnica e à credibilidade internacional. Merkel e Lula, Eua e China, Chávez e Sarkozy, por todo o lado Sócrates cativava e abria portas. Menos em Portugal.
Caso o PEC IV tivesse sido viabilizado, não temos dificuldade em imaginar as consequências domésticas: os processos de desgaste e boicote ao Governo continuariam como até aí ou pioravam. A santa aliança dos direitolas com os esquerdolas seguiria entusiasmada o seu plano de enfraquecimento do País. Belém e São Caetano acertariam agulhas para a golpada decisiva por alturas da aprovação do Orçamento para 2012. Sócrates e o PS não teriam qualquer poder para impedir o mesmo desfecho ocorrido em Março de 2011, nem mesmo com resultados sofríveis, ou até razoáveis, na economia, pois do Presidente da República aos partidos da oposição, passando pelas corporações, grandes patrões e patrões de imprensa, o desejo de vencer Sócrates e destruir a sua força era avassalador. O clã oligárquico queria vingança e desforra.
Dito isto, colhe persistir nas evidências: quem chumbou o PEC IV traiu Portugal.
Karma is a bitch, Pedro
Arménio Carlos, the leader of the CGTP union, compared Mr. Passos Coelho to Pinocchio, accusing him of constantly changing his austerity message.
O teu partido baixa o nível do discurso político. E uns tempos mais tarde, o mesmo insulto que usaste para atacar o primeiro-ministro anterior é usado contra ti, só que desta vez, em vez de seres insultado no palco nacional, és insultado perante o mundo inteiro nas páginas do New York Times, que acha o termo suficientemente relevante para descrever a situação portuguesa e a tua imagem perante os parceiros.
Estas coisas têm tendência a voltar sempre para nos morder no rabo, não é? Quem diria.
