Trouble in Expresso

Parece ter sido há 25 anos que abria o Expresso para ler com sofreguidão as críticas aos filmes. Primeiro a realidade do cinema, só depois a ficção do real. O facto de não compreender, ou mesmo perceber, 80% do que lia, por me faltar leituras e vida, não impedia a recolha de um gosto culto que convidava à experiência. É esta a suprema função da crítica, ser uma força que leve ao encontro presencial da obra. Devo, pois, aos entusiasmantes escribas da Revista nos anos 80 o sofrimento atroz de ter visto As Lágrimas Amargas de Petra von Kant numa daquelas sessões maradas do Quarteto das sextas-feiras duplas (um formato que permitia ver dois filmes seguidos madrugada adentro, um hino ao cinema como não me ocorre outro exemplo) algo que não se deve nunca fazer quando se tem 15 anos. Tirando esse episódio, traumático, obrigados muitos por tudo o resto.

Eis que o Expresso, nos idos de 2012, se lembrou de fazer uma lista intitulada 50 filmes que toda a gente deve ver. Porquê 50 e não 51 ou 49, ou porquê para toda a gente quando são raros os que gostam de cinema, magnas questões que ficam sem resposta. Mas foi dado a entender um critério na listagem: não se repetir o realizador. Esta regra é tão decisiva que alguém no jornal deveria ter tido a honestidade de alterar o título do exercício para: 50 filmes de 50 realizadores, um filme por realizador, que toda a gente deve ver, o que equivale a dizer que se trata na verdade de uma lista de 50 realizadores, tendo nós escolhido um filme mais ou menos ao calhas para representar o seu currículo. Resultado deste disparate pegado: foi seleccionado One Hour with You, de Lubitsch, o que implicou deixar de fora Trouble in Paradise, curiosamente ambos de 1932.

Sim, certamente haverá milhentas razões para incluir Uma Hora Contigo em milhentas listagens. Porém, contudo, todavia, jamais em 2012, e jamais em Portugal em 2012. Porque não existe outro filme no Universo inteiro que retrate melhor os tempos que estamos a viver do que o eternamente jovem de exactos 80 anos Ladrão de Alcova – ou, como lá se repete 5 ou 6 vezes, o que se passa à nossa volta e connosco in times like these. E o que se passa fica à mostra logo nos primeiros segundos: um almeida veneziano anda a recolher o lixo da cidade para uma barcaça na qual segue viagem cantando O Sole Mio. É o brilho ofuscante do lixo que os restantes 82 minutos de película se ocupam em fazer chegar à nossa alma em êxtase cinematográfico.

2012 é 1932. Então estava-se a viver a Grande Depressão. Esta obra documenta obliquamente essa situação, registando em segundo plano da narrativa a luxúria dos ricos, a corrupção dos administradores de empresas, a política de redução de salários aos trabalhadores e de recusa de corte de bónus e benefícios aos gestores, a venda desesperada de jóias e ouro na alta sociedade, a vaga dos “noveaux poor”, a incerteza e insegurança financeira generalizadas. Sounds familiar? Até o Louçã aparece neste filme a citar Trostky em russo, e de modo tão eloquente que nem precisamos da tradução. Ver para crer.

Para lá da dimensão sociológica, a qual por si só não chegaria para merecer qualquer elogio, o que nos é dado em Trouble in Paradise é uma impossível sucessão de cenas geniais. Normalmente, recordamos uma ou duas cenas por filme se calhar termos apreciado a fita. Usualmente, recordamos uma mão-cheia de cenas de todos os filmes vistos que ficaram indeléveis na nossa memória. Com este monumento à 7ª arte, os quadros onde o corpo dos actores, o texto e a câmara se fundem de forma sublime ocorrem com intervalos de dois minutos – do princípio ao fim.

Mas ainda mais impossível é o Expresso achar que este feito de uma inteligência libertina em estado de graça não deva ser visto com urgência.

5 thoughts on “Trouble in Expresso

  1. Ola,

    Lembro-me perfeitamente das criticas de cinema do Expresso (por comiseração não vou dar nomes aqui) e, se queres que te diga, preocupa-me bastante que atribuas a tua incompreensão de mais de 80 % do que elas diziam a “falta de leitura e de vida” da tua parte.

    Ja tentaste ler – hoje que presumo consideras ter mais leitura e mais vida – as inenarraveis criticas que se publicavam na altura ? Por exemplo as do João Lo… ah, ja me esquecia, nada de nomes !

    Ou então, inquieta-me muito o que tu possas considerar “leitura” e “vida”.

    Boas

  2. Val gosto de ver cinema.No local proprio ou na tv.Começo a ter dificuldade na escolha,pois duvido da seriedade dos seus criticos.Uma coisa parece evidente, as ideias esgotaram-se.Sugiro, para não sermos enganados, que alguem sem interesses particulares neste blogue nos dê alguma orientaçao,quando aparecerem novos filmes.Em que jornal que dão sugestões com estrelinhas ou bolinhas,mais podemos confiar?

  3. foi desde que comecei a apreciar a tua apreciação, um deslumbre imenso, delícia pegada, de filmes aqui que comecei a entender o cinema naquilo que de mais importante tem: a partilha de solidão. sei, agora, que quem faz filmes o faz para, na sua, poder estar com a solidão dos outros. porque quando vemos um filme ou lemos um livro, um livro é a espécie de filme mais criativa do mundo, estamos sempre deliciosamente sós. e tu és um livro, Val. e acabei de ler mais uma página. :-)

  4. sim, também passei por essas experiências precoces. Que maratonas de cinemateca! Mas não se perdeu, porque ficou a vontade de rever com outros olhos, mais tarde.

    Obrigada, Val. São precisos momentos destes para não nos perdermos na peste emocional colectiva.

    Isto não é cinema – ou é – mas é arte. Goodnigt, sleep tight.
    http://www.youtube.com/watch?v=iErNRBTPbEc
    I want love
    To roll me over slowly
    stick a knife inside me, and twist it all around.
    I want love to grab my fingers gently
    slam them in a doorway
    put my face into the ground.
    I want love to murder my own mother
    and take her off to somewhere like hell or up above.
    I want love to change my friends to enemies,
    change my friends to enemies
    and show me how it’s all my fault.
    I won’t let love disrupt, corrupt or interrupt me
    I won’t let love disrupt, corrupt, or interrupt me anymore

  5. (cont)
    I want love to walk right up and bite me
    grab a hold of me and fight me
    leave me dying on the ground.
    And I want love to split my mouth wide open
    and cover up my ears, and never let me hear a sound.
    I want love to forget that you offended me
    or how you have defended me, when everybody tore me down.
    Yeah I want love to change my friends to enemies, change my friends to enemies and show me how it’s all my fault.

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