Moda campaniça

Nas terras do Alentejo / É tudo tão asseado
As casa e os corações / Sempre tudo anda lavado
(Popular – Baixo Alentejo)

Nesta tarde de nevoeiro
Onde o olhar se espreguiça
Vem do lado do Barreiro
O som de uma campaniça
Vem do lado do Barreiro
Passa por cima do Tejo
Mas o som chega inteiro
Como no Baixo Alentejo
Oiço o coro já se arrasta
No fundo da minha rua
Mas o coro não me basta
Quero ouvir a voz que é tua
Eu faço de cada poema
As cordas de uma viola
E escondo-me no cinema
Sempre que falto à escola
Julgo ver o teu olhar
Na linha do horizonte
Silhueta a atravessar
A estrada para o monte
São casa, são corações
Onde quero ser habitante
Procuro nestas canções
Chegar ainda mais adiante
Quero ouvir-te em directo
Sem recurso ao diferido
Quero um poema concreto
O título está estabelecido
O título está no teu nome
Os versos são os teus dedos
Os meus olhos têm fome
Do doce dos teus segredos

Dar voz aos desempregados, uma e outra vez, contra quem os insulta

Os dados do INE sobre o desemprego em Portugal são trágicos. Ultrapassam as piores previsões, e nem uma reflexão sobre a política de austeridade desmedida do Governo.
Estamos a falar de uma taxa de desemprego de 14,9 por cento da população ativa no primeiro trimestre de 2012, sendo o nível mais alto de sempre.
Percebe-se melhor explicando que se trata de 819,3 mil trabalhadores no desemprego – mais 48,3 mil pessoas que no trimestre anterior, e mais 130,4 mil pessoas do que no primeiro trimestre de 2011.
Para o PM este descalabro deve ser visto como um aumento de “oportunidades”.
Se este discurso ofende, como já escrevi, confessa sem vegonha uma ideologia segundo a qual uns têm emprego e outros não, sendo que quanto a estes é como o lixo: alguém há de tratar daquilo.

Questões de blocos

Parece-me que chegámos, na Europa, a uma situação muito clara que começa a ser tempo de verbalizar: o que interessa à Alemanha não interessa aos restantes países, sobretudo os da zona euro. O mal atingiu o paroxismo ao vermos os gregos, à beira da expulsão do clube, a levantaram o seu dinheiro dos bancos nacionais (só na segunda-feira foram 700 milhões) e a pô-lo a salvo alhures. E aonde? Ora, na banca alemã. Que, claro está, agradece (mas não retribui).

A União Europeia, ou a então CEE, foi criada para, de certa forma, além de pacificar o continente desavindo, opor resistência ao bloco soviético, de regime comunista, que chegava às fronteiras alemãs.
Para resumir quase à velocidade da luz, desfeito o dito bloco, uma boa parte da cola que nos unia perdeu a manutenção, a consistência e a eficácia. A criação da moeda única foi, passe o pleonasmo, a moeda de troca para o alargamento da Alemanha. A arquitetura do euro foi mal concebida, pois nem se criou um governo comum nem um banco central com poder de emitir moeda e equilibrar os fluxos. A Alemanha aproveitou e bem a zona euro e o abandono do marco forte para fortalecer as suas empresas e a sua economia, para além de ser a principal beneficiária do alargamento da UE a leste. Continuando à velocidade da luz, a crise desencadeada pelas trafulhices da banca americana produziu enormes ondas de choque na banca europeia e nas economias, desequilibradas, da zona euro. A especulação com os juros da dívida começou pelos mais débeis e sem grande capacidade produtiva como garantia (já entretanto destruída com a ajuda dos alemães), mas prossegue em direção a outros. A “solução” imposta pela Alemanha, que viu os seus bancos fortemente atingidos pela crise internacional, condena os países que são primeiras vítimas ao infinito degredo e as suas populações a um recuo civilizacional de décadas (o qual não tem equivalente algum no corte (insignificante) de regalias às populações dos países do norte, por muito contidos que tenham passado a ser os seus orçamentos). Uma situação dessas, que ameaça estender-se à Espanha e à Itália, não pode manter-se por muito tempo sem suscitar indignação e revolta (ver Grécia).

Em França, foi eleito um presidente que se propôs desafiar a visão alemã. Não sei o que poderá acontecer. Mas uma coisa me parece certa: se Hollande defraudar as expectativas de quem nele votou ou de quem, no estrangeiro, mas dentro das grades do euro, apostou nele todas as fichas, está condenado, a começar a nível interno, e com ele todos nós. Se ostensivamente desafiar Merkel, pode criar um conflito franco-germânico, que depressa ganhará dimensão europeia. Convém-lhe, por isso, ir arranjando aliados. Ao que tudo indica, Merkel não cede.

Tal como a UE pretendia fazer face à ameaça soviética de uma forma unida, assim também me parece lógico que se crie neste momento, na Europa, um bloco de interesses, de preferência com moeda única e banco central, que faça frente à Alemanha, cujos interesses há muito se autonomizaram do interesse geral europeu, e isto caso mantenha a inflexibilidade e a arrogância injustificada para com outros países. Proponho, pois, a criação de um bloco que empurre a Alemanha para fora do euro.
Aposto que, por esta altura, já os americanos devem estar a pensar com os seus botões que alguma razão forte terá havido para duas guerras contra a Alemanha.

Licor de merda

O melhor da ida de Relvas ao Parlamento para explicar a sua relação com Jorge Silva Carvalho esteve no registo de novas mentiras saídas da sua boca suja. O facto de os políticos terem de mentir em inúmeras ocasiões como obrigação mesma da sua responsabilidade não seria notícia caso não estivéssemos perante hipócritas deste calibre, os quais têm rastejado agarrados à “verdade” no charco da redução da política ao moralismo mais venenoso e bronco. Desta vez, Relvas mentiu quando lhe perguntaram se tinha comunicado ao Primeiro-Ministro a recepção dos SMS com nomes para reestruturar os serviços secretos. Ouçamos o guincho mentiroso e a resposta em falsete:

Não considerei importante… Não!… Não, não, não, não, não, não, não, não, não!

Porque é que estamos perante uma mentira descarada em sede parlamentar? Porque, e vamos esquecer o mero bom senso que chega e sobra para o gasto, caso Relvas não tivesse partilhado com Passos esse acontecimento estaria a violar a sua confiança. O “Super-espião”, que se demitiu com estrondo do SIED em 2010 para provocar danos políticos ao Governo de Sócrates e foi para um Grupo de fortíssima influência empresarial e social, é um passarão demasiado pesado para caber apenas no telemóvel do braço-direito do menino de Massamá. Assim, face a uma pergunta que iria expor Passos a mais pressão jornalística, Relvas opta por mentir a deputados numa questão que sabe ser impossível de investigar por remeter para a esfera sigilosa da sua relação executiva e pessoal.

Relvas disse que tudo não passava de uma tempestade num copo de licor. Tem razão.

Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa – Pública e Laica

Depois disto e após várias contestações, organizou um Seminário.
Pena ser quando os alunos já estão de férias.
É importante aparecer.
Data: 29 de Maio de 2012
Local: Auditório da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa
Todos os inscritos receberão um certificado de participação. Entrada livre sujeita à capacidade da sala.
Programa (provisório)
Inscrições (inscrições até 28 de Maio de 2012)

Vejam o programa e o título…
É importante aparecer.

BPN? A culpa é dos socialistas, diz a gente séria

A 1ª comissão de inquérito parlamentar ao caso BPN, em 2009, reuniu a direita da verdade e a esquerda verdadeira no tiro ao Constâncio, tendo exultado com a grande conclusão que milhares de páginas e centenas de horas permitiram alcançar: o mau da fita, no fundo e para o que importava, era o Banco de Portugal.

Depois disso, alguma arraia-miúda tem ensaiado a paranóia auto-reflexiva de que a nacionalização do BPN foi decidida apenas para ficar a conhecer os segredos de Cavaco.

Agora, Cadilhe avança com mais uma seríssima teoria da conspiração:

Miguel Cadilhe, antigo presidente do BPN até à nacionalização, declarou hoje no Parlamento que, em 2008, “muitas pessoas” lhe referiram existir uma “relação causa-efeito” entre a nacionalização do banco e um processo em curso de denúncia ao Ministério Público de vários atos suspeitos da gestão de Oliveira e Costa. “Mas não foi possível colocar uma pedra, ou calhau, no assunto, porque os processos eram imparáveis”, declarou Cadilhe.

O antigo presidente do BPN recordou que, dias antes da nacionalização, uma equipa de inspectores tributários liderados pelo juiz Carlos Alexandre e pelo procurador Rosário Teixeira fez uma busca às instalações do banco. “Eu e a minha equipa ficamos com a percepção, sem confirmação, de que a investigação já sabia que a nacionalização iria acontecer e que, antes que acontecesse, queria recolher informação no banco”, declarou Cadilhe, após ter sido questionado pelo deputado João Almeida do CDS/PP.

Ora, vamos lá fazer a soma das parcelas: havia roubalheira colossal no BPN, a qual era do conhecimento do Banco de Portugal ou que este se recusava a investigar, por isso as coisas chegaram onde chegaram, e depois, como rebentou a bronca, Oliveira e Costa, Dias Loureiro e/ou Cavaco foram a correr pedir a Teixeira dos Santos e/ou Sócrates para se sacrificarem numa nacionalização que iria prejudicar gravemente a sua governação tanto na dimensão política como na económica, e de cujo estigma não mais se livrariam, apenas para salvar a pele dessa malta amiga do PS.

A gente séria diz isto e nem procura disfarçar a risota. São muitos séculos a virar patos na grelha.

Vivemos no país mais aborrecido do mundo

Não se passa absolutamente nada neste país, muito menos alguma coisa que valha a pena ser investigada por espiões. Nem sei por que raio ninguém propõe o fim dos serviços secretos. O tédio é de tal ordem que o antigo chefe dos espiões, coitado, se entretém a enviar aos políticos mensagens de telemóvel e emails com informações que se podem encontrar em qualquer jornal. Sabendo disso, os políticos, que todos os dias recebem milhares de mensagens, não ligam patavina a mensagens enviadas por espiões, não mostram nem uma pontinha de curiosidade, sabem perfeitamente que não há ali nada confidencial, aquilo são só resumos de imprensa, uma seca, no fundo. E é óbvio que nunca lhes respondem, pelo contrário, são imediatamente apagadas. Claro está que os políticos, mesmo os de topo, nunca falam entre si sobre assuntos de espionagem, é que não há nadinha para falar.

Ou isso ou os actuais governantes estão convencidos que a média de idades dos portugueses é para aí cinco aninhos e ainda assim com algum atraso para a idade.

Muitos portugueses percebem, outros só quando lhes chegar ao osso

O deputado do PSD Miguel Frasquilho disse nesta segunda-feira, em Felgueiras, que “os portugueses percebem o caminho que está a ser trilhado pelo Governo e que não havia outra alternativa”.

Comentando o crescimento do desemprego, em 2011, na região do Vale do Sousa, que ultrapassou os 20% face a 2010, Miguel Frasquilho insistiu que só as políticas que o Governo está a executar “poderão proporcionar”, no futuro, “mais crescimento económico e criação de emprego”. “É este Governo que está a desendividar Portugal e que está a transformar estruturalmente a sociedade portuguesa e a tornar o país mais competitivo e mais atractivo”, afirmou.

Para o deputado social-democrata, “o Governo está a corrigir anos de desvario”, um trabalho que, sublinhou, exige “esforço, coragem e empenho”. Ainda a propósito da subida de desemprego no interior do distrito do Porto, com números que admitiu serem “dramáticos”, revelou que o PSD já previa que a situação evoluiria nesse sentido, acrescentando: “Esperávamos um agravamento da situação de 2011 para 2012 e, em termos de desemprego, 2013 poderá ser ainda um ano muito complicado”.

Fonte

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Ah, como Frasquilho tem razão, como tudo o que diz é a verdade verdadinha. Este Governo está mesmo, mesmo, mesmo a transformar estruturalmente a sociedade portuguesa. Isso é inegável, inquestionável, indisfarçável. Precisaríamos de recuar a 24 de Abril de 74 para encontrar a mesma tristeza no povo, o mesmo desespero nas famílias, a mesma ideologia bolçada pelos soberbos governantes, a qual despreza os pobres, a classe média, os trabalhadores e os considera culpados de todos os vícios, em especial da preguiça e da gula. Ah, o desvario dos últimos anos, quem pode esquecer. Que loucura, que bacanal. Bastava ler os relatórios do Banco de Portugal, do Instituto Nacional de Estatística, do Eurostat, da OCDE, da Comissão Europeia, dali e dacolá. Toda a gente a denunciar a loucura, era uma loucura. Ah, o desvario das Novas Oportunidades, essa irracionalidade de atribuir competências a quem não nasceu para doutor. Ah, o desvario do programa Magalhães, esse desperdício que só serviu para irritar professores e espalhar literacia informática. Ah, o desvario dos investimentos em ciência, tecnologia, energias renováveis, diplomacia económica, renovação do parque escolar, cultura de avaliação nas escolas, rede viária, ligações de transportes, reforma do Estado. Que inacreditável suicídio colectivo esse de acreditar que Portugal poderia crescer através da qualificação e da modernização.

Sim, Frasquilho, o teu PSD, esse partido que nos ofereceu Santana e Menezes, Cavaco e BPN, Jardim e troika, Passos e Relvas vai deixar este país num brinquinho, a brilhar de tanto o lixarem. Convosco não há desvarios, está tudo controlado.

Ajudemos o Daniel

Hoje fico-me pelo espanto que diariamente ainda consigo sentir: como é que este rapaz chegou a primeiro-ministro?

Daniel Oliveira

O Daniel Oliveira ganha a vida a escrever e a falar, principalmente sobre política. Aliás, escreve muito bem e tem por vezes bastante piada, tendo granjeado uma considerável fama e admiração entre os seus pares, pelo que foi uma boa escolha de carreira. É por isso com bastante preocupação que este admirador detecta, aqui e ali, alguns preocupantes sinais indicativos de perda de memória e confusão mental, algo que para o labor em causa pode revelar-se fatal, sobretudo para quem escreve num jornal com o nível de excelência do Expresso. No caso da crónica em apreço então, o sinal é algo grave. O Daniel Oliveira não se recorda como é que Passos Coelho, um “líder partidário com a inteligência de uma amiba”, chegou a Primeiro-ministro, apesar da improvável sucessão de acontecimentos que a tal levaram terem tido o seu desfecho há pouco mais de um ano, pelo que tem acessos diários de espanto com uma realidade cujos buracos na memória não o ajudam a explicar no devido contexto.

Agora, seria fácil aproveitar este sintoma de fragilidade para denunciar a suprema lata de quem tudo fez para que tal acontecesse, para o acusar de desonestidade intelectual de bradar aos céus, ou pior, de demonstrar um cinismo apenas comparável com o de Pacheco Pereira. Como não pode ser esse o caso numa pessoa diariamente empenhada em defender os mais fracos e vulneráveis da nossa sociedade, será melhor combater os sintomas com uma dose de exercícios mentais que o ajudem a recuperar a sua forma habitual. Sendo o Daniel Oliveira uma pessoa de uma inteligência inegável, não o vou insultar fazendo-lhe uma descrição pormenorizada de como é que Passos Coelho chegou a Primeiro-ministro. O importante nestes casos é exercitar uma mente entorpecida pelas inesperadas fragilidades de memória, e para isso é essencial que se faça um percurso pessoal que o obrigue a esse mesmo exercício. Deixo-lhe por isso uma pista em forma de vídeo para iniciar, sem narração, e um breve conselho: Daniel, segue as amibas.

Um pouco mais de azul

Comprei este. Porque é azul. Um cartaz azul. Uma nascente de azul e infinito. Mas tu podes comprar um dos outros. Ou algo completamente diferente. E também podes comprar o que eu comprei, pois claro, mas só se ainda fores a tempo tendo em conta que apenas vão imprimir 30, os cabrões – os meus queridos amigos da Musa.

Zona Neuro

Precisamos de abandonar a Zona Neuro com a maior urgência possível. Hoje mesmo. Como o fazer? Declarando a falência do medo e anunciando que não temos mais atenção para dar a quem insulta a nossa inteligência.

O que mais custa é começar, precisamente por não sabermos por onde começar, tal a quantidade e variedade de insultos vindos de todas as direcções. Mas depois, se lhe tomarmos o gosto, não queremos outra coisa.

Bute, bazemos: adios, adieu, auf wiedersehen, goodbye Zona Neuro.

Vinte Linhas 783

Júlio César Machado – «não há neste Mundo senão um perigo»

O livro que estou a ler hoje é «Aquele tempo» de Júlio César Machado (1835-1890), uma edição «Perspectivas & Realidades» com capa de Rui Perdigão e organização do meu amigo Vítor Wladimiro Ferreira. Custava 1.5.25$00 em 1989 quando foi publicado, hoje cumpre o seu fadário nos alfarrabistas mas isso não lhe retira interesse ou valor. Vejamos um excerto: «Lisboa hoje está sendo, para o que então era, como que outra terra. Então ainda respirava em tudo singeleza; respirava entusiasmo em tudo. Era qualquer coisa um acontecimento. Uma extravagância pequena era um escândalo; chá e torradas depois da uma hora da noite, era uma orgia. Havia três, quatro heróis, cinco doidos (…)

Continuar a lerVinte Linhas 783

Com a cautela de afirmar ser uma “posição pessoal”, ainda assim Obama defende o casamento entre pessoas do mesmo sexo

Sim, foi com cautela. Obama não disse que defendia uma adenda à Constituição federal, por exemplo, o que acabaria com a brincadeira das aprovações e reprovações ao nível dos Estados federados do CPMS. Por outro lado, se tivesse defendido essa posição politica, estaria a contrariar abertamente o seu rival republicano, o qual, sem rodeios, protagoniza o inverso, isto é, uma adenda àquela Constituição no sentido de proibir o CPMS.
Em todo o caso, quando todos os comentadores vinham dizendo que bastaria a Obama fazer quase nada, estar quietinho, para ganhar, é significativo que o candidato explique a sua mudança de opinião e adira, ainda que em termos de “opinião pessoal”, à defesa do acesso de todos ao casamento.

A experiência mística

Frequentei durante cinco anos, entre os 10 e os 15, um colégio de freiras. Não porque os meus pais fossem muito religiosos, nada disso, o meu pai e ambos os avôs (republicanos) eram até ateus, mas por questões práticas: a alternativa era um colégio local de má qualidade ou a frequência do liceu na cidade mais próxima, o que implicava o aluguer de um quarto em casa de estranhos (10 aninhos ainda incompletos).

Com o background familiar já referido, pouco liguei de início às ladainhas e rituais das freiras, objeto, aliás, de grande gozo; gostava era das brincadeiras nos dormitórios, orgulhando-me dos castigos. Mas a doutrina ia-se infiltrando e o proselitismo era poderoso (não que já não tivesse passado, ainda mais cedo, pela fase do catecismo e da personalização do demónio – grandes pesadelos – e das comunhões). A partir dos 12 anos, faziam-se “retiros” – períodos de 3 dias no ano em que não havia aulas e as atividades se resumiam à leitura de livros religiosos e ao visionamento de filmes tenebrosos sobre leprosos em ilhas longínquas, à frequência mais prolongada do que o habitual da capela e à “meditação” – que eram autênticas lavagens ao cérebro para gente tenrinha. Normalmente, no fim dos três dias, uma freira indagava junto de algumas de nós, mais ou menos diretamente, se teríamos sentido algum chamamento, o despertar de uma hipotética “vocação” (para mim, novas angústias, pois apaixonara-me por um príncipe encantado cá fora (tínhamos férias e fins-de-semana)). Um sistema bem montado, portanto. Valia que, para o objetivo parental da minha passagem por ali, o ensino era exigente.

Apesar de não ter sido difícil, com o ambiente em que vivia e com o evoluir da situação política e social do país, libertar-me depressa de terrores e preconceitos e dedicar-me ao que interessava, durante anos senti um ligeiro calafrio sempre que “blasfemava”. Passou, o que prova o poder, muitas vezes subaproveitado, dos neurónios.

Ao olhar hoje, dia 13 de maio, para estas deslocações em massa ao santuário de Fátima, não posso deixar de achar piada ao fenómeno, agora visto com outros olhos (as idas a Meca ou a outros locais “de culto” por esse mundo fora em nada diferem). Por um lado, trata-se de um Goldman Sachs da igreja católica. Quantos fundos ali não se angariam, quanta publicidade à causa? Por outro, enfim, muitas pessoas buscam experiências “místicas”, experiências do “além”, uma dimensão extraterrestre, a ideia de uma harmonia celestial, a maior parte delas sabendo que nenhum do suporte real de tudo aquilo faz o mínimo sentido (mas sempre é uma viagem, cuja recompensa, quem sabe, um dia chegará) e outras esforçando-se por lhe dar um sentido, mas acabando por aterrar na planície etérea da fé para poder dormir descansadas. Para o caso, evidentemente, pouco interessa onde tudo começou e porquê. No fundo, é uma festa.

Pois nada contra, desde que nenhum dos promotores e organizadores destes eventos pelo mundo fora me imponha a sua alucinação. Sem desdenhar do papel disciplinador, de quase código penal, e do papel também higiénico das religiões no passado, ir a um concerto, visitar locais bonitos da Terra ou viver um amor perfeito também podem ser experiências místicas. Provavelmente mais compensadoras. Têm a vantagem de, neste estádio de evolução da humanidade, não imporem condutas nem adormecerem a inteligência.

Adenda: Não posso aqui deixar de recomendar um livro que adquiri recentemente na Feira do Livro e que, já sendo de 2009, me tinha escapado. Chama-se “Você está aqui” (Editora Casa das Letras) e é um autêntico mapa, sem imagens, para nos orientarmos no universo, quer ao nível macro (dos nossos pés até aos superaglomerados de galáxias), quer ao nível micro e nano (até ao mundo das partículas). Muito bem escrito (às vezes não totalmente bem traduzido), e com humor, por um inglês que é dono da editora 4th Estate, cursou matemáticas e fez um mestrado em História e Filosofia da Ciência, situa-nos, de facto, no mundo e recorda-nos ou dá-nos informações sempre preciosas e curiosas, como a de que o teorema de Pitágoras afinal não é de Pitágoras ou sobre a origem das palavras ou ainda sobre o critério, que se pretendeu universal (ou seja, válido para todo o universo), para a definição de metro. Boa leitura, abaixo a cova da Iria (não resisto).

Da regular disfunção das instituições democráticas

Bem sabemos que esperar de Cavaco que seja o garante do regular funcionamento das instituições democráticas, este mesmo Cavaco que conspirou contra um partido e dois Governos assim conspurcando a Presidência da República e violando a Constituição, será algo mais improvável do que ver Pacheco Pereira a organizar um jantar de desagravo a Sócrates. Porém, contudo, todavia, não existe mais ninguém a quem possamos fazer esta pergunta: o facto do Procurador-Geral da República ser desmentido pela Ministra da Justiça e, acto contínuo, a Ministra da Justiça ser desmentida pelo Procurador-Geral da República, sendo o assunto em causa um processo que envolve a possibilidade de corrupção ao mais alto nível do Estado, entra dentro do que a lei fundamental portuguesa considera como regular funcionamento dessas duas instituições democráticas em causa?

Não há nenhuma entidade, ou mera figura pública, que fale nesta inacreditável ausência de responsabilização entre dois titulares de cargos tão elevados em radical contradição entre si numa matéria do foro judicial. Nem à direita nem à esquerda, nem dentro dos partidos nem fora deles, nem para criticar nem para questionar, nada de nada de nadinha de nada é dito. É como se não tivesse acontecido, não estivesse a acontecer todos os dias, a toda hora, enquanto uma das partes não assumir o seu erro ou demonstrar o erro alheio.

Está a ser umas das mais reveladoras experiências políticas da minha vida.