Perguntem ao Cavaco, ele sabe como se faz

Apareceram algumas figuras a dizer que Relvas não poderia ter feito aquilo de que está duplamente acusado – primeiro pelo Conselho de Redacção, depois pela Direcção Editorial do Público – porque essas personalidades eram amigas do homem e afiançavam que ele era um gajo impecável, sério, talvez um bocadinho desbocado, mas um porreiraço, e seriamente sério à séria. Há tanto para dizer sobre esta linha inane de argumentação que o melhor é nem dizer nada. Eu só gostaria que esses que tais dessem a sua opinião a respeito destas palavrinhas do seu grande amigo:

“Eu quero chegar a casa, depois de ganhar as eleições, todos os dias e quero que a minha filha tenha orgulho daquilo que está a ser feito”, disse o porta-voz do PSD, acrescentando: “Eu no lugar do engenheiro Sócrates tinha vergonha, eu se fosse parente do engenheiro Sócrates escondia que era parente dele”.

Que tipo de perfil psicológico podemos desenhar de quem faz estas declarações em público – nunca tendo pedido desculpa a ninguém dos vários ofendidos e dos muitos insultados – para mais sendo-se secretário-geral e porta-voz do PSD e estando a discursar para estudantes? Que indícios, que traços, que pistas esta incursão na vida familiar de um adversário político, e apontando directamente aos seus filhos menores, podemos recolher para atestar das pulsões e compulsões do indivíduo? Enfim, como avaliar a violência destas declarações?

Relvas já devia ter sido demitido pelo modo leviano e enganador como tratou os deputados da comissão parlamentar na audição a respeito da sua relação com Jorge Silva Carvalho. Acontece que para tal ser possível era necessário que o Primeiro-Ministro tivesse existência própria, e não a tem. Passos e Relvas são exacta e literalmente as duas faces da mesma péssima moeda. Se Relvas cair, Passos não se aguenta. Assim, Relvas não pode cair. Isso levanta uma questão fascinante: sendo impossível não atribuir credibilidade à posição do Público, o modo como se vai manter Relvas no Governo será um capítulo historicamente novo na política nacional. E o que Seguro então fizer, ou não fizer, será igualmente definidor do seu destino no PS.

Ridículos e rocambolescos

Talvez a manifestação mais ridícula que aconteceu em Portugal nos últimos 30 anos tenha sido a dos 40 foliões que se juntaram durante a hora de almoço do dia 11 de Fevereiro de 2010 em frente à Assembleia da República, como lembra abaixo o Vega9000. O encontro de reaças e comunas, para além da diversão folclórica, celebrava a calúnia como unificador político. Demonstrava-se que um monárquico católico, por exemplo, podia tranquilamente abraçar-se a um estalinista ateu, outro exemplo, se daí viesse prejuízo para um inimigo comum. Velhos hábitos, sempre renováveis pela força dos circunstantes.

O texto que aquele grupo de guerreiros pela liberdade assinou sem vergonha não apresenta um só facto que suporte as acusações desfraldadas e ainda faz gala em usar escutas como matéria política. Que os comunas e os reaças se babem por escutas é algo que a História confirma invariavelmente em diversos países, que o tenham feito em Portugal com o século XX já enterrado fica como esplendoroso retrato sociológico e moral de uma parte significativa da comunidade.

Acaso alguma daquelas inteligências acha que com a comunicação social ao tempo nas mãos de Balsemão, Belmiro, Controlinveste, Cofina, capitais angolanos esdrúxulos para o arquitecto brilhar, casal Moniz e Renascença, a que se juntam os quadros da RTP e RDP de cores políticas plurais, e tendo Sócrates angariado tantos e tão desvairados inimigos, tendo esses inimigos lançado as mais venenosas campanhas de assassinato de carácter alguma vez vistas em Portugal, seria possível ter existido um único caso de ilegalidade ou imoralidade de governantes ou dirigentes socialistas que pudesse escapar à denúncia pública? A hipocrisia destes bravos é tamanha que se negam a reconhecer as evidências e mamam sôfregos os números de Moura Guedes a delirar-se a ocupar a agenda secreta do Rei de Espanha ou do Crespo a debochar em grande com a oportunidade de achincalhar deputados no Parlamento e de usar um primeiro-ministro para fazer uma peixeirada ao serviço do lançamento de um livro.

Os ridículos encontram finalmente a paz nas alarvidades dos rocambolescos. É uma lei da sua natureza.

Canção da pequena camponesa

Ó pequena camponesa / Nos teus olhos de humidade

É que eu percebo a beleza / Que tu trazes à cidade.

Ó pequena camponesa / Desterrada do teu mundo

Na tua voz a certeza / Dum som perfeito e profundo.

Que essa voz traz ao espaço / Com tabaco e seu cheiro

Com a cana e o melaço / Onde o timbre é verdadeiro.

Onde os registos da voz / ascendem ao lugar cantado

Na rua de todos nós / O som chega a todo o lado.

Na rua da nossa cidade / Onde vens falar à janela

A tua voz é verdade / Na vida e não na novela.

Que a vida não é cinema / Nem a fala é literatura

Tudo entra num esquema / Só a tua voz perdura.

Condicionar a imprensa é condicionar a imprensa

Ouvido agora na SIC-N: Luís Delgado defende Miguel Relvas com o argumento de que, se fosse mesmo grave, o jornal Público teria posto imediatamente em parangonas na primeira página a tentativa de condicionamento do trabalho de uma jornalista com base em ameaças à divulgação de dados da sua vida privada. Como não foi isso que fez, conclui Delgado, que se disse amigo de Relvas e anunciou que o ministro vai amanhã a uma cadeia de televisão explicar-se, logo não deve ter havido nada. Irrelevantes, para ele, o comunicado da direção do jornal e o próprio pedido de desculpas do ministro à diretora. E porque será que o jornal não fez o que Luís Delgado entende que deveria ter feito?
Pedro Adão e Silva chamou a atenção para a situação difícil em que vivem os órgãos de comunicação social. Para bom entendedor…
Uma tentativa que tem todo o ar de ter sido bem sucedida, portanto.

Mais, pergunta Luís Delgado “a que propósito, e como, saberia Miguel Relvas da vida da jornalista”? Pergunta idiota. Para que servem os espiões?

Ó Relvas, ó Relvas… demissão à vista!

Fantástico, o nosso Relvas. Conseguiu partir um jornal ao meio. E começa-se por achar impossível que tal cena tenha acontecido. Porque é demasiado escabrosa. Acima e antes de tudo, porque é demasiado estúpida. Mas os telefonemas existiram, Relvas confirma. As ameaças existiram, Relvas volta a confirmar ao pedir desculpa ao jornal. Inacreditável. Inacreditavelmente estúpido.

Sócrates também fazia telefonemas. Fazia pressão. Um deles, o mais famoso porque detalhadamente chibado, durou hora e meia. De que se queixa Monteiro? Do tom, dos berros que o magoaram tanto, coitadinho. Sócrates foi mal-educado, e isso configura uma pressão avassaladora quando estamos à frente do Expresso e instalados na fortaleza Balsemão, diz-nos o crocodilo chorão.

Outros jornalistas contaram histórias semelhantes, descrevendo um Sócrates muito rápido na marcação de números de telefone e invariavelmente a ferver em pouca água. Os relatos, consoante a agenda política, iam da hipócrita indignação à humorada lembrança. Também corriam boatos que metiam cinzeiros a voar e achaques vários. Sim, Sócrates é sanguíneo, não conseguindo dominar as reacções emocionais com a facilidade de um estóico, o que foi explorado como sendo uma falha de carácter, a manifestação de uma natureza violenta. Ora, como qualquer grupo de dois neurónios poderá conferir entre si, essa força era a mesma que o levava a entregar-se apaixonadamente às discussões, fosse no Parlamento ou numa entrevista. E o que ele mostrava era genuíno e, para humilhação dos adversários, convincente e admirável. Sócrates impunha-se pelo carisma e ocupava o centro – o PSD estava à beira da extinção, por isso fabricaram as campanhas e golpadas mais canalhas da história da democracia portuguesa.

Uma hora e meia com alguém ao telefone? Não terá sido para ameaçar divulgar detalhes da vida privada de jornalistas, com certeza, pois tal pulhice faz-se em segundos e depois já não dá para continuar a falar. Nesse episódio de Sócrates, e nos restantes similares, o que transparece é uma intimidade entre duas classes de profissionais em inevitável binómio de conflito-simbiose: políticos e jornalistas. Se há ali alguma moral a retirar, será a constatação de uma eventual ingenuidade do governante que acreditava conseguir convencer um poderoso jornal somente recorrendo às suas razões. E também ficou provado, pelo próprio Monteiro, que Sócrates não violou a lei nem a ética. Apenas a fina sensibilidade dos seus tímpanos.

Vinte Linhas 786

Dissertação para «Memórias» de Miguel López Herrera

No fundo, bem no fundo, todos nós somos memória, memória frágil que não cabe nas caixas de madeira de nenhum sótão. Nos três relógios aqui presentes, todas as horas nos ferem, um no bolso e dois na mesa-de- cabeceira. O tempo parou porque ninguém dá corda às máquinas antigas, ainda mecânicas num tempo de electrónicos artefactos. Há um pião que convoca uma tarde de infância ao lado de um livro de Tintin na Lua com o inseparável capitão Haddock e o cão Milú a servir de batedor.

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18 e 19 Maio: Conferência “Portugal na encruzilhada da Europa”

Pensei que era só amanhã, mas já começou hoje..
Nos próximos dias 18 e 19 de Maio, terá lugar em Lisboa uma conferência internacional promovida pelo partido da Esquerda Europeia e pelo Bloco de Esquerda, para debater a arquitetura do euro, o modelo social europeu e as alternativas à política da austeridade.
Na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (Edifício C3), em Lisboa, nos próximos dias 18 e 19 de Maio, terá lugar uma conferência internacional promovida pelo partido da Esquerda Europeia e pelo Bloco de Esquerda, para debater a arquitetura do euro, o modelo social europeu e as alternativas à política da austeridade.

Economia, trabalho e sociedade em análise, em debates abertos protagonizados por académicos e responsáveis políticos. A conferência inaugural estará a cargo de um convidado internacional, Jan Toporowski (London School of Oriental and African Studies) e de Mariana Mortágua. O encerramento caberá a Francisco Louçã.
Sábado, 19 Maio

9h | Sessão Plenária
O que falta na arquitectura do Euro?
José Castro Caldas (Centro de Estudos Sociais)
Mariana Santos (Economista, Bloco de Esquerda)
Ricardo Cabral (Universidade da Madeira)
Moderação: José Gusmão

11h | Painéis

1. A Austeridade e o(s) Direito(s) do Trabalho
Isabel Moreira (Constitucionalista, Deputada independente PS)
Nuno de Almeida Alves (Observatório das Desigualdades, CIES-ISCTE)
Catarina Martins (Deputada, Bloco de Esquerda)
Ana Cordeiro Santos (Centro de Estudos Sociais)
Moderação: Ricardo Moreira

2. Há esperança para um Estado Social Europeu?
Bastiaan van Apeldoorn (Vrije Universiteit Amsterdam)
José Reis (Centro de Estudos Sociais-FEUC)
Pedro Filipe Soares (Deputado, Bloco de Esquerda)
Moderação: Helena Pinto

15h | Portugal, Europa e as Alternativas
Marisa Matias (Vice-Presidente do PEE, Eurodeputada do BE)
Eugénio Rosa (Economista, Partido Comunista Português)
Pedro Delgado Alves (Presidente da Juventude Socialista, Deputado)
Ricardo Cabral (Universidade da Madeira)
Moderação: Cecília Honório

17h | Encerramento
Francisco Louçã

aqui

Eis o texto da Resolução aprovada hoje por unanimidade – um voto de saudação ao Dia Internacional de Luta Contra a Homofobia e Transfobia, proposto pelo PS sob iniciativa da JS

“O combate a todas as formas de discriminação representa uma missão fundamental dos Estados de Direito democráticos contemporâneos, traduzida entre nós de forma particularmente clara no artigo 13.º da Constituição da República Portuguesa e em diversos instrumentos internacionais vinculativos do Estado Português.

A homofobia e a transfobia representam uma real ameaça à realização da dignidade e liberdade individual das pessoas lésbicas, gays, bissexuais e transexuais, frequentemente alvo de tratamento discriminatório e mesmo de atos de violência motivados pela sua orientação sexual ou identidade de género.

No plano europeu, desde há vários anos que o Parlamento Europeu tem vindo a aprovar resoluções sobre esta matéria, apelando aos Estados membros da União Europeia a adotarem medidas adicionais de combate à discriminação em função da orientação sexual, tendo a Agência Europeia para os Direitos Fundamentais vindo a realizar um valioso trabalho de investigação, sensibilização e promoção do combate à discriminação.

O dia 17 de Maio (Dia Internacional contra a Homofobia e Transfobia – IDAHO no seu acrónimo em língua inglesa) é celebrado em todo o mundo e reconhecido oficialmente em diversos Estados e na própria União Europeia como a data em que se assinala o longo percurso do combate à discriminação homofóbica e transfóbica e a luta pelo reconhecimento de direitos face à lei, recordando o momento em que, em 1990, a Organização Mundial de Saúde retirou a homossexualidade da sua classificação internacional de doenças, derrubando uma barreira simultaneamente real e simbólica de preconceito homofóbico.

Neste quadro, num momento em que muitos Estados discutem formas de promoção da plena igualdade entre todos os seus cidadãos e cidadãs independentemente da sua orientação sexual ou identidade de género, e em que inserem nos seus ordenamentos jurídicos medidas de reconhecimento desta tarefa, cumpre não esquecer que muitos são também os pontos do globo em que a homossexualidade é ainda criminalizada e objeto de repressão pelos Estados, não sendo sequer permitido celebrar publicamente o dia 17 de Maio. Importa, pois, não só valorizar os passos de combate à discriminação dados entre nós e em muitos outros Países, mas também sublinhar o longo caminho que ainda cumpre trilhar à escala planetária até se lograr atingir o reconhecimento da individualidade de todos os seres humanos em condições de igualdade e dignidade.

Neste sentido, a Assembleia da República saúda a comemoração do Dia Internacional de Luta Contra a Homofobia e Transfobia e a determinação de todas as pessoas e movimentos da sociedade civil que em Portugal e à escala global procuram assegurar a erradicação da discriminação.”

Cineterapia


Tabu_Miguel Gomes

Rafa_João Salaviza

Fevereiro foi mês de holofotes apontados ao cinema nacional graças aos prémios que Tabu e Rafa obtiveram no Festival de Berlim. De imediato, a bandeira nacional foi desfraldada em prosas encomiásticas, cuja enorme maioria nem sequer tinha como falar dos filmes porque os seus escribas não os tinham visto. E, realmente, era o que menos importava. Ganhar qualquer coisa num festival artístico qualquer é o mesmo que ganhar um jogo de futebol, o que conta é o resultado. Todo o marketing vive desta falácia por associação.

Veio Abril, veio Maio. Estreou Tabu, estreou Rafa. Para onde foi o cortejo festivo? Para a crítica institucional, claro, e para uns poucos de espontâneos com genuíno ou copiado entusiasmo. Se da curta de Salaviza, até por o ser, não se esperavam grandes voos, do filme de Miguel Gomes antecipavam-se raptos cinéfilos inauditos, tamanha a expectativa justificada pelas anteriores obras do realizador. Mas para os cinéfilos amadores, amantes ingénuos e infantis das imagens paradas em movimento, a experiência é de desilusão ou indiferença.

Salaviza fez um exercício tecnicamente meritório que desemboca numa banalidade desconcertante. Miguel Gomes assina um dos melhores filmes portugueses de sempre, mas o qual expõe cruelmente as limitações narcísicas do seu mentor e realizador. Ambos se comprazem em percorrer os corredores dos labirintos criativos onde nunca se encontra uma saída para o exterior. Na verdade, essa verdade feita de luz e sombras, estes autores não querem sair dos espaços que habitam e onde recebem as visitas dos amigos. É para eles que filmam, os únicos seres que conhecem.

Alto e para o baile: afinal precisamos de um Plano Marshall

Quando pensávamos que a receita da austeridade em dose concentrada estava a produzir tão bons resultados, era a acertada, a imprescindível, a redentora, a inquestionável, enfim a única, o PSD vem agora deixar-nos abasurdidos com a ultrapassagem pela direita e pela esquerda, por cima e por baixo, da adenda para o crescimento proposta pelos socialistas (que deve complementar o novo Tratado europeu que consagra a máxima “a austeridade ou as galés”), passando a grande velocidade a caminho de um plano Marshall! O que terá corrido mal?

«O coordenador da Comissão Política do PSD defende a necessidade de a Europa encontrar uma “solução que complemente o tratado europeu” e “um mecanismo que promova o crescimento e emprego”. Uma agenda que “deve avançar o mais rápido e tão ambiciosa quanto possível como no pós-guerra com o Plano Marshall”, acrescenta. O número dois do PSD rejeita, porém, a possibilidade da maioria viabilizar a proposta dos socialistas para um protocolo adicional ao Pacto Orçamental com o argumento de que “pedir uma adenda é olhar para trás e desvirtua o tratado que tem como objectivo a disciplina orçamental”

E tamanha é a aceleração rumo ao novo Graal que “pedir uma adenda é olhar para trás”. Fangios, estamos convosco, como não?

Cantaremos vitória, aconteça o que acontecer

Somos tão bons a dar conselhos aos outros porque nessas situações não se trata de um problema nosso. É isso que permite vê-lo com objectividade, tratá-lo com lógica, inseri-lo em padrões de sentido onde ganham novos e benévolos contextos. Daí os psicólogos cognitivo-comportamentais treinarem os seus pacientes nessa técnica de despersonalização dos problemas pessoais, assim lhes reduzindo as componentes emocionais tóxicas e aumentando a atenção para as capacidades da inteligência do indivíduo na alteração do sentido das suas experiências.

É precisamente isso que podemos e devemos fazer em relação à crise na Europa. As omnipresentes interpretações neuróticas repetem que isto é tudo muito mau, uma desgraça, uma tragédia. Têm a sua razão, pois aumentou a pobreza em vários países europeus, o que apenas tem sido motivo de festa ali para os lados da Lapa. Porém, se conseguirmos escapar ao melodrama jornalístico e comentarista, se olharmos para a realidade de um ponto de vista histórico, aquilo a que estamos a assistir é grandioso: um momento crucial da construção europeia. E quem é que disse que iria ser fácil? Onde é que já se tentou levar a cabo uma união tão complexa e improvável, agravada pela complexidade e imponderáveis da ordem económica mundial? A Europa, devassada pelas maiores guerras de que há memória, apenas há 50 em ruínas, depois esmagada entre duas superpotências, tem vindo a criar um dos mais belos capítulos da civilização. Algo tão completamente original que, também por aí, se falhar, ou precisar de muito mais tempo para crescer, nem para os analfabetos será uma surpresa.

Por isso, de repente, a Grécia volta a ser o berço da democracia, suprema e dolorosa ironia. Num certo sentido, se acontecer o pior poderá ser o melhor; isto é, se o Syriza vier a governar, e se mantiver o intento de não respeitar as dívidas e sair do Euro, a incomensurável confusão daí resultante tanto para a Europa como para o Mundo será sempre um minúsculo preço a pagar pela glória de ver a vitória de um modelo político que é a mais consumada realização do génio humano que os bípedes implumes conseguiram, e conseguirão, fazer nascer das suas misérias. A história da Europa, muito mais do que o palco principal do cristianismo ou da génese e desenvolvimento da ciência, é essencialmente a gesta da liberdade.

Um livro por semana 286

«Antes que o sol acabasse» de Mário Machado Fraião

Este nono trabalho literário individual de Mário Machado Fraião (1952-2010) é o primeiro livro póstumo e foi escrito no tempo em que o autor trabalhou no volume colectivo «Manuel Teixeira Gomes, ofício de viver» (Tinta da China, 2010). No poema que dá título ao conjunto se recorda Portimão: «Aqui as igrejas estão caiadas / com suas barras azuis / e amarelas / outras envelhecem / para sempre esquecidas frente ao sol».

Nascido à beira do porto da Horta, o autor foi um infatigável viajante que passou por Évora: «eterno aprendiz / de feiticeiro / subindo a Rua de Machede / Ocultava / seguramente uma grave acusação / além de um ser estranho / pessoa / de fora / o frio de Janeiro percorrendo os ossos todos do meu corpo». Mas as melhores viagens são as dos barcos: «Os nomes oscilam sobre o cais / o Martim Moniz o Pedro Nunes / o Seixalense / Pequenos grupos / ou pequenas multidões / incessantemente / atravessam os longos corredores metálicos / sobre as águas / ínfimas parcelas no largo firmamento que nos cobre».

Entre a terra e o mar, o barco escreve o amor: «E enquanto as madeiras rangem / pode haver / nas tábuas do casco / uma flor / o nome da mulher amada / uma estrela na proa». E a paz pode ser o outro nome do amor: «Mas se finalmente / nos decidimos a descer / procurando o vento / uma brisa aqui tão quente / com sabor a pêssegos / amêijoas / amêndoas / logo encontraremos as ondas / verdes / a espuma bravia / e uma paz imorredoira percorrerá os nosso corpos / nessa imensa água grande / onde os dois mares se confundem / e assim atravessando o Verão eternamente».

(Edição: O Telégrapho – Horta, Prefácio: Victor Rui Dores, Fotografias: Renato Monteiro)

Manifestem-se, então

O Manifesto para uma esquerda livre tem o grande mérito de enfrentar a besta logo à cabeça dos seus objectivos principais:

UMA ESQUERDA MAIS LIVRE, com práticas democráticas efetivas, sem dogmas nem cedências sistemáticas à direita, liberta das suas rivalidades, do sectarismo e do feudalismo político que a paralisa. Uma esquerda de cidadãos dispostos a trabalhar em conjunto para que o país recupere a esperança de viver numa sociedade próspera e solidária.

Sem dúvida que o vocábulo mais importante dos 51 que constituem o parágrafo é este: sectarismo. Donde vem o sectarismo? Quem o cultiva? Quem depende dele para manter a sua identidade? As respostas vão dar todas ao BE e ao PCP. Recorde-se o patético do BE a querer antecipar-se ao PCP na moção de censura em 2011, depois do BE ter feito o mesmo ao PS com Alegre para as presidenciais e já antes para o desgaste do Governo maioritário. Um líder desvairado, ofuscado pelas luzes do palco e a imaginar-se o grande comandante da esquerda grande sem ter ninguém no partido para lhe fazer frente, sequer chamá-lo à terra. Recorde-se o conservadorismo religioso do PCP, absolutamente imune a qualquer tentativa de aggiornamento e, como consequência, cristalizando o discurso nas barricadas de um patriotismo reactivo e fóbico. Recorde-se o encontro do BE com o PCP no período eleitoral de 2011, depois de terem contribuído para as condições em que a vitória da direita seria inevitável e com os futuros aproveitamentos da crise que se anteciparam à exaustão, e de como essa reunião não passou de uma triste farsa que nem os próprios se esforçaram para esconder.

De facto, não será sensato esperar das cúpulas do PCP e BE, e sua legião de fanáticos, qualquer ponte com o PS, sequer entre si. É aqui que o parágrafo, como o Manifesto ele próprio, entra em imediata contradição, pois a expressão “cedências sistemáticas à direita” é a fórmula pela qual a retórica da esquerda verdadeira trata o socialismo democrático. Como é que os proponentes e signatários pretendem resolver o imbróglio? Quem é que vai definir os limites das cedências legítimas ou assistemáticas? Aliás, o que será exactamente uma cedência? Lendo e relendo o Manifesto, olhando para o elenco pensante, rigorosamente ninguém saberá responder a estas perguntas. Estamos tão-só perante um conjunto de lugares-comuns do que seja a esquerda enquanto largo território ideológico, generalidades que não resistem a uma primeira discussão sobre qualquer acto governativo concreto sem que tal cause fatal dissensão no maralhal.

Inútil, então, esta iniciativa? Para começar, por ousar colocar o problema do sectarismo no centro do impasse da esquerda em Portugal, não. Mas se contemplamos apenas um fogacho saído da frustração e cansaço de alguns ou se testemunhamos o começo de um movimento onde a inteligência e coragem dos seus líderes seja capaz de reunir cidadãos dispostos a trabalhar em conjunto para que o País recupere a esperança de viver numa sociedade próspera e solidária, isso só o tempo poderá revelar. Tendo em conta o modo como várias das vedetas signatárias alinharam no boicote e demolição dos Governos socialistas, juntando-se a campanhas de assassinato de carácter produzidas pela escória dos direitolas, os prognósticos são muito, muito, mas mesmo muito reservados.

Um conselho à borla

«É sabido que por ordem do Governo, e por instrução minha direta, as Forças Armadas portuguesas aprontaram uma força que tem como missão a eventual necessidade de resgate de cidadãos portugueses na Guiné-Bissau e não qualquer outra, esses meios têm estado em movimento de modo a que possam estar operacionais caso essa eventualidade se venha a colocar, trata-se de uma pura ação de prevenção destinada a salvaguardar os interesses dos cidadãos portugueses», afirmou Pedro Passos Coelho.

Fonte

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O envio para Guiné-Bissau da Força de Intervenção Rápida – composta por duas fragatas, uma corveta, um navio reabastecedor, um avião P-3 Orion, um avião C-130 e mais de 1000 homens – foi decidido em cima do golpe de Estado. O argumento invocado, a protecção dos portugueses aí residentes, era estranho logo à partida. E cada vez mais estranho à medida que se pensava nele. Por um lado, não havia relatos de ameaças contra a integridade física ou bens da comunidade portuguesa na Guiné, sendo que um português lá residente até relatou para na TSF a normalidade da anormalidade, dizendo que já estavam todos habituados aos golpes sucessivos e que esperavam tranquilamente que a situação voltasse ao habitual. Quase que bocejava ao relatar o que via à sua volta. Por outro lado, porque em caso de emergência militar seria Angola quem estava em melhores condições logísticas, quiçá igualmente políticas, para intervir no terreno. Pelo meio, não se percebia como iria esta força militar portuguesa servir para evacuar os mais de três mil cidadãos nacionais que residem só em Bissau, nem se entendia a sua dimensão se a finalidade fosse apenas a de resgatar umas dezenas ou centenas de indivíduos no meio de um conflito aberto. O que se compreendeu foi a tentativa de Portas para liderar a resposta internacional, tendo iniciado um processo de intenso envolvimento diplomático, à mistura com declarações contundentes contra os golpistas. Da parte da oposição, nem um vagido se soltou, unanimidade política na Grei.

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