Apareceram algumas figuras a dizer que Relvas não poderia ter feito aquilo de que está duplamente acusado – primeiro pelo Conselho de Redacção, depois pela Direcção Editorial do Público – porque essas personalidades eram amigas do homem e afiançavam que ele era um gajo impecável, sério, talvez um bocadinho desbocado, mas um porreiraço, e seriamente sério à séria. Há tanto para dizer sobre esta linha inane de argumentação que o melhor é nem dizer nada. Eu só gostaria que esses que tais dessem a sua opinião a respeito destas palavrinhas do seu grande amigo:
“Eu quero chegar a casa, depois de ganhar as eleições, todos os dias e quero que a minha filha tenha orgulho daquilo que está a ser feito”, disse o porta-voz do PSD, acrescentando: “Eu no lugar do engenheiro Sócrates tinha vergonha, eu se fosse parente do engenheiro Sócrates escondia que era parente dele”.
Que tipo de perfil psicológico podemos desenhar de quem faz estas declarações em público – nunca tendo pedido desculpa a ninguém dos vários ofendidos e dos muitos insultados – para mais sendo-se secretário-geral e porta-voz do PSD e estando a discursar para estudantes? Que indícios, que traços, que pistas esta incursão na vida familiar de um adversário político, e apontando directamente aos seus filhos menores, podemos recolher para atestar das pulsões e compulsões do indivíduo? Enfim, como avaliar a violência destas declarações?
Relvas já devia ter sido demitido pelo modo leviano e enganador como tratou os deputados da comissão parlamentar na audição a respeito da sua relação com Jorge Silva Carvalho. Acontece que para tal ser possível era necessário que o Primeiro-Ministro tivesse existência própria, e não a tem. Passos e Relvas são exacta e literalmente as duas faces da mesma péssima moeda. Se Relvas cair, Passos não se aguenta. Assim, Relvas não pode cair. Isso levanta uma questão fascinante: sendo impossível não atribuir credibilidade à posição do Público, o modo como se vai manter Relvas no Governo será um capítulo historicamente novo na política nacional. E o que Seguro então fizer, ou não fizer, será igualmente definidor do seu destino no PS.





