Cineterapia


Tabu_Miguel Gomes

Rafa_João Salaviza

Fevereiro foi mês de holofotes apontados ao cinema nacional graças aos prémios que Tabu e Rafa obtiveram no Festival de Berlim. De imediato, a bandeira nacional foi desfraldada em prosas encomiásticas, cuja enorme maioria nem sequer tinha como falar dos filmes porque os seus escribas não os tinham visto. E, realmente, era o que menos importava. Ganhar qualquer coisa num festival artístico qualquer é o mesmo que ganhar um jogo de futebol, o que conta é o resultado. Todo o marketing vive desta falácia por associação.

Veio Abril, veio Maio. Estreou Tabu, estreou Rafa. Para onde foi o cortejo festivo? Para a crítica institucional, claro, e para uns poucos de espontâneos com genuíno ou copiado entusiasmo. Se da curta de Salaviza, até por o ser, não se esperavam grandes voos, do filme de Miguel Gomes antecipavam-se raptos cinéfilos inauditos, tamanha a expectativa justificada pelas anteriores obras do realizador. Mas para os cinéfilos amadores, amantes ingénuos e infantis das imagens paradas em movimento, a experiência é de desilusão ou indiferença.

Salaviza fez um exercício tecnicamente meritório que desemboca numa banalidade desconcertante. Miguel Gomes assina um dos melhores filmes portugueses de sempre, mas o qual expõe cruelmente as limitações narcísicas do seu mentor e realizador. Ambos se comprazem em percorrer os corredores dos labirintos criativos onde nunca se encontra uma saída para o exterior. Na verdade, essa verdade feita de luz e sombras, estes autores não querem sair dos espaços que habitam e onde recebem as visitas dos amigos. É para eles que filmam, os únicos seres que conhecem.

9 thoughts on “Cineterapia”

  1. Primo, também gosto muito do Arena, creio até ser impossível que alguém não goste. Termina maravilhosamente bem, pleno de lirismo. Mas não deixa de ser um cinema para estetas, epidérmico.
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    hugo, cruel? O Tabu, repito, é um dos melhores filmes portugueses de sempre.

  2. Eu não posso responder porque ainda não fui ver os filmes. Onde moro o Tabu só
    sai em Dezembro. Mas a avaliar pelo Querido Mês de Agosto (e até pelo A Cara que
    Mereces) duvido que tenhas razão. O Miguel Gomes filma apenas para os amigos?
    Os filmes dele são acessíveis a todos, cheios de humor, música… Mas têm uma estrutura tão rica e intrincada, tão cheia de detalhes interessantes que, embora partam de coisas triviais, desenvolvem-se muito para lá disso. É como o Tintin e o Hitchcock, dos 7 aos 77,
    para todos até aos que sentido estético não têm nenhum.

    Acho piada essa do cinema para estetas. No próximo post, faz favor de sair uma crítica contra a música para melómanos e contra a pintura para estetas. Um cinéfilo amador é aquele que reconhece as referências onde elas existem a Murnau, Vertov, Ruttman, Griffith, Godard, etc. Caso contrário não é cinéfilo. Pode ser inteligente, pode ser boa pessoa, pode gostar de ir ver o Woody Allen. Mas não é cinéfilo.

  3. Muito gira essa tua metáfora dérmica. Gostava imenso de discordar, mas tens razão. Até devido à questão do formato (curta-metragem). E fiquei a pensar do quanto do que me faz vibrar a corda sensível é assim: epidérmico. E é muito.

  4. Não vi o do Salaviza, vi o Tabu. Falar para o umbigo e descrever em linguagem monocórdica aquilo que se vê em imagens de album de recordações podia ter assassinado completamente o filme. Como o filme resistiu muito bem a tudo isto, deve ser do melhor que já se fez em Portugal. O espectador, claro, é um voyeur ao qual não se permite qualquer emoção. Isso é propriedade do autor e suas personagens.

  5. Miguel, concordo com tudo o que escreves, incluindo o espaço em branco entre as letras. Dando uma prova da empatia, “Aquele querido mês de Agosto” é um dos meus filmes favoritos de todos os que já vi na vida. Porém, tal não me impede de considerar que Miguel Gomes persegue o seu mundo e é nele que quer ficar. Quanto ao teu remoque a respeito dos estetas, lembro-te que há uma (ou sete, ou setenta vezes sete) razão para que se chame 7ª arte ao cinema. Ao reduzir a obra a essa categoria, estou a fazer um simplismo cujo propósito é apenas o de sintetizar a minha experiência e dar-lhe um sentido interpretativo.

    A respeito dos cinéfilos amadores, sim e não. Sim, se forem educados, dominando a literatura cinematográfica como referes. Não, se apenas forem ao cinema por indomável gosto pela fruição das sombras luminosas, para nada ocupando a memória com uma literacia de que não fazem gasto.

    E muito obrigado pelo teu comentário, que veio enriquecer esta conversa.
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    Primo, creio que bem te compreendo.
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    edie, muito bem visto.

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