Vinte Linhas 786

Dissertação para «Memórias» de Miguel López Herrera

No fundo, bem no fundo, todos nós somos memória, memória frágil que não cabe nas caixas de madeira de nenhum sótão. Nos três relógios aqui presentes, todas as horas nos ferem, um no bolso e dois na mesa-de- cabeceira. O tempo parou porque ninguém dá corda às máquinas antigas, ainda mecânicas num tempo de electrónicos artefactos. Há um pião que convoca uma tarde de infância ao lado de um livro de Tintin na Lua com o inseparável capitão Haddock e o cão Milú a servir de batedor.

As máscaras são africanas e alguém as trouxe para o sótão da memória. Talvez um familiar da mulher, cansado do absurdo da guerra entre 1961 e 1974. Tal como no Teatro ou na Poesia, uma máscara serve de ponte para chegar ao Outro. Ligar de novo dois mundos separados pela noite, pela angústia e pela morte.

Ao centro do quadro uma mulher sorri e decifra a aparente confusão das caixas abertas no sótão. As bolas coloridas anunciam movimento e esforço; os relógios parados são o tempo cristalizado e suspenso.

Alguns esboços não chegam a ser desenhos tal como as flores parecem feitas de vapor num certo tom de rosa. A mulher ao centro organiza o espaço e faz a pontuação da história. Porque há uma história com peixes e pássaros no alto das máscaras, cada um a procurar o seu elemento: a água de onde veio a vida e o ar que continua na respiração sem fim e no vento sem fronteiras. Entre pássaro e peixe, uma mulher ordena de novo a luz do Mundo quotidiano. Quando o sol bate em pleno nos carris da Rua da Misericórdia, é como se tudo aqui fosse de cristal. Tudo. Até a memória.

8 thoughts on “Vinte Linhas 786”

  1. para variar, o prato do dia é publicidadeao 3º. aniversário da allarves, a única galdéria d’arte que ainda não te deu com os pés e com quem mantens uma relação manhosa. delirei com a interpretação prosopoética que fazes do quadro memórias, só comparável em absurdo e aldrabice, que me lembre, à última inquirição do relvas no parlamento. atão aquela das máscaras africanas, não lembraria nem ao familiar da mulher do herrera que teria feito erasmus na guerra colonial.

  2. pois, é tudo de cristale pá, até a memória e parte-se tudo, como tu pá, que tesqueces meu que ofendes tudo e amis alguém e continuas como o cão sem bergonha pá, a puvlicare ensaios de sensibilidade made in xaina. Baie a cumer milho pá ou salmão, por causa das bitaminas,cumá Omega 3. Cum catano.

  3. e olha cú gajo la em cima com um peito do caraças e um cabelo á espantalho, ainda podias ser tu sem barba, meu granda cromo, XECA GALHÃO. com um cartaozinho ao pêto, inté alembra tu a ires às feiras pra cumer à borliu.

  4. Sim senhor!

    Prosa de primeira água, e uma sensibilidade de interpretação onde se vislumbra o enorme poeta que o autor também é.

    Em suma, um momento único no nosso dia.

    Não sei como pude viver tantos anos, sem conhecer a existência de José do Carmo.

    Vivi na obscuridade, foi o que foi.

    Felizmente, agora, temo-lo aqui todos os dias, a ajudar-nos a ultrapassar este tempo sombrio das troikas…

    P.S. – Mas há aqui uma pequena falha: o poeta não menciona no texto nenhuma figura pública, célebre, pertencente ao seu círculo de amigos. Espero que não as tenha esgotado.

  5. Era o jumento agora é a madorna. Não sei se diz bem do xico se diz mal. o XICO TAMBÉM NÃO SABE O QUE DIZ. é memória, é cristal, é “Quando o sol bate”. Esta fez-me lembrar:

    Quando o sol bate além
    no cume daquela serra,
    do cume saem também
    peidos que caem na terra.

  6. peidos que caem na terra
    tal qual trovoes em debandada
    lá fica o Xeca Galhão
    sem jeito e sem nada

    ehhhheheheh

    Ó Xeca já bistes a língua unissona que perdura entre os gajos a quem tu te atrebes a chamar lixo humano e malucos? e nunca nos bistes a iscrebere e falare a sério, tás a bere, hora cunbida-nos para uma tertúlia das tuas páh, podes lebar o cimento, a bécula, e a que tem dois nomes.
    oube, atão o teu teixto tá incumpleto pá, olha que o madorno tem razão, fogo, onde tão os gajos importantes qu etu não cunheces e dizes que frequentas pá?Catano, olha ca boneca com o cabelo ouriçado pá parec mesmo tu, com o cartaãozinho, debe ser assim que fazes quando bais às feiras charolesas pra comer chanfana á conta do outro freguês.

    Gostas da poiasia? Cum caraças, isto sim é poesia on line, birtuale, que num encontras em sítio nenhum, pá, tu inspiras a malta, bamos semprte todos adare ao mesmo. BARDA

  7. Só vocês para me fazerem rir: ignatz, voltaren, poeta da treta e Carlos Madorno!!! Só pelos vossos comentários merece a pena vir aqui aos posts do da benedita. Abençoada escrita, meus!!! E quantas verdades vocês dizem com o vosso humor. O outro faz orelhas moucas, que remédio!!! Nem a aspirina o salva!!! Por favor, continuem porque fazem aqui muita falta. Sem vocês era o DESERTO!! Saúde e continuação de boa-disposição para todos!!!

  8. «Ao centro do quadro uma mulher sorri e decifra a aparente confusão das caixas abertas no sótão.»

    Fogo, pá, fogo, ó meuzinho, oube lá, pá, atão a gaja está incostada com os Pêtos todos descaídos, a olhar laconamente pra frente com o cartão na mama, cumo ca dizere «ói, estão mi enxergando, hein,meus chapa?», e tu bens com esta gaita ca gaja tá a decifrari aquela cousada toda?! Hein? Se tibesse, meu carapau seco, gaja tba era debruçada com o cálcio sobre a arca, meuzinho. ora o cavelo dela está todo alebantado, parece que lhe passou o metro por baixo pá!A mulher tá-se a soltar, isto é, a espremer pró sótão, pá! onde bês o sorriso? hein? A gaja faz é parte da confusão que baie na tua cabaça, pá!
    E olhando pró interiore da caixa, não parece haber confusão, falta é um dossier prós papéis, como aquela gaita cheira a passado, nessa altura num habia dossieres, pá, é natural caquilo andasse ali meio desordenado, pá.

    E a do pião?! Ai a do pião? Atão o pião deu-lhe pra fazer cunvocatórias, ó pá, num bejo ali o Tintin na Lua, ganda cromo, oube, tu tás a insinuare que o tintim foi o primeiro a ir à lua, ó cagamelo, porra tanta fição, tamém não, carago. Já me cansastes.

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