Um conselho à borla

«É sabido que por ordem do Governo, e por instrução minha direta, as Forças Armadas portuguesas aprontaram uma força que tem como missão a eventual necessidade de resgate de cidadãos portugueses na Guiné-Bissau e não qualquer outra, esses meios têm estado em movimento de modo a que possam estar operacionais caso essa eventualidade se venha a colocar, trata-se de uma pura ação de prevenção destinada a salvaguardar os interesses dos cidadãos portugueses», afirmou Pedro Passos Coelho.

Fonte

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O envio para Guiné-Bissau da Força de Intervenção Rápida – composta por duas fragatas, uma corveta, um navio reabastecedor, um avião P-3 Orion, um avião C-130 e mais de 1000 homens – foi decidido em cima do golpe de Estado. O argumento invocado, a protecção dos portugueses aí residentes, era estranho logo à partida. E cada vez mais estranho à medida que se pensava nele. Por um lado, não havia relatos de ameaças contra a integridade física ou bens da comunidade portuguesa na Guiné, sendo que um português lá residente até relatou para na TSF a normalidade da anormalidade, dizendo que já estavam todos habituados aos golpes sucessivos e que esperavam tranquilamente que a situação voltasse ao habitual. Quase que bocejava ao relatar o que via à sua volta. Por outro lado, porque em caso de emergência militar seria Angola quem estava em melhores condições logísticas, quiçá igualmente políticas, para intervir no terreno. Pelo meio, não se percebia como iria esta força militar portuguesa servir para evacuar os mais de três mil cidadãos nacionais que residem só em Bissau, nem se entendia a sua dimensão se a finalidade fosse apenas a de resgatar umas dezenas ou centenas de indivíduos no meio de um conflito aberto. O que se compreendeu foi a tentativa de Portas para liderar a resposta internacional, tendo iniciado um processo de intenso envolvimento diplomático, à mistura com declarações contundentes contra os golpistas. Da parte da oposição, nem um vagido se soltou, unanimidade política na Grei.

Um mês e seis milhões de euros depois, a nossa exibição bélica voltou a casa. Diplomaticamente, estamos perante um fiasco, pois quem controla as negociações não é a CPLP mas a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental. O Ministro da Defesa, o pândego Aguiar-Branco, disse esta coisa maravilhosamente debochada para justificar o espectáculo:

Para o ministro é claro que “os portugueses nunca perdoariam” se o Governo não tivesse agido perante um golpe de Estado noutro país onde existe “uma importante comunidade portuguesa” e que, perante isso seria necessário “salvaguardar os interesses e as vidas dos cidadãos portugueses nesses países”.

Perante o facto de Portugal ter realizado uma operação de resgate em que não resgatou nem um só português, Aguiar-Branco referiu que “a operação de acautelar e salvaguardar a comunidade portuguesa na República da Guiné-Bissau ou em qualquer outra parte do mundo tem de merecer por parte do Governo e do Estado português uma resposta como esta, de forma absolutamente competente e exigente”.

Quer isto dizer que as comunidades portuguesas espalhadas pelo Mundo podem respirar de alívio. Golpe na Venezuela? Três dias depois temos lá as fragatas e as corvetas com as armas apontadas a Caracas. Golpe em Luanda? Angola voltará a ser nossa em menos de uma semana. Golpe na China? Avisem o Stanley Ho para ficar descansado que já vamos a caminho. Golpe na França levado a cabo pela Merkel disfarçada de tirolesa? Desimpeçam o Sena para deixar passar a nossa armada invencível.

Não é à toa que este Governo tem apelado ao indígena para emigrar. É que quão mais portugueses estiverem sujeitos a golpes de Estado no ultramar e nesses cus do mundo, mais os nossos bravos Ministros poderão brincar aos generais valentes. Convém é que se mantenha esta tipologia de mandar a tropa contra pretinhos muito pobrezinhos, fica o conselho à borla para não agravar a factura.

10 thoughts on “Um conselho à borla”

  1. Atenção que a Guiné Bissau já foi invadida pelo Senegal em 1998 mas os senegaleses foram corrido.

    Desta vez vai entrar a bem um exército estrangeiro, será que desta vez a Guiné irá sobreviver?

    Pelo menos como PALOP?

    É que Sekou Touré dizia que Guiné era só uma a Guiné de Conacri.

    Em 1998 a Vasco da Gama esteve em Bissau, desta vez não subiu o Geba.

    Já há uns anos andámos a acender velas por Timor e Ramalho Eanes ainda foi lá de barco, e agora como será com Bissau?

    A ver vamos!

  2. Sem o menor indicio de violência contra a comunidade portuguesa, como acontecera em anteriores golpes militares, Passos Coelho, com fartura de dinheiro, avançou rápido e em força.
    Já que se fala em criminalizar os governantes por decisões políticas ruinosas, não seria curial a justiça agir em cima dos que as estão a praticar do que entreter-se com os políticos apeados?
    Era isso, sim, se a intenção fosse mesmo visar a gestão ruinosa da coisa pública e não uma adeterminada força partidária do “arco do poder”, o PS. Assim se compreende o silêncio da combativa esquerda mais esquerdista.Já, agora, também se compreede a absoluta apatia do PS-Seguro. E segurado pela trela da direita atroikada
    Está linda a festa, pá.

  3. Para a Guiné, e em força!Este ministro da defesa parece que ainda está a viver a grande noite fascista.Um povo guineense,afavel que gosta dos portugueses,e uns governantes e ex governantes,que tem a noção da sua força, e tambem a amizade que nutrem pelos portugueses a todos os niveis, são argumentos suficientes,para não se fazer um raid,desta dimensão. 3 barcos e 2 aviões e um total de 1000 homens,só pode ser um ato tresloucado.Os golpes na Guiné pela sua frequencia,já sao uma especie de” prato do dia” ou uma especie de luta entre super dragões e os diabos vermelhos.Um avião com uma força de comandos de 50 homens,era gente suficiente para acalmar pela sua simples presença aquela gente da politica guineenses .A incompetencia do ministro, prolongou-se por toda a semana,ao sabermos que um ou os dois submarinos iam ficar em terra por falta de dinheiro.Certa a medida ( primeiro telefonou a P.Portas a perguntar se não se importava.. ) mas já que os compramos,temos que tirar algum partido daqueles “monstros faraonicos” de custo permanente. Quanto custa mensalmente a manutenção e a tripulação? quantas scuts pagava aos concessionarios ao fim de 10 anos? a utilidade que devemos dar, mesmo parados ainda é relevante se não o anunciarmos para descanço do narco trafego e de frotas pesqueiras nas nossas aguas a actuarem ilegalmente.Para terminar,Um pessimo ex Ministro da justiça,um mediocre lider parlamentar,não pode ser um bom ministro de coisa nenhuma.A correlação de forças no partido (a area metropolitana do Porto é a maior força do Psd)é que permite estas aberrações. Termino como comecei com mais esta frase de Salazar” está tudo bem assim e não podia ser de outra forma”

  4. Diz o Branco aos pretos: «Para o ministro é claro que “os portugueses nunca perdoariam” se o Governo não tivesse agido perante um golpe de Estado noutro país onde existe “uma importante comunidade portuguesa”.

    Tem razão. Os portugueses só perdoam mesmo é quando a tropa e o seu comandante supremo, o presidente da república, não agem de todo perante um verdadeiro “golpe-de-estado”, em modo suave, como o que ocorreu em 2009-2011, precisamente no País onde existe a maior comunidade portuguesa de todo o Mundo…

  5. Não devemos estranhar. O Portas sempre foi um “herói do mar”. Quem não se lembra da corveta (ou era uma fragata?) que impediu o “seawaves” (“o barco do aborto” holandês) de atracar na doca Figueira da Foz em 2004?

  6. É difícil Portugal e os portugueses entenderem-se entre si, é da história, mas em casos como este, mesmo que o sucesso ou insucesso da operação se possa quantificar e criticar, mas não se deve misturar com “politiqueirice”

    Pior são os ingleses que nem o Elton John vira cantor de intervenção pelo facto de haver soldadinhos, em caixas de pinho, que vêem do Afeganistão

  7. Nestes casos Biokill, o melhor é meteres-a-viola-no-saco.

    Ou então faz como o Elton John, fica calado quero eu dizer.

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