Proverbial

A necessidade de pôr as contas públicas em ordem impede o Governo de assumir a possibilidade de baixar os impostos até 2016, o que implica não reduzir a carga fiscal para famílias e empresas durante esta legislatura. Quem o admite é o Executivo, no Documento de Estratégia Orçamental para o período 2012 a 2016.

Fonte

__

Os partidos que juraram ser melhor a troika do que o PEC IV, que juraram ter a situação económica toda estudada de trás para diante pelas suas brilhantes cachimónias, que juraram ir acabar com os sacrifícios impostos pelos xuxas, que juraram só cortar gorduras e deixar músculos formosos e nervos intactos, que juraram ser a crise dos mercados um problema apenas moral a ser resolvido logo que se trocasse os gatunos rosa pela gente séria do laranjal, que juraram não ser preciso aumentar impostos ou cortar salários assim que fossem Governo, são os mesmos que mais mentem aos portugueses, e com pleno à-vontade e gozo, desde que há memória de mentirosos a mentirem em S. Bento.

Tinha de ser assim? Tinha, os provérbios nunca se enganam.

Confronte-se

Vamos partir das declarações de ontem de Jean Claude Juncker, o presidente do Eurogrupo, que decidiu abandonar o cargo em Julho, farto da dupla Merkel/Sarkozy: “Eles actuam como se fossem os únicos membros do grupo“. Mas já em Dezembro afirmara: “Às vezes acho curioso que a Alemanha se sinta como se estivesse rodeada de pecadores da estabilidade. Nos últimos três anos, houve sempre entre nove e 11 países que tinham dívidas públicas menores que a Alemanha“.

Temos então que se confirma, por ser evidente, que, tivesse a Alemanha e o seu cachorro Sarko agido em prol da Europa e sem moralismos deslocados e abusivos (Sarko buscando protagonismo e Merkel o apoio do eleitorado alemão) quando a crise atacou a Europa por via da especulação, até porque o rigor orçamental já estava a ser exigido e vigiado há muito, muitos dos dramas a que hoje assistimos poderiam ter sido evitados. Refira-se o desemprego maciço, o fecho de pequenas e médias empresas, a quebra acentuada de receitas, o confisco de salários, a emigração forçada, a fuga de quadros (muitos deles para a Alemanha), a degradação dos setores da saúde e da educação, a insegurança, enfim um governo chefiado por Passos. Num país com os salários mais baixos da zona euro, note-se.

Justiça seja feita, porém, à Europa: o modelo de desenvolvimento que estava a ser seguido por Portugal antes de a crise eclodir, e mesmo depois, apesar das forças adversas, era compreendido e merecia a aprovação dos nossos pares europeus, Alemanha à cabeça. Só que o Governo, após campanhas e mentiras miseráveis da oposição, caiu. Com facilidade imaginamos, depois da queda de Sócrates, Angela Merkel a ter um sobressalto que lhe abanou as bochechas, ao olhar incrédula para o novo e surpreendente cahorrinho que se lhe apresentava, se lhe colava às saias e lhe suplicava: “Meine liebe Frau, chame-nos irresponsáveis, bitte! E gastadores e pouco produtivos e preguiçosos, bitte!” “Gut. Prrrecisamos de engenheiros”, respondeu ela, pensando “Mas quem é este idiota?”.
Se a Europa enveredar entretanto por um novo rumo, Passos e Gaspar que dirão e que farão? Há uma semana, em comentário ao resultado das eleições francesas, ouvi João Duque, essa curiosidade, afirmar que seria uma pena Hollande ganhar, porque se perderia a oportunidade de provar o que vale o modelo que está a ser seguido (referindo-se à austeridade geral, total e concentrada). Como se a prova não estivesse à vista.

Depois desta lamentável e infeliz perda de tempo, ouvimos agora, lá de fora, que tem que haver uma política de crescimento e estímulos à economia, sob pena de todos os países se afundarem e com eles a Europa (ainda mais), enquanto, cá dentro, Cavaco tem a distinta lata de dizer, um ano depois, que a nossa economia não pode assentar nos salários baixos e elogia as apostas do governo anterior. Os idiotas que subiram ao poder, por sua vez, não podem deixar de dar continuidade a políticas recentes e recebem os louros das exportações e da diversificação dos mercados, outras das grandes apostas de Sócrates, tudo indica conseguida, a única coisa até que parece correr bem.

O pedido de empréstimo à Troika foi efetiva e objetivamente prejudicial ao país, como sabemos que alguém sabia. Não iremos nunca competir com a China e não podemos deixar de qualificar as pessoas nem de mudar o nosso tecido produtivo. A breve trecho, eles nem vão sequer poder recusar grandes obras públicas, como se verá.

Sê rei de ti próprio – IV

O nascimento da democracia, essa espantosa ideia que acelera o passado, ocorreu em vivência urbana. Sem cidades, sem aglomeração de indivíduos que ultrapasse os laços familiares mais distantes num espaço que obrigue à interacção quotidiana, a democracia deixa de ser necessária, ou útil, ou urgente.

O grau de participação dos primeiros democratas, na soalheira Atenas de antanho, era elevadíssimo quando comparado com a nossa concepção moderna de democracia representativa. Para lá das causas culturais e históricas que explicam as diferenças entre as duas formas, um factor incontornável é o da quantidade de habitantes: quão maior for a população com direitos políticos, menor será o poder exercido directamente por um cidadão. Hoje é comum ouvir-se dizer que não vivemos num autêntico regime democrático por nos limitarmos a eleger aqueles que decidem por nós, mas quem assim infantilmente se queixa nunca demonstra a viabilidade de um qualquer modelo alternativo.

Estaremos, pois, condenados a limitar a nossa actividade política ao preenchimento de boletins de voto e à participação em caminhadas ocasionais no centro das cidades? Será obrigatório entrar para um partido para exercer um efectivo poder político? Acaso alguém consegue iniciar um movimento transformador da sociedade apenas contando com a sua magnífica pessoa? Se respondermos afirmativamente a qualquer uma destas perguntas estaremos a envergonhar e ofender todos aqueles, incontáveis, a quem devemos o Estado de direito e uma civilização que tem como um dos seus valores supremos a liberdade.

Se eu consigo escrever estas palavras, tu consegues escrever outras palavras. Se tu consegues ler as minhas ideias, eu consigo ler as tuas. Podemos comunicar, podemos tomar decisões. E conseguimos aprender, estudar, investigar. O mundo precisa de mais blogues, mais tuítes, mais facebookianos? Sei lá. Mas sei que a democracia precisa de mais inteligência e de mais coragem. Para todo o sempre e ainda mais um bocadinho. E isso atinge-se com aquilo que faz a inveja dos anjos e deixa os demónios a chuchar no dedo, a força de vontade. Depois, se queremos ser de direita, esquerda ou centro, assim ou assado, com esta utopia ou com aquele realismo, tanto faz. Estar rodeado de quem se ajuda a si próprio a ficar mais inteligente e corajoso é a realização perfeita do sonho democrático.

Vinte Linhas 774

O postal do professor Bonacho e os conceitos do Tomás

O postal da Delegação Escolar de Caldas da Rainha, assinado pelo professor Bonacho, não tem data mas é de Abril de 1961 e marca o exame da 3ª classe para o dia 10 às 9 horas. Foi este postal que me resolveu o problema que se arrastava desde Outubro de 1958 pois, tendo nascido em Fevereiro de 1951, fui obrigado e entrar para a Escola no Montijo com sete anos feitos em vez de com seis anos e prestes a fazer sete. Fui acabar a 2ª classe já a Santa Catarina com 19 valores em Junho de 1960. Com o exame da 3ª em 10-4-1961 e da 4ª em 4-7-1961 cheguei à admissão ao Liceu e Escolas Técnicas em Agosto de 1961 em Leiria. Tudo se resolveu a bem (para mim) e a bem da Nação (para eles) e lá entrei para a Escola Técnica de V.F. Xira em Outubro de 1961. O postal, simples postal com o emblema da República, veio pelos CTT, não tem selo nem código postal mas foi parar ao seu destino e produziu os seus efeitos.

Continuar a lerVinte Linhas 774