Confronte-se

Vamos partir das declarações de ontem de Jean Claude Juncker, o presidente do Eurogrupo, que decidiu abandonar o cargo em Julho, farto da dupla Merkel/Sarkozy: “Eles actuam como se fossem os únicos membros do grupo“. Mas já em Dezembro afirmara: “Às vezes acho curioso que a Alemanha se sinta como se estivesse rodeada de pecadores da estabilidade. Nos últimos três anos, houve sempre entre nove e 11 países que tinham dívidas públicas menores que a Alemanha“.

Temos então que se confirma, por ser evidente, que, tivesse a Alemanha e o seu cachorro Sarko agido em prol da Europa e sem moralismos deslocados e abusivos (Sarko buscando protagonismo e Merkel o apoio do eleitorado alemão) quando a crise atacou a Europa por via da especulação, até porque o rigor orçamental já estava a ser exigido e vigiado há muito, muitos dos dramas a que hoje assistimos poderiam ter sido evitados. Refira-se o desemprego maciço, o fecho de pequenas e médias empresas, a quebra acentuada de receitas, o confisco de salários, a emigração forçada, a fuga de quadros (muitos deles para a Alemanha), a degradação dos setores da saúde e da educação, a insegurança, enfim um governo chefiado por Passos. Num país com os salários mais baixos da zona euro, note-se.

Justiça seja feita, porém, à Europa: o modelo de desenvolvimento que estava a ser seguido por Portugal antes de a crise eclodir, e mesmo depois, apesar das forças adversas, era compreendido e merecia a aprovação dos nossos pares europeus, Alemanha à cabeça. Só que o Governo, após campanhas e mentiras miseráveis da oposição, caiu. Com facilidade imaginamos, depois da queda de Sócrates, Angela Merkel a ter um sobressalto que lhe abanou as bochechas, ao olhar incrédula para o novo e surpreendente cahorrinho que se lhe apresentava, se lhe colava às saias e lhe suplicava: “Meine liebe Frau, chame-nos irresponsáveis, bitte! E gastadores e pouco produtivos e preguiçosos, bitte!” “Gut. Prrrecisamos de engenheiros”, respondeu ela, pensando “Mas quem é este idiota?”.
Se a Europa enveredar entretanto por um novo rumo, Passos e Gaspar que dirão e que farão? Há uma semana, em comentário ao resultado das eleições francesas, ouvi João Duque, essa curiosidade, afirmar que seria uma pena Hollande ganhar, porque se perderia a oportunidade de provar o que vale o modelo que está a ser seguido (referindo-se à austeridade geral, total e concentrada). Como se a prova não estivesse à vista.

Depois desta lamentável e infeliz perda de tempo, ouvimos agora, lá de fora, que tem que haver uma política de crescimento e estímulos à economia, sob pena de todos os países se afundarem e com eles a Europa (ainda mais), enquanto, cá dentro, Cavaco tem a distinta lata de dizer, um ano depois, que a nossa economia não pode assentar nos salários baixos e elogia as apostas do governo anterior. Os idiotas que subiram ao poder, por sua vez, não podem deixar de dar continuidade a políticas recentes e recebem os louros das exportações e da diversificação dos mercados, outras das grandes apostas de Sócrates, tudo indica conseguida, a única coisa até que parece correr bem.

O pedido de empréstimo à Troika foi efetiva e objetivamente prejudicial ao país, como sabemos que alguém sabia. Não iremos nunca competir com a China e não podemos deixar de qualificar as pessoas nem de mudar o nosso tecido produtivo. A breve trecho, eles nem vão sequer poder recusar grandes obras públicas, como se verá.

6 thoughts on “Confronte-se”

  1. bem, o caso da frança é absolutamente escandaloso. comportam-se como se fossem uns bons alunos e chamam aos outros “les pays endettés”. a grand realidade é que o nosso défice e dívida nunca andaram muito longe dos valores da frança e só nos começaram a distanciar na dívida devido à austeridade que nos foi imposta e à incorporação das empresas de transporte no orçamento (mas as deles continuam de fora). enfim, hipocrisias de uma europa hipócrita, ou melhor mais uma filha-da-putice num tempo em que estas se tornaram correntes.

  2. Lembram-se quando o “Anibal” era Pm, as industrias que entraram em Portugal? foram texteis e calçado,passado poucos anos foram abandonadas, e era tudo de mão d,obra
    barata .Vistas largas tinha Socrates,em que não votei nas primeiras eleiçoes.A historia há-de ser feita.Tambem a historia há-de descobrir porque razão Miguel Sousa Tavares,defendeu que Passos Coelho ganhou o debate a Sócrates o que não foi verdade.Por mais vezes que veja o debate no youtube não vejo motivos para a proclamação de MST, aplaudida e citada varias vezes pela direita .O que levou Sousa Tavares a dizer esta mentira pegada? quiz ver a sua companheira a Ministra da Solidariedade Social? pelos vistos não cumpriram tambem essa” promessa”.O que sei é que essa afirmação de MST, foi a” senha” que a direita precisava para dar inicio à contra revolução.Por esta razão, a trago à colação no dia do trabalhador.

  3. concordo inteiramente com a Maria Rita; tambêm eu vi a entrevista, procurei sinais (uma vez que o titulo era evocativo) a e não me pareceu que essa conclusão de MST fosse de todo evidente !

  4. assis,

    o sarco vai cair, a angela já o presentiu e como tal anda a mudar o discurso, para a via do desenvolvimento económico e da criação de emprego, à socialista.

    Agora, lá que o sucessor leva um presente envenenado, leva. Mas é a França, e a França é a França, pode furar todas as regras que se impõem ao resto dos “endetés”, desde que a aliança continue, até ao desabar final da economia europeia. Muito masu tempos se aproximam. A Europa não aprende, mesmo. Entretanto, a extream-direita jovem, essencialmente jovem ganha muito terreno. A Europa não aprende, mesmo.

  5. Uma informação para os que não sabem.A extrema esquerda em França defende praticamente a mesma coisa do que a extrema direita,só diferem nos costumes e na politica de emigração.É alguma coisa,mas para o dia a dia dos franceses pouco conta.Muitos militantes da direita vieram da extrema esquerda.

  6. exmo. senhor zé da minda, de onde pensa que vêm os votos do cds? ou acredita que existem 650.000 democratas cristãos em portugal.

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