Sê rei de ti próprio – IV

O nascimento da democracia, essa espantosa ideia que acelera o passado, ocorreu em vivência urbana. Sem cidades, sem aglomeração de indivíduos que ultrapasse os laços familiares mais distantes num espaço que obrigue à interacção quotidiana, a democracia deixa de ser necessária, ou útil, ou urgente.

O grau de participação dos primeiros democratas, na soalheira Atenas de antanho, era elevadíssimo quando comparado com a nossa concepção moderna de democracia representativa. Para lá das causas culturais e históricas que explicam as diferenças entre as duas formas, um factor incontornável é o da quantidade de habitantes: quão maior for a população com direitos políticos, menor será o poder exercido directamente por um cidadão. Hoje é comum ouvir-se dizer que não vivemos num autêntico regime democrático por nos limitarmos a eleger aqueles que decidem por nós, mas quem assim infantilmente se queixa nunca demonstra a viabilidade de um qualquer modelo alternativo.

Estaremos, pois, condenados a limitar a nossa actividade política ao preenchimento de boletins de voto e à participação em caminhadas ocasionais no centro das cidades? Será obrigatório entrar para um partido para exercer um efectivo poder político? Acaso alguém consegue iniciar um movimento transformador da sociedade apenas contando com a sua magnífica pessoa? Se respondermos afirmativamente a qualquer uma destas perguntas estaremos a envergonhar e ofender todos aqueles, incontáveis, a quem devemos o Estado de direito e uma civilização que tem como um dos seus valores supremos a liberdade.

Se eu consigo escrever estas palavras, tu consegues escrever outras palavras. Se tu consegues ler as minhas ideias, eu consigo ler as tuas. Podemos comunicar, podemos tomar decisões. E conseguimos aprender, estudar, investigar. O mundo precisa de mais blogues, mais tuítes, mais facebookianos? Sei lá. Mas sei que a democracia precisa de mais inteligência e de mais coragem. Para todo o sempre e ainda mais um bocadinho. E isso atinge-se com aquilo que faz a inveja dos anjos e deixa os demónios a chuchar no dedo, a força de vontade. Depois, se queremos ser de direita, esquerda ou centro, assim ou assado, com esta utopia ou com aquele realismo, tanto faz. Estar rodeado de quem se ajuda a si próprio a ficar mais inteligente e corajoso é a realização perfeita do sonho democrático.

2 thoughts on “Sê rei de ti próprio – IV”

  1. a democracia precisa de mais inteligência, mais coragem e de mais ruralidade para vingar na urbanidade. o mesmo é dizer que a democracia precisa de partilha efectiva e não de meras palavras que o vento leva e traz – é só assim que um indivíduo se faz gente e por sua vez faz política de verdade. é que quem sobe ao poder não é, nunca é, uma ideologia; quem sobe ao poder é o indivíduo e o que ele carrega. a democracia é feita da massa, e não das massas, de cada um. exijo uma democracia inteira, que ultrapasse – e trespasse – a palavra.

    viva a pseudo-democracia! viva a democracia por vir!:-)

  2. bom , teremos de pensar o que valorizamos mais : democracia ou estado nação.. se tamanho grande não serve para democracia , teremos de islandizar (talvez a itália , parece que lá andam piurços com a tal de representativa se comece a dividir em cidades estado , quem sabe ?) ; se continuarmos vidrados em grandes reinos de fausta corte , não sei , exigir ao menos que os representantes sejam lá da terra para lhe podermos ir às trombas ?

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