A facilidade com que se limpam as grandes jogatanas financeiras

Sintetizemos o discurso corrente deste governo em vários fóruns, internacionais e nacionais, ultimamente pela voz de Vítor Gaspar, o grande didata da distorção:

A pobreza em que caímos (a outra, claro (mas qual?)) deve-se exclusivamente ao Sócrates e à sua política económica “expansionista”, decidida porque ele simplesmente gostava de gastar o dinheiro que não tinha nem fazia por ter, dinamizando a economia nacional. Um autêntico desvario. Pensava que a crise era de curta duração. Bom, e ele, lá no BCE, ou Merkel, em Berlim, pensavam o quê? Alguém, aliás, pensava ou pensa alguma coisa de seguro sobre o desfecho da crise? Mais: a nível das empresas, parece dizer-nos o Governo, quem pensa o povo que é para ambicionar um salário razoável e uma vida decente? Ora, assim não se cresce. Assim empobrece-se. Para crescermos, temos, portanto, de inverter a tendência de empobrecimento e … empobrecer ainda mais, deixar a economia em ruínas com a quebra do consumo e aumentar o número de desempregados para um nível tal que muita gente aceite trabalhar por uma tigela de sopa e uns trocados para tabaco e para pagar a luz à EDP. Este é, em suma, o modelo económico do Governo. Todos já percebemos que é perfeito, exatamente o que nos vinha a calhar para sermos felizes e ricos, o que tarda, é certo, mas é normal. Tão normal como ir ao Pingo Doce.
Para Gaspar, a crise portuguesa, contada a papalvos, é tão simples quanto isto.

Não existiu qualquer problema com as instituições financeiras internacionais em 2008, ninguém andou a jogar com o dinheiro das pessoas criando produtos virtuais na ganância do lucro e nada disso deu um estoiro. As sucessivas falências de instituições financeiras americanas não tiveram qualquer repercussão na banca europeia nem no crédito aos Estados, às empresas e às famílias. A União Europeia, em pânico, não se decidiu pelo desrespeito temporário dos limites dos défices dos Estados-Membros para poderem fazer face às falências de empresas e bancos e ao consequente desemprego, o que agravou necessariamente a dívida. Nada disso. Foi o Sócrates que, provocatoria e irresponsavelmente, e por opção económica, seguiu esse caminho.
Isto é muito desonesto, sobretudo tendo em conta a preocupação de redução do défice e do desequilíbrio da nossa balança comercial externa (fatura energética à cabeça) que o primeiro governo Sócrates mostrou, com excelentes resultados, até ao eclodir da crise e que Vítor Gaspar não pode desconhecer. Assim como não pode fingir desconhecer que as prioridades tiveram depois de alterar-se, obviamente. Qualquer um de boa fé o percebe. Para os aldrabões que nos governam agora, o que ele, Sócrates, deveria ter feito era simplesmente recusar-se a apoiar as empresas e os desempregados, deixar falir os bancos, recusar veementemente o plano europeu de relançamento da economia, que concedia estímulos, acabar de imediato com todo e qualquer investimento público gerador de receitas e criador de emprego (como a Parque Escolar) apoiado por fundos europeus, cortar subsídios e reformas, aumentar impostos e, no meio do caos, mandar as pessoas emigrar. Só assim estaríamos agora como a Alemanha e nem o PSD teria de tomar o poder pela via da mentira (deixem-me rir).
Mas a desonestidade vai mais longe. Vítor Gaspar, economista do BP destacado no BCE, ignora que a China existe. E que a sua entrada na OMC e abertura ao mundo vieram dinamitar a indústria ocidental ao incentivar a deslocalização de fábricas e ao inundar ao mesmo tempo a economia com produtos a custos imbatíveis. A reconversão da nossa economia, apostando na inovação, na tecnologia, em “clusters” e na qualificação para fazer face à nova realidade, não era, para Gaspar, um processo que estivesse em curso. Nem interessa para o modelo e os esquemas que preenchem a sua cabçeça. Aliás, duvido que Gaspar tenha alguma noção de economia.
Enfim, a dupla Passos/Gaspar, com todos os indicadores a agravarem-se, decidiu-se pela estratégia mais rasteira disponível no cardápio. No contexto do PSD, tal como o conhecemos, tal estratégia não destoa de outras.

Já agora que penso nisso, o que disse mesmo Seguro perante esta técnica de venda de teorias económicas a papalvos?

Concluindo e para não perder o enquadramento internacional: a crise prossegue, sobretudo aqui na Europa, sob comando alemão, e, na alta finança, tudo como dantes. Ninguém ousou ainda separar as atividades de investimento (ou especulação) das de gestão de depósitos. A Goldman Sachs, capaz de enganar impunemente os investidores para seu próprio benefício, continua a reinar, tendo colocado pessoas da sua confiança em lugares políticos chave na Europa. Mas, que interessa isso a Vítor Gaspar? Sócrates é o culpado. Right. Certo.

Falar Verdade aos Portugueses – Florilégio

O Presidente da República preferiu esta sexta-feira não comentar a «corrida» dos portugueses às lojas do Pingo Doce, no dia 1 de maio, considerando que «não deve tomar posição» quanto «à decisão de uma empresa e dos consumidores que decidiram aproveitar a promoção».

Salientando que não teve a «oportunidade de ver as imagens», mas leu «o que aconteceu»

Fonte

Vinte Linhas 776

Uma memória de Dinis Machado sobre a Barateira

No dia 13-2-1994 Dinis Machado celebrou os meus 43 anos com o poema manuscrito que me ofereceu. Escreveu o prefácio para o meu livro «Os guarda-redes morrem ao Domingo» edição da Padrões Culturais (11 contos, 11 crónicas, 11 poemas) e recordou os 80 anos da Livraria Barateira – fundada em 1914. Assim: «Como trazia os livros por atacado, tive aprendizagens simultâneas, resplandecentes e confusas. Já mais velhinho, cheio dos fumos da adolescência, trocava com os parceiros da minha confraria os livros alugados em grupo, numa espécie de cultura de cooperativa, regras de mercado que convinham às nossas bolsas e permitiam leitura desregrada. Na escola, dormindo muitas vezes pelo tédio, pela distracção e pelo invisível sono matinal, esperava o toque da campainha para me ver cá fora e partir à descoberta do continente barateiro e outras maneiras lúdicas de celebrar a existência como ir ao cinema ou jogar à bola. Posso dizer que tive na Barateira a escola paralela com a vantagem de não ser obrigado a aprender o que não conseguia aprender e não ter que responder, no coração da asneira, a perguntas doutorais. Eram só vantagens a começar pela coexistência pacífica entre as letras vetustas e as modernistas, se é que assim se pode chamar a esse caldeirão de letras. Império empírico de um rapaz destinado a pôr Shakespeare na sombra, a Barateira faz parte da minha formação, esse curriculozito tão exíguo e obstinado. E pergunto-me: – Serias capaz de te reconhecer sem todos aqueles anos de prateleiras que levavas para casa, essa feira inconcebível de trocas e baldrocas? Acho que não, confesso.»

Para quem começou na Barateira com «O Mosquito», as anedotas do Bocage e alguns calhamaços cujos títulos tinham sugestões aventurosas – não está nada mal.

“Barro” de Rui Nunes

“Barro” é o nome e não o título do último livro de Rui Nunes. Do princípio ao fim a vitória do silêncio, um escritor que reconhecemos de outros livros seus, mas aqui atirando-se às causas dos seus espelhos, o texto mais auto-biográfico de Rui Nunes, gigantesco nas suas 61 páginas, um percurso de verdades que são causas de tudo o que numa escrita transgressora dá ao leitor o homem que conhece o abandono e por isso desconhece gestos vulgares vendo a vida espatifar os conceitos dos outros e assim torná-lo um apátrida.
O livro é uma luta meticulosa contra a opressão das palavras. Parece-nos evidente que “infância” ou “livro” ou “morte”, por exemplo, são substantivos devidamente ditados nos dicionários, mas Rui Nunes destrói essa opressão, quer nas palavras aparentemente mais inócuas, como estas, afinal palavras de cada um, como se a palavra fosse apenas o seu referente concreto e nenhum dicionário tivesse o direito de nos roubar essa exclusividade. Por isso, a infância pode ser abandono e por isso atenção desmedida aos bichos; por isso livro pode ser um romance para sempre inacabado, o som de um avô a prometer para amanhã o final nunca chegado; por isso morte pode ser um saber que a carregamos no caminhar por entre a vegetação e os bichos que os abandonados sequestrados pelo acaso de um avô rural sabem distinguir nome a nome, rejeitando a abrangência cega de palavras como árvore ou bicho.
Este livro é extremamente ideológico, e por isso é escrita autêntica, o amor entra na luta contra as palavras, há um mundo de gestos, dos outros, gestos, mas as palavras são sempre combatidas, ou o que fizeram com elas, por isso o horror a um livro que minta e à facilidade que com isso se cria a ficção ideológica da chamada harmonia ou felicidade.
Depois há os nomes, que não são palavras, são insoletráveis como Auschitz, são mais que palavras, e então escrever e escrever contra eles, para que deixem para sempre um rasto, para que não se possam esconder.
Rui Nunes está só, nasceu só, foi roubado às palavras habituais quando não devia ter memória, sabe que estamos todos sós, e só poderia ter o destino de nada querer com as fronteiras. É aqui que se define um dos elementos humanos e ideológicos mais importantes do Autor.
O homem cuja expressão que ouviu pela primeira vez na vida foi “é ali” (entrega) e não “é aqui”, não sabe o que é isso do “aqui”. Por isso viaja pelo mundo todo à procura de um lugar, rejeitaria sempre uma língua como pátria até porque rejeitaria ambas, como faz.
Por isso partir é o verbo até o dia em que é um dos de lá, seja que país for, sabe de uma nova língua, e sabe então que é hora de partir. Uma língua é já uma fronteira, é já uma sufocação, uma soma limitada de expressão.
Daí a magnífica guerra às palavras, “barro”, pois, o nome do livro, as palavras mortas com justiça pelo Autor na p. 51, a evidência da politicidade das mesmas, porque as palavras têm o poder do esconderijo e da mentira, diz, “é preciso desarticulá-las, macerá-las, até apagar a sua longa história de violência” “Não ter medo. Nunca. Das fronteiras. É nelas que pátrias estoiram”.
“Barro”, pois, até um oleiro qualquer e foram tantos os de Rui Nunes aqui expostos na sua escrita que é uma extensão de um homem de olho encostado ao que quer olhar, mais do que ver.
Um leitor atento descobre que todas as palavras do mundo, um exército que deixou Rui Nunes em sangue, encontram a sua derrota num “tumulto” de um rosto ou, diria, que é sempre um rosto.
Não há palavras que registam o rosto que não sou.

Para uma República dos Taxistas

“Acórdãos como este têm o resultado de anular qualquer esforço que a sociedade portuguesa faça para combater a corrupção, porque quem combate a corrupção pode acabar liquidado às mãos de juízes como estes”, alertou Sá Fernandes, defendendo que “é preciso combater a corrupção mas também estes juízes”. “Pessoas como estas não têm perfil para serem juízes e com esta postura não o deviam ser”, considerou o advogado. Em declarações à Lusa, Ricardo Sá Fernandes acusou os magistrados, entre os quais Rui Rangel, de terem “uma atitude de complacência com a corrupção e de enorme exigência com aqueles que a combatem”.

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Perante as criticas, o juiz Rui Rangel admite avançar com um processo contra o advogado: “Irei analisar o conteúdo das declarações e se entender que a minha honra e dignidade são postas em causa pela associação que é feita, de que a justiça protege os corruptos e não as vítimas, naturalmente que agirei em conformidade dentro daquilo que é um estado de direito responsabilizando criminalmente quem fez as declarações”.

Para Rui Rangel, as afirmações de Ricardo Sá Fernandes são “um chorrilho de disparates e ofensas gratuitas de quem não sabe conviver com as decisões dos tribunais”.

O desembargador lembrou que “as decisões dos tribunais não se comentam, recorrem-se”. Rui Rangel sublinhou que “os tribunais analisam a justiça com base nos factos que estão no processo. Não fazem rigorosamente mais nada e portanto todos os cidadãos são iguais perante a justiça e todos são tratados de forma igual, não há cidadãos de primeira nem cidadãos de segunda”.

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Esta polémica envolve duas figuras que pertencem à elite da Justiça portuguesa, por isso as declarações acima são do maior interesse para o taxista que há em mim. De um lado, temos um advogado que conhece tão bem o sistema que se permite acusar os juízes de cumplicidade com a corrupção. Do outro, temos um juiz que adormece tão levemente nos seus lençóis que nem se permite reconhecer alguma falha nalgum juiz. Esta polaridade é extremada pelo aparato das suas figuras públicas e mediáticas, onde aparecem, cada um a seu modo, como cidadãos íntegros e empenhados nas causas superiores da Justiça.

Eis a questão: um dos dois tem de estar errado ou podem estar os dois a expressar convictamente as suas mais cristalinas percepções e experiências? Se é fácil ver no angelismo de Rui Rangel apenas a projecção de um formalismo, mesmo que fundamental, já as considerações de Sá Fernandes, e descontando a sua veia desbocada, não deviam passar sem consequências, pois o que elas implicam é equivalente a declarar a abolição do Estado de direito. O bom senso, então, recomenda que se fundam as duas visões para aprendermos algo de útil com estes dois passarões.

Consoante a mistura, conforme se ponha primeiro os ingredientes do Sá ou do Rui no panelão, tanto podemos obter um retrato onde se vejam juízes humanamente volúveis, cedendo aqui e alinhando ali com a corrupção, mas onde a enorme maioria seria impoluta e o Sá Fernandes tinha tido apenas azar no processo que o deixou desvairado, como podemos obter um retrato onde toda e qualquer decisão dos juízes é, ontologicamente, um arbítrio impossível de anular sem com isso se anular o próprio acto judicativo.

Para o crescimento comunitário em dimensão cívica, é o segundo retrato o de mais férteis consequências. A Justiça, repetindo o estafado e inquebrantável cliché, é importante de mais para ficar apenas nas mãos dos magistrados e advogados. Há que começar por a sujeitar a um golpe implacável, mas não chegando ao ponto de partir costas aos juízes, que estilhace a redoma onde se esconde do contraditório. Manter, como Rui Rangel, que as decisões dos tribunais não são passíveis de comentário é insultar a inteligência dos taxistas que percorrem a cidade dia e noite, medindo com precisão as distâncias e os tempos da viagem. Quando os taxistas passarem a reflectir sobre o vazio onde se encontram os alicerces do edifício da Justiça, Sá Fernandes poderá, finalmente, sorrir consolado.

O debate francês e os painéis de comentadores

Vi praticamente todo o debate de ontem entre François Hollande e Nicolas Sarkozy. Sobre o que disseram e a forma como o fizeram, digo apenas que, sem a excessiva rigidez e cronometragem dos debates americanos ou britânicos equivalentes, acabaram por defender as respetivas posições, cobrindo todo o espetro de temas agendados, embora durante mais tempo do que o previsto (e porque não, se o tempo for bem repartido?). Não penso que qualquer dos dois se tenha deixado abater pelo outro e, só por isso, Hollande teve um grande ganho, dadas as expectativas iniciais. Tratou-se de um debate equilibrado. Evidentemente que Sarkozy tem a desvantagem de contexto: há dez anos que anda no poder e perdeu recentemente a primeira volta. Hollande poderá, portanto, confiar na vitória no próximo domingo. A ver vamos o que fará quanto à orientação das políticas europeias, que aliados conquistará, que influência exercerá sobre a chanceler alemã e de que forma alterará a atuação do BCE.

Vi o debate no canal francês France 2. Não houve qualquer painel de comentadores pós-debate. Aparentemente, o princípio é o de deixar a avaliação para os franceses e espectadores em geral. O programa seguinte foi até um filme. Na TF1, anunciaram apenas dois analistas políticos, nenhum deles apoiante de partido. Em Portugal, pelo contrário, e não posso deixar de registar o interesse sintomático por estas eleições revelado pela nossa televisão, vi anunciado, pelo menos num canal de cabo, um painel de comentadores e imagino que nos outros tenha sucedido o mesmo, já que constatei estarem todos a transmitir em direto o frente-a-frente. Não vi nenhum deles. Mas aproveito para deixar a minha opinião sobre esse tipo de painéis imediatos. A primeira imagem que me ocorre é a de abutres. Ainda os contendores não arrefeceram e já estão a ser esventrados. A segunda é a de condicionamento, também imediato, da opinião pública menos esclarecida. Por que razão não hão de os espectadores avaliar o que acabaram de ouvir e decidir o voto em conformidade? As pessoas serão burras? E ouvindo outros, que, sem o mínimo distanciamento, debitam impressões, ficarão menos burras?
É certo que, se não quisermos, podemos não ouvir os comentários e também é certo que, no dia seguinte, todos os jornais e blogues se pronunciarão sobre o tema; eu própria estou a fazê-lo. No entanto, o efeito não é o mesmo. Um debate entre candidatos a chefes de Estado ou de Governo não é a mesma coisa que um jogo de futebol, onde à saída os jornalistas se acotovelam por declarações e, nos estúdios, se zurze forte e feio. Nem devia ser tratado com a ligeireza de um espetáculo. Eles não estão ali para nos divertirem. Muito longe disso. Depois há quem se queixe da plasticidade dos políticos.

Como estás crescido e sábio, YouTube

Celebrou-se há dias o sétimo aniversário do YouTube, o momento em que o primeiro vídeo foi publicado. Nele se vê Jawed Karim, um dos três criadores da coisa, a disparatar durante 19 segundos. Não parece o começo mais auspicioso para a plataforma que viria a ser comprada pelo Google por 1.65 mil milhões de dólares um ano e meio depois, mas espelha a exacta essência do que estava em causa.

O YouTube tornou-se imediatamente uma marca doadora de estatuto global, onde estar ou não estar lá era a diferença entre existir e não existir para um qualquer conteúdo vídeo. Geraram-se fenómenos de fama mediática instantânea apenas pelas visualizações geradas dentro do ambiente youtubeano, e vingaram os temas ligados ao satírico, ao voyeurismo, ao burlesco, à nostalgia, ao circense, ao erótico e ao musical. Como o João Pedro da Costa poderá confirmar, ele que será quem em Portugal mais e melhor investiga o assunto, o YouTube tornou-se muito mais importante do que a MTV para a fruição, recriação e invenção do vídeo musical. Aliás, a MTV involuiu para uma mistela de reality shows destinados a sopeiras entre os 10 e os 14 anos.

Pois bem, creio que atingimos um novo estádio civilizacional quando o YouTube se torna a fonte de horas e horas de um seminário de Agemben. E de outros cromos que tais. Mas de este aqui, assim, com o som fanhoso, uma câmara fixa mal posicionada, um inglês literalmente macarrónico. E um aviso logo a abrir, atirado contra a vaidade dos jornalistas: só se chega ao presente pela arqueologia. E outro lá para o meio, ou pairando no ar de todas as sessões: a mente dos modernos adora a vontade, a alma dos clássicos cultivava a δύναμις – traduzindo para estupidez, este é o tempo da expressão das violências, outrora o da construção do mundo interior.

“Pessoas só”

Portugal chegou ao final de Março com uma taxa de desemprego de 15,3%, a terceira mais elevada da União Europeia e que representa uma subida de 0,3% em relação a fevereiro, de acordo com o Eurostat. Apenas Espanha (24,1%) e a Grécia (21,1%, em dados que remontam a janeiro) se encontram em pior situação do que Portugal.
São números dramáticos e o Governo não tem resposta, ou uma tentativa de resposta.
Pior: não são números. Segundo os dados do Eurostat, houve 530 novos desempregados por dia em Portugal durante o mês de Março.
Talvez dizendo 530 pessoas por dia se perceba melhor, não é? 530 pessoas sós, 530 pessoas que vivem com alguém já desempregado, ou por sorte talvez não, 530 pessoas com filhos, 530 pesoas que são o seu único sustento, ou com sorte talvez não. 530 pessoas em risco de entregar o teto ao banco e de ainda assim herdar uma dívida, tantas coisas em 530 vidas por mês.
530 vidas. Por mês.

A amarga economia de Passos

Há momentos e imagens que definem uma governação, e ontem foi um deles. Ontem foi o dia que, numa campanha inédita, o Pingo Doce ofereceu a todos a possibilidade de encher a dispensa por metade do preço. Uma campanha simpática, pujante, até bombástica, muito adequada para os dias que vivemos, foi certamente o que pensaram os responsáveis. E os resultados não se fizeram esperar: lojas a abarrotar de gente, tumultos, polícia, prateleiras vazias, um cenário desolador dentro das lojas, gente horas à espera pela sua oportunidade. Muita, muita gente. Muito mais do que qualquer manifestação.

Agora, não vou enveredar pela temática da escolha do dia. Foi de propósito, foi “uma provocação”, como disseram muitos? É possível, é até provável. Mas depois do que se assistiu ontem, acho que é uma questão que pode perfeitamente passar para segundo plano.

O que a mim me interessa é isto: todos os dias somos bombardeados com números de desemprego, números de impostos, de cortes, de datas sempre mais além para repor subsídios, de juros, de entregas de casas à banca, de crescentes dificuldades de uma classe média que vê o seu nível de vida e o seu futuro ir por água abaixo. Todos os dias os media enchem páginas e horas televisivas com politicas do governo, com as consequências da crise, com doutas opiniões de respeitados qualquer coisa sobre o que se passa.

Mas ontem vimos o que se passa. Sentimos. Mesmo à porta de nossa casa, onde habitualmente fazemos as compras. Ontem, o desespero de quem, para encher mais a dispensa, para agarrar a oportunidade de esticar o orçamento, para se permitir um desafogo temporário, passou horas na fila de caixa – os nossos vizinhos, amigos, conhecidos, familiares, nós – mostrou, num só dia e numa só acção, as consequências reais das políticas seguidas. Ontem, o Sr. Alexandre Soares dos Santos conseguiu o que nenhum responsável da oposição, nenhum sindicalista, nenhum comentador tinha até agora conseguido: mostrar de maneira claríssima o que é a economia de Passos Coelho. Devemos-lhe todos um enorme agradecimento. E não é pelos descontos.

Vamos lá a saber

O Pingo Doce insultou o simbolismo do 1º de Maio, explorou os seus trabalhadores, tratou Portugal como uma região do Terceiro Mundo e levou os seus clientes a comportarem-se como animais ou o Pingo Doce ajudou os mais pobres, melhorou o rendimento mensal dos seus empregados, contribuiu para a recuperação da economia nacional e deu um exemplo que devia ser repetido em todos os feriados de agora em diante e por todas as cadeias de super e hipermercados?

Vinte Linhas 775

A Barateira e a mais velha estação de comboios do Mundo

Depois do fecho das livrarias «Poesia Incompleta» e da «Portugal» mais uma tristeza – está fechada a «Barateira» e talvez não reabra tal como era. Alguns recados na montra indicam outras livrarias onde os interessados podem levantar as suas encomendas. Lembrei-me logo de Dinis Machado que no seu grupo de amigos na juventude usava esta livraria como placa giratória. Um dos protagonistas do «Molero» pergunta «O livro do Malraux é da Barateira?» e logo um deles responde a sorrir: «Donde é que queria que fosse? Da Universidade de Coimbra?». Mais tarde, no café, há-de rematar um desejo dum companheiro («Gostava de ler um livro leve!») com uma frase sábia: «Não há livros leves, todos pesam toneladas!».

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