O debate francês e os painéis de comentadores

Vi praticamente todo o debate de ontem entre François Hollande e Nicolas Sarkozy. Sobre o que disseram e a forma como o fizeram, digo apenas que, sem a excessiva rigidez e cronometragem dos debates americanos ou britânicos equivalentes, acabaram por defender as respetivas posições, cobrindo todo o espetro de temas agendados, embora durante mais tempo do que o previsto (e porque não, se o tempo for bem repartido?). Não penso que qualquer dos dois se tenha deixado abater pelo outro e, só por isso, Hollande teve um grande ganho, dadas as expectativas iniciais. Tratou-se de um debate equilibrado. Evidentemente que Sarkozy tem a desvantagem de contexto: há dez anos que anda no poder e perdeu recentemente a primeira volta. Hollande poderá, portanto, confiar na vitória no próximo domingo. A ver vamos o que fará quanto à orientação das políticas europeias, que aliados conquistará, que influência exercerá sobre a chanceler alemã e de que forma alterará a atuação do BCE.

Vi o debate no canal francês France 2. Não houve qualquer painel de comentadores pós-debate. Aparentemente, o princípio é o de deixar a avaliação para os franceses e espectadores em geral. O programa seguinte foi até um filme. Na TF1, anunciaram apenas dois analistas políticos, nenhum deles apoiante de partido. Em Portugal, pelo contrário, e não posso deixar de registar o interesse sintomático por estas eleições revelado pela nossa televisão, vi anunciado, pelo menos num canal de cabo, um painel de comentadores e imagino que nos outros tenha sucedido o mesmo, já que constatei estarem todos a transmitir em direto o frente-a-frente. Não vi nenhum deles. Mas aproveito para deixar a minha opinião sobre esse tipo de painéis imediatos. A primeira imagem que me ocorre é a de abutres. Ainda os contendores não arrefeceram e já estão a ser esventrados. A segunda é a de condicionamento, também imediato, da opinião pública menos esclarecida. Por que razão não hão de os espectadores avaliar o que acabaram de ouvir e decidir o voto em conformidade? As pessoas serão burras? E ouvindo outros, que, sem o mínimo distanciamento, debitam impressões, ficarão menos burras?
É certo que, se não quisermos, podemos não ouvir os comentários e também é certo que, no dia seguinte, todos os jornais e blogues se pronunciarão sobre o tema; eu própria estou a fazê-lo. No entanto, o efeito não é o mesmo. Um debate entre candidatos a chefes de Estado ou de Governo não é a mesma coisa que um jogo de futebol, onde à saída os jornalistas se acotovelam por declarações e, nos estúdios, se zurze forte e feio. Nem devia ser tratado com a ligeireza de um espetáculo. Eles não estão ali para nos divertirem. Muito longe disso. Depois há quem se queixe da plasticidade dos políticos.

8 thoughts on “O debate francês e os painéis de comentadores”

  1. os painéis e respectivos comentadeiros são o processo mais barato de encher xóriços mediáticos. não estou a ver qual o interesse de fazer a cabeça aos portugueses na eleição do próximo presidente françiú, só se for para expressar os desejos do regime, o que é um número arriscado.

  2. é isso mesmo, Penélope. não somos chamados a ouvir o político, mas o seu intérprete. pode ser o jornalista que nos deixa ouvir o ser humano para depois nos explicar “pelas suas próprias palavras” o que se acabou de ouvir, pode ser o comentador, aquele que vê mais longe, que ouve o que o orador não disse mas queria dizer. o discirso político, hoje, é uma dobragem abusiva e corrosiva da democracia.

  3. Bom post, a meu ver. Não me esqueço do Marcelo Rebelo de Sousa compor, arredondar, limar. ajeitar, nos comentários televisivos, as tiradas mais infelizes do Passos Coelho nos debates. Foi um aliado sempre presente que a televisão arrajou para promover o patego.

  4. … e ainda se os comentadores fossem isentos. A realidade é que estes (que são quase sempre os mesmos), mais não fazem do que defender as suas cores, sem demonstrarem quaisquer isenções ou imparcialidades, e, praticamente sempre, duma demagogia confrangedora.
    Só que, na realidade, eles não estão alí, para fazer análise: estão, tão somente, a puxar a brasa à sua sardinha partidária, e a tentar confundir, enganarar e embrutecer as pessoas, e não a esclarecê-las.

  5. quem é que manda calar o miguel beleza já? ele chegou ao cumulo de dizer: “a alemanha tem fundamentalmente razão”.

  6. Concordo em absoluto que não deveria haver análise dos comentadores políticos imediatamente após o debate. No último debate Sócrates/Coelho irritou-me imenso ainda nem tinha acabado o fade out no estúdio e já estávamos a ouvir as vozes dos analistas. É que é isso mesmo:
    1) não preciso que me lavem o cérebro
    2) eu sei (e quero) pensar pela minha cabeça
    3) preciso de tempo para reflectir

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