Como estás crescido e sábio, YouTube

Celebrou-se há dias o sétimo aniversário do YouTube, o momento em que o primeiro vídeo foi publicado. Nele se vê Jawed Karim, um dos três criadores da coisa, a disparatar durante 19 segundos. Não parece o começo mais auspicioso para a plataforma que viria a ser comprada pelo Google por 1.65 mil milhões de dólares um ano e meio depois, mas espelha a exacta essência do que estava em causa.

O YouTube tornou-se imediatamente uma marca doadora de estatuto global, onde estar ou não estar lá era a diferença entre existir e não existir para um qualquer conteúdo vídeo. Geraram-se fenómenos de fama mediática instantânea apenas pelas visualizações geradas dentro do ambiente youtubeano, e vingaram os temas ligados ao satírico, ao voyeurismo, ao burlesco, à nostalgia, ao circense, ao erótico e ao musical. Como o João Pedro da Costa poderá confirmar, ele que será quem em Portugal mais e melhor investiga o assunto, o YouTube tornou-se muito mais importante do que a MTV para a fruição, recriação e invenção do vídeo musical. Aliás, a MTV involuiu para uma mistela de reality shows destinados a sopeiras entre os 10 e os 14 anos.

Pois bem, creio que atingimos um novo estádio civilizacional quando o YouTube se torna a fonte de horas e horas de um seminário de Agemben. E de outros cromos que tais. Mas de este aqui, assim, com o som fanhoso, uma câmara fixa mal posicionada, um inglês literalmente macarrónico. E um aviso logo a abrir, atirado contra a vaidade dos jornalistas: só se chega ao presente pela arqueologia. E outro lá para o meio, ou pairando no ar de todas as sessões: a mente dos modernos adora a vontade, a alma dos clássicos cultivava a δύναμις – traduzindo para estupidez, este é o tempo da expressão das violências, outrora o da construção do mundo interior.

8 thoughts on “Como estás crescido e sábio, YouTube”

  1. sinto-me tentada a afirmar que a arte anda insegura por pensarmos e falarmos demais sobre ela – as experiências e ideias tendem a ser comuns, mas não profundas, ou profundas, mas não comuns, e negligencia-se o dom de perceber e compreender através dos sentidos: o conceito está divorciado da percepção e o pensamento move-se entre abstracções: os olhos foram reduzidos ao identificar e medir e daí a carência de ideias exprimíveis em imagens e a falta de capacidade para descoberta de significado no que se vê. talvez seja isto que caracteriza (pelo menos a minha) a insatisfação com o que de ranhoso se passa no YT ou MTV. mas depois há o João: uma casa no monte onde se pode passar, desbravar caminhos de olhos, e ficar. mais: o João é uma árvore de melodia. :-)

  2. não percebi a ideia, nem o poste. estas porras de massas geridas por incultos têm efeitos fodidos nos cérebros da inteligência lusotóina.

  3. Os últimos dados estatísticos do YouTube disponíveis (Março de 2012) são verdadeiramente eloquentes quanto à importância da plataforma:
    – A cada minuto, 60 horas de vídeo são carregadas para o YouTube;
    – Mais de 4 mil milhões de vídeos são visualizados por dia;
    – Mais de 800 milhões de utilizadores individuais visitam o YouTube mensalmente;
    – São carregados mais vídeos para o YouTube num mês do que o que as três maiores redes televisivas dos EUA (NBC, CBS, ABC) transmitiram nos últimos 60 anos.

    E a prova que este é um fenómeno global pode ser comprovado no facto de:
    – 70% do tráfego do YouTube vir de fora dos EUA;
    – A plataforma estar disponível em 54 idiomas.

    E, depois, do ponto de vista qualitativo, para além dos seminários do Agamben, há motivos para alegrias insuperáveis como o facto de um dos melhores filmes que vi nos últimos anos estar lá disponível na íntegra: https://www.youtube.com/watch?v=g2KstIkFPIU

  4. GALA DA CIÊNCIA 2012:

    “A Gala inicia-se às 19h30 minutos e mesmo antes do jantar se iniciar tem lugar a entrega do prémio «Open Mind» com que a Associação de Laserterapia e Tecnol0gias Afins (Altec) distingue o realizador Manoel de Oliveira no Ano Europeu do Envelhecimento Activo.

    Manoel Oliveira tem 103 anos e a distinção vai ser entregue por Fernanda Matos, a Teresinha de Aniki Bóbó, hoje com 81 anos. O filme foi realizado em 1942, o que vale por dizer que serão quase 200 anos em palco num reencontro 70 anos depois.”

  5. só pude ver com olhos, legendas omissas e rescaldo de otite, surda como uma mesa que estou. e daí que escolhi a aurora para colher com os olhos. que lindo! talvez me fizessem falta as palavras para colher mais, não sei. mas estou feliz com a minha colheita talvez incompleta.

    é a solidão a fonte e a foz: um mundo gigante por debaixo do mundo dos mundos onde a fixação pela descoberta da existência se mistura entre o palco encenado e o palco da vida- tamanha a triste miséria egoísta da solidão, inocente e frágil bebé, sempre a solidão. e o amor escondido, adiado, sempre adiado, e a urgência de inadiar o inadiável, sempre adiado, é cruz nas costas: ininterruptamente pesado corrompe-se, sem nunca se deixar corromper, com a leveza pesada do sexo. é a solidão, menina velha, a fonte e a foz: um mundo destruído, gigante, por cima, do debaixo, do mundo, pequeno, dos mundos, grandes, onde a existência se perdeu em existir – tamanha é narrativa em desejo por narrar.

    a solidão é um lugar estranho, um bicho, corrosivo e contagiante; a solidão vive no mundo das bactérias, grandeza erecta, e, deixando rastos, contagia. e mata. e é assim a vida dos mortos em travessia de vida.

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