A amarga economia de Passos

Há momentos e imagens que definem uma governação, e ontem foi um deles. Ontem foi o dia que, numa campanha inédita, o Pingo Doce ofereceu a todos a possibilidade de encher a dispensa por metade do preço. Uma campanha simpática, pujante, até bombástica, muito adequada para os dias que vivemos, foi certamente o que pensaram os responsáveis. E os resultados não se fizeram esperar: lojas a abarrotar de gente, tumultos, polícia, prateleiras vazias, um cenário desolador dentro das lojas, gente horas à espera pela sua oportunidade. Muita, muita gente. Muito mais do que qualquer manifestação.

Agora, não vou enveredar pela temática da escolha do dia. Foi de propósito, foi “uma provocação”, como disseram muitos? É possível, é até provável. Mas depois do que se assistiu ontem, acho que é uma questão que pode perfeitamente passar para segundo plano.

O que a mim me interessa é isto: todos os dias somos bombardeados com números de desemprego, números de impostos, de cortes, de datas sempre mais além para repor subsídios, de juros, de entregas de casas à banca, de crescentes dificuldades de uma classe média que vê o seu nível de vida e o seu futuro ir por água abaixo. Todos os dias os media enchem páginas e horas televisivas com politicas do governo, com as consequências da crise, com doutas opiniões de respeitados qualquer coisa sobre o que se passa.

Mas ontem vimos o que se passa. Sentimos. Mesmo à porta de nossa casa, onde habitualmente fazemos as compras. Ontem, o desespero de quem, para encher mais a dispensa, para agarrar a oportunidade de esticar o orçamento, para se permitir um desafogo temporário, passou horas na fila de caixa – os nossos vizinhos, amigos, conhecidos, familiares, nós – mostrou, num só dia e numa só acção, as consequências reais das políticas seguidas. Ontem, o Sr. Alexandre Soares dos Santos conseguiu o que nenhum responsável da oposição, nenhum sindicalista, nenhum comentador tinha até agora conseguido: mostrar de maneira claríssima o que é a economia de Passos Coelho. Devemos-lhe todos um enorme agradecimento. E não é pelos descontos.

14 thoughts on “A amarga economia de Passos”

  1. o alex conseguiu ver-se livre dos monos e das validades duvidosas saldando a 50%, ninguém conferiu nada e as prateleiras ficaram vazias em tempo recorde, ganda sucesso comercial. agora a asae vai multar os comerciantes que compraram para revenda, numa acção de endosso e branqueamento da esperteza do merceeiro. os filhos da minha vizinha vão andar a misturar skip no leite durante os próximos meses e o barrete da fundação há-de publicar um ensaio sobre a influência das grandes superfícies nos hábitos alimentares e desportivos dos portugueses.

  2. É só um primeiro aviso: ponham-se a pau, barretes e pinguinhos doces, que elas começam sempre onde e como menos se espera – as grandes reviravoltas!

    E olhem não é lá por terem “curçado sossiolugia”, pá, que…

  3. É só um primeiro aviso: ponham-se a pau, barretes e pinguinhos doces, que elas começam sempre onde e como menos se espera – as grandes reviravoltas!

    E olhem que não é lá por terem “curçado sossiolugia”, pá, que…

  4. Não devemos esquecer que este comportamento não é uma consequência do “desgoverno”. Todos sabemos que o verdadeiro tuga faz-se ao brinde, à borla e ao dado, mesmo que não precise.

    Estou para ver as toneladas de comida que vai ser deitada fora nos próximos dias, da quantidade de desperdício que vai aparecer porque as pessoas queriam tanto o desconto que levaram o que não precisavam.

    Também tem que haver uma consciência cívica intrínseca em cada um de nós. É mais fácil culpar o capitalismo, o governo e as cadeias de supermercado em vez de admitirmos a nossa javardice.

  5. Estes impérios do comércio por desconto e por “atacado”, sabem bem com que clientes contam (afinal até a análise comportamental sociológica cabe nesse “atacado” grossista).

    Indigência atrai indigência, ignorância ignorância, miséria miséria.

    São verdadeiramente miseráveis os modos e os métodos com que estes “grossistas” tratam e manipulam as pessoas.

  6. O que aconteceu ontem, para lá da boçalidade intrínseca e conhecida do consumidor português (que não é, contudo, o tema deste texto), foi em parte consequência da nossa atual desgovernação passista, sem qualquer dúvida, mas foi ainda mais consequência de duas outras coisas superiores, uma que nos afecta indirectamente, outra que nos envergonha directamente: a primeira é a política burra e cega da austeridade, fomentada pela atual governação europeia, que só ela pode inverter; a segunda é a resultante prática da acção política inerte, continuada, acéfala e maquiavélica desse irresponsável inconsciente que dá pelo nome de Cavaco Silva. É a esse pirómano político que devemos a mais importante fatia de tudo o que nos está a acontecer de gravoso e que, desgraçadamente, ainda é apenas o começo.

    E se é ele a causa interna máxima dos sérios problemas dos portugueses, é a ele que os portugueses terão rápidamente que dar uma solução final.

  7. Não fui ao Pingo Doce no 1 de Maio. E próximo de mim há pelo menos 3 Pingos Doces. E não foi por não saber. À hora de almoço, mais ou menos 12 horas, fui informado dessa situação. Nem sequer fui ver o espetáculo.
    Não frequento o Pingo Doce, desde que esse calhordas se pôs ao lado do Passos a dizer barbaridades foi riscado dos meus fornecedores.
    Mas, segundo parece não houve divulgação desta medida, isto é, publicidade. Se eu fosse um cliente regular dessa superfície e não tivesse tido conhecimento dela teria perdido algum dinheiro por não ter aproveitado a situação. Então diria para comigo:- Pessoas que se calhar nunca tinham entrado no Pingo Doce souberam desta medida e correram apressadas a tirar proveito dela. Eu, cliente habitual, fui relegado pelo patrão da empresa para o lixo. A partir de hoje deixarei de ser cliente dessa superfície. Era assim que eu procederia.
    Cada um fará como entender mas parece-me que isto foi gozar com os habituais clientes.

  8. Admito estar enganado. No entanto, ou se começa a pensar numa alternativa imediata a TODA ESTA GENTALHA ou acabamos todos na mais profunda das misérias sociais. É tempo de começar JÁ a pedir um referendo de forma convicta e em força mesmo que as alternativas não estejam TODAS criadas. Desconfio que nada pode ser pior que estas “soluções” (des)governativas. Esta cambada vai abandonar o barco depois de sacar e vender ao preço da chuva o que resta do património da nação e deixar tudo e todos (ainda mais) na miséria e no desespero.

  9. Os postadores e comentadores proxenetas da crise e do governo e da europa e da merkel e da peste de que somos vítimas mais a lepra e outras merdas mais de que nunca somos responsáveis, nunca, nunca, apenas pobres vítimas …

    isto já para não falar do ritual preferido deste blogue piolhoso: o esgalha socra-lágrimas

    não saem do seu registo habitual e típico de carpideiras órfãs, repetindo em loas encantatórias e delirantes:

    “nós nem temos nada a ver com esta bancarrota, somos inocentes e, mesmo depois de termos dado cabo desta merda, continuamos a ter a puta da presunção de que as soluções esquerdaças da treta são o melhor e único remédio possível, Porque sim, tás a ver!”

    Vegazito, vai depressa inscrever-te no Partido e lê todos os manuais e cassetes que possas, depressa, depois vem explicar-nos que os fdp em quem votaste são umas virgens inocentes e angélicas, sem qualquer responsabilidade pelo filme negro a que assistimos.

    Vai lá vegazito pateta, de boca cheia de cagança arrogante … vai lá, depressa.

  10. Os proxenetas da Crise: Não foi o Sócrates que desejou a vinda da Troika, muito pelo contrário: tinha até negociado uma alternativa menos penalizadora. Assim como não é ele o responsável pela arquitetura do euro ou pela crise na Irlanda, na Espanha, na Itália, na Grécia, na Holanda e por aí fora, para já não falar no subprime.

  11. proxenetas da crise são o cartóga, a cardona, o mexia, o braga de macedo & filha, o broges, o relvas e a restante cambada que sobrou dos governos do cavaco e se montaram nas recentes privatizações.

  12. ó proxeneta, então agora a culpa é da crise e antes era do Sócrates? uerem ver que a crese começou em Junho de 2011? Sempre a aprender.

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