Vinte Linhas 783

Júlio César Machado – «não há neste Mundo senão um perigo»

O livro que estou a ler hoje é «Aquele tempo» de Júlio César Machado (1835-1890), uma edição «Perspectivas & Realidades» com capa de Rui Perdigão e organização do meu amigo Vítor Wladimiro Ferreira. Custava 1.5.25$00 em 1989 quando foi publicado, hoje cumpre o seu fadário nos alfarrabistas mas isso não lhe retira interesse ou valor. Vejamos um excerto: «Lisboa hoje está sendo, para o que então era, como que outra terra. Então ainda respirava em tudo singeleza; respirava entusiasmo em tudo. Era qualquer coisa um acontecimento. Uma extravagância pequena era um escândalo; chá e torradas depois da uma hora da noite, era uma orgia. Havia três, quatro heróis, cinco doidos (…)

Uma das memórias mais divertidas de Júlio César Machado tem a ver com o jornal «O Almadense» que se publicou durante dois anos em Cacilhas: «o nosso distribuidor era um burriqueiro; quando ele tinha mais que fazer, distribuíamos nós a folha por aquela rua de Cacilhas adiante, Nicolau de Brito pelas casas da direita, eu pela das esquerda, Roussado pelo meio da rua às pessoas que vinham ou iam. Eduardo Tavares de lista de assinantes na mão, ia indicando os números das portas onde devíamos bater e o nome a quem era destinado o periódico. Foi uma grande publicação. O que ali se moeu a Câmara de Almada por causa de um boi que entrava no cemitério por ver a porta aberta.» Dissertando sobre a vida daquele tempo, o nosso Machadinho escreve: «Não há neste Mundo senão um perigo – ser fraco. Em um homem hesitando, saem logo de algum buraco uns poucos que mal se atreviam a deitar o nariz de fora; se faz concessões, avançam; se recua, comem-no vivo; se, ao revés disso, vai para cima deles seguindo sempre o seu caminho, fogem-lhe ou caem-lhe aos pés».

4 thoughts on “Vinte Linhas 783”

  1. por momentos ainda pensei que fosse qualquer coisa que valesse a pena ler, mas afinal é o habitual elogio da banalidade e a moral do costume, o calímero da benedita transformado em predador do chiado. porra! até o cavaco tem mais interesse que tu.

  2. é uma boa memória, sem qualquer dúvida, da localidade onde vivo, JCF.

    sabia da ligação de Eduardo Tavares ao “O Almadense”, mas não da de Júlio César Machado.

    e é sempre interessante observar que um concelho na época com pouco mais de 10 mil habitantes, dos quais apenas 20 a 30% saberiam ler, tinha um jornal.

    hoje, este concelho com mais de 170 mil habitantes não tem um único jornal (o jornal da região é outra coisa)…

  3. Meu Caro Luís Eme – do tempo de Júlio César Machado para hoje só muda o número de doidos. Aqui basta um para tentar fazer do Blog um pequeno inferno. No tempo dele eram cinco, veja lá…

  4. Ó Camelo, vai à merda! No inferno estás tu e nem te apercebes que os que te reagem, simplemente são almas superiores e te comem num glimpse pá, telefona lá pra benedita da aldeola da tua descendente, que ela explica-te, jack ass!

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