Questões de blocos

Parece-me que chegámos, na Europa, a uma situação muito clara que começa a ser tempo de verbalizar: o que interessa à Alemanha não interessa aos restantes países, sobretudo os da zona euro. O mal atingiu o paroxismo ao vermos os gregos, à beira da expulsão do clube, a levantaram o seu dinheiro dos bancos nacionais (só na segunda-feira foram 700 milhões) e a pô-lo a salvo alhures. E aonde? Ora, na banca alemã. Que, claro está, agradece (mas não retribui).

A União Europeia, ou a então CEE, foi criada para, de certa forma, além de pacificar o continente desavindo, opor resistência ao bloco soviético, de regime comunista, que chegava às fronteiras alemãs.
Para resumir quase à velocidade da luz, desfeito o dito bloco, uma boa parte da cola que nos unia perdeu a manutenção, a consistência e a eficácia. A criação da moeda única foi, passe o pleonasmo, a moeda de troca para o alargamento da Alemanha. A arquitetura do euro foi mal concebida, pois nem se criou um governo comum nem um banco central com poder de emitir moeda e equilibrar os fluxos. A Alemanha aproveitou e bem a zona euro e o abandono do marco forte para fortalecer as suas empresas e a sua economia, para além de ser a principal beneficiária do alargamento da UE a leste. Continuando à velocidade da luz, a crise desencadeada pelas trafulhices da banca americana produziu enormes ondas de choque na banca europeia e nas economias, desequilibradas, da zona euro. A especulação com os juros da dívida começou pelos mais débeis e sem grande capacidade produtiva como garantia (já entretanto destruída com a ajuda dos alemães), mas prossegue em direção a outros. A “solução” imposta pela Alemanha, que viu os seus bancos fortemente atingidos pela crise internacional, condena os países que são primeiras vítimas ao infinito degredo e as suas populações a um recuo civilizacional de décadas (o qual não tem equivalente algum no corte (insignificante) de regalias às populações dos países do norte, por muito contidos que tenham passado a ser os seus orçamentos). Uma situação dessas, que ameaça estender-se à Espanha e à Itália, não pode manter-se por muito tempo sem suscitar indignação e revolta (ver Grécia).

Em França, foi eleito um presidente que se propôs desafiar a visão alemã. Não sei o que poderá acontecer. Mas uma coisa me parece certa: se Hollande defraudar as expectativas de quem nele votou ou de quem, no estrangeiro, mas dentro das grades do euro, apostou nele todas as fichas, está condenado, a começar a nível interno, e com ele todos nós. Se ostensivamente desafiar Merkel, pode criar um conflito franco-germânico, que depressa ganhará dimensão europeia. Convém-lhe, por isso, ir arranjando aliados. Ao que tudo indica, Merkel não cede.

Tal como a UE pretendia fazer face à ameaça soviética de uma forma unida, assim também me parece lógico que se crie neste momento, na Europa, um bloco de interesses, de preferência com moeda única e banco central, que faça frente à Alemanha, cujos interesses há muito se autonomizaram do interesse geral europeu, e isto caso mantenha a inflexibilidade e a arrogância injustificada para com outros países. Proponho, pois, a criação de um bloco que empurre a Alemanha para fora do euro.
Aposto que, por esta altura, já os americanos devem estar a pensar com os seus botões que alguma razão forte terá havido para duas guerras contra a Alemanha.

7 thoughts on “Questões de blocos”

  1. agora é pegar nesta brilhante e curta analise e explicar ao gaspar como um conto de crianças.

    Vocês sabem do que eu estou a falar…

  2. Muito bom, Penélope, mas parece-me que acabas menos bem, a misturar coisas que não estão no mesmo plano. Mas vamos por partes, quase à velocidade da luz, que o tempo é um cavalo (com o freio nos dentes). E por ordem de importância dos assuntos.

    1º – Sobre o essencial, até concordo com a tua proposta de criação de um novo Eurogrupo, sem a Alemanha, mas tens de contar a história até ao fim: nunca será realista uma Zona Euro apenas sem a Alemanha, pois outros Países fatalmente a acompanhariam nessa saída. Por isso, sejamos realistas e exijamos o possível: “expulsar” a Alemanha da Zona Euro equivalerá a criar uma Zona “Marco” (por hipótese simplificativa), com pelo menos a Alemanha e o Benelux (no qual a Holanda conta muito), mais seguramente a Finlândia, a Dinamarca, a Suécia, a República Checa e a Polónia.

    Sobra o quê, na Zona Euro: os PIIGS, claro (e isto já é contar com a Irlanda “no cu da galinha”, o que não me parece crível – mais certo seria a Irlanda, num tal cenário, adoptar a Libra estrelina…), adicionando com boa vontade a compreensiva e solidária França. Cenário explosivo, como fácilmente se imagina…

    E depois tu contas ainda com a “natural” complacência do “amigo americano” para servir de anteparo ao Euro contra o Novo Marco, quando deverias saber que o Dólar só reconhece como amiga, desde sempre, a Libra. Por isso, é mais um naco de irrealismo que convém extirpar do teu sonho.

    Aqui chegados, fácil se torna imaginar uma tal Europa a duas (ou três) velocidades: o Novo Marco em “quarta”, mas se tudo correr bem já a caminho de meter a “quinta”, a Libra numa prudente mas sólida “terceira”, sempre impedida de caír na “segunda” pelo (seu, não nosso) “Tio Sam”, e finalmente o Euro engasgado em “segunda”, puxada pelo cavalo cansado da França, cujas “sopas” poderiam não o conseguir impedir de caír numa desastrosa “primeira”, ou mesmo numa trágica “marcha-atrás”, apesar da converseta do costume dos mercados latino-americano e lusófono, que não valem um chavo na Economia mundial de hoje.

    Fica o sonho desmantelado: se calhar é melhor assim, acordar, antes que se atinja o pesadelo.

    2º – Sobre a mistura dos dois assuntos, julgo que as duas Guerras que a Alemanha originou nada tiveram que ver com o Mundo atual; deram-se num contexto irrepetível, de (ainda) supremacia económica europeia sobre o Mundo, o que hoje em dia não tem aderência com a realidade. É Passado, morto e enterrado, não explica nem resolve coisa alguma do Presente. Apenas está mais perto, no tempo, do que as Guerras Púnicas. Mas tem o mesmíssimo potencial de semear Futuros…

  3. Uma correcção: os gregos não levantaram 700 milhões apenas na Segunda-feira, mas sim desde 6 de Maio. E a questão parece ter sido empolada pelo presidente grego na tentativa de forçar uma coligação.

  4. Odisseu: Com cenários extremos também se pode influenciar a realidade. O que é certo é que a situação atual não leva a lado nenhum que nos convenha. Nem a nós, nem à Espanha, nem à Itália, nem à França, tudo grandes países. A Espanha está à beira de um resgate, o que nos afundará ainda mais, se juntarmos isso à saída da Grécia.
    Não quis dizer que os americanos estariam dispostos a apoiar esse bloco. O que eu quis dizer é que a situação atual na Europa não os deixa muito tranquilos, aliás, estão lixados, sendo impossível que não apontem o dedo à Alemanha.

    Vega9000: Segundo tenho lido, já há mais de dois anos que é constante a fuga de capitais para fora da Grécia e é bem possível que se tenha acentuado com a saída iminente do país da zona euro.

  5. Penélope,

    não creio que se possa apontar a Alemanha como o País “culpado” passivo desta crise, tanto quanto me parece inútil apontar a Grécia, ou os PIIGS em geral, como os culpados activos.

    Do que eu discordo é de que se continue a fazer o erro histórico (quanto a mim crasso) de pretender ressuscitar realidades passadas que simplesmente já não existem. Assemelhar a Alemanha atual às Alemanhas imperiais passadas, nucleadas pela Prússia, é uma grosseira mistificação, que não conduz a lado nenhum. A Prússia, que conferia o carácter bélico e autocrático às Alemanhas imperialistas foi varrida do mapa europeu. Não existe nem o seu Território (desgermanizado por vários Povos eslavos), nem o seu Povo, nem a sua Cultura. Há apenas a memória e mesmo assim ténue, por motivo do extermínio que as guerras e a posterior ocupação soviética provocaram. O desaparecimento da Prússia é de uma radicalidade sem paralelo na História recente e nem sequer houve um “aproveitamento” dos seus restos mortais no regime da Alemanha Oriental. Cessou, findou, acabou.

    A Alemanha de hoje é um País completamente diferente, portanto, das Alemanhas imperiais. Isto quer a nível político, quer sobretudo a nível social e cultural. É mesmo, se quiseres, um dos Países mais socialistas, no verdadeiro sentido do termo, de toda a Europa. Nem um Governo conservador consegue modificar essa caractérística intrínseca da Alemanha atual (bem ao contrário de Portugal, onde nem um Governo progressista, ou revolucionário, consegue alterar o cariz eminentemente conservador e retrógrado deste País e deste Povo).

    Por isso, cautela quando se simplifica e se vê o Mundo a preto e branco. Está a criar-se uma nova mitologia pseudo-esquerdista, que associa os males da Europa à Alemanha só pelo seu Passado histórico recente (ou parte dele) e pelas cores do seu Governo atual, fazendo-se tábua rasa de tudo quanto a Alemanha contribuíu quer para a construção e a integração europeias, quer para a consolidação da Democracia na Europa e no Mundo, quer até para a prosperidade dos Povos europeus, em todos os domínios e mais alguns, desde a criação de condições dignas e humanas para os Imigrantes (milhares dos quais portugueses, que aliás nunca se queixaram de descriminações), até à disponibilização de avultadas somas para “pagar” o festim da integração europeia dos mais débeis.

    Essa parte do filme de “Cow-boys”, com hunos demoníacos e ultra-liberais sovados por “yankees” santinhos e muito democratas, já não está própriamente no prazo de validade…

  6. Odisseu: “Não nos banharemos jamais no mesmo rio, porque nem as águas nem nós seremos os mesmos” já há mais de dois milénios alguém disse. De facto, muito poucas coisas se repetem exatamente. No entanto, não podes negar que, por uma questão eleitoral e também de preconceito, Merkel, no meio desta crise concreta, no século XXI, difundiu bem a ideia de “castigo” para os países do sul, passando por cima de toda a ordem de razões para a especulação com os juros das dívidas. Isso não é aceitável. Há milhares de pessoas a regressar à miséria, não no país dela, mas não muito longe, em grande medida dependentes das suas decisões. Independentemente do mérito que tem em querer defender o seu país, o seu Estado social e a sua democracia, que ningúem contesta, não pode ignorar que a moeda única enferma de uma doença genética para a qual também os dirigentes alemães contribuíram e que priva os Estados de mecanismos próprios de combate a crises, como a desvalorização da moeda. Temos todo o direito de a criticar.

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