A experiência mística

Frequentei durante cinco anos, entre os 10 e os 15, um colégio de freiras. Não porque os meus pais fossem muito religiosos, nada disso, o meu pai e ambos os avôs (republicanos) eram até ateus, mas por questões práticas: a alternativa era um colégio local de má qualidade ou a frequência do liceu na cidade mais próxima, o que implicava o aluguer de um quarto em casa de estranhos (10 aninhos ainda incompletos).

Com o background familiar já referido, pouco liguei de início às ladainhas e rituais das freiras, objeto, aliás, de grande gozo; gostava era das brincadeiras nos dormitórios, orgulhando-me dos castigos. Mas a doutrina ia-se infiltrando e o proselitismo era poderoso (não que já não tivesse passado, ainda mais cedo, pela fase do catecismo e da personalização do demónio – grandes pesadelos – e das comunhões). A partir dos 12 anos, faziam-se “retiros” – períodos de 3 dias no ano em que não havia aulas e as atividades se resumiam à leitura de livros religiosos e ao visionamento de filmes tenebrosos sobre leprosos em ilhas longínquas, à frequência mais prolongada do que o habitual da capela e à “meditação” – que eram autênticas lavagens ao cérebro para gente tenrinha. Normalmente, no fim dos três dias, uma freira indagava junto de algumas de nós, mais ou menos diretamente, se teríamos sentido algum chamamento, o despertar de uma hipotética “vocação” (para mim, novas angústias, pois apaixonara-me por um príncipe encantado cá fora (tínhamos férias e fins-de-semana)). Um sistema bem montado, portanto. Valia que, para o objetivo parental da minha passagem por ali, o ensino era exigente.

Apesar de não ter sido difícil, com o ambiente em que vivia e com o evoluir da situação política e social do país, libertar-me depressa de terrores e preconceitos e dedicar-me ao que interessava, durante anos senti um ligeiro calafrio sempre que “blasfemava”. Passou, o que prova o poder, muitas vezes subaproveitado, dos neurónios.

Ao olhar hoje, dia 13 de maio, para estas deslocações em massa ao santuário de Fátima, não posso deixar de achar piada ao fenómeno, agora visto com outros olhos (as idas a Meca ou a outros locais “de culto” por esse mundo fora em nada diferem). Por um lado, trata-se de um Goldman Sachs da igreja católica. Quantos fundos ali não se angariam, quanta publicidade à causa? Por outro, enfim, muitas pessoas buscam experiências “místicas”, experiências do “além”, uma dimensão extraterrestre, a ideia de uma harmonia celestial, a maior parte delas sabendo que nenhum do suporte real de tudo aquilo faz o mínimo sentido (mas sempre é uma viagem, cuja recompensa, quem sabe, um dia chegará) e outras esforçando-se por lhe dar um sentido, mas acabando por aterrar na planície etérea da fé para poder dormir descansadas. Para o caso, evidentemente, pouco interessa onde tudo começou e porquê. No fundo, é uma festa.

Pois nada contra, desde que nenhum dos promotores e organizadores destes eventos pelo mundo fora me imponha a sua alucinação. Sem desdenhar do papel disciplinador, de quase código penal, e do papel também higiénico das religiões no passado, ir a um concerto, visitar locais bonitos da Terra ou viver um amor perfeito também podem ser experiências místicas. Provavelmente mais compensadoras. Têm a vantagem de, neste estádio de evolução da humanidade, não imporem condutas nem adormecerem a inteligência.

Adenda: Não posso aqui deixar de recomendar um livro que adquiri recentemente na Feira do Livro e que, já sendo de 2009, me tinha escapado. Chama-se “Você está aqui” (Editora Casa das Letras) e é um autêntico mapa, sem imagens, para nos orientarmos no universo, quer ao nível macro (dos nossos pés até aos superaglomerados de galáxias), quer ao nível micro e nano (até ao mundo das partículas). Muito bem escrito (às vezes não totalmente bem traduzido), e com humor, por um inglês que é dono da editora 4th Estate, cursou matemáticas e fez um mestrado em História e Filosofia da Ciência, situa-nos, de facto, no mundo e recorda-nos ou dá-nos informações sempre preciosas e curiosas, como a de que o teorema de Pitágoras afinal não é de Pitágoras ou sobre a origem das palavras ou ainda sobre o critério, que se pretendeu universal (ou seja, válido para todo o universo), para a definição de metro. Boa leitura, abaixo a cova da Iria (não resisto).

44 thoughts on “A experiência mística”

  1. Na casa de campo que possuo ali para os lados de Salvaterra de Mago, lá deixei uma placa com o “endereço cósmico” do local a que se refere o VOCÊ ESTÁ AQUI de Christopher Potter, assim constituido:

    VOCÊ ESTÁ AQUI
    Longitude e Latitude precisas do ponto
    Planeta Terra
    Sistema solar
    Galáxia: Via Láctea
    Algomerado Local de Galáxias
    Super Aglomerado da Virgem
    Universo

    Serve muito para assinalar a nossa pequenez e, até, para reduzir às devidas proporções os problemas que hoje afectam os habitantes deste insignificante planeta.

    Os amigos que muitas vezes ali me fazem companhia, gostam de fazer fotografar os seus pés ali, exactamente naquele ponto.

  2. A melhor “experiência mística” de Fátima é o restaurante da tia Alice Marto. O comando é actualmente da filha da tia, convenientemente chamada Lúcia Marto (este era também o apelido dos videntes Jacinta e Francisco, talvez parentes).

    Especialidades milagrosas do santuário:
    Entradas: morcela de arroz e presunto serrano ou pata negra.
    Peixe: arroz de peixe com robalo e tamboril; açorda de camarão; açorda de bacalhau; bacalhau à Tia Alice; bacalhau gratinado.
    Carne: chanfana; vitela assada; arroz à transmontana; arroz de pato do campo.
    Doces: gelado Tia Alice; bolo de noz com cobertura de chocolate; bolo do convento; bolo de chocolate com gelado de natas; pudim de ovos.
    Trinta euricos por cabeça.

  3. Ó bisconde, esses que enfardarem as cousas que fala, bão chigare ao inferno com o bandulho cheio, nem os pastorinhos lhes balem.

  4. Visconde: Sim, o setor da restauração vive dias dourados nessas alturas, interessando-lhe que a fé se mantenha para todo o sempre e até que descubram que, afinal, Maria também apareceu com grande pompa noutras datas, ou coisas asssim.

  5. Pois era assim, no seminário, como no colégio da Penélope: retiros, orações, meditações, brincadeiras no dormitório e fora do dormitório. Por causa dessas brincadeiras e outras que tais, uma “fornada” de trinta ou quarenta seminaristas vocacionados ficava reduzida, em meia dúzia de anos, a meia dúzia mesmo de vocações. E nem esses poucos chegavam todos à meta do sacerdócio. E, dos que chegavam, uns quantos ainda arrepiaram caminho, acordando, tarde e mal, nos braços do amor que sempre sonharam. No fundo, como hoje em Fátima, todos procuravam o olhar carinhoso da mãe, o primeiro que os fascinou e viram debruçado sobre a sua inocência, tão perto e protector, desde os primeiros assomos de consciência. Deles e delas, porque o bebé não distingue sexos. Mais que pai e mãe, Nossa senhora de Fátima é o rosto do carinho que um dia vislumbramos ou apenas sonhamos e que agora bem queremos que seja um coração a bater juntinho ao nosso.
    “Miserere nobis”, cantava o côro. Só que cantava e solicitava misericordia à porta de um tremendo equívoco: um Deus abstrato e sem rosto, que ao engano lhes disseram que cuidava da saúde, do emprego, da escola, da solidão. Nada melhor que um dia 13 de Maio em cada mês do ano, clamando às portas do céu, poupando os governantes a tão intensas e incómodas e dolorosas súplicas.

  6. Pois é. Um dos aspectos mais curiosos é o desenvolvimento do fenómeno de Fátima só depois da morte do cardeal Mendes Belo que nunca lá foi nem quis ir. Há um livro do meu amigo Aurélio Lopes que explica esse assunto em pormenor. Só depois de Cerejeira houve desenvolvimento no caso.

  7. Lá tinha que bir o BRONCO da BENEDITA explicar que o amigo tem cumpetência pra explicar o segredo de Fátima e o gajo ainda me fala de Deus e de oração. Ó páh, tefoena para o Céu, pode ser que haja alguma feira de arte paradisiaca, meuzinho, e te deixem entrar e tu isplicas depois melhore ca calquer um. safa!

  8. Mais um mercado, o primeiro dos mercados, anterior aos financeiros, o mercado da fé, que nos vende o crédito da crença, numa construção quimérica de valor acrescentado virtual, um produto estruturado, um “derivativo” da real construção da consciência, educação, responsabilidade, liberdade, acção e consequência.
    Só depois de consciente se está apto a perguntar pelo infinito.

  9. as minhas experiências místicas são mais à base de queijo e fiambre em cama de tosta e os meus conhecimentos naúticos do estuário de fátima permitem-se afirmar que os ventiladores da queima de velas nesta altura do ano trabalham a força 12 a derreter crenças.

  10. Foi em colégios de frades e freiras e seminários de jesuítas e fraxiscanoa e outras sotainas que meio Portugal aprendeu a ler.

    Sendo que várias figuras importantes nacionais tinham como paisinhos desde padres, cónegos bispos e cardeais.

    Valha-nos as nossas beatas que evitaram com a sua disponibilidade abençoada que muitos de nós em criancinhas fossemos poupados a muitos abusos de que foram vítimas crianças alemãs, holandesas, belga e americanas.

    Havia outra metade de Portugal que eramos analfabetos.

    Só admira que com tanta influência de das sotainas há tanta gente a usar aventais.

  11. pois eu tenho a dizer que ainda bem que fui poupada a uma educação católica do género descrito e afins, porque isso me impediu de ser fanática ateia. A educação católica provocou mais ateus em Portugal – do que conheço – do que o PC. palavra de honra.

    Entendo como ateu alguém que crê firmemente na inexistência de divino.

  12. e mais acrescento que todos os ateus que conheço fazem uma baralhação tremenda entre misticismo e prática religiosa ou filiação religiosa, como no caso. Bem me tenho esfalafado a explicar (nomeadamente aqui) que neste caso não convém confundir “género humano” com “manel germano”, mas sem sucesso, confesso. (crença é crença, dogma é dogma, não há nada a fazer)

  13. Fogo, mas ninguém fala de DEUS nem de manifestação de Deus! Balha-me Deus, minha birgem, ai o dia que precisarmos do milagre, e se ele acontecer, que bai a ser de nós’!

  14. Pelo que se lê, uma boa parte deste blogue foi educado em colégios religiosos. Mordem na mão que lhes deu de comer.

  15. Edie: Não me considero ateia fanática. Quero lá saber das crenças dos outros. Desde que não mas imponham, claro. Quero que sejam felizes da maneira que entenderem, mas que não ousem proibir-me de emitir a minha opinião. E não, também não faço baralhação nenhuma. Pelo contrário, sem bem distinguir experiências místicas (?) e pertença a um credo e respetivos rituais.

  16. Em Portugal nem todos os que ajoelham rezam, nem todos os católicos vão à missa.

    Será em Portugal o mesmo que noutras partes do mundo.

    Mas entramos em qualquer “capelinha” que nos der jeito em cada momento.

    O que mais há é “capelinhas” e com respeito a religião há países em que se consegue a quadratura do círculo, nós somos um desses povos.

  17. Muito bem, Penélope. Se todos fossem assim, que paraíso. Passo então a corrigir – quase todos os ateus que conheço—etc.

    Mas não percebi o ponto de interrogação entre parêntesis a seguir à experiência mística que distingues da religião. Podes esclarecer?

  18. Como é que se consegue que 300 mil “carneirinhos” (só ontem) apareçam em Fátima, anestesiados por experiências místicas (que não fazem nenhum sentido(???)) é um extraordinário fenómeno, para não dizer mesmo um Milagre.

  19. o mário nogueira tamém conseguiu 300 mil na avenida e ainda não foi canonizado, os milagres têm coisas destas e outras do mesmo cariz ecológico, a ribeira por exemplo.

  20. Esse JCF, só para poder “vir à boca de cena” até é capaz de dizer que andou a comer a Lúcia.

  21. Não, pá. A da touca preta que deixou os três vinténs em herança ao santuário.

    Quanto a essa que dizes, a única semelhança é que o tipo parece que anda a tripar desde os anos sessenta.

  22. Edie: Atendendo ao significado mais comum de misticismo – “comunicação do homem com a divindade”, achei por bem acrescentar um ponto de interrogação, por motivos que compreenderás e que se prendem com o significado restrito de divindade.

  23. compreendo. trata-se daquele pontinho de interrogação que dá pano para mangas e discussões de milénios. Bem resumido ;)

  24. yahcinta! que cena é essa do intóchicado do carmo andar a transar comigo. vê lá se queres que o preto te vá aos cornos.

  25. Graças a Deus a Penélope “viu a luz”, coitadas daquelas 300.000 PESSOAS que foram a Fátima este 13 de Maio, ignorantes, atrasados, rurais sem conhecimentos.
    Que bom haver uma Penélope, urbana, civilizada, muito prá frentex, para nos poder ensinar a ser modernaços.

  26. “… coitadas daquelas 300.000 PESSOAS que foram a Fátima este 13 de Maio, ignorantes, atrasados, rurais sem conhecimentos.”

    é isso tudo, nem duvides. fora o negócio da assistência aos peregrinos e os desvios turísticos pela nazaré.

  27. Desculpa lá ó Luce mas de jaleko só conheço o jardim. Que é aquele gordo meio senil com bafo a lamparina apagada.

    Quanto ao preto não há problema; a não ser que seja da ganadaria da Marquesa de Alorna. Esses sim, são bravos.

    Ó rato dos tijolos, não és um bocado velhinho para dançar o twist? Aquilo sempre deu péssimas digestões e pedra no rim.

  28. era a mística lisérgica do timóteo, dáva pra ver diamantes, luces e outras merdas metalizadas a andar à roda. pedra no rim? não dei por isso, pedrada nos cornos concerteza e se não fosse assim quem é que se divertia com esta merda http://youtu.be/AA9maAERDAs
    tens razão, tou velho, mas não ligo muito a isso, só quando fazem o favor de me lembrar.

    edie, o que é ldg??

  29. Vê lá se páras de dar com o tijolo na cabeça…então é a Lucy Disguised w/ Glasses, porra.

    O timótio lírico dizia que os beatles eram avatares, verdadeiros deuses materializados, os mais perfeitos que a humanidade pudera observar (e depois o JL a meter achas na fogueira a dizer que eram mais populares entre os jovens, do que o JC).

    Queres uma experiência mais mística?

  30. Não ligues, que eu também não.

    Agora não me fales do timóteo, que me lembra logo do gajo que uivava e do outro que andava a pé a brava (embora nunca tivesse ido a Fátima) e o agarrado que falhou o tiro no copo e o caraças…

  31. tá bém visto edie! não lembraria nem áquele senhor careca que é amigo do professor marcelo.
    yahcinta, tás bués d’encriptada prá minha cifra, assim falas sózinho(a)

  32. Tá bem, mas só esta vez (como disse a corista ao bispo).

    Ginsberg, Kerouac e Burroughs .

  33. cá me queria parecer que era quiz semanal, se deres prémio pode ser que o pessoal se ponha a adivinhar. oh edie! tu ias à pildra abastecer o kerouac.

  34. A ida a Fátima, para a maioria daqueles que lá vão, é assim como que um Plano Poupança Reforma para a eternidade. Pensam que para conquistar um lugarzinho no “céu”, têm que investir no produto e todos os anos (ou meses) fazer um reforço de capital no tal plano. Coitadinhos, só quando morrerem é que vão ficar a saber (isso, se admitissemos a hipotese de virem a sentir alguma coisa nesse momento, o que para mim não passa duma fantasia) que estiveram a investir num produto tóxico que, entretanto faliu.

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