Suspenda-se a oposição

Durante a última campanha eleitoral, Ferreira Leite, uma senhora que nunca mente, e que já nos tinha revelado o desejo de suspender a democracia, confessou-nos uma grande preocupação: não ficava nada descansada com Sócrates sentado na bancada da oposição. Pelo que vimos nos últimos dias, não era a única com essa preocupação, mas o problema da direita não é só com Sócrates. No fundo, é toda a oposição que os atrapalha. Este Governo, aparentemente, não reconhece legitimidade a ninguém para o criticar. Com o BE e com o PCP não têm de se preocupar. Logo agora que terminou a asfixia democrática, imposta pelo maléfico Sócrates, estes partidos quase desapareceram da nossa vista. A mesma comunicação social que todos os dias concedia tempo de antena aos seus líderes, neste momento, praticamente, só lhes dá voz em dias de greve ou manifestação. Quanto ao PS, é constantemente lembrado do seu passado e acusado de ser o único partido responsável pela situação em que o País se encontra. Quer seja no Parlamento, em debates televisivos, entrevistas, blogues, seja onde for, se alguém critica o actual Governo, à falta de outro argumento, é imediatamente lembrado do passado dos governos socialistas, sobretudo dos governos de Sócrates. Ora, Sócrates governou durante seis anos (não foram sessenta), antes tínhamos tido um Governo PSD/CDS que durou três longos anos (não foram três dias). Este Governo, liderado por Barroso, Portas e Santana, foi uma autêntica anedota de mau gosto. É este o passado recente dos partidos desta gente competentíssima que agora nos governa. E a anedota continuou quando passaram para a oposição, mas não foi por isso que deixaram de ser respeitados enquanto oposição durante os governos socialistas que se seguiram. Ninguém lhes esfregou na cara a toda a hora o triste passado.
Embora não me pareça que esteja para breve, até podem sair dos partidos da direita excelentes governantes, mas têm de o provar, não podem invocar a competência de governações passadas. Portanto, deixem lá o passado dos outros em paz.

Dissidentes do BE…

…chamam “institucionalizados e parlamentarizados” aos militantes da facção actualmente dominante no partido (Fonte). Sendo então os que lá estão os finos e acomodados, podemos esperar a formação de um partido de rua, à margem das instituições? É desta que vamos ter o nosso Outubro Vermelho, camaradas?

Folgo, no entanto, em saber que alguma coisa mexe no reino do Louçã ou pós-Louçã ou anti-Louçã. 200 são muitos!

Sempre as palavras: é só meia hora, só isso? Não.

“O Governo pretende aumentar o período normal de trabalho de oito horas para oito horas em meia hora por dia e de 40 para 42 horas e meia por semana sem qualquer contrapartida remuneratór ia. Segundo o Documento de Trabalho apresentado no Conselho de Concertação Social denominado Compromisso para o Crescimento Competitividade e Emprego aquele acréscimo de tempo de trabalho vigorará nos anos de 2012 e 2013 com o objectivo de contribuir para a recuperação da competitividade da nossa economia e evitar o aumento significativo de desemprego.

Antes de mais cumpre sublinhar que o aumento da meia hora diária de trabalho não só não atenuaria o défice de competitividade das nossas empresas como agravaria o desemprego que em Portugal se cifra oficialmente em 12, 9.

A própria Confederação do Comércio e Serviços de Portugal já reonheceu a desadequação desta medida que ao invés da justificação do Governo só limitaria novas contratações e facilitaria a redução de pessoal. A falta de competitividade não se resolve com mais quantidade de trabalho mas sim com melhor qualidade o que pressupõe sobretudo investimento na formação dos trabalhores e dos gestores. Não será com mais meia hora de trabalho que as empresas portuguesas poderão competir com a China que paga aos seus trabalhadores salários mensais de 110 euros recorre ao trabalho infantil e não respeita a limitação razoável da duração do trabalho Direito proscrita no artº 24º da Declaração Universal dos direitos do homem na alínea b do artº 7º do Pacto Internacional sobre os Direitos Económicos Sociais e Culturais. Por outro lado está previsto o aumento do tempo de trabalho no regime de adaptabilidade individual e colectiva do banco de horas regulados nos artsº 204º a 208º do Código do Trabalho CT. Assim além do aumento de duas horas diárias de trabalho por acordo individual com o acréscimo de mais meia hora a duração do trabalho semanal poderia atingir as 52 5 diárias no período de dois meses. Presentemente já é permitido por acordo colectivo de trabalho nomeadamente ao nível da empresa o aumento até quatro horas diárias e 60 horas semanais. Deste modo, com o acréscimo de meia hora diária a duração do trabalho semanal poderá atingir as 62, 5 horas nos regimes de adaptabilidade colectiva e do banco de horas sem prejuízo da redução igual do tempo acrescido no período de referência de um ano.

Esta duração excessiva pode causar sérios danos na saúde e segurança dos trabalhadores e afectar a sua produtividade além de perturbar a conciliação do trabalho com a vida familiar cívica e associativa ao arrepio do direito ao repouso e aos lazeres e do princípio da adaptação do trabalho ao homem consagrados no artº 59, nº 1 alíneas b e d da CRP e no direito Comunitário (..).”

Fausto Leite, especialista em Direito do Traballho (ler o resto, hoje, no “Público”)

Perguntas inocentes no rescaldo de dois assuntos

1. Havia ou não havia uma vontade imensa de entrevistar José Sócrates? A mini-entrevista de ontem foi quase nada, mas, apesar disso, ouvi o jornalista Carlos Daniel na RTP-I a dizer que, se soubesse que Sócrates dava entrevistas, ele e muitos outros jornalistas também gostariam de o ter entrevistado! Impossível de esconder a invejinha de Isabel Damásio, ah, ah!
Espantoso o fascínio de Sócrates e o interesse pelo que terá a dizer (apesar dos gritos histéricos, que Freud explica).

2. Back to Brussels: Será que a Alemanha e a França estão convencidas de que o reforço, a generalização e o maior controlo das medidas de austeridade vão mesmo convencer os “mercados” a acabarem com a especulação? Não é hoje que o euro explode, mas os mercados na segunda-feira vão dizer como é. No fundo, não quererá mesmo a Alemanha acabar com isto tudo?

Ia já longa a madrugada em Bruxelas quando, após nove horas de negociações intensas, os líderes dos 17 países do euro fizeram divulgar uma declaração conjunta em que se comprometem a seguir o essencial das propostas franco-alemãs de reforço da disciplina orçamental. Angela Merkel queria que as novas regras ficassem inscritas na “pedra”, ou seja no Tratado de Lisboa e no quadro jurídico da União Europeia e das suas instituições.

Ou, lido em inglês, no site da BBC:

“Even so, the main impact of these changes will be in the long term.

Last night’s historic agreement has little to say about debt, about the absence of growth, about the European economies that continue to grow apart.

The major test will be whether a commitment to budgetary discipline frees up the European Central Bank to act more aggressively in the markets and so lower the borrowing costs of troubled countries like Italy and Spain.

The head of the ECB, Mario Draghi, was circumspect last night, saying only that the agreement was “going to be the basis for a good fiscal compact and more discipline”.

Impressões


ÁTICA, 2011

José Barreto fez aqui um ensaio à americana, onde as matérias investigadas são servidas com uma leveza no trato que não compromete o rigor, antes o destaca para uma imediata assimilação; algo simultaneamente raro e exemplo que o marasmo editorial académico podia muito bem seguir se tivéssemos sorte. Em vez de querer enfiar na Betesga da utilidade para o leitor o Rossio da inutilidade de um registo narcísico ou maníaco da investigação que se pretende passar por erudição, típico do provincianismo que tem empestado e imobilizado a academia, o autor foca-se numa intenção principalmente recolectora. Ele foi à procura dos textos cuja topologia estava definida previamente com exactidão, identificou as passagens mais relevantes e apresenta-as com uma suficiente explicação que situa os originais no conjunto da biografia e obra de Pessoa. Há um esforço consciente para limpar a palha subjectiva e deixar refulgir os factos. O mesmo registo económico foi utilizado com os restantes autores citados a partir da biblioteca do nosso António Nogueira, os quais terão sido influenciadores das posições que Pessoa viria a expressar em relação às temáticas femininas e respectivos debates ao tempo. Em suma, e para lá da agradável e instrutiva leitura, a qual oferece 5 inéditos pessoanos, ainda se fica com um inevitável instrumento para investigações futuras.

A temática da misoginia e anti-feminismo em Pessoa tem um bónus especial nisso de nos permitir descobrir (o meu caso), ou relembrar (talvez o teu), a fascinante figura de Thomas W. H. Crosland; um inglês nascido em meados no século XIX e que foi até aos princípios do século XX sempre a cascar no mulherio. É dele o livro Lovely Woman, de 1903, entusiasticamente sublinhado por Pessoa com anotações de aprovação e júbilo, e onde se encontram estas verdades intemporais:

– A mulher moderna deve ser “relegada para a sua esfera natural”, abandonando a política e sendo-lhe retirados privilégios, deferências e liberdades anteriormente outorgados.
– As mulheres são o “inimigo” e comparáveis aos escoceses, com quem não se podia fazer qualquer negócio por causa da sua desonestidade.
– As mulheres da classe média suburbana são pouco castas, avessas à maternidade, obcecadas com o conforto material e gastadoras impenitentes, dessa forma pondo em risco a raça britânica agora ameaçada de “suicídio”.
– A emancipação da mulher vai acabar por criar o “terceiro sexo”.
– A mulher invadiu as fábricas e os escritórios britânicos não por ser competente mas por ser mais barata.
– O “terceiro sexo” (essa tal mulher trabalhadora e independente) não sobreviveria no futuro por tal se opor às “leis do universo” e porque “fora do matrimónio o único lugar da mulher é numa loja de roupa para bebés”.
– A mulher não admite que tenha imperfeições físicas e espera do homem que a encare “como se não existissem dentes postiços”.
– A ideia de que o tempo gasto a namorar ajuda o homem e a mulher a compreenderem-se melhor é totalmente errada “porque na mulher não há nada para ser compreendido” e porque “no homem há muito pouco que a mulher seja capaz de compreender.”
– Do ponto de vista de um homem, “o mais aterrador quando se tem uma mulher é não se poder casar com outra”.
– Quando as mulheres de um país conseguem alcançar o que julgam ser os seus direitos, o país começa a decair.
– Um homem de vários talentos pode fazer coisas admiráveis e ilimitadas quando jovem, desde que “se afaste dele as mulheres”.
– Enquanto as realizações de um homem tendem uniformemente para o desenvolvimento da sua virilidade, as de uma mulher levam à destruição da sua feminilidade.
– Um homem que pensa ter uma beleza de mulher deve meditar se tal se deve à mulher ou à roupa.
– Por fracos oradores que sejam certos homens públicos, uma figura pública feminina fica sempre a milhas dele nesse campo.
– Contrariamente às donas de casa que deixam as criadas terem ascendente sobre elas, “um homem nunca toleraria tal estado de coisas em qualquer estabelecimento ou organização por ele dirigido”.
– O espancamento do marido pela mulher estaria a tornar-se corrente em Inglaterra, não sendo para espantar que “a mulher, se desenvolver a sua musculatura, mais tarde ou mais cedo bata no marido”.
– “A única propriedade com algum valor que uma mulher pode possuir é um bom marido”.

(citações das páginas 105 a 108)

Portas, Prémio Biltre 2012

Num ano de fortíssima concorrência, Paulo Portas acaba de dar um passo de gigante para a conquista do Prémio Biltre 2012 ao ter comentado com esta honestidade intelectual e exemplarismo ético uma frase retirada do seu contexto, contexto esse do foro particular, e frase essa absolutamente correcta; tão correcta que até Passos Coelho, um homem invulgar, já a validou para o mundo poder concentrar-se em paz na implosão da Zona Euro:

Portas diz que teve de ler duas vezes declarações de Sócrates sobre dívidas para acreditar

“O único comentário que me ocorre, com toda a franqueza, é que está explicado como é que o setor público e as empresas públicas atingiram o nível de dívida absolutamente astronómica que se atingiu em Portugal: é porque o primeiro-ministro pensava que não se pagava”, disse.

Paulo Portas comentava em Bruxelas, à margem de uma reunião de chefes de diplomacia da NATO, uma declaração proferida por Sócrates em Paris durante uma palestra, e hoje reproduzida pelo “Correio da Manhã”, segundo a qual “para pequenos países como Portugal e Espanha, pagar a dívida é uma ideia de criança”, pois “as dívidas dos Estados são por definição eternas”.

O ministro dos Negócios Estrangeiros e líder do CDS-PP disse que, ao ser informado dessa declaração, teve “que a ler segunda vez para acreditar que um antigo primeiro-ministro tinha dito isso”, e acrescentou que, “infelizmente, como as pessoas sabem”, porque estão a sofrer sacrifícios, “as dívidas pagam-se”.

O Ministro ensombrado de um Governo tétrico tem-se notabilizado por conseguir fazer de Houdini um mero aprendiz perante a sua peculiar arte para sair do palco sem necessidade de se enfiar em caixotes ou gaiolas. Ainda ninguém sabe ao certo que técnicas Portas está a utilizar para desaparecer de todas as situações onde o Governo defende o povo contra os efeitos nefastos da presença de dinheiro nos bolsos dos contribuintes, mas fontes especializadas, que não quiseram ser identificadas, já garantiram estarmos perante o maior espectáculo de magia da gente séria desde aquele número que fizeram no BPN.

Pois este ser ultimamente apagado e vadio teve uma injecção de alegria porque podia falar de Sócrates depois de alguns meses de carência. E falou de ouvido, terá sido enganado por algum meliante desses do rendimento mínimo? Não, confessa que leu. E que voltou a ler. São assim os leitores do Correio da Manhã, voltam sempre ao local do crime onde assassinam a inteligência.

Vinte Linhas 703

Lembrar Afonso Praça e recordar Raul Brandão

Afonso Praça (1939-2001) concluiu o curso de Românicas em 1968 com uma tese de licenciatura intitulada «Raul Brandão, Jornalista» na qual o orientador foi Jacinto do Prado Coelho. Profundo conhecedor da obra de Camilo Castelo Branco e de Raul Brandão, entre outros autores portugueses, espanhóis e franceses, Afonso Praça dedicou muito do seu tempo ao estudo dos livros e da vida do autor de «Os pescadores». Por isso pode vir a jeito lembrar uma bela página de Raul Brandão (1867-1930) datada da Nazaré em 1923:

«Tive sempre a ideia de que quem manda em todo o país é a mulher. Na lavoura, às vezes o bruto bate-lhe mas é ela que o guia e lhe dá os mais atilados conselhos. E é ela em toda a parte que nos salva, parindo filhos sobre filhos para a emigração, para a desgraça e para a dor. Creio que só assim, parindo e gemendo, tecendo e lavrando mas principalmente parindo, é que se equilibra a nossa balança comercial, o que nos tem permitido viver como nação independente. Valem mais que o homem, sacrificam-se mais que o homem – mas aqui o seu trabalho é tão palpável que toda a gente afirma que a mulher da Nazaré é a alma desta terra. Os pescadores obedecem-lhe – a bem ou a mal, dizem… Não é, como em toda a parte, insinuando-se, que a fêmea, mais fina que o homem porque cria, o governa nesta terra. Aqui impõe-se, aqui existe a verdadeira e autêntica casa do Varunca – e sólida, apesar de edificada sobre areia… Da praia para cima só elas põem e dispõem. Eles, saindo do barco, metem-se na taberna e bebem. Sóbrios na comida, gastam quase tudo que ganham a beber: a percentagem e a rodada ou o giro. Só entregam em casa, intacto, o salário. Se as mulheres lhe batem, como corre, na verdade acho bem feito. – Eles merecem-no».

Descoberto e revelado por J.C.Francisco

Freitas: onde está a decência?

Freitas ontem à noite

Depois de várias reviravoltas políticas, que passaram pela criação do CDS após o 25 de Abril, pelo abandono do partido mais tarde, o que lhe grangeou o estatuto de persona non grata no Largo do Caldas e levou à cena caricata da retirada da sua fotografia das paredes, por uma candidatura à Presidência da República, uma passagem pela AG da ONU e pela participação em governos de diferentes cores, nomeadamente no primeiro de José Sócrates, do qual saiu, não em conflito (embora quem pudesse ter razões de queixa (políticas) fosse Sócrates), mas devido a problemas graves de saúde, Freitas do Amaral decidiu atacar o antigo primeiro-ministro com a mais descarada das ligeirezas e o mais descarado dos populismos e, direi eu, oportunismos. Este ataque já data de há uns meses, bem antes das últimas eleições. O tempo suficiente para que a cambada que agora nos governa o considere digno do lugar de presidente do conselho de administração da Galp. Pois é.

Freitas, como a direita rasca que nos calhou em sorte, tem proferido afirmações verdadeiramente incompreensíveis para quem deveria ter mais, muito mais do que dois dedos de testa. Freitas faz completa tábua rasa das circunstâncias em que Sócrates foi forçado a governar desde 2009, após uma campanha sem paralelo de ataques pessoais, da crise internacional do subprime, cujas consequências já então se sentiam fortemente aqui na Europa, da gravidade de uma eventual recusa de formar governo nessa altura crucial e da abertura de uma crise política, das directrizes da União Europeia no sentido de se incentivar a economia, da inversão brusca dessas mesmas directrizes mal a Alemanha resolveu o seu problema e mal começou a especulação em torno do euro, do comportamento velhaco das oposições.

Crespo, que não perde uma que alimente o ódio contra o ex-primeiro-ministro, convidou-o para o Jornal das 9. Claro que o pretexto foi o lançamento de um livro (estamos no Natal, afinal!).
Imagino que Portas não ache muita piada à nomeação de Freitas para a Galp, sendo por isso conveniente carregar os tons das acusações ao anterior governo. No balcão do Crespo, Freitas aproveitou o vídeo da palestra de Sócrates em Poitiers para desferir mais um golpe completamente oportunista, baseado numa deturpação propositada das afirmações de Sócrates, e ridículo, pois qualquer pessoa percebeu que o problema de que falava o conferencista era o do pagamento das dívidas de alguns países a um ritmo de mata-cavalos. Era o problema da necessidade de desenvolvimento dos países. Era o da diabolização das meras dívidas!
Freitas não é burro ao ponto de não o perceber. O problema dele, como resulta claro, é o que o move. E aí, não se vislumbra nunca nada de muito edificante. Um distinto catedrático que perdeu mais uma boa oportunidade de se distinguir da podridão.

Sócrates, o contexto e os maluquinhos por citações brancas

A malta que odiou Sócrates durante seis anos, que o odiou tanto que perdeu a moral em jogos corruptos dos media, de pequenas produções distorcidas na blogosfera, que o odiou tanto que calou a boca perante ataques de carácter sem prova alguma, que o odiou tanto que abraçou a derrotada conspiração ancorada na política da “verdade” e da “transparência”, a malta que odiou tanto que os portugueses o tivessem legitimado, a malta que agradecia a qualquer feiticeiro, mesmo que instrumental e mal-amado, como Cavaco, a malta que queria o homem fora dali por todos os meios que não o da democracia, essa malta viveu de um ódio tão cego que vive hoje com a consequência da intensidade do único sentimento que supera tanto ódio.
A direita ganhou as eleições, mas a malta passou anos a dedicar 24 horas por dia ao mentiroso, ao corrupto do Sócrates, que fazer agora? A direita ganhou as eleições e viajou para a demência europeia da recessão, é atacada pela própria direita, a malta anda desocupada de cabeça, que fazer com o tempo de tantos idiotas-inúteis, mas tão dedicados?
De repente, uma luz. Sócrates reaparece e permite-lhes esta citação para, no seu nervoso vazio, brincarem ao passado e, como que entre duas imperiais, exclamarem a admissão de culpa do ex-PM: “pagar a dívida é uma ideia de criança”. Iupi.
Acontece que se as pessoas não lerem apenas um slogan publicitário que foi feito com esta frase pelos idiotas-inúteis do costume, verificarão essa coisa que é usual sustentar uma frase e que leva o nome de contexto. Verificarão, também, que Sócrates tem toda a razão.
O que ele diz é que em países como Portugal (e outros), com as necessidades de investimento na economia, de investimento público, etc, nunca estamos numa situação de não-dívida. Diz, claro, que ela tem de ser controlada – ou seja, manter-se abaixo de certos limites, por causa das consequências óbvias, mas não há, dadas as nossas necessidades possibilidade de pagar toda a dívida, coisa, claro, de crianças.
Nada mais certo. E os idiotas-inúteis logo se agarram ao seu alvo principal, naturalmente, tristes que estão com a direita vencedora que sobre boa dívida disse zero.
Gira, ainda, a inistência permanente nos “6” anos de horror financeiro de Sócrates..gente esquecida que os primeiros desses anos foram a diminuir drasticamente e com sucesso o défice espectacular herdado de um certo governo de direita, que chegou a tal desastre sem crise internacional, imagine-se.
Querem, pois, um país sem dívida. Há uma receita: zero investimento e empobrecimento. Releiam os números de Salazar, homem que sabia muito de finanças, que gostava de um portugalinho rural e atrasado, homem avesso ao desenvolvimento económico e satsfeito com menos de uma mão cheia de famílias com poder económico e ao seu serviço.
Dívida zero. Temos defensores.

Ficamos à espera de um pedido de desculpas do governador do Banco de Portugal ao Parlamento na pessoa do Deputado João Galamba e que de caminho o refute

“Na audição ao governador do Banco de Portugal, que decorreu na passada sexta-feira na Assembleia da República, eu disse que Carlos Costa não tinha razão quando afirmou que a compra de dívida pública* por parte dos bancos tinha limitado a capacidade de concessão de crédito à economia. Carlos Costa chamou-me “ignorante”, acusou-me de não perceber o conceito de crowding out e mandou-me “aprender”. Para demonstrar o seu conhecimento, Carlos Costa deu uma pequena aula: um banco pode dar crédito a três tipos de entidades – Estado, empresas e particulares -, e como o crédito é escasso, se concedermos mais crédito a uma dessas entidades, então, necessariamente, há menos crédito disponível para as restantes. Esta história tem um problema: é falsa.
Para entender como funciona a concessão de crédito não podemos pressupor que os bancos partem de um volume fixo de crédito que, posteriormente, distribuem por um conjunto de entidades. No regime de moeda fiduciária e de reservas fraccionais que caracteriza o sistema financeiro moderno, a criação de crédito não está limitada por qualquer stock prévio de poupança. Aliás, a própria ideia da existência de uma restrição dessa natureza é ilógica: a poupança não pode anteceder a concessão de crédito porque, no momento em que um crédito é concedido, o rendimento a partir do qual se pode poupar ainda não foi inteiramente gerado. O crédito está limitado – ou melhor, regulado – pela necessidade de cumprir requisitos mínimos de capital; pela capacidade de aceder a liquidez para financiar o volume de crédito concedido e, finalmente, pela rentabilidade (ajustada ao risco) do crédito facultado.
A compra de dívida pública por parte dos bancos não limitou a capacidade de concessão de crédito à economia porque não interferiu com os rácios de capital do banco nem dificultou o acesso a liquidez. Não desvalorizo os problemas graves do acesso ao crédito e financiamento da economia portuguesa. Limito-me a dizer que esses problemas não só não decorrem como não foram agravados pelo facto de os bancos terem comprado dívida pública.
Um banco está a obrigado a deter capital na medida de uma ponderação do risco dos seus activos, e como a dívida pública tem uma ponderação de 0**, isto significa que, ao contrário de outro tipo de activos, quando um banco compra dívida pública não tem necessidade de deter ou reforçar capital para cobrir os riscos associados a esse investimento. A compra de dívida pública tem, portanto, um efeito neutral nos rácios de capital, pelo que não pode, por esta via, constituir qualquer tipo de limite ao investimento adicional noutro tipo de activos nem à concessão de crédito***.
A partir da crise financeira, os bancos passaram a depender cada vez mais do BCE. A certa altura, para além dos depositantes e financiamento de mercado a muito curto prazo, o BCE tornou-se mesmo o único financiador. O crédito concedido pelos bancos passou a ser muito caro e, em muitos casos, inacessível. Mas não foi a compra de dívida pública por parte dos bancos portugueses que causou esta situação. E também não é correcto dizer que a compra de títulos de dívida tenha agravado, ainda mais, as condições de acesso ao crédito. Aliás, deter dívida pública para usar como colateral tornou-se mesmo a forma mais simples e rentável de obter liquidez junto do BCE. Se os bancos não tivessem comprado dívida pública teriam perdido um negócio rentável, não teriam mais liquidez disponível e, portanto, não teriam emprestado nem mais um euro à economia portuguesa”.

in “O governador do Banco de Portugal não tem razão”

Vinte Linhas 702

O Bairro Alto em festa de 11 a 18 de Dezembro

Quando um casal (Bartolomeu de Andrade e Francisca Cordovil) aforou em 15-12-1513 vários talhões para construir umas casas na Vila Nova de Andrade (o actual Bairro Alto), estava a ser escrito o primeiro documento válido para a História deste Bairro. Não há nunca História sem documentos escritos; o resto é lenda.

O programa completo está disponível para consulta em «diadobairroalto@blogspot.com» ou em «facebook.com/diadobairroalto» e arranca no dia 11-12-2011 com um concerto pela Orquestra do Conservatório Nacional. O mesmo Conservatório que integra a organização do evento – sem uma estrutura organizativa, sem orçamento e a funcionar num somatório de boas vontades. Juntam-se ideias de Associações (Comerciantes, Moradores e 25 de Abril), cafés (Luso e Frágil), o Clube Rio de Janeiro, estruturas camarárias (CML, Hemeroteca e Biblioteca Camões) e outras associações locais. Haverá Fado, Folclore, Exposições de Artes Plásticas e de Fotografia, visitas guiadas e muito convívio. Para nós festejar é preciso!

O Bairro Alto já foi um mundo trepidante de gente em acção, havia jornais e jornalistas, empresas e trabalhadores. Quando em 1978 comecei no Diário Popular havia/tinha havido também o Diário de Lisboa, o República, o Século, A Capital, o Record, a Gazeta dos Desportos e A Bola – que é o único hoje a manter-se no Bairro. Os escritórios de muitas empresas foram-se embora depois de a EMEL ter fechado o Bairro e condicionado o estacionamento de forma brutal – só a pensar na multa e no reboque; o mesmo é dizer, no lucro. Não bastava às pessoas que aqui vivem há décadas o empobrecimento do tecido empresarial e económico da zona, ainda somos castigados com uma guerra que transforma o Bairro em zona de terra queimada.

Corruptio optimi pessima

Muito antes dos blogues já existiam comunidades na Internet que proporcionavam espaços de discussão apaixonada e ininterrupta sobre os mais diversos e exóticos assuntos. Os blogues foram apenas mais um formato posto à disposição, com acrescidas vantagens editoriais, a que se seguiu a vaga das “redes sociais”, tornando ainda mais pessoal e logisticamente envolvente a participação em grupos de comunicação digital. Esta introdução para me regozijar com a animação provocada pela Isabel ao publicar uma crítica virulenta ao Bastonário da Ordem dos Advogados. Este texto gerou uma quase unânime recusa exaltada por parte daqueles que o comentaram. Quase, quase unânime, porque apareceu uma inusitada e singular Ana d’Arc disposta a malhar nos bifes com seráfica e incansável graciosidade. Ora, eis o alvo a que aponto: a Internet tem um potencial de democratização e elevação do espaço público que permanece como uma das mais tangíveis promessas civilizacionais recentes. Estas são as novas tertúlias, já não limitadas pela geografia, o espaço, a classe, os laços pessoais, mas abertas literalmente a todos os que saibam escrever e tenham tempo para gastar na interacção. O que a Isabel e a Ana fizeram, que consistiu tão-somente na zelosa exposição do seu pensamento e coerências respectivas, permitiu que um conjunto de pessoas se unissem num esforço de análise e expressão afectiva que a todos beneficiou. É que o propósito das tertúlias não é, nunca foi, criar unanimidades, bem ao contrário. A vitalidade das tertúlias advêm da alteridade intrínseca e dos conflitos e derivas daí resultantes. Aprender a tirar proveito dos choques de ideias e valores, experiências e expectativas, devia ser apanágio da educação familiar e do ensino escolar. Para aqueles que não tiveram essa sorte, oportunidades não faltam para começar a aprender e a treinar. Sim, a inteligência e cultura não são mais do que o treino, a disciplina, o hábito. E a ética não difere desta matriz, dizem alguns carolas.

Continuar a lerCorruptio optimi pessima

Lembraduras

Como é que tem corrido a reflexão no Bloco acerca do estupendo plano que delinearam para entregarem o poder todinho a Cavaco, Passos, Relvas e maralha amiga? Estão satisfeitos com os resultados da vossa sui generis defesa dos trabalhadores e dos mais fracos ou a ideia é começarem já a trabalhar, de braço dado com os outros puros do PCP, para colocarem o PNR no Governo num futuro próximo?

Verniz intergovernamental

Segundo os planos mais ou menos conhecidos da chanceler alemã, os países que celebrem o novo pacto de estabilidade do euro vão ter de submeter-se a uma disciplina orçamental rigorosa (para nós, maior do que a actual), não autónoma, controlada a nível da Comissão (ou assim parece), e os desvios e incumprimentos serão punidos pelo Tribunal de Justiça Europeu. Estes planos baseiam-se, claro está, no princípio teutónico dos santos e pecadores, totalmente discutível, até por grandes sumidades internacionais, e que, aliás, já começa a perder consistência com a transformação dos primeiros dos santos, os Santos dos Santos, em pecadores como os outros, quiçá mortal e suicidariamente pecadores. Mas esse princípio foi plenamente abraçado e é repetidamente defendido pelo nosso actual primeiro-ministro, que precisa de justificar a falta de qualquer desígnio de desenvolvimento para o país com os “pecados” do seu antecessor que agora haverá que expiar e pagar. A senhora Merkel é tão-só o farol que o ilumina. Um triste, sem qualquer orgulho próprio (é certo que não tem motivos) nem nos cidadãos que governa.

No caso concreto do Portugal pecador (para perceber os nossos pecados, basta ler o post do Valupi intitulado “A culpa é dos faraós”), e no que toca a um possível desenvolvimento económico que nos tire dos infernos, exceptuando as migalhas que algumas empresas alemãs ou francesas benemeritamente aqui quiserem investir (digo benemeritamente, porque, bem mais perto das fronteiras alemãs, existem paraísos de mão-de-obra barata, como a Roménia, a Bulgária, a República Checa, futuramente a Croácia e a Sérvia, etc., bem mais barata do que a nossa e com melhores acessos ao núcleo duro da Europa), como não há crédito, as perspectivas são as de os nossos investimentos apenas poderem decorrer da riqueza gerada a nível interno. Ou seja, em plena recessão e a afundar-nos, nenhuns. Nas nossas circunstâncias, sem crédito para ideias luminosas devido às pobres perspectivas causadas pela recessão, e sem mercados europeus para onde exportar, dada a austeridade generalizada, restar-nos-á o quê?
O espartilho do euro vai condenar-nos à maior e mais longa miséria de que há memória. E em regime de subjugação política. Há uns tempos, falava-se que o abandono do euro por parte de um Estado poderia ter um efeito arrasador nos restantes sócios desta abstrusa empresa. A ser verdade, e se em vez de um (Grécia), forem dois a ameaçar sair (e porque não a Itália?), não estará aí uma poderosa arma de pressão a nosso favor? Iremos ser chantageados na próxima cimeira. Tens alguma na manga, Passos? Ou baixas as orelhas? É que o que nos propõem não acende a mínima luz ao fundo do túnel. Do que li, não há cenoura a acompanhar o chicote. E os nossos interesses não são os da Alemanha. Nem os dos eleitores da senhora Merkel, nos quais, como sabemos, não nos incluímos.

Só pode revoltar, por isso, o que lemos sobre as ideias do ministro das Finanças alemão, citado pelo Jornal de Negócios, e o “elogio” hipócrita e paternalista que dispensa a Portugal e à Irlanda.
Não percebe ou não quer perceber que o problema da zona euro é actualmente o seu fraco crescimento, impossível de inverter com políticas sacrificiais de empobrecimento.
Não será na sexta-feira, mas um dia o verniz estala.

Tradições intemporais de recreio

Nota-se à légua quando aprendeu uma nova. Não consegue parar de pensar naquilo, ri-se para dentro a transbordar cá para fora, e tem de contar. Ou então rebenta. Certifica-se que estou bem disposto, faz converseta de circunstância durante uns minutos, e depois, com os olhos ainda a avaliar aquilo em que se vai meter, sai o inevitável “posso cantar uma musica? Mas olha que é assim um bocadinho….hum…não te chateias, pois não”? Não é necessária resposta, um olhar de esguelha para o banco de trás e um esboço de sorriso é toda a autorização que precisa. E com a confiança de que me vai dar a maior surpresa do mundo, começa a ladaínha que reconheço imediatamente dos meus tempos de escola. Rigorosamente igual, sem tirar nem pôr. O mesmo ritmo, as mesmas notas, a mesmíssima rima que lhe garantiu um sucesso intemporal entre a miudagem: Orvalho-Caralho, badubadum. Agora, ele não leu aquilo em lado nenhum, eu não o ensinei, nem ninguém da família, muito menos os professores do razoavelmente conservador e austero colégio de freiras. Foi no recreio, em surdina e entre risos, tal como eu e tu há vinte, trinta ou cinquenta anos atrás, cumprindo um ritual de crescimento que gerações sucessivas de miúdos passam religiosamente uns aos outros, geração após geração. E estes, que cresceram rodeados de informação e entretenimento por todo o lado, que usam o computador desde os dois anos e a internet antes de saber ler e escrever, estes não são diferentes. E é engraçado pensar que enquanto lamentamos a extinção da tradição oral, pensando sempre numa aldeia qualquer em trás-os-montes onde só há velhos analfabetos, ela continua bem viva e fervilhante em todos os grandes centros urbanos, vilas e aldeias, nos inúmeros recreios e parques onde os mais velhos passam os ensinamentos “proibidos” em forma de canção aos mais novos, que por sua vez lhes darão bom seguimento sem alterarem um precioso palavrão que seja. Um dia destes, dará um belíssimo estudo académico.

Violência publicitária

Junto-me à Ana Matos Pires na crítica a esta campanha contra a violência doméstica, um tema que me é especialmente querido (a par com o racismo, outra das patologias inscritas no legado animal que transportamos). De facto, a literatura mostra que a vítima é muitas e muitas vezes incapaz de se ajudar a si própria, seja qual for a duração e grau da violência. Dependendo dos contextos sócio-culturais, à volta da vítima até pode existir um cordão coercivo de familiares, vizinhos e autoridades variadas (civis e religiosas) a inibir uma decisão de rompimento da relação. E, finalmente, como a Ana acentua, muitas das vítimas mortais acontecem após um moroso e dramático processo de separação estar concluído.

Este filme está bem intencionado e o seu destino sobrenatural devia ser o Inferno. Por um lado, procura explorar a sexualidade feminina em registo gore, fazendo do efeito físico da violência um espectáculo de horror em ambiente higienizado, clean, cool, assim repetindo os clichés mais básicos da criação e produção publicitária. Por outro lado, transmite a mensagem de que a vítima, afinal, lá no fundo, é a principal responsável pela sua trágica condição. Ou seja, quem leva nos cornos é que tem a culpa.

A Ana aponta para uma outra via infinitamente mais relevante a explorar, haja discernimento para tal, em futuras campanhas: a responsabilidade da comunidade adentro do mandato da Lei. Divulgar que estamos perante um crime público, não carecendo por isso da iniciativa da vítima para ser denunciado às autoridades, levará a que algumas vidas se salvem, disso podemos ter a certeza. E se a mim fosse dada a direcção criativa da campanha, as peças de comunicação que resultariam seriam todas do foro da acção: o que fazer quando, onde ir, com quem falar, como se proteger.

É prática comum as agências de publicidade, e também as produtoras de vídeo, oferecerem os seus serviços para campanhas de interesse social, cívico, humanitário. Há milhares e milhares de filmes, spots de rádio, anúncios de imprensa e outdors giríssimos, onde a malta aproveita para se exibir como os grandes génios que nunca virão a atingir o estrelato. Obviamente, o barato sai caro.