Tradições intemporais de recreio

Nota-se à légua quando aprendeu uma nova. Não consegue parar de pensar naquilo, ri-se para dentro a transbordar cá para fora, e tem de contar. Ou então rebenta. Certifica-se que estou bem disposto, faz converseta de circunstância durante uns minutos, e depois, com os olhos ainda a avaliar aquilo em que se vai meter, sai o inevitável “posso cantar uma musica? Mas olha que é assim um bocadinho….hum…não te chateias, pois não”? Não é necessária resposta, um olhar de esguelha para o banco de trás e um esboço de sorriso é toda a autorização que precisa. E com a confiança de que me vai dar a maior surpresa do mundo, começa a ladaínha que reconheço imediatamente dos meus tempos de escola. Rigorosamente igual, sem tirar nem pôr. O mesmo ritmo, as mesmas notas, a mesmíssima rima que lhe garantiu um sucesso intemporal entre a miudagem: Orvalho-Caralho, badubadum. Agora, ele não leu aquilo em lado nenhum, eu não o ensinei, nem ninguém da família, muito menos os professores do razoavelmente conservador e austero colégio de freiras. Foi no recreio, em surdina e entre risos, tal como eu e tu há vinte, trinta ou cinquenta anos atrás, cumprindo um ritual de crescimento que gerações sucessivas de miúdos passam religiosamente uns aos outros, geração após geração. E estes, que cresceram rodeados de informação e entretenimento por todo o lado, que usam o computador desde os dois anos e a internet antes de saber ler e escrever, estes não são diferentes. E é engraçado pensar que enquanto lamentamos a extinção da tradição oral, pensando sempre numa aldeia qualquer em trás-os-montes onde só há velhos analfabetos, ela continua bem viva e fervilhante em todos os grandes centros urbanos, vilas e aldeias, nos inúmeros recreios e parques onde os mais velhos passam os ensinamentos “proibidos” em forma de canção aos mais novos, que por sua vez lhes darão bom seguimento sem alterarem um precioso palavrão que seja. Um dia destes, dará um belíssimo estudo académico.

49 thoughts on “Tradições intemporais de recreio”

  1. Nem de propósito o meu projecto de investigação passa exactamente por aí, meu caro Vega. Os modelos de difusão de informação na Web Social, devido às suas características interpessoais de grande escala, são em tudo semelhante aos da oralidade e do boca em boca (word of mouth) e contrastam com a comunicação em massa, hierarquizada, da difusão televisiva (broadcast). Na Web somos todos como o teu filho: produtores e consumidores (prossumidores) de conteúdos mediáticos como essa rima catita musicada. Repara que o “quem conta um conto acrescenta um ponto” é absolutamente análogo aos fenómenos de criatividade vernacular que pululam a Web: remisturas, mash-ups, spoofs, paródias, pastiches, etc.

    É por isso que não faz sentido lamentar a extinção da tradição oral ou da memória colectiva: elas estão bem vivas e recomendam-se. Apenas tendem a estar cada vez mais no HTML. Se te aproximares do teu ecrã em silêncio e lá encostares ao ouvido, serás talvez capaz de ouvir a mesma respiração fónica que projecta as palavras pelo ar: quente, côncava e viva.

    Belíssima posta. As coisas que o gajo aprende com os filhos.

  2. Belo texto e bem fotografado, um breve momento revivalista que nos faz perceber que por debaixo da espuma da generalizada mansidão que nos corroi, o gene da irreverência ainda percorre o sangue de nossos filhos.
    Á pois ainda alguma esperança!

  3. eu gostei muito deste teu registo de vida, que passa por debaixo e por cima e ao lado do que é o mundo, mas discordo da associação da tradição oral aos velhos analfabetos – é que fico sempre a pensar no conceito de analfabetismo. e, já agora, de velhice. repara em como o orvalho, que banha as árvores e as flores e as ervas e os montes, é velho e sábio: tal e qual o caralho quando em parceria com o orvalho: parcerias destas só mesmo em cabeças, de aldeia, crianças. :-)

  4. (e eu fiquei aqui a pensar que as minhas filhas nunca leram os Contos Populares e Lendas e apetece-me espancar-me… :))

  5. Estamos em altíssimas e oportunas elocubrações sobre os tempos que são (ainda!) os nossos. Mas, já que falamos em tradição oral, porque não dizemos que “HÁ AINDA ALGUMA ESPERANÇA” no Horizonte XXI de que também a tradição escrita se não perca na voragem da simplificação dos SMS’s!

  6. João Pedro da Costa, percebo perfeitamente onde queres chegar, sobretudo na distinção entre webcast e broadcast no ressurgimento dessa tradição oral e relações individualizadas via html. Mas nota uma coisa: o que me chamou a atenção, e ainda hoje me espanta, é mesmo o aspecto absolutamente tradicional da coisa, e a sua absoluta fidelidade transmitida através desse método arcaico que é a oralidade sem recurso a nenhum tipo de inovação tecnológica, nem sequer a escrita. Neste caso, não acrescentam ponto algum. Aquilo que ouço é rigorosamente o que me transmitiram a mim, e eu retransmiti, há umas décadas atrás. Mas ao milímetro. E transita exclusivamente por miúdos, já que a este tipo de cançonetas os adultos geralmente nem lhes pegam, ou sequer reconhecem à frente dos filhos que existem. Seria interessante estudar eventuais mutações nessas musicas e lengalengas ao longo de gerações de crianças. Do que tenho podido observar, essas mutações não existem.

  7. Olinda, analfabetismo neste caso é no sentido literal: não saber ler nem escrever, logo não ter outra alternativa para passar a sapiência do que a oralidade.

  8. Vega: esses estudos existem na área das Literaturas Orais e Marginais. Se pesquisares no Google Scholar encontrares muita literatura para te entreteres.

    Os antigos não professavam o nosso culto actual pela escrita: viam-na como um mero sucedâneo da palavra oral. «Scripta manent verba volant» não significava que a palavra oral era efémera, mas que a palavra escrita era algo de duradouro e morto. Em contrapartida, a oralidade possuiria algo de alado, leve e sagrado, como professava Platão. Pitágoras, por exemplo, não deixou deliberadamente nada escrito, tendo por certo sentido que «a letra mata e o espírito vivifica», como depois nos garantiria a Bíblia (não nos esqueçamos que a divindade hebraica criou o mundo falando, e que Jesus Cristo não necessitou de produzir qualquer escrito para divulgar a sua doutrina). Pitágoras não escreveu, sobretudo, e por mais estranho que isto nos possa parecer hoje, porque queria que o seu pensamento sobrevivesse à sua morte corporal, na mente dos discípulos. É daí que provém a expressão «Magister dixit», que não significava que os discípulos tivessem que se sujeitar aos dogmas do mestre: pelo contrário, afirmava-se a liberdade de continuar a pensar o seu pensamento inicial (o Borges fala nisso muito bem nas suas conferências sobre a Divina Comédia). Os exemplos sucedem-se em catadupa, e tanto se poderia invocar um provérbio atribuído a Hampaté Ba («Quando um velho morre, é uma biblioteca que arde»), como voltar a citar Platão, que sempre defendeu que os assuntos sérios não se deveriam tratar por escrito…

    Ora este espírito vivo da palavra oral leva forçosamente a mutações nem que as mesmas não sejam textuais mas contextuais (mesmo texto utilizado com um acepção distinta). O dicionário de provérbios do José Pedro Machado está repletos destes exemplos. O mesmo acontece na Web, onde os mesmos conteúdos mediáticos são utilizados com uma significação distinta por parte dos utilizadores.

    Enfim, tudo isto é fascinante. E é muito giro que uma cantilena do teu puto tinha originado esta amena discussão. Manda-lhe um abraço meu.

  9. João Pedro, essa era a justificação teórica, na prática as razões eram bem mais prosaicas, para que, durante mais de 50 anos, tivesse vigorado no nosso direito o Princípio da Oralidade que impedia que houvesse um registo escrito da audiência de julgamento.

  10. Teresa: não sou especialista de direito, mas a oralidade continua a ter valor jurídico em Portugal. Ainda há dias deparei-me com uma situação de uma venda de terrenos em 2005 feita oralmente (sem qualquer suporte papel). Para algum espanto meu, esse contrato oral tinha valor jurídico.

    Olinda: não é só o Samarago. Toda a literatura tem uma génese oral.

  11. João Pedro, a regra geral nos contratos é que não têm de ser reduzidos a escrito e o contrato mais interessante é mesmo o contrato de casamento, esse para além de ser oral também tem um formalismo gestual.

  12. está bem, se tu dizes eu acredito – mas referi Saramago porque ouvi-o, ouvir é mesmo bom, na rádio dizer que foi a oralidade que, rompendo-o, rompeu a sua escrita. um marco. já agora, um dia destes tentei perceber porque tenho a mania de escrever em minúsculas e fiquei contente: não sendo, obviamente, uma novidade talvez seja um manifesto indelével de tratar as letras e as palavras por igual – tal e qual como faz a menina oralidade.:-)

  13. Claro que continua. Há até um truque interessante, se não for possível apresentar um documento num julgamento para fazer prova, por não ser um documento original por exemplo, pode-se sempre dar a ler a alguém que a seguir irá depor sobre o que leu.

  14. Olinda: nada disso, a oralidade não trata de forma igual as palavras. De resto, a entoação e a prosódia marcam bem as maiúsculas, na medida em que são, quase sempre, precedidas de uma pausa longa. :-)

  15. ‘Tás nada, só nunca tinhas pensado nisto. Aliás, uma das fontes do Direito é o chamado Direito Natural e esse é não escrito. Repara que há conceitos, a boa-fé, por exemplo, que atravessam todo o Direito mas não têm uma definição escrita.

  16. João Pedro, o registo escrito da oralidade do julgamento é “moda” recente e o que é provado é que “agiu” de boa-fé, são os actos, o conceito em si não é subsumível a uma definição escrita. A escrita é, muitas vezes, demasiado espartilhante.

  17. sim, falamos, e a questão mantém-se: na falta de um original, falar – em substituição – sobre ele não o deturpa?

    e no casamento, o ritual gestual, sem qualquer crítica a não ser a sua banalização, não será esta mesma banalização uma ilusão que acrescenta pontos fictícios ao conto? neste contexto que falo será a ilusão, em detrimento da esperança, o tal condomínio fechado.

  18. Não se pode deturpar o que não existe. O tal documento de que falei, não podendo ser aceite como prova não existe, o que existe é um testemunho oral que conta o que foi visto e que, como tal, é avaliado.

    A banalização, que entendo como a repetição dos mesmos gestos, ou das mesmas palavras, é o que dá esteio àquele conto e permite que lhe sejam acrescentados pontos sem lhe desvirtuar a essência.

  19. mas então não constitui evidência – se não existe a sua avaliação será, baseada no nada, vazia? (estou confusa)

    a banalização levada à letra como tu levaste é boa e quem me dera que todos casassem assim. mas falava de outra coisa, da falta de distinção, da mecanização do uso sem a tal essência. falava de casamentem.

  20. Mau… um documento documenta, a não existência do documento não implica que o que foi documentado não exista também.

    A mecanização não é um mal em si – todo o dia ela faz tudo sempre igual, me sacode às seis horas da manhã, me sorri um sorriso pontual, e me beija com lábios de hortelã… (acho que é mais ou menos isto) – só será perniciosa se tudo se resumir a um comportamento mecânico mas eu de casamento entendo muito pouco.

  21. eu também percebo pouco – apenas o suficiente para distinguir a tal perniciosa que, agora de repente, podia bem ser uma dama antiga sul americana com tranças compridas e mamas salientes. mas não é, encantos não tem. :-)

    sim, mas explica-me o que não percebi ainda: a oralidade de um original que apenas é testemunhado por essa via não modifica eventualmente os factos se, por exemplo, for lido por mais que um para a tal avaliação?

  22. olinda, mesmo que o original, ou o documento escrito, seja apresentado será também lido por mais que um e as interpretações serão sempre diferentes. O objectivo é tentar perceber qual a vontade que lhe esteve na origem e essa dificuldade existe quer na escrita quer na oralidade.

  23. acho que estou a fazer uma grande confusão com alguma coisa que é simples mas porque entendi que o original não podia ser apresentado, nem visto, por quem de direito para avaliar e a evidência resumia-se ao que cada um dissesse sobre o que leu e a verdade seria sempre relativa. percebes? estas coisas dos advogados e juízes são de uma responsabilidade maleável – impensável para mim.

  24. sem querer dar-me primazia também tenho a minha versão. mas vou rever a dele, que sou fraca de memória para associar conceitos e coisas a seu dono, e depois venho falar. :-)

  25. Caro Vega9000,
    tropecei agora mesmo neste teu maravilhoso texto.
    É verdade, as crianças aí estão para nos relembrar que existimos e que tivemos um passado que em parte nos foi legado por familiares e professores sem necessitar de suportes escritos.
    As tradições aí estão à porta, com muitas famílias a viver as suas e umas poucas a tentar copiar outros povos ou a inventar novas.
    As lengalengas (quanto mais marotas melhor), fixaram-se no espaço e deixam correr o tempo passando de geração em geração.
    A Teresa falou, e muito bem, dos contos populares, hoje substituídos um pouco por novas aventuras importadas na globalização crescente, mas o mais engraçado é ver no cinema e na televisão as novas adaptações do Gato das Botas, do Peter Pan, das Aventuras do Tom Sawyer, do Conto de Natal, da Bela Adormecida, da Branca de Neve e muitos mais.
    Todos eles nos chegaram através da oralidade colocada em suporte de papel.
    Todos eles nos maravilharam e continuarão a maravilhar as gerações futuras, por isso é que ainda mantenho uma restiazinha de esperança na espécie humana.

  26. sim, mas a minha talvez leve em consideração algum argumento que ele não contemple e passe a ser, por isso, objectiva. deixa ver, tentar não custa. :-)

  27. ai, Teresa, a minha frustração!, fiz rojões sempre a pensar, até a tripa fritei!, com a verdade em questão, tudo é motivo para pensar mas não penso que só pensar é solução – reli ao de leve a do Kant, que é de uma chatice pegada, digo sem querer a tua incomodada, e cheguei a uma conclusão: não consigo rebater-lhe argumentos, a minha é só verdade anã, olhos de animal, que vive a crescer em mim e com ela, sem me acabar, me acabo – pela minha não reza o mundo, carago!, e a dele, a nossa, aceito, enfim! :-)

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